A FERRO E FOGO
I TEMPO DE SOLIDO

JOSU GUIMARES





Diagramao:        ANTONIO HERRANZ

Reviso:        JLIO BIERRENBACH



EXEMPLAR 2532



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de qualquer espcie ou outra forma de publicao sem autorizao expressa
da Editora. Copyright  by Josu Guimares, Rio, 1972.





Esta histria comea com a chegada, no
Rio Grande do Sul, do bergantim Protetor,
em julho de 1824, trazendo no seu precrio
bojo de madeira 38 colonos alemes
destinados  extinta Real Feitoria do Linho
Cnhamo, no Faxinal da Courita, hoje So
Leopoldo. Depois deles, outros tomaram o
mesmo caminho, trazidos a tanto por
cabea, por um aventureiro internacional, o
Major Jorge Antnio Schaeffer. Muitos
conseguiram sobreviver. Bem, mas ento
temos a histria de homens e mulheres em
solido que plantaram as suas razes, a ferro
e fogo, nas fronteiras movedias dominadas
por castelhanos, ndios, tigres, caudilhos e
portugueses.





Escribir novelas es un acto de rebelin contra la
realidad, contra Dios, contra la creacin de Dios
que es la realidad. Es una tentativa de correccin,
cambio o abolicin de la realidad real, de su
sustitucin por la realidad ficticia que el novelista crea.
Este es un disidente: crea vida ilusoria, crea
mundos verbales porque no acepta la vida y el mundo
tal como son (o como cree que son). La raiz de
su vocacin es un sentimento de insatisfaccin
contra la vida: cada novela es un deicidio secreto, un
asesinato simblico de la realidad.

VARGAS LLOSA: Garca Marquez, Histria de um
Deicidio





I


1 Quando Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt Grndling
        desceu o punho fechado sobre a mesa da bodega, fazendo sal tar
        garrafas e copos, sacudindo o candeeiro de leo de peixe que
pendia do teto - berrando que toda a valia do mundo estava no
dinheiro, nos pataces de ouro e em tudo aquilo que se pudesse
comprar com eles - estava transtornado pela cerveja e certo de
que nenhum dos seus compatriotas abriria a boca para contest-lo.
Mesmo porque todos j estavam bbados. Grndling empinou, j
de p, uma outra talagada de cerveja mal fermentada, gesticulando
sempre, com ouro se compra mulher, escrava, branca, mestia, terra
e carroas, se compra gado ou negro, delegado de polcia e at
presidente. Sim, senhores, at presidente, sei de casos contados por
gente de respeito, dinheiro tirado do bolso do colete e passado pela
manga do casaco, feito burlantim. Por dinheiro se faz revoluo.
Sabem de alguma guerra que no tenha sido feita por dinheiro?
Dinheiro corria at nos Tugendhund dos universitrios alemes.
Bem, vocs diro, no se nasce com dinheiro. Mas eu pergunto.
- algum j conseguiu sobreviver sem dinheiro?
        Derreou-se no banco como um saco. Ria frouxo. O riso saa
espremido por entre a barba ruiva e fechada, os olhos mortios
raiados de sangue, bigode agressivo bordado pela espuma amarela
da cerveja.
        - Ouro  o que vale - insistiu no seu bom alemo. - Digo
a vocs agora que Deus inventou o negro para derrubar mato,
cavar terra e carregar gua. No h sol que consiga queimar a sua
pele, as patas e as mos deles tm tais cascos que fazem a inveja
de quanta mula existe por a, da Feitoria s bandas do Uruguai.


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        Fez um gesto largo com a mo e mandou o dono da casa servir
mais bebida. Que estavam eles pensando? Passou o punho do casaco
na boca e olhou para o infinito, em redor. Para domar cavalo
xucro, camperear, marcar boi, castrar bicho e servir mate, que
vocs pensam que o diabo inventou? Digam, se forem capazes. Pois
eu digo, seus imbecis, que para issO o diabo inventou o ndio, o
bugre, que forma com o cavalo um s corpo, que segue rastro de
gente ou de bicho, que tem um nariz capaz de cheirar um tigre
a uma lgua de distncia. Haver algum ali em condies de
afirmar que ele, um Cronhardt Grndling, nascido em
OhlweillerSimmern, mentia ou simplesmente exagerava?
      - Olhem s para as mos deste negro cativo que veio da nobre
e generosa Hamburgo e que atende pelo nome de Daniel Abraho
Lauer Schneider - o outro nem sequer levantou os olhos, ja no
ouvia mais. - Cabelo cor de milho, barba igual a esta minha e
vejam s o que ele veio fazer aqui nesta terra de bugre e de mata
virgem. No venha me dizer que s assim se pode sustentar mulher
e filho. Ora, derrubar rvore como lenhador, cavar a terra como
as toupeiras. Escuta aqui, seu cavalo alemo, assim no se ganha
dinheiro nem em dois sculos.
        O seleiro Schneider j estava debruado sobre a mesa sem
toalha, cabea apoiada no brao e nem mais sentia os perdigotos azedos
que lhe salpicavam a cara. Guardou no subconsciente apenas aquilo
que lhe parecera uma praga, o "cavar a terra como uma toupeira".
Havia, sim - para ele, para Joo Carlos Mayer e para Frederico
Harwerther - um alemo falando da outra margem de um rio de
cerveja; que batia naquele rio com tanta fora, mos ou remos, que
os copos vazios afundavam e nenhuma garrafa conseguira ficar a
tona. Grndling calou, de repente. Para no desabar de todo,
passou o brao em redor do pescoo de Daniel Abraho, quando a
pouca luz do candeeiro bruxuleava e s se ouvia a chuva l fora,
como um dilvio.
        O        dono da bodega esperou que cada um casse para o lado que
achasse melhor e destacou dois negros para a misso de fazer com
que tivessem o destino das noitadas anteriores. Ele sabia:
Grundling, no outro dia, pagava sempre a bebida, as garrafas e os copos
quebrados.
A colnia de So Leopoldo dormia e a Praa do Cachorro era
um banhado s.


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2 Na brumosa manh do dia seguinte, domingo, o seleiro
Schneider e os outros trataram de voltar aos casebres da extinta Real
Feitoria do Linho Cnhamo, no Faxinal da Courita, onde h
mais de trs meses aguardavam que o governo cumprisse com o
que lhes fora prometido na Alemanha: uma colnia de terras de
papel passado, alguma ferramenta, sementes e animais domsticos.
Enquanto no vinha o pedao de cho, tratavam de tirar da terra
provisria algo que pudesse ser somado ao charque e s aguadas
abboras de Estncia Velha, um reduto onde o gado xucro estava
sendo agrupado e as ltimas sementes podres viravam adubo.
        Dias e meses passando, o intrprete repetindo a mesma
ladainha, coisa de cobra mandada. O juiz de sesmarias, Arajo
Bastos, adiando a medio ordenada pelo governo; ora as chuvas
torrenciais, chuvisqueiros e minuano, ora as enxaquecas, a espera
de tempo limpo, os aprestos de viagem. O intrprete tropeando
nas declinaes, o juiz sofre de uma doena que o impede de
sentar-se.  noite banha o rabo numa bacia de gua esperta, infuso
de malva ou de erva-de-bicho, que outros chamam de orelha-de-rato
ou de pimenta-d'gua. No satisfeito com isso, que as dores parecem
de parto, bebe um aperitivo amargoso feito com fruto da prpria
erva-de-bicho, sabe, uma cpsula que serve de lenitivo por dentro
das tripas, do estmago para o reto. O homenzinho dizia essas
coisas  guisa de explicao, que os alemes comeavam a irritar-se
com as delongas, amanh as coisas se resolvem, na prxima semana
teremos soluo, no ms que vem ningum mais fala nisso, pois ,
tudo desculpa esfarrapada. Uma palavra final, vinda de boca de
gente muito importante: em novembro a medio estaria concluda,
julgada por sentena, cada metro estaqueado, colnia por colnia,
picadas abertas, linhas traadas. Em novembro.
        Desde julho a tal conversa, o bergantim Protetor lanando
ncoras, a nova terra atrs do casario e dos morros, o senhor
Presidente Fernandes Pinheiro apertando a mo de um por um, sempre
a dizer as mesmas coisas incompreensveis, os pretos largando o
trabalho para olhar espantados aquela leva de gente branca como
leite, o vento pampeiro varrendo os telhados, a rua principal
atravancada de feirantes. A mesma conversa de nova ptria, os irmos
chegando, aqui vai ser o nosso lar. E aqueles horrendos pretos de
olhos de gato, caras ferozes, entre eles os ndios bravios, cabelos
compridos, negros e estorricados.  noite, na certa, andariam de
arcos e flechas, tacapes e azagaias. Bem-vindos  terra da fartura.
Semente cuspida, no outro dia o broto furando o cho, o arbusto
verde e gordo, a rvore. O povaru formando alas, gachos mi-


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rando os recm-chegados do alto dos seus cavalos, os soldados
mulambentos e a mo macia do senhor presidente.
        E agora, nos casebres dos escravos, a fedentina quase
insuportvel dos enxerges. Daniel Abraho experimentando o chimarro
dos outros, a cuia e a mesma bombilha de boca em boca. Catarina
a praguejar pelos cantos, que as doenas bem que poderiam entrar
no corpinho do filho Philipp. Para o menino fez uma cama de
taquara tranada, bom forro de cobertor e por cima os alvinhos
lenis que haviam trazido.
        S ento se apercebiam de que o Novo Mundo comeava a ficar
irreversvel. Negros assustados e chicoteados abandonando as
choas, olhares medrosos dos brancos invasores que assistiam  caa,
os gritos de ordem e o estalar das chibatas, O capataz decidindo.
Primeiro, o inventrio dos bens. Os semoventes africanos contados
e recontados. Como se faz aparte de boi ou de vaca, de ovelha ou
de cavalo. Doentes e fracos mandados embora, com lambidas de
chicote sibilando nos ares, uma carta de alforria assim sem mais
nem menos, uma liberdade pior que a priso, procura angustiada
de comida e de um novo senhor que lhes desse um galpo onde
largar o pobre corpo. Duro aparte, o rebanho mais luzidio mandado
para Porto Alegre e de l seguindo em sumacas e bergantins
abarrotados, rumo ao Rio de Janeiro onde seriam postos  venda por
bom preo, mercado em alta, compradores em cima do lance,
dinheiro batido. Pois arrebanhavam os ltimos 321 escravos de mais
de mil da Feitoria. Dali para a frente a terra seria dos alemes
mandados buscar pelo imperador, senhor do continente; a eles caberiam
as dores e as alegrias daquela beirada de serra onde ndios e tigres
espreitavam, enchendo as noites de rumores estranhos, de gelados
silncios.
        A capatazia arrolou mveis e imveis, semoventes e mudas,
ainda mais 269 ps de laranjeiras, 26 limeiras, 16 parreiras de pouca
uva. Todo o Faxinal da Courita entrou no inventrio com duas
lguas de comprimento pela costa do rio dos Sinos; mais um campo
fechado ao norte pelo mesmo rio, tudo somando seis ou sete lguas
de circunferncia; mais um mato que fazia frente ao mesmo campo,
com uma lgua de fundo para noroeste. Deixadas de fora, como
inexistentes, 75 arrobas de linho cnhamo. Afinal, o capataz com
aquilo se satisfazia. Uma justa paga pelo trabalho e pelas dores de
cabea na lide diuturna com negros cheirando a bodum.
Terminavam, assim, a limpeza daquelas paragens que Sua Alteza o
Imperador do Brasil achava por bem povoar com patrcios de sua augusta
esposa, Dona Leopoldina da ustria.


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        Daniel Abraho sabia que no adiantava reclamar. O capataz
no entendia uma palavra de alemo. E quando desconfiava, pelos
gestos e pelas caras, que eles estavam dizendo algum palavro,
ameaava-os com o chicote ou com os punhos; sem ir alm, pois que no
eram escravos, mas loiros patrcios de Dona Leopoldina, embora
pagos como os negros, a tanto por cabea.



3 No dia seguinte Schneider se fazia de surdo aos destemperos
de Catarina, sua mulher, filha mais velha de Cristiano e de
        Maria Isabel Klumpp, de Ldesse-Hanover. Depois das
bebedeiras com dois ou trs amigos e mais o estranho Grndling, na
miservel cervejaria da Praa do Cachorro, ele se remordia de
vergonha, ficava incapaz de fitar a mulher nos olhos. Nem brincava
com Philipp. O guri, nos seus cinco anos, vasculhava a sujeira
daquelas terras com um magote de alemezinhos e quando a me lhe
botava a mo era para desencardir a pele alva do lixo pisoteado
pelos porcos vadios. Atravessar todo o oceano nos pores de um
navio-gaiola, feito bicho ou negro escravo, para enfiar nas
bebedeiras em vez de amanhar a terra, plantar, colher, encher a burra
- isso no era prprio de um Lauer Schneider. E de toda a leva
era dos poucos que sabiam ler. Depois esquecia os amigos de
sbado e passava o resto da semana no pedao de roa atrs da casa
que lhe sobrara dos escravos.  noite, sonhava com o cheiro de
po fresco da Europa, com o perfume das cucas aucaradas, com a
fritura das grossas salsichas e do chucrute conservado na
vinhad'alhos. De madrugada, estrelas ainda no cu, enquanto enfiava as
botinas de sola de madeira, jurava para si mesmo que um dia, um
dia no muito distante, ainda plantaria sementes de trigo na sua
terra, terra de papel passado, e das sementes tiraria a farinha.
Catarina e Philipp comeriam com ele o po, um cesto deles, com o
mesmo aroma que teimava em no esquecer. Que as barrigas
estourassem de tanto prazer. Catarina, tenho pensado no nosso po
da Alemanha, nas cucas estufadas extravasando das formas. Sonhei
com Jesus multiplicando os pes. Depois no era mais Jesus, mas
O imperador; e ele metia a mo em grandes fendas na terra e de
l tirava o po ainda quente. Daniel Abraho, isso no  de gente
de miolo bom; melhor ser baixar a cabea, esforar-se com os
braos, pois  disso que se tira o po e no com sonhos.
        Daniel Abraho esquecia de tudo isso quando Grndling -
seus reluzentes pataces correndo generosos nos botecos - narrava


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as aventuras do Major Schaeffer e, depois de bbado, soqueava a
mesa e gritava "melhor do que a terra bruta ainda  o dinheiro".
Quando cantavam as velhas e marciais canes da Alemanha,
chupando das canecas o resto da cerveja, Schneider sentia na boca o
gosto ardido das lgrimas.



4 Pois Herr Grndling, um dia, caiu do cu no meio das taperas;
mais parecia um rei com sua grossa fatiota de l, vistoso colete
de veludo bordado, chapu de feltro peludo, pajeado por
homens que lhe lambiam as botas, quatro negros carregando coisas, um
ndio mestio zelando pelo grande cesto de comes e bebes; dois
outros escravos que se apressavam em abanar mosquitos e
varejeiras que importunavam o patro, armando-lhe os assentos mal
demonstrasse vontade de parar. Ainda levavam consigo uma rede
trazida do Rio de Janeiro para quando ele quisesse repousar mais
demorado. A comitiva acercou-se do rancho de Schneider. Grndling
berrou perguntando se havia algum em casa. Percorreu os olhos
pelas paredes de adobe, a janela de madeira bruta, queimada pelo
sol e pela chuva. Philipp meteu a cara rosada na fresta da porta
e recuou assustado, gritando pela me e dizendo que acabava de
chegar ali algum que lhe parecia ser o imperador do Brasil ou o
imperador de qualquer outra terra. Os escravos j armavam entre o
casebre e uma rvore mirrada a rede de fios vermelhos e franjas
brancas. Ao sentar-se, esparramado. Grndling ameaou derrubar a
casa; as paredes sacudiram e a cobertura de palha seca ondulou.
O primeiro a surgir foi Daniel Abraho e logo atrs dele a cara
redonda e forte de Catarina. a testa franzida, intrigada e curiosa.
O marido esboou um aceno a ttulo de cumprimento, sem emitir
qualquer som. Grndling ali, no meio do que ele costumava chamar
de "a bosta dos escravos"? Philipp agarrado  saia da me,
guardando nos olhos uma cena que iria recordar anos depois, na hora
de ser passado pelas armas aps a rendio dos paraguaios, em
Uruguaiana.
        Schneider no sabia o que dizer e nem onde enfiar as mos.
O outro lhe dava a impresso de estar acampando. Catarina a
ralhar com o filho, que aquele no era imperador, era apenas algum
que seu pai conhecia. Ela no disse, mas sabia que o recm-chegado
era o mesmo que pagava as bebedeiras de sbado e outro no
poderia ser seno Herr Grndling, a quem o marido sempre se
referia. A grossa corrente de ouro, o anel, o ar das pessoas que


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sentem no bolso do colete o peso do dinheiro. Ela iria se recordar,
tambm, mais tarde, daquela figura emproada do patrcio que no
viera para receber uma colnia de terras, nem para tratar de roa ou
de criao. Notou as meias dele, as grandes e pesadas botinas de
couro europeu, a camisa limpa, as mos finas e adamadas.
        Grndliflg disse para o mestio qualquer coisa em mau
portugus e o ndio tirou do cesto uma broa de milho, levando-a para
o menino que estava prestes a chorar. Catarina apanhou o presente
e logo depois outro, meia manta de carne-de-sol recm-preparada
no sal grosso. Grndling chamou para junto de si o amigo
aparvalhado e, como falasse em alemo, despreocupou-se com os negros
e com o ndio de malares salientes. Falava coisas que o outro
custava a entender, relanceando de vez em quando para a mulher que
parecia saber melhor das coisas. Apontava para o agrupamento dos
casebres em runas, o cho coberto de lixo e de esterco. A terra
da zona da Feitoria era pocilga para negro, e at ento s negro
vivera ali, muito justo, o que no tinha explicao era ele, um
Schneider, mais a mulher e o filho, confinados naquele estbulo,
bem que mereciam um destino melhor. Grndling sentiu que a
mulher era toda ouvidos e comeou a dizer as coisas em voz mais alta
para que Catarina no perdesse uma s palavra. Ele, Cronhardt
Grndling, podia ajudar o amigo, tinha influncia no palcio da
Provncia, scios na Corte, em Hamburgo, So Petersburgo, na
Prssia, alm da grande amizade que o ligava a um agente secreto
da imperatriz, um homem vivido, de nome Major Jorge Antnio
Schaeffer.
        Os olhos de Schneider brilharam. Abriu a boca como se fosse
falar, mas no disse nada. Apenas coou a orelha.
        - Voc j ouviu falar no nome desse homem? - disse
Grndling.
        O        outro fez que sim com a cabea. Catarina empurrou o filho
para dentro e se encostou do lado de fora da porta. Cruzou as
mos sobre a barriga de seis meses.
      - Pois respeite esse homem, Daniel Abraho - continuou o
visitante. - A mando da imperatriz fundou a colnia de
Frankenthal, na Bahia, e uma outra, l mesmo, em que homenageou a
senhora da Casa dos Habsburgo.  homem do mundo. Comandou
soldados e rebeldes nas ilhas de Hava. Depois em Sitcha, nas ilhas
Sandwich. Foi tenente de ordens do Rei Kameama, geriu um
negcio de russos e americanos; saiu de l com ouro que daria para
fundir alianas para todas as mulheres da Europa. Veja bem, um
agente secreto da imperatriz, pago pela Coroa.


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        Schneider ouvia o relato cofiando a barba maltratada,
acocorado junto  rede onde Grndling se balanava.
        - Schaeffer esteve em So Petersburgo, sabe onde fica isso?
Pois fica na Rssia. L, dormia no prprio palcio do Czar
Alexandre I, comia na mesma mesa e dormia com as mulheres da Corte.
Os dois era como se fossem irmos. O major, se quisesse, teria
ficado por l, seria hoje conde ou duque, seno prncipe, que havia
princesas solteiras.
        Depois disse: Daniel Abraho, voc, a mulher e o filho vieram
para o Novo Mundo por obra e graa do major. O outro disse que
sim, pois viera at o Rio de Janeiro no navio Wilhelmine e de L
para Porto Alegre na sumaca So Francisco de Paulo, cujo capito
se chamava Henrique Bilske, que alm de bom navegador era
homem de brio e muito generoso. Grndling disse, uma coisa nada
tem a ver com outra; agora o major embarca soldados regulares da
Alemanha para o Rio Grande, que D. Pedro I queria homens da
exrcito, hbeis no manejo das armas e com preparo militar para
enfrentar qualquer guerra. Alm de soldados mandaria de l casais
de agricultores e que todos viriam para aquele pedao de terra onde
estava acocorado Daniel Abraho Lauer Schneider.
        Pois ento lhe diria o que viera fazer na Feitoria, naquela
manh friorenta de inverno, deixando o conforto do povoado onde at
mulheres vindas de Porto Alegre havia, j que ningum perguntara
nada a ele. Precisava voltar, as juntas ainda estavam atreladas s
carroas, uma delas sendo consertada. Explicou, um dos Forter
Praken havia se partido na vinda.
        - Eu e meu amigo Schaeffer temos um plano completo, plano
de negcios, idia de ganhar muito dinheiro. Voc pode nos ajudar,
Schneider,  negcio limpo e rendoso que a gente da Corte sabe e
aprova. Mas precisa deixar este chiqueiro, desculpe Dona Catarina,
que isto aqui, eu j disse,  para negro e no para branco. A gente
precisa de um posteiro de confiana para receber mercadoria
desembarcada na Banda Oriental e outro no pode ser seno voc
Schneider, que sabe onde tem a cabea, tem mulher moa e
inteligente, que precisa de dinheiro e de tranqilidade para o menino.
Veja s, olhe para a barriga de sua mulher, um outro Schneider
vem a. Que pensa voc fazer quando ela parir?  um convite que
fao de corao aberto, uma oportunidade que estou dando sem
pedir nada em troca. Cada um ganha o seu dinheiro.
        Schneider disse que desejava muita sorte para ele, Grndling
e para esse bravo Major Schaeffer, amigo da Imperatriz Dona
Leopoldina, mas que francamente no entendia o porqu do convite:


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logo ele, um pobre imigrante, seleiro de profisso, que s estava
 espera do seu pedao de cho para nele construir uma casinha,
cuidar dos bichos de criao que o governo daria, SuStentar a
familha e esperar que Deus resolvesse dali por diante.
        Grndling sorriu e fez um sinal de desprezo com a mo. Ah,
o conformismo daquela gente.
      - Eu estou com todo o plano pronto, Schneider, prontinho.
E voc no vai jogar a sua sorte na palhoa a do lado. Dou
sociedade nos lucros, afinal, em terra estranha, a gente precisa de
ajuda, uma mo lava a outra. Veja bem, Daniel Abraho, veja bem.
Dona Catarina, eu no vou mandar vocs mundo afora de mos
abanando. Escutem aqui - Grndling levantou-se com esforo da
rede - forneo duas carroas com juntas de bois, dou mais quatro
Juntas de troca, vinte cavalos, que esses animais aqui no Rio
Grande so muito fracos e morrem quando menos se espera. Quatro
escravos solteiros e mais dois casais, negros escolhidos a dedo, e ainda
abro mo desse ndio Juanito, descendente de guaicurus e brancos,
que alm de servir bem conhece o terreno a palmo desse So
Leopoldo at a antiga colnia do Sacramento. Ele sabe onde os rios
do vau, vigia as feras de noite e d recado numa distncia de mais
de cinco lguas bem contadas, num dia.
        Daniel Abraho ouvia como se o amigo falasse com algum
postado s suas costas. Vou morar onde? Imaginou o campo a
perder de vista, as ridas coxilhas barradas pelo horizonte, os abutres,
as tempestades varrendo o cho sem abrigo. Onde o prximo ser
vivente? Grndling falava com os polegares cravados nos bolsos do
colete. Pode estar certo, Daniel Abraho, qualquer coisa ser
sempre melhor do que isto aqui. Nada de preocupaes, nem feras e
nem ndios, uma cobra verde que outra, que as venenosas vivem
entocadas nas pedras das serras ou na mataria virgem. So terras
devolutas, sabe como , sem dono e nem documento. A gente
acampa, abre poo, levanta casa e ningum mais pode chegar sem pedir
licena. Com o passar do tempo a gente planta cerca, escolhe os
limites, mais aqui ou mais ali, com as convenincias. Eu queria
ter comeado a vida com uma oferta dessas, recebendo carroas,
negros e animais. E alm disso outra coisa: trate de preparar
cmodos para quando o Major Schaeffer em pessoa chegar para uma
visita. Sim, o major em pessoa. Ele vai querer conhecer o novo
scio, o seu posteiro de confiana. Vai chegar em Rio Grande numa
grande galera movida a vapor. Sabe, o major conheceu na
Inglaterra uma dessas mquinas. Mas l havia comeado o seu rduo
trabalho de trazer gente para o Brasil, a pedido de sua amiga Im-


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peratriz Leopoldina. Isso voc sabe, Daniel Abraho. E agora
tambm mercadorias e armas. Mas por enquanto, s mercadorias e
essas arminhas passarinheiras de pregar Susto em bugre selvagem.
Quantos bergantins, galeras e sumacas ainda esto por chegar? Pois
saiba, isto aqui  um grande mercado que se abre e o povo da
terra no sabe nada disso,  preciso que a gente que vem da
civilizao abra bem os olhos e trate de ganhar dinheiro.  o que
importa, meu caro, ganhar dinheiro. O resto vem com ele.
        Philipp choramingou l dentro e Catarina deixou os dois, o
marido mudo e inseguro, confuso diante do palavrrio do outro que
no calava, convicto, trescalando confiana por todos os poros.
        - Estou lhe oferecendo uma grande oportunidade, uma fatia
de terra que no acaba mais, voc marca para o norte, para o sul,
leste ou oeste e tudo isso em troca de que, Daniel Abraho? Em
troca de um metro quadrado de terra coberta de mato, numa zona
onde vivem tigres e bugres. Gott verzeihe mir se isso no for a pura
verdade, ela est a entrando pelos olhos, s no v quem  cego.
        Daniel Abraho pensou se Deus seria capaz de perdoar
Grndling se tudo aquilo no passasse de mentira. Mas continuou
calado, deixando o amigo continuar. Havia milhares de cabeas de
gado vagando pelos campos e se as marcas passassem de gerao
para gerao, ainda se encontraria nas suas ancas o ferro dos
jesutas de So Miguel. Sabe, esse gado se espalhou pela Provncia
inteira e vive como bfalos, bastando arrebanh-los. Manadas
inteiras de cavalos, ovelhas e cabritos, gua saindo da terra, fria e
cristalina, to rasa que s vezes aflora quando se enterra no solo
um mouro qualquer. Do dia para a noite os seus negros cortam
rvores e levantam a primeira casa, depois outra, os galpes; eles
so mestres em cobertura de santa-f e todo o servio de casa pode
ser confiado a essa gente. Comida? Levariam o necessrio para uma
marcha de at trinta dias, mas antes disso estariam l,  sombra
de um umbu ou de uma das grandes figueiras perdidas no campo.
Grndling sabia que Catarina escutava tudo atravs da fina e
esburacada parede. Falava em tom de discurso, repisando certas
palavras. Remexeu num malote que o ndio colocara a seu lado e dele
tirou um saco de couro cru onde retiniram moedas - e mais este
dinheiro, Daniel Abraho, para um comeo de vida tranqilo nos
melhores campos do mundo.
        - E eu conheo os campos do Sul da Frana e as pradarias
da Prssia e tudo no passa de um quintal - disse Grndling.
        Pois que se mexessem, queria a resposta logo, estava de partida
para Porto Alegre onde tinha audincia marcada com o presidente


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da Provncia, depois seguiria para o Rio de Janeiro onde
aguardaria a chegada do major. Era bom que ficasse sabendo que
Schaeffer ficaria muito satisfeito com o ingresso dele como scio
nos seus negcios, muito agradecido a um tal de Daniel Abraho
Lauer Schneider, que ainda lhe era desconhecido, mas j posteiro
na Banda Oriental e seu futuro amigo. Valia a pena ser amigo de
Schaeffer, perguntasse isso ao Czar Alexandre I,  Imperatriz Dona
Leopoldina ou ao prprio Rei Kameama, das ilhas Sandwich.
        Empurrou Daniel Abraho para dentro de casa; que fosse
conferenciar com a mulher, fosse saber dela se preferia uma vida de
gente, uma vida calma, quela pocilga de escravos, aos matos das
serras onde os bugres atacam e matam, levam crianas prisioneiras
para serem criadas como bicho.
        - Uma oportunidade dessas no se atira pela janela, como um
troo. V logo e volte com a resposta na ponta da lngua.
Enquanto marido e mulher discutiam em voz baixa, l dentro,
Grndling percorreu o olhar pelos arredores e seus olhos s viram
lixo e estrume, O major, na certa, no saberia para onde estavam
mandando os seus compatriotas. O novo mundo, sim senhor.
Embora estivesse com fome, vomitaria se comesse qualquer coisa
naquele meio.
        Schneider retornou, cabea baixa, tmido, torcendo as mos;
logo atrs dele a mulher com lgrimas escorrendo pela cara.
Grndling estaqueado no cho, braos cruzados.
        - E...
        Apesar do ventinho gelado, Schneider tinha a testa porejada
e as faces vermelhas. Pensou nas palavras, teve medo de gaguejar,
conseguiu dizer com voz rouca:
-        Ich habe schon daran gedacht.
        - Pois ento, se j pensou, diga.
        - No posso ir, Grndling. A mulher, as crianas, sabe, vem
outro filho a, lugar desconhecido...
        Grndling deixou Daniel Abraho de lado, como um traste,
e caminhou em direo de Catarina que ficara na porta:
        - Seu marido  homem de barba na cara, sabe o que est
fazendo. Lamento pela senhora e por esse menino - Philipp havia
se esgueirado por trs dela, protegido pela saia larga - e mais
ainda         por este que nem veio ao mundo - concluiu apontando a
barriga saliente.
        Catarina enxugou os olhos com a manga da blusa suja e falou
manso e devagar, como se estivesse conversando:


17


      - Pode mandar preparar o prometido, Herr Grndling. Ns
vamos.
        O        marido olhou espantado para ela, tentou dizer algo, mas
ficou mudo.
      - Pois dentro de trs dias a senhora ter tudo pronto e a
caravana sair  noite para que ningum possa bisbilhotar. Mando
o aviso - disse apertando a mo dela, com um largo sorriso
enrugando a cara.
        Os negros e o ndio j haviam recolhido as tralhas, como se
houvessem entendido tudo o que fora dito. Eles sabiam, por
instinto, quando o amo queria partir ou ficar. Grndling apenas
acenou para um Daniel Abraho arrasado, que deixava transparecer
um turbilho de pensamentos contraditrios na cabea tonta.
        J ento as lgrimas de Catarina escorriam francas at o
regao, agarrada  cabea do filho assustado.



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II


1         Fizeram os preparativos  noite, que algum poderia denuncia-los
ao Monsenhor Miranda Malheiros, inspetor-geral de
colonizao. Como ladres, fugiriam acobertados pela escurido.
Enquanto no chegava o aviso combinado com Grndling, Catarina
contava e recontava o dinheiro deixado por ele, as moedas retinindo,
o azinhavre do cobre esverdeando os dedos; depois misturava tudo
e escondia sob a cama de taquara tranada de Philipp. Os trastes,
poucos. Mais lenis, travesseiros, roupas de uso, panelas e
chaleiras, talheres e pratos. Marido e mulher quase no se falando. Da
deciso abrupta de Catarina ficara nele um ressentimento. Para
colher o que ainda pudesse, Daniel Abraho saa para a rocinha com
estrelas no cu; quando voltava para comer ou para dormir, no
abria a boca para nada. No fundo, chegara  concluso de que era
a melhor sada para a entaladela em que estavam. Enquanto colhia
os legumes e hortalias, maquinava sobre a deciso, sentia o
estmago nauseado e logo um alvio por no haver assumido nenhuma
responsabilidade. Se as coisas no dessem certo, Catarina no
poderia acus-lo de nada.
        Na noite que antecedeu a da partida, sob uma atmosfera que
pressagiava chuva, Daniel Abraho sentiu a mo da mulher
escorregando por baixo das cobertas, tateando, procurando o que ele
sabia, o desejo tambm a lhe escorrer pelas veias, ambos mudos,
tcitos, a aproximao mecnica e consentida, as respiraes
acelerando, um ou dois gemidos abafados, aproveitando o latido
espordico dos ces l fora. Como nos pores do So Francisco de Paulo,
naquelas semanas e semanas interminveis, a promiscuidade pondo
a vergonha de lado, os casais aproveitando o barulho das vagas
quebrando contra o frgil casco de madeira a ranger, a excitao se


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alastrando de casal a casal at confundir-se com o bramir do mar.
To junto dormia aquela gente que os corpos se tocavam, mais de
uma vez as mos tateando outros corpos e pela manh nem se
olhavam, de vergonha. Os dois pensavam nisso naquela noite pesada.
Que loucura, santo Deus. Daniel Abraho aliviado, que Catarina
no enxergava a sua cara, os corpos em silncio, Philipp dormindo
ao lado, um roncar de porcos l fora adivinhando tempestade.
Daquela noite ficaria a lembrana das mos dadas, apertadas, como
um a dizer ao outro que nada mudaria entre eles, quer vivessem
naquele p-de-serra, quer vivessem a vagar naqueles imensos
descampados da fronteira. O sono havia chegado assim e assim haviam
acordado na escurido do casebre, quando j ouviam, l fora, os
passos dos outros que reiniciavam o trabalho de todas as
madrugadas.



2 Juannito entregou o bilhete de Grndling a Catarina, sem dizer
palavra. Ela sabia o que dizia, mas no tentou decifrar os
garranchos difceis. Quando o marido chegou e abriu o papel, os
olhos da mulher brilhavam. Ele confirmava o que mandara dizer
ao amigo: estaria esperando meia lgua para o sul, seriam guiados
pelo ndio, incio de viagem pelo meio da noite, que caminhassem
como os tigres; Juanito daria o exemplo. Andam to leves, os
tigres, que no quebram com as patas uma folha seca. A casa
amanheceria vazia, como amanheceu.
        A caminhada se iniciou sob chuvas, troves e relmpagos.
Philipp, debaixo do poncho do pai. Catarina se protegendo com o
trancado de taquaras que havia sido a cama do filho. O ndio
abrindo caminho, ps chafurdando no lamaal, desviando de troncos e
arbustos como se enxergasse no escuro, um gato se anunciando por
grunhidos para que os outros soubessem por onde ele ia. Catarina
arrastando trouxas e caixotes, roupa colada no corpo, cabelos
escorrendo gua. Finalmente o bivaque onde os aguardava o prprio
Grndling, montado no seu cavalo, bem protegido. As duas
carroas juntas, com toldos. Os bois quietos. Daniel Abraho
depositou com cuidado, numa das carroas, o filho ainda dormindo.
Catarina jogou as tralhas na outra e subiu na que estava o filho,
nela se ajeitando. Com o claro de um relmpago Daniel Abraho
avistou o amigo e para ele se dirigiu. Grndling permaneceu
montado, apenas um vulto negro e imvel.


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      - Tudo em ordem - repetiu o outro.
      - Os dois casais de escravos vo na outra carroa, os negros
solteiroS e Juanito a cavalo, o ndio puxando a caravana,
mostrando o caminho. E vo ainda mais quatro juntas de reserva, Juanito
sabe quando troc-las, e mais os vinte cavalos do trato. Mando
notcias de Porto Alegre. Em menos de dois meses comear a chegar
mercadoria.
      - Vamos esperar.
      - Ah, outra coisa - disse Grndling -, dentro das carroas
vai tudo o que prometi. Juanito sabe onde as coisas esto, foi ele
quem arrumou.
        Estendeu a mo molhada e apertou a de Daniel Abraho, fria
e mole. Esporeou o animal, deu de rdeas e desapareceu a galope
na cortina de chuva grossa. Catarina sentiu um arrepio quando um
ribombo estremeceu a terra, sacudindo a carroa.
        Juanito movimentou o seu cavalo, dando gritos de ordem. As
carroas se movimentaram, rodas quase atoladas, os negros tocando
os bois e puxando a cavalhada. Daniel Abraho aboletou-se ao lado
da mulher. Era como se o Wilhelmine outra vez levantasse ferros
de Hamburgo, rumo ao desconhecido, mares bravios, terras
estranhas, feras e bugres. Viajaram a manh inteira na direo de
Viamo. No incio da tarde uma parada breve para comer qualquer
coisa. Os negros revisaram rodas e correias. As juntas agentaram
at a noite. Catarina aproveitou a parada para dar um ligeiro
balano no legado de Grndling. Disse ao marido que nada fora
esquecido, havia de tudo, desde palitos de fogo, charque, acar
mascavo, velas de sebo, cordas de cnhamo. Na carroa dos escravos
dois jacs cheios de galinhas, trs sacos de milho, farinha de trigo
e de mandioca, at um pequeno tonel de bebida, na certa cachaa,
pois quando Juanito bateu nele com a mo espalmada sorriu largo
com seus dentinhos de rato, fazendo um gesto de quem bebe. Havia
no lote duas vacas de cria; uma das negras fez um terneiro grado
apojar e tirou para Catarina meia caneca de leite spumante.
Catarina preparou para o filho um mingau feito com farinha de
mandioca e acar. Comeram umas broas de milho que Juanito
desencavara de um saco, com lascas de charque cru.
        Mas no podiam parar. Temiam que o inspetor-geral de
colonizao mandasse gente atrs deles, era rancoroso e no admitia
desobedincia. Ento, era tratarem de ganhar caminho o mais depressa
possvel. Cortando morretes, atravessando sangas e banhadais.
Passaram pela estncia de So Simo, deixando  esquerda a estncia
dos Povos, propriedade do intendente de polcia Paulo Fernandes,


21


dali rumando para os lados de Rio Grande, onde passariam de largo,
depois de atravessarem a Freguesia do Estreito e Bujuru. S depois
do arroio das Cabeas  que tiveram um pouco mais de
tranqilidade, quando foram recebidos na estncia do velho Silveiro, que
cuidava de seu gado e de suas onas com o auxilio dos filhos.
Silveiro acomodou de bom grado os estrangeiros que falavam uma
lngua difcil, conversando um pouco com Juanito: a caravana
pertencia a um senhor de nome Schneider, preposto de Herr
Grndling. A famlia ia ocupar terras de bom plantio para os lados do
arroio Chu.
        Daniel Abraho se reconciliara com a mulher. Traava planos,
agradava-se daqueles largos descampados, enxergando ao longe o
debruado das dunas que denunciavam o mar prximo. Olhando
admirado para as pastagens queimadas, grandes de perder de vista.
Catarina pouco falando, sentindo a criana mexer-se nas entranhas;
no dizia quase nada e s respondia as perguntas do marido com
movimentos de cabea. Temia que a criana nascesse durante a
viagem. O resto, fosse o que Deus quisesse. A cada solavanco da
carroa, esfregava a barriga com as mos e procurava uma posio
melhor para o corpo. A viagem parecia no ter mais fim. De noite
o cu estrelado ou grossas nuvens anunciando chuva, e sempre o
vasto campo. Lembrava, no breu da noite, a viagem que haviam
feito de Salzwedel at Hamburgo. Philipp com febre. Era j o incio
daquela longa viagem para o desconhecido, mas encontrando gente
que falava a mesma lngua, as fatias de po caseiro com gelia de
cereja, encontrando nas casas da estrada a mesa posta, as grossas
salsichas fumegantes, o saboroso chucrute passado na manteiga.
        Daniel Abraho mandou que Juanito parasse a caravana.
Estavam prximos da estncia da Tapera. Ovelhas desgarradas
corriam espavoridas, os filhotes atrs, fugindo do ataque dos caracars.
Um borrego tropeou, rolando na grama, quatro ou cinco
caranchos bicando, at que conseguiram arrancar os olhos do
animalzinho. Depois atacaram outra presa, enquanto o borrego saa
berrando cego, perdido da me. Juanito tirou de uma caixa a
espingarda, Daniel Abraho tentou correr em defesa dos bichos. No alto
os urubus faziam vos lentos, haveria carnia em breve.
      - Daniel Abraho - gritou Catarina -, deixa os bichos. No
so nossos e no vamos perder tempo.
        - Mas  uma crueldade!
        -        Welche Torheit! Vamos passar o dia nisso.
      - Pelo menos alguns tiros. Os gavies fugiro. Um tiro, pelo
menos - disse Daniel Abraho.


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        - No - retornou autoritria Catarina. No vamos gastar
muniO  toa, pode nos fazer falta amanh ou depois. Ningum
sabe o que temos pela frente.
        Fez sinal para Juanito continuar a marcha. No quis mais olhar
o massacre dos borregos, os bichinhos de rbitas vazias correndo
sem direo. at carem sem flego. E os urubus j em vos
rasantes, pousando nas proximidades, esperando a sua vez.
        Estavam agora na faixa do Alhardo e eram mais numerosos
os rebanhos de carneiros, sem co de guarda e nem pastor. Cheiro
de maresia, mar prximo. A estncia de Medanos-Chico se
anunciando pelas plantaes de trigo, as roas cercadas. Trs choas
apenas. A maior delas para o dono; outra para os escravos, talvez
pees; uma ltima, apenas coberta, para abrigar espigas de milho
e utenslios agrcolas.
        O dono da estncia, Jos Mariano, surgiu na porta da casa,
cara intrigada, espingarda na mo. Juanito foi a seu encontro. Disse
quem eram, pedia licena para uma pousada curta, dormiriam nas
carroas mesmo. O velho acenou para o lado das carroas,
mandando chegar.
        Com o auxlio do ndio carneou uma ovelha, preparou um
braseiro cavado na terra e comeram quase em silncio, de vez em
quando o dono da estncia trocando uma que outra palavra com
Juanito, os negros virando os espetos nas brasas e servindo na mesa
de tbuas. Noite escura, Philipp dormiu aconchegado  me, na
carroa, Daniel Abraho caminhou um pouco pelo campo prximo,
fazendo a digesto, quando avistou dois vultos a cavalo; viu quando
apearam  porta da casa, a luz do lampio balanando na mo de
Jos Mariano. Os homens entraram, reparando no indio do lado
de fora, espingarda na mo, cara desconfiada. Juanito ouviu a
conversa. Eram dois soldados que vinham dos lados do Uruguai.
Levavam notcias de um movimento estranho na fronteira, assim como
se estivessem em preparativos de guerra. Comunicariam o fato ao
comando da guarnio de Rio Grande. Jos Mariano deu a eles o
que sobrara da ovelha assada, mandou dois negros trocarem os seus
cavalos, os soldados prosseguiriam viagem noite adentro, que
tinham urgncia em chegar.
        Daniel Abraho acordou a mulher para contar o que vira. Ela
disse que era mau pressgio soldados por aqueles lados. Que
andariam eles fazendo feito batedores em tempo de guerra? Schneider
deu de ombros, no havia de ser nada, soldado sempre existiu no
mundo. Mais um ou dois, e da? Deitou-se ao lado da mulher, como
se fosse dormir, mas no conseguiu. No gostara tambm daqueles


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soldados mal ajambrados, da pressa em partir, o dono da casa
mandando trocar os cavalos sem pensar duas vezes.
      - Ests dormindo, Daniel Abraho? perguntou em voz
baixa a mulher.
        - No. E por que voc no dorme?
        -  melhor a gente continuar a viagem o mais cedo possvel.
     -  melhor - disse o marido virando-se para o outro lado.
-        Pelos sinais que Juanito me fez no estamos muito longe. Seis
horas de marcha, entendi. Dorme, mulher.
        Antes de partirem, o dia mal clareando, foram levados pelo
ndio para verem Jos Mariano fazendo com que dois cachorrinhos
mamassem numa ovelha amarrada num palanque. Eles no
entenderam, mas o ndio sabia que era para que se tornassem amigos,
acostumados uns com os outros, assim os cachorros, quando
crescidos, cuidariam melhor dos rebanhos. Alimento para eles era s
carne cozida. Isso faria com que eles no matassem os borregos e
nem comessem os que fossem atacados pelos carranchos.
        O        velho ajudou Juanito a trocar as juntas cansadas por outras
laadas na hora. Catarina quis pagar, ele recusou. Boi sobrava,
iam ser vizinhos.
        Quanto mais perto da fronteira, mais cruzavam com espanhis
de chirip, pele queimada de sol, olhinhos espremidos de ndio.
Juanito apontava para um lado e dizia soletrando as palavras "Lagoa
Mirim". Apontava para o lado contrrio e dizia "Lagoa Mangueira".
Ento, dizia Daniel Abraho para a mulher, o mar no ficava bem
ali. Mas o cheiro que o vento trazia era de mar. Se no ficava
perto, era coisa de pouco alm. As carroas prosseguiam,
inventando estrada pelos campos; s Juanito sabia a direo. Quando
tinha dvidas galopava de um lado para outro, estacava, farejando
o ar, voltava rpido e corrigia a direo das carroas.
        Numa dessas galopadas, no voltou. Continuou at encontrar,
ao longe, uma grande e frondosa figueira. Ficou dando voltas ao
redor do tronco, aos gritos, acenando sempre para a caravana que
se aproximava lentamente. Por vezes empinava o cavalo, dava
voltas em torno das carroas, apeou e correu para junto da rvore,
apontando para seu tronco lanhado a faco. Era aquele o lugar
mencionado por Grndling. No muito distante pequenos capes
de mato ralo, um olho-d'gua na beira de um banhado, um crrego
minguado correndo pelo campo, sinuoso, cobra molhada cercada por
arbustos mais encorpados. Estavam em casa.
        Catarina e Daniel Abraho desceram, o filho pulou da carroa,
os trs circunvagando o olhar pela paisagem deserta, curiosos, pois


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ali fundariam uma estncia, o nome se veria depois; ergueriam as
suas casas, os galpes, plantariam rvores e sementes, hortalias e
trigo. Catarina sentou na grama, derramando a barriga por cima
das coxas; estava com os olhos midos, mas disposta a no chorar.
Daniel Abraho foi ajudar os escravos a escolher o melhor sitio
para construir o rancho principal. Soltos, os animais ficaram por
ali pastando. O ndio descarregando as tralhas, dois negros armados
de faces saram em busca de rvores nos caponetes, as negras
reunindo gravetos para um comeo de fogo, havia muito que passara
o meio-dia.
        A primeira noite os encontrou num bivaque formado pelas
carroas, ao centro uma fogueira onde um trip sustentava uma
velha chaleira, Catarina se aprestando para fazer a primeira comida
para os estancieiros Lauer Schneider.



3 Paredes de varas tranadas, rebocadas de barro, cobertura de
palha, duas peas. mais uma outra choupana para os escravos.
        Juanito sem querer nem teto, nem paredes. Bastava para ele o
cho duro debaixo de uma carroa desatrelada. Queria a liberdade
do cu e dos campos que se perdiam no horizonte. Philipp
descobrindo os arredores, o olho-d'gua, o banhado raso, os sapos verdes
de olhos parados, o papo inchando e desinchando. Os lagartos que
fugiam por entre as pedras. Juanito gesticulava diante do casal que
parecia no entender nada.
        Estncia de Jerebatuba.
        Um nome muito difcil de repetir. O ndio insistia. Os dois
sorriam. Ento Juanito tentou dizer que naquela estncia morava
havia muitos anos um francs de nome Delmont, que fora enforcado
num dos galhos daquela figueira. Soldados do outro lado da
fronteira haviam feito o servio contra as ordens dos seus chefes. Ento
os chefes mandaram dependurar os assassinos no mesmo galho
maldito. Mostrou as marcas no galho. Daniel Abraho comeou a
entender a histria, de tanto o ndio repetir e gesticular. Catarina
quis saber o que dizia Juanito e o marido inventou outra histria.
Mas ela havia visto o ndio apertar a prpria garganta com as mos
e botar a lngua de fora, arregalando os olhos.
        - Para mim disse ela -, Juanito est contando a histria
de como morreu o dono destas terras. Ach du meine Gte!
        Semanas depois j tinham gua fresca em casa. Os escravos
tinham cavado um poo, no muito fundo, as laterais forradas com


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pedras, dois postes sustentando a trave onde corria a corda de
cnhamo, levando e trazendo o balde. Dos dois jacs, menos da
metade das galinhas havia sobrado. A maioria fora comida durante
a viagem. Catarina quisera, por tudo, economizar milho para o
plantio, quando chegassem. Da estncia da Tapera viera meio saco
de trigo em gro; os escravos sabiam como e em que poca plant-lo.
        Por sua vez, havia gado xucro pelas redondezas e Juanito e os
negros trataram logo de arrebanh-lo. Carnearam um boi. Pela
primeira vez a famlia de Hamburgo comia o seu prprio churrasco,
estendendo depois o resto da carne em compridas varas, para secar.
O corote de cachaa foi aberto e Catarina precisou controlar, que
os olhos dos homens brilhavam.
-        Zum Wohl! - repetia Daniel Abraho.
        - Um traguito a mais - pedia Juanito.
        Catarina deu mais um pouco e arrolhou o corote. No queria
ver ningum bbado na sua estncia.
        Semanas depois - ltimo ms do ano - nascia Carlota,
ajudada pelas duas escravas que se revezavam em ferver gua, preparar
os panos e cortar o umbigo. Philipp ficou sabendo do nascimento
da irmzinha pelo pai, quando desbravava o alto da figueira, as
formigas amarelas ferrando a sua carne branca, ele subindo cada vez
mais alto. L de cima, como da gvea de um mastro de navio,
gajeiro, ele gritou para o pai e a me que enxergava - apontando
para o oeste - uma grande quantidade de gua, uma lagoa ou,
quem sabe, o prprio mar, que a bruma do horizonte no deixava
ver o fim. De l ele avistava o mundo inteiro, para qualquer lado
que se virasse. Aquele seria o seu mundo. Daniel Abraho
calculou que deveria estar a pouco mais de duas lguas do mar, do
oceano pelo qual viera da ptria distante.
        Naquela noite, Philipp dormindo, os escravos recolhidos
Juanito acomodado debaixo da sua carroa, Daniel Abraho se achou
mais conformado com o mundo. Ao lado da mulher, num
embrulho de panos, a filha que recebera o nome da av que ficara em
Hamburgo. Um dia, estaria vivo, quem sabe, ela se casaria e ao
primeiro filho daria o nome de Daniel Abraho, em homenagem ao
av que no temera o mundo. Se fosse mulher, se chamaria
Catarina. A av tinha tido o seu valor, nunca temera os bugres e nem
as feras, atravessara o oceano sem uma queixa, soubera decidir as
coisas na hora. Isto mesmo, a primeira neta se chamaria Catarina.
Pois aquela era a sua estncia, terra a perder de vista, gado que
comeava a ser arrebanhado, teto seguro a ser melhorado, charque


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para todos os dias. Daria um nome  estncia. No se lembrava
mais do nome dado por Juanito. Um nome que no servia. Muito
difcil. Pensaria nisso depois.



4 Um dia, o improvisado grumete Philipp, do alto da sua gvea,
gritou que enxergara um ponto negro e movedio que vinha
naquela direo. Houve uma correria l embaixo, o pai e a me
dando ordens que ningum entendia. Temiam que fossem soldados
da Banda Oriental, internados j em territrio da Provncia, quem
sabe at os inimigos mencionados pelos dois soldados na Medanos-
Chico. Catarina ordenou que o filho descesse, Daniel Abraho e
Juanito se armaram de espingardas, os negros foram mandados para
dentro, uma das negras carregando a pequena Carlota no colo.
        O        grupo parecia mais perto. Homens a cavalo, podiam calcular
pelo menos trs carroas. Logo depois viram que eram cinco, das
grandes, cada uma delas puxada por duas juntas. Um cavaleiro se
destacou do grupo e se aproximou a galope, acenando com a mo
que empunhava um rebenque.
      - Frederico Harwerther - gritou Daniel Abraho.
        Ficou to emocionado ao reconhecer o velho companheiro da
cervejaria da colnia de So Leopoldo que ao abra-lo teve
vontade de beijar a cara barbuda do compatriota.
      - O Frederico, Catarina, o Frederico!
        O        amigo foi at onde ela estava e apertou a mo de Catarina.
Esfregou os cabelos rebeldes do guri, que se agarrava assustado 
saia da me, fazendo sinal para que o grupo se acercasse. Os homens
apearam, eram mais de dez, muitos castelhanos, dois ndios. Juanito
tranou lngua com eles e se alegrou quando puxaram dos aperos
cuias e bombas para o chimarro. Viu quando tiraram de uma
das carroas um saco e dentro dele a erva verdinha e cheirosa.
Correu para botar gua no fogo. A escrava devolveu Carlota para
a me.
      -Mas ento, vejo que chegou outro herdeiro, Daniel Abraho
- disse o amigo.
      - Herdeira, Frederico. Chama-se Carlota, nome da minha
me.
        As carroas comearam a ser desatreladas, Frederico e o dono
da casa deixaram os homens nesse trabalho e foram beber algo em
comemorao - uma cachaa, trazida pelos visitantes, em garrafas.
Que diabo andaria fazendo por aquelas bandas Frederico Harwer-


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ther, se o deixara na colnia e Grndling nem sequer tocara em seu
nome quando do trato que fizera? As voltas que o mundo d.
        -        Zum wohl - exclamou Frederico, erguendo a caneca.
        -         sade - retribuiu Daniel Abraho.
        Catarina sentou numa banqueta, ninando a filha e observando
a alegria dos dois. No sabia bem o que pensar. Frederico vindo
da Banda Oriental, com aqueles castelhanos todos, cinco carroes
carregados.
      - Pois a mercadoria est a, Daniel Abraho. O primeiro
carregamento do nosso amigo Grndling - disse Harwerther abrindo
os braos, sorridente.
      - A mercadoria de Grndling?
        - Pois ento? Tudo de acordo com o combinado. Quatro dos
caixotes que esto a so para vocs e ficaro aqui. Um presente
de Grndling que a estas horas deve estar de rega-bofes com o
Major        Schaeffer, na Corte. Sabe, o major chegou e est no Rio.
        - E isto tudo veio de l, trazido pelo major?
      -No, um momento. Essa mercadoria foi descarregada em
pleno mar. Passou de uma galera para uma sumaca e eu ali depois
do Chu, esperando.
        - E que mercadoria  esta, Frederico?- perguntou meio
desconfiado Daniel Abraho.
      -Mercadoria, meu velho. Para Grndling e para o Major
Schaeffer no se deve perguntar muita coisa. Eles pagam bem, ser
difcil encontrar patres iguais. Dois homens de lei - disse
Frederico, levantando-se.
        - Eu aqui e voc do outro lado, se estou entendendo.
      - Isso mesmo, cada um no seu posto. Voc precisa construir
um galpo maior para resguardo da carga. O pessoal que vem do
So Leopoldo para buscar a tralha sempre pode demorar mais de
que o previsto. Eu fico esta noite aqui, com o meu pessoal, e
amanh cedo retorno. Mas como ? No se bebe mais nesta casa?
Com sua licena, Dona Catarina, hoje  dia de esquecer o mundo.
Afinal, dois velhos amigos se encontram e isso merece comemorao.
        Como Catarina desconfiava, os homens terminaram a noite
bbados e foi preciso que os escravos os acomodassem. At Juanito,
no porre, lanava gritos de guerra, terminando por ser carregado
para debaixo de sua carroa, onde sempre deixava preparados
enxerges e um serigote  guisa de travesseiro. Ao clarear do dia,
depois do chimarro - eles j no dispensavam a beberagem
amargosa - Frederico agrupou a sua gente e iniciou a viagem de volta


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levando as carroaS vaziaS, mas deixando as cuias, a erva e muita
garrafa ainda cheia.
        Quatro caixotes, os menores, traziam bem visveis o nome de
Schneider pintado na madeira. Ele e a mulher, auxiliados pelo
ndio, comearam a abri-los e quando as tampas saltaram Catarina
achou que estava sonhando. Daniel achava que nada era real:
ferramentas para trabalhar a terra, sacos de sementes de hortalias,
pratos. xcaras e talheres, cobertores da melhor l, agulhas de ao,
fazendas e caixas com linhas de vrias cores. Quatro espingardas e
caixas de munio. Espingardas no mais de pederneiras, mas de
cartuchs com espoletas. tipo Forsyth. Dois sacos de farinha de
trigo, alva como a neve. Vidros com fermento especial. Daniel
Abraho no se conteve:
      - Vamos ter po Catarina, po igualzinho ao que a gente
comeu em Hamburgo!
        Era como se tivesse cado man do cu. Daniel Abraho estava
a pontO de chorar. Juntou as duas mos:
        - Himmlischer Vater, wir danken Dir von ganzem Herzen...
        Catarina apertou ainda mais a filha nos braos e repetiu com
o marido:
      - Pai celestial, graas te damos de todo o corao...
        At um colar de contas pretas para Catarina. Sapatos de l
para Philipp e um magnfico, extraordinrio par de botas para ele,
Daniel Abraho. O couro preto, brilhante, o cano alto com os
puxadores de lona.
      -Nunca vi nada igual na minha vida!
        Naquele dia mesmo comearam a pensar na construo de um
forno para assar po. Os negros amassavam o barro tirado da sanga,
numa forma feita por Daniel Abraho com as tampas dos caixotes,
Juanito moldava os tijolos que eram esparramados no cho para
secar. Alguns dias depois cozinharam os tijolos em grandes
braseiros e assim iniciaram o forno de cobertura redonda, deixaram
secar a argamassa de barro e fizeram a primeira fogueira dentro
dele. Catarina preparou a massa, fez os pes redondos, dando em
cada um deles um talho de faco. A primeira fornada, embora
tivesse ficado meio abatumado, constituiu-se numa festa. Daniel
Abraho cantarolava uma velha cano da Altmark, arrastando a
mulher, sob protestos dela, numa dana grotesca que arrancou
gargalhadas dos escravos e de Juanito que nunca tinham visto aquilo.
O pai queria ver Philipp comendo po. Mais e mais. Ele achava que
o filho no se lembrava do gosto. Queria que Carlota provasse.


29


Um pedacinho s na ponta da lngua. O autntico po da Alemanha.
Catarina virou o corpo e escondeu a filha:
      - Das geht nicht! - exclamou horrorizada.
        - Essa no, por qu? quis saber Daniel Abraho ainda
danando. - Po  o alimento de Deus, no faz mal a ningum.
        Para a outra fornada tiveram que reconstruir o forno que havia
rachado quase por inteiro. Mas o po no abatumou e as negras
da por diante, aprenderam a preparar a massa e tudo era feito sob
medida para economizar farinha.
        As outras caixas com mercadorias ficaram guardadas sob um
telheiro baixo de capim seco, com parede lateral feita de galhos
finos, servio dos negros que iam buscar rvores nos caponetes mais
distantes. Philipp passava parte do dia no seu posto de observao
no alto da figueira. Cuidava o Norte, de l viriam os carroes
buscar a carga trazida por Harwerther. S descia para comer, o dia
inteiro passava sentado num tranado de galhos, os passarinhos
quase ao alcance das mos, as borboletas que pousavam nas folhas -
com todos os bichos ele conversando, dando recados muito srios
para amigos imaginrios que estariam em outras figueiras, tambm
nas suas gveas, cuidando o horizonte.
      -Menino, cuida do trabalho gritava o pai l de baixo.
      - Estou cuidando, pai - dizia ele numa voz carregada de
vento.
        At que um dia ele descobriu um pontinho no horizonte, vindo
do Norte.
      - Eles esto chegando, pai!
      - Cuida com ateno para ver se so eles mesmos -
recomendava Daniel Abraho.
        Novas correrias, v que no fossem amigos, nunca se sabe.
Ordens de Juanito para os negros. Carlota voltando para o casebre
dos escravos, as espingardas preparadas, as melhores coisas
escondidas.
      - Vem muito homem a cavalo e tambm carroas - avisou
mais uma vez o gajeiro.
        - Quantas carroas?
        - Espere a, trs, quatro, cinco. Acho que cinco carroas, pai.
Cinco mesmo.
        De onde estavam, Catarina e Daniel Abraho viam a caravana
se aproximando. Na certa eram os homens de So Leopoldo, OS
prepostos de Grndling. Philipp desceu para ficar junto da me.
Os cavaleiros se destacaram das carroas e se aproximaram, apeando
sob a figueira. Marido e mulher se entreolharam, espantados. Um

30


deles era Joo Carlos Mayer, o velho amigo das bebedeiras. Parecia
tudo combinao.
        Ento Grndling, naquelas noitadas da Praa do Cachorro,
estava preparando a sua gente?
      -Mayer, com essa eu no esperava! - exclamou Daniel
AbrahO.
      - E por que no, pode-se saber? - disse o recm-chegado
abraando o amigo.
        Depois foi cumprimentar Catarina, puxou os panos para
enxergar a cara do nen. Homem ou mulher? Mulher, muito bem.
Carlota, bonito nome. Ah, nome da av.
      - Harwerther j esteve por aqui?
        - J - disse Daniel Abraho - e a mercadoria est toda ali
bem guardada, esperando pelas tuas carroas.
        - Ainda bem - disse Mayer, tirando o chapelo de abas largas
-,agora quero um trago para refrescar. No precisa economizar
que trouxe dois corotes, dos grandes, da melhor aguardente de
Torres. Dessa voc no conhece.
        Entraram, Juanito atendendo os homens, Catarina mais uma
vez foi sentar-se no tamborete, sem vontade de entrar na conversa.
      - E a Feitoria como vai? - perguntou Schneider.
Mayer bcbericou sem pressa, olhar percorrendo a pea
acanhada. A Feitoria na mesma. No acontecera milagre nenhum,
corria tudo como sempre. O inspetor das colnias sim, essa
inovara: valentes e bbados mandados para os lados de Torres,
enchendo carretas que ningum sabia se chegavam l. Imaginem
vocs, justo para os alambiques. Nossa gente do So Francisco de
Paula? Como Deus quer. Quase todos acomodados nos seus lotes,
demarcao para amanh, pacincia que no se pode fazer tudo
de um dia para o outro, divisas assim de um taquaral ou de um
cinamomo at uma estaca de guarana, valo aberto no cho com
enxada como linha divisria, tudo dependendo da boa veneta dos
lindeiros; brigas de morte porque a mulher de um lavou roupa a
montante do crrego, a outra querendo beber gua a jusante.
Desgraas mesmo, poucas, tirante o ataque dos bugres  famlia do
Francisco Hormann, casado com Maria Cristina. Ele vivo com um
 filho de dois anos que at hoje no foi encontrado. Daniel Abraho,
ah, Catarina de que ns escapamos! A gente naqueles matos, que
Deus Nosso Senhor nos livre, os bugres levando Philipp, roubando
Carlota. A todas essas o governo de braos cruzados, pois fizemos
muito bem em sair de l, tarecos s costas,  verdade, mas agora
no campo aberto, sem tigres e nem selvagens. Aqui se dorme de


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porta aberta, se poderia dormir, no fossem os mosquitos.
Grndling tinha razo. Mayer limpando as unhas com a ponta da faca,
ouvindo, na verdade nunca se sabe onde estar seguro. Eles que
reparassem bem, Mayer no estava ali para alarmar ningum,
queria sossego. dinheiro, morrer de velho, enquanto isso a gente l de
cima falando em guerra para estas bandas, o general castelhano
Lavalleja querendo invadir o Brasil. O comando militar mandando
fortificar Rio Grande, tudo isso cheirando mal para quem vive do
seu trabalho. Daniel Abraho teve um sobressalto: Mayer se isso
acontece ns estamos no caminho natural da briga. Mayer, pode
ser que sim, pode ser que no, ah, fronteira grande essa. Bag e
So Gabriel  que parecem estar mais na mira dos castelhanos, mas
o que pode incomodar  a esquadra imperial navegando por estes
mares, nas mesmas guas das nossas sumacas, amanh ou depois
querendo botar a mo na mercadoria, o que interessa no caso.
Daniel Abraho soturno. Outra rodada de cachaa? Mayer fez
que no. o corpo estava pedindo sono, carga j nas carroas, queria
partir com estrelas no cu. Boa-noite, felicidade, amanh a gente
nem se v. quero aproveitar o dia todo.



5 O vero trouxera consigo as primeiras espigas douradas de
milho, o gado crescera pelos arredores, a casa ganhara mais
uma pea e tinha agora a luz de dois candeeiros chegados entre
os apetrechos enviados pelo scio e amigo Grndling - havia
hortalias apontando na terra e uma das escravas ficara prenhe.
Schneider fazia incurses mais distantes em busca de perdizes e de
marreces;sabia como apanhar capivara num banhado a cerca de duas
lguas; aprendera a evaporar gua do mar, trazida em pipas para
com o sal preparar o charque. J colhia mandioca, batata e cebola,
que a terra solta era especial para isso; a mesa comeara a ficar
mais farta e variada.
        Dois outros carregamentos haviam chegado e partido, quando
os amigos novamente se encontravam e bebiam juntos, traziam
encomendas para Frau Catarina. rebuados para os meninos, leo de
peixe para os lampies, panos de algodo para os escravos.
        Quando Harwerther chegou com novo carregamento - e desta
vez com trs carroas e trs carretas - Daniel Abraho notou que
o amigo estava inquieto, nervoso, falando em suspender as viagens,
havia enxergado movimento de tropas do outro lado e sentiu que
alguma coisa de anormal estava acontecendo. No estava gostando


32


disso. Ou poderia estar? Que achava o amigo dessas coisas? Ou no
era para ligar?
        O        amigo no soube responder. No vira nada, sabia s por
ouvir dizer. Mas tambm no estava gostando.
      - Seria uma desgraa, Daniel Abraho. Nem sei se Mayer
chegar em tempo de pr a mo nessas duzentas espingardas.
      - Espingardas? - disse Schneider arregalando os olhos.
      - Claro, espingardas, meu velho. No vai me dizer que no
sabia, ora essa.  um negcio at melhor do que muitos que andam
por a. O diabo  se os gringos descobrem. E pelo que sei eles j
andam desconfiados ou algum foi contar das sumacas
desembarcando carga no Chu. Pelo sim, pelo no, desta vez vou voltar pelas
alturas de Jaguaro.
        Catarina veio para junto deles que estavam calados, vendo os
homens tirando os caixotes das carroas, o suor escorrendo pela
cara e pelo pescoo dos gringos, ia tudo sendo empilhado sob a
proteo de palha. Daniel Abraho olhou para a mulher e disse com
voz cava, devagar:
      - Eles esto descarregando as espingardas, Catarina, as
espingardas. Mais de duzentas - prosseguiu como se no houvesse
notado a cara de espanto da mulher - arma que no acaba mais. E
munio tambm. D para um batalho.
      - Voc sempre soube que trazia armas? - perguntou Catarina
para Harwerther.
      -Mas eu fui contratado, desde o incio, para isso. Vocs
dois no sabiam de nada?  um bom negcio, isso no se nega, mas
tem os seus riscos. Eu estava dizendo para seu marido que desta
vez vou voltar por Jaguaro e se for o caso largo mo at do negcio.
Mayer que leve este carregamento e estamos conversados. Ou no
estou certo? Eu no quero que usem do meu pescoo a no ser
para dependurar o leno.
        Ao cair da noite Harwerther j havia reunido os seus homens.
apertou a mo de Catarina, abraou o amigo e seguiu para leste.
Antes de partir ainda disse:
        - Se Mayer chegar amanh ou depois faam ele carregar logo
as carroas e desaparecer. Que v descansar para os lados de Rio
Grande, com as costas quentes.
        Marido e mulher comeram em silncio, acomodaram as
crianas. diminuram a luz do candeeiro e foram sentar do lado de fora
da porta.
      - E se eles, os gringos, chegam antes de Mayer? - perguntou
Catarina.


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      - A guerra no  com a gente. Podem chegar para comer e
beber, se quiserem dormir que durmam, ora bem. Na cobertura a
gente diz que tem semente para plantio, ferramenta, qualquer coisa.
      - E se descobrirem as armas? Grndling nunca nos disse nada
sobre armas. Se descobrirem vo querer te dependurar naquele
mesmo galho da figueira.
        Estavam no escuro, Catarina no pde ver a reao do
marido. Houve um longo silncio.
      - A gente devia ter ido com Harwerther - disse Schneider.
      - E abandonar tudo aqui, sem mais nem menos? As casas, os
bichos, as plantas e todo o resto? Isso no, nunca. Depois desse
trabalho todo, do sacrifcio que se fez. E mais, agora peguei amor
a esta terra, ela  minha, fora nenhuma me tira daqui - disse
Catarina.
        - A gente devia ter ido com Harwerther - repetiu ele, como
se falasse consigo mesmo.
        Ficaram muito tempo sem dizer nada. Catarina imaginando
aquelas duas sentinelas que vira na Medanos-Chico, multiplicadas
agora por mil. Dois mil bandidos procurando o inimigo e eles ali,
naquela solido, bem no meio do caminho. Gostava mais de pensar
deitada.
      - Vamos dormir, amanh ser um novo dia - disse ela
entrando e puxando o marido.
        Catarina acendeu um lampio com a luz bem baixa, apenas
para que fizesse fumaa e assim espantasse os mosquitos. Ficaram
os dois de costas um para o outro, acordados. Sabiam que o sono
custaria muito a chegar. Daniel Abraho ficou falando em
monlogo, em voz baixa:
      - A gente podia pegar as crianas, o resto do pessoal, encher
as carroas e sair de madrugada no rumo de Rio Grande. Rio
Grande est cheio de tropas imperiais. Esses castelhanos no tero
coragem de sair atrs de ns. Um dia a gente volta e recomea tudo
de novo. Pelo medo que notei em Harwerther essa soldadesca deve
ser mais de bandidos do que de soldados mesmo. E com essas armas
escondidas aqui vo nos tomar tambm como inimigos. A gente diz
"deixaram isso a, nem sei de quem  essa coisa, podem levar,
tomem conta". Fala-se com o chefe deles, com o general, podem
levar as armas, elas so de vocs. A gente conversando se acerta.
      - De vez em quando eu no te entendo, Daniel Abraho. Em
que lngua vais falar com eles?
      - Tem isso,  verdade. Ento o melhor mesmo  ir embora.


34


        Catarina tratou de ninar a filha que ficara inquieta e passou
a mo sobre as cobertas de Philipp que dormia a sono solto.
      - Pois eu no quero deixar a minha casa e nem as minhas
coisas - disse em voz mais alta e autoritria.
      -Mas ento, qual  o remdio?
        Ela no respondeu. No falaram mais. O sono chegou com os
primeiros cantos de galo. Foi quando bateram com insistncia na
parede de fora e ouviram os berros nervosos de Juanito dizendo
coisas que eles no entendiam. Saltaram da cama e encontraram o
ndio na sua algaravia, apontando freneticamente para o Sul, O dia
comeava a clarear e eles divisaram no horizonte o que poderia ser
um exrcito, uma tropa de homens a cavalo, o paliteiro das lanas,
mancha negra quase esttica. O faro de Juanito lhe dizia que eram
estranhos e Schneider se lembrou, de renente, dos caixotes cheios de
armas e munies. Mayer chegaria tarde. Cabelos desgrenhados,
mas com a fisionomia dura e decidida, Catarina disse:
      - So eles.
        Empurrou o marido atnito para os lados do poo, ordenou ao
ndio que fosse deitar-se debaixo da carroa, escorraou com gestos
os escravos que comeavam a aparecer, cada um que entrasse e
fosse deitar novamente, apertava os lbios com o polegar e o
indicador, dando a entender que ningum falasse nada. Correu para
o poo e ordenou ao marido:
      - Desce pela corda e fica l dentro.
      - E tu, Catarina, pelo amor de Deus, e tu?
      - Desce - repetiu enquanto prendia a ponta da corda no
mouro lateral do poo.
        Ele ainda lanou um olhar desesperado para a mulher, agarrou-se
na corda e desceu, apoiando-se nas pedras irregulares das paredes.
L embaixo mergulhou o corpo e quando encontrou p a gua lhe
atingia o peito. Catarina recolheu a corda e o balde, desprendeu a
ponta que havia atado, voltando calmamente para a porta da casa.
        As tropas se aproximaram, parte delas cercou o reduto, alguns
soldados cruzaram por entre os casebres, aos gritos e uivos, enquanto
alguns deles - pareciam oficiais de dragonas - apeavam,
aproximando-se de Catarina que guardava a porta. Um deles perguntou
pelo dono da casa. Ela fez um gesto largo apontando para o norte.
Onde estava o homem? Pois no falava? Era muda, por acaso?
        Juanito j vinha agarrado por dois soldados. Foi atirado aos
ps do oficial de dragonas. Este tambm no fala,  mudo como o
resto da famlia? Pois conheciam uma tcnica que j dera bons
resultados em frades de pedra. Desembainhou a espada e bateu com


35


ela nas costas de Juanito, de prancha. Ento o ndio disse que a
mulher era alem, no sabia falar lngua de gente, que o marido
dela havia fugido para os lados de Rio Grande. No, no havia
fugido, fora levado preso. Quando parou de falar, levou um ponta-
p na boca. Quando o oficial levantava a espada para bater outra
vez, parou com o brao no ar ao ouvir uma algazarra infernal
partindo dos seus soldados que haviam descoberto os caixotes e deles
tiravam as espingardas.
      - Tiene mas escopetas que un arsenal - gritou um deles
mostrando duas espingardas para o oficial que ainda segurava Juanito
pelos cabelos.
        Um outro oficial mais graduado, dragonas douradas e tnica
cheia de alamares e botes, desceu do cavalo junto ao ndio cado.
Que explicao ele dava para a presena de todas aquelas armas na
casa? Por acaso era um depsito de efectos de guerra das foras
brasileiras? Que comeasse a falar ou nunca mais falaria. Juanito
limpava o sangue que saa da boca, no sabia de nada, aquela gente
falava outra lngua, ele no entendia nada, no podia adivinhar.
"Se queden con las armas, san suyas." Catarina sem poder ajudar o
infeliz, ainda na porta do rancho, dois soldados cruzando as
baionetas na sua frente. Viu quando um soldado, vindo por trs, dera
uma coronhada no ombro do ndio. De onde estava, Daniel
Abraho ouvia tudo, sem entender, tremendo de medo e de frio, a gua
enregelando os ps e as mos. Ouviu nitidamente a voz da mulher
que disse "foram uns homens que deixaram essas armas a". Vamos,
ndio dos demnios, que disse esta mulher? Ele tambm no sabia,
no entendia o que ela falava naquela lngua estranha. Ento o
oficial da espada quis afastar Catarina da porta e entrar, mas ela
se agarrou no dlm enfeitado com ambas as mos, tentando
impedi-lo. Foi arrancada de onde estava por outros soldados, viu o
homem entrar, o choro das crianas, lutava como uma fera, pisando
os ps dos soldados, arranhando, mordendo. Philipp apareceu na
porta, chorando, e logo depois o oficial trazendo Carlota nos braos.
Deu uma ordem aos soldados para que largassem a me, entregando
a criana de boa vontade. Ento o oficial mais graduado comeou
a falar em tom mais calmo, confabulou com os outros, ordens
foram dadas aos soldados mais prximos e todos saram em busca
de alguma coisa, entraram na cabana dos negros, fizeram com que
todos eles sassem, reviraram camas e armrios, abriram caixas, na
certa procuravam o marido. De repente o corao de Catarina
disparou, viu quando dois soldados se dirigiam ao poo, um deles pegou
na ponta da corda e jogou o balde l dentro. Puxou o balde cheio


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e os companheiros desfilavam para matar a sede. Tornou a descer
o balde, outra vez distribuiu gua.
        Daniel Abraho enchia o peito de ar e mergulhava. Muitas
vezes fora atingido pelo balde e teve a impresso de que j o haviam
descoberto, queriam apenas afog-lo para divertir-se. Mas os
homens bebiam gua, falavam entre si, riam e gritavam. Minutos
depois l vinha o balde mais uma vez chocar-se com a gua.
Descobriu que se ficasse colado s pedras teria mais chances de no
ser atingido. Depois passou a remexer com os ps o fundo lodoso
do poo, sujando a gua. Ento os soldados desistiram daquela
gua que se tornara barrenta e Daniel Abraho pde respirar a
tempo.



6 Os oficiais comearam a dar vozes de comando, a soldadesca
montando em desordem, muitos deles carregando pequenos
roubos, panelas, chaleiras, roupas de cama, sacos de farinha, o
corote de cachaa trazido da colnia, enquanto a maioria levava as
armas e as munies encontradas nos caixotes de Grndling.
Juanito que continuava sentado no cho, comeou a levar pontaps
dos que passavam e depois foi levado por outros at a figueira e l
amarrado com a corda do poo e mais uma vez surrado diante de
Catarina que se grudava aos filhos. A maior parte deles partiu em
direo do grosso da tropa que j ia distante, deixando alguns
piquetes bivacados nos caponetes prximos, como sentinelas.
        Os escravos foram desamarrar o ndio, que sangrava, levando o
para dentro da cabana. Catarina deitou a menina e mandou que
Philipp no arredasse p da caminha. Foi atender Juanito que tinha
o nariz transformado numa posta de sangue, largos verges no peito
e nas costas. Mas no dava um ai, encolhido e sonolento, como um
pequeno co ferido. Catarina mandou buscar uma garrafa de aguardente,
ele que ficasse bem quieto, ia arder um pouco. o que arde
cura, esses bandidos no perdem por esperar. Uma das negras trouxe
uma bacia de gua bem esperta e tiras de panos para ataduras .
Juanito ouvia Catarina sem entender, mas sabendo que a cachaa
passada nas feridas ia arder como fogo. A negra primeiro lavou o
sangue ressequido do rosto, de um corte mais profundo na cabea,
e dos verges. Depois a parte de Catarina, embebendo na cachaa
um pedao de pano e passando nas feridas. Ele se encolheu todo e
s demonstrou que quase no suportava a dor quando passou a mo
na garrafa e bebeu demorado pelo gargalo.


37


        Ao meio-dia Catarina foi at o poo buscar o balde, botou o
prato de comida dentro dele e retornou como se fosse buscar gua.
Daniel Abraho retirou a comida, encheu o balde de gua e fez
sinal para que ela o puxasse. Ela se debruou na borda e disse em
voz baixa que havia soldados acampados nos caponetes. Que
continuasse l bem quieto. Antes do anoitecer dois dos soldados vieram
buscar charque e fogo, olharam bem para dentro das casas,
examinaram com desconfiana o interior da choa dos escravos e
voltaram. Noite escura, Catarina via a fogueirinha de um dos caponetes
onde sombras adejavam, ouvia um longnquo falar, confundido com
o coaxar da saparia no banhado.
        Com o prato de janta Daniel Abraho recebeu uma caneca com
cachaa, ele podia pegar uma pneumonia nas guas frias do poo.
Mais tarde Catarina botou as crianas na cama, foi ver as feridas
do ndio e depois sentou num mocho, do lado de fora da porta,
tentando perscrutar a escurido e ordenar os pensamentos. E se eles
ficassem por ali uma semana, duas, trs, um ms? Fugir, alta noite,
era impossvel, os cavalos relinchariam, os soldados escutariam o
movimento. Eles estavam sempre vigilantes, postavam sentinelas
pelos arredores. E de que adiantaria fugirem? Um pouco mais
adiante seriam caados, Schneider cairia no meio do grosso da tropa,
uma gente balandronada, sem nenhuma disciplina, bbados e
arruaceiros.
        De repente ela notou que a luzinha da fogueira distante apagava
e acendia; prestou ateno e percebeu que algum caminhava
naquela direo e seu vulto  que interceptava a luz. Um soldado
caminhava para o poo. Levantou-se de um salto e correu para l.
        - U, a senhora por aqui, de noite? Que voc quer na minha casa?
Volte seno eu chamo os negros. No se entendiam. Vim buscar
gua, dona. Onde est o raio do balde? Tateou pela borda do poo,
Catarina percebeu o que ele queria, adiantou-se, pegou do balde e
comeou a descer a corda. Quando notou que estava cheio,
comeou a pux-lo. A meio caminho sentiu as mos do homem enlaando
a sua cintura, o abrao forte, o hlito quente e pegajoso no rosto.
Ao tentar defender-se soltou a corda e ouviu o baque surdo do balde
cheio l embaixo. E se tivesse atingido a cabea de Daniel
Abraho? Teria gritado se a enorme boca, mida e grossa, no a estivesse
sufocando; gritar terminaria por atrair para ali os escravos e o
magote de soldados tambm. Seriam massacrados, inclusive as
crianas. Seu vestido foi rasgado, grunhia apenas, que Daniel Abraho
poderia ouvir l debaixo, talvez gritasse, eles descobririam o marido
e o dependurariam naquele galho da figueira. Estava sendo atacada


38


por um animal, seu corpete foi arrancado com violncia, aquela
boca asquerosa babando o seu pescoo, os seios, mordendo os
ombros com fria. Dobrou os joelhos, a cabea rodando, agora s a
dor das costas nuas de encontro ao areio grosso do cho. As ondas
do mar, a branca espuma subindo e se desfazendo no meio das
estrelas, estamos naufragando, Daniel Abraho, onde est o capito
do barco, onde esto as crianas, pelo amor de Deus as crianas. A
gua salgada entrando boca abaixo, uma lmina de ferro lhe
rasgando as carnes, um tigre bufando sobre o corpo que morria. Um
estalido, um pio de ave, a multido de sapos que voltava a coaxar, a fera
desaparecera assustada, quem sabe, pelo enorme silncio que agora
caa do cu, como garoa.
        Grossas lgrimas escorrendo pelo rosto, um vulco nas
entranhas, o cu estrelado a rodopiar, o poo de cabea para baixo. E
se escorresse a gua e com ela viesse o marido boiando, a sanga
se formando, correndo, se dirigindo para o caponete da soldadesca?
Daniel Abraho, por amor de Deus, cuidado.
        Pois o vulco nas entranhas estufava as suas carnes, forava
a garganta dolorida, a cabea estalando, toda ela numa nsia sem
fim. Comeou a vomitar. Vomitou  larga.





7 Daniel Abraho adivinhara que um dos soldados se aproximava
do poo, ouviu bem a corrida de Catarina, o encontro dos dois,
o        balde descendo na ponta da corda, depois sendo puxado, cheio,
e a sua queda inesperada. Desta vez sim, quase fora atingido. Ouviu
o rudo da luta entre a mulher e o homem, o resfolegar bravio do
soldado e o silncio quase total de Catarina. Dela, s a respirao
ofegante, um que outro gemido surdo. gua pelo queixo,
impotente, a corda solta - restara para ele cravar as unhas nos vos
das pedras, morder forte os lbios e chorar de dio, sem soluar.
Num silncio quase igual ao da mulher que estava sendo de outro.
Depois mais nada, apenas um retinir de esporas se distanciando.
        Muito depois, quanto tempo no sabia, ouviu a voz da mulher
quase inaudvel pelo rudo da brisa na copa das rvores:
-        Daniel Abraho, precisas de alguma coisa?
        Ele sussurrou um "no" a medo. Ficou de ouvido atento.
-        O bandido j se foi? No est mais por perto?
-        Ele se foi. No h ningum por perto.
        Sua voz estava calma como nos dias em que conversava com
ele, ninando Carlota.


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-        Ests bem, Catarina?
-        Estou.
-        Eles me pagam, juro por Deus Nosso Senhor, eles me
pagam.
        - Descansa um pouco. Vou para junto das crianas.
        Algo se rompera no seu mundo. De dentro para fora. Algo que
ela jamais saberia dizer o que havia sido. Pensou, naquele
momento, na figura alta e agitada de Grndling, a cara de fisionomia
indefinida, os seus olhos sem nenhum calor humano. Soqueou em
pensamento a figura imaginria, cortou-lhe o rosto com as unhas, como
faria um gato ou um tigre, arrancou-lhe os olhos, viu as suas
rbitas vazias. Um dio que nunca sentira em toda a sua vida e que
jamais imaginara pudesse ter. Pensou em Deus e pediu a Ele que
a ajudasse a alimentar aquele dio, dali para a frente ele passaria
a ser a razo de sua vida. Quando se afastava do poo, ainda ouviu
a voz abafada do marido:
-        Vater unser, der Du bist in dem Himmel...
        Deitada na cama de cho, chorou at ser vencida pelo sono.
Seu ltimo pensamento naquela viglia fora para o marido que no
poderia dormir, pois que se afogaria.



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III



1 Catarina tinha os seus planos. Castelhanos  vista, magotes de
outros que voltavam, confabulando num linguajar de metralha,
retornando a galope. O inimigo dono do terreno. Pois o negcio
era abrir um novo poo. Ela demarcou o lugar onde os negros
deviam cavar e mandou que a terra fosse ficando amontoada por
ali mesmo. Outros se encarregaram de catar pedras soltas no campo
Os soldados se sentiam em casa. Laaram, sangraram e carnearam
uma vaca, uma brasina de ancas rolias, depois trouxeram a sobra
para Catarina. Ela pediu que a carne fosse depositada no piso
forrado de panos de uma das carroas. Dois deles ainda ficaram
assistindo ao trabalho dos escravos que lidavam com ponteiras de ferro
e ps redondas. Um deles fez um gesto, como a perguntar por que
cavavam. Ela apontou para o poo, foi at l e trouxe o balde
cheio de uma gua pardacenta que mostrou a eles, depois despejou
o contedo no cho, dando a entender, com a mo, que no
prestava para beber. Eles riram. O mais graduado, tinha duas divisas
no brao, rodopiou o indicador em redor do ouvido. A mulher
estava doida, dois poos. Teria sido um dos homens, o da noite
anterior? No, qualquer coisa lhe dizia que no. Ambos retornaram para
junto dos companheiros, rindo muito. Ficou ao lado dos negros, que
cavassem, cavassem, ningum mais poderia beber a gua onde o
marido estava metido. Daniel Abraho estava fazendo as suas
necessidades l mesmo. Os soldados se valiam do regato que
serpenteava pelo campo, desaguando na sanga. De l  que as negras
tambm se valiam. Era preciso cavar. Ao cair da noite comeou a
aflorar, no fundo, um barro mole. Suspenderam o trabalho quando
ningum enxergava mais nada. Na hora em que descia o prato de
comida para Daniel Abraho.


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        No meio da noite Catarina percebeu que os soldados dormiam,
a pequena fogueira no brilhava mais. Foi at a borda do poo e
falou com o marido:
-        Ich habe schon daran gedacht.
        - J pensou em que, Catarina? Vou morrer aqui embaixo,
j no sinto os meus ps e nem as mos.
        - Vou descer ferramenta. Faz um buraco a do lado, tira
primeiro as pedras, cava o mais que puderes acima da linha d'gua.
Mas no faz muito barulho.
        Baixou pela corda um pedao de ferro, um dos Ackse das carroas. depois uma p e o balde.
        - Com a ponta do ferro arranca as pedras necessrias, no
muitas para no derrear tudo. Enche depois o balde com a terra
tirada e me faz um sinal de corda. Eu fico aqui. Pode sujar a gua
 vontade, estamos abrindo um outro poo.
      - Catarina - grunhiu ele desesperado - vai para dentro que
ele pode voltar.
        - Cava, homem.
        Cada balde de terra que subia era levado para o monte de
entulho do poo novo. Assim, de dia, eles no desconfiariam de nada.
Catarina cuidando sempre, o olhar penetrando fundo na noite, os
caponetes sem fogo, todos cansados ou bbados. L embaixo, como
um desesperado tatu, Daniel Abraho cavando e cavando, baldes e
baldes de terra subindo, Catarina com as costas ainda em carne
viva, as mos em ferida.
      - Acho que por hoje chega - disse ele - j consigo entrar
no buraco. S tenho medo de que isso tudo desabe, ainda mais se
chover.
      - Esquece isso, o cu est estrelado. Entra agora para o
buraco que vou jogar a dentro algumas achas de lenha para que
amanh, com a luz do dia, possas calar o buraco.
      - De dia  perigoso.
      -No vai ser. De manh mando fazer uma cobertura aqui em
cima.
        Trouxe braadas de lenha, jogou uma por uma, com cuidado,
e quando voltou, depois de certa demora, disse para o marido:
      - Vai descer um cobertor, agarra a e no deixa molhar.
        O        clarear do dia encontrou Catarina dormindo ao lado dos
filhos e Daniel Abraho dentro da pequena caverna, pernas
encolhidas, encurvado como um feto.
        Trs dias depois o poo novo j dava gua boa e os negros
comearam a empedrar as paredes, ajustando as pedras rolias com


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argamassa de barro. Fizeram uma tampa rstica para o antigo,
atravessando sobre ela um Langwitt da carroa desmontada. Daniel
cavara mais, escorara as paredes e j podia dormir com as pernas
estendidas. Tinha at o conforto de garrafas com gua, charque
cozido e po.
        Juanito voltou a andar, capengueando, feridas comeando a
cicatrizar, apenas o brao esquerdo imvel - ajeitado numa espcie
de tipia fabricada por Catarina - algum osso do brao parecia
ter-se partido. Pouco podia fazer. Cuidava de Carlota, deitada sobre
um pelego na grama, debaixo da figueira. Abanava as moscas e
catava as formigas que se aventuravam no emaranhado da l.
        Naquela noite ouviram um tropel imenso de patas de cavalo,
vindo dos lados de Rio Grande. Catarina avisou o marido, fechou
ainda mais a boca do poo, mandou Juanito esconder-se na casa
dos negros, s ela permaneceu do lado de fora, encostada na porta
de entrada. Eram os castelhanos voltando. Notou pela correria dos
soldados acampados, muitos deles reavivando as fogueiras que agora
alumiavam as rvores e os homens. Alguns cavaleiros passaram por
entre as casas, mas no se detiveram e nem notaram a mulher
imvel. Depois de muito tempo retomaram a marcha em direo da
fronteira, amanhecendo um dia vazio de soldado.
        Catarina foi avisar o marido:
      - Daniel Abraho, os castelhanos passaram de volta e
sumiram.
      - Todos? - rosnou ele.
      -No sei, mas acho que sim. Estava muito escuro. O mais
aconselhvel  esperar um dia ou dois. Fez uma pausa e
perguntou: - A caverna est melhor?
      - Est muito boa, podes ficar descansada. J consigo ficar
sentado.
      - Queres alguma coisa mais?
      - Unglaublich mas sinto vontade de tomar um mate. A gente
se acostuma com tudo.
        Minutos depois Catarina fazia descer no balde uma cuia j
preparada e uma pequena chaleira de gua quente. Ele jamais
esqueceria o sabor daquele primeiro mate tomado nas trevas. Sua vida
ganhava, agora, uma nova rotina. Fazia as necessidades numa lata,
para no emporcalhar ainda mais a gua, que Catarina trocava
todos os dias. Conseguia dormir no seco, sentindo o corpo murcho
e os membros lassos. Como um bicho. Lembrou-se da frase de
Grndling "cavar a terra como uma toupeira". Um verme. Se a soldadesca


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havia desaparecido, por que no sair, olhar a luz do dia, sentir na
carne o sol forte? Mas Catarina devia saber o que estava fazendo.
        Ao meio-dia recebeu o prato de comida com umas folhas que
no soube identificar com as mos.
        - So os primeiros ps de alface da nossa horta - disse
Catarina com a nica alegria daqueles dias.
        Ele no pde ver as alfaces, a sua cor verde-galo, o talo tenro
e hranquicentO, mas sentiu o sabor delicado e imaginou a satisfao
da mulher. Logo depois os gritos dela obrigando Philipp a comer
alface, as ameaas de surra com uma vara que ela devia estar
brandindo no ar. Teve uma enorme vontade de ver Carlota e o filho.
Comeou a chorar baixinho e acabou dormindo, com o prato vazio
sobre o peito.



2 Como Catarina temia, surgiram novos soldados vindos do Norte.
RemanescenteS dos castelhanos. Tapou a boca do poo velho e
recolheu as crianas. Philipp os avistara do alto da figueira.
Depois desceu, entrou em casa e ficou espiando por uma fresta da
parede. Por fim eles chegaram. eram vinte, no mximo, envergando
outros uniformes. Juanito saiu de onde estava, com dificuldade,
ouviu quando um oficial perguntou a Catarina se ali no morava
um alemo fugido da colnia de So Leopoldo e que traficava com
armas para os castelhanos.
        Um tal de Schneider - disse o oficial sem desmontar.
Ela  mulher dele, senhor - disse Juanito - mas
Schneider foi levado embora.
        Catarina entendeu e apontou para os lados do Uruguai. Fez um
gesto como a dizer que o marido fora levado de arrasto.
        O        oficial falou para Juanito:
      - Que histria  essa, ndio? Quem levou Schneider para
aquele lado?
        - Os castelhanos, senhor. Ele foi preso.
        o        homem apeou e deu ordem a seus soldados que
vasculhassem as casas. Depois de algum tempo eles voltaram, informando
que no haviam encontrado o homem.
      - Diga a ela que se o encontrarmos ser passado pelas armas.
Ou degolado - completou com o gesto de quem passa uma faca
no pescoo.
        Outros grupos chegaram e ali mesmo se dividiram, metade
seguindo para a fronteira, metade voltando. Fizeram alto, dois qui-


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lmetrOS alm, seguiram para a costa e retornaram, como se no
soubessem O que fazer. Por fim desapareceram.
      - Daniel Abraho, eram soldados brasileiros. Pelo que entendi,
eles tambm andam  tua procura. No sei no, mas o melhor 
continuar a mesmo. Por enquanto.
         tarde, os que haviam seguido para a fronteira voltaram,
foram direto para o caponete onde haviam acampado os orientais.
Chamaram Juanito:
      - Os gringos acamparam aqui. Vamos, fale a verdade seu
filho de uma gua.
        O        ndio, que fora agarrado pelas costas, fez que sim, com a
cabea:
      -Muitos dias senhor. Aqui mesmo - apontou para os restos
de cinza no cho e para o estrume da cavalhada que ficara sempre
 soga.
        Laaram um boi e o trouxeram tocado pelos cavalos. Passaram
uma boleadeira nas patas dianteiras e dois soldados, agarrando-se
nas aspas, o derrubaram ali mesmo, sob o olhar de Juanito que
pediu que o soltassem, queria ajudar. Saiu manquitolando. trouxe
brasas e armou uma fogueira. Assaram as melhores partes e o resto
foi levado para Catarina e o pessoal da casa.
        Noite escura, Daniel Abraho participou da festa, na sua
furna, roendo uma costela, feito cachorro.
        Como fazia sempre  noite, depois de comer e acomodar as
crianas, Catarina sentou-se num banquinho junto  porta. vigiando
de longe o poo, o movimento das tropas, ruminando seus
pensamentos. Um soldado saiu de trs da casa e se postou  sua frente.
Levantou-se assustada, sentiu a mo em garra segurando seu brao
e comeou a ser levada  fora para longe de casa. O homem dizia
coisas que ela no entendia, mas era como se entendesse. Foi fcil,
o soldado esperava resistncia. Estava preparado para isso.
Surpreendeu-se com uma mulher passiva, deixando despir-se, s vezes
ajudando, facilitando. Cu aberto, dois pontos invisveis naquela
imensido dos pampas, lua tmida ainda na beira do horizonte, amarelo-
mbar, uma triste lua carcomida. Naquela noite ela no chorou.
suas costas estavam protegidas do cho pelo dlm do soldado. Um
soldado qualquer, no importava. Para Catarina, ela estava sendo
violada por Grndling. Seu bafo azedo seria mais ou menos o
mesmo. O mesmo cheiro de suor de cavalo. Quando as esporas se
entrechocavam, ela tornava a ouvir o retinir das moedas naquele dia;
enxergava no escuro a sacola de couro cru, a frase de Grndling
"dentro de trs dias a senhora ter tudo pronto". No conseguia


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lembrar-se de nenhuma frase da Bblia, alguma que lhe desse
conforto ou que justificasse a sua passividade. No pensava nada, por
Deus Nosso Senhor. No sentia mais nada a no ser dio e nojo,
inclusive de si prpria. O homem ficou de p, com seu vulto tapou
a fraca claridade da lua e falou com outro. O retinir, agora, era
de esporas diferentes. Sentiu-se novamente agarrada, outro bafo, um
cheiro diferente, mais uma vez Grndling insaciado, uma besta no
cio, um touro execrando a bufar, as suas carnes e entranhas
massacradas, um fogo por dentro e, finalmente - um minuto depois,
meia hora, duas - a solido.
        Quando acordou do desmaio percebeu que estivera ali muito
tempo. O vento frio da estao a deixara gelada, no sentia as mos,
no tinha corpo, apenas uma grande cabea dolorida, as tmporas
latejando. Levantou-Se com dificuldade, caminhou cambaleando, mal
se agentando nas pernas. Se algum a visse, diria que estava
bbhada. Procurava o velho poo. Debruou-se sobre as tbuas da
cobertura, deitou a cabea dolorida e conseguiu dizer por entre as
frestas do madeirame apodrecido:
        - Daniel Abraho, no precisas de nada?
        Ele j devia estar dormindo na sua toca, no se ouvia nada
dentro do poo. J conseguira equilibrar-se de novo, ia tentar
chegar em casa. Trinta metros, se tanto. Nisso escutou a voz do marido,
muito calmo, rouco:
        - Novamente os selvagens, Catarina?
        Ela estava chorando, queria apenas dormir.
        - Novamente. Hoje, foram dois. Dorme que eu vou para junto
das crianas.
        Ele comeou a soluar to alto que Catarina ficou temerosa de
o vento levar o choro do marido at os ouvidos da soldadesca por
ali acampada.
        - Dorme, Daniel Abraho. Deus no abandona a gente.



3 Ainda no era bem uma guerra. Os piquetes avanados dos
castelhanos invadiam a terra gacha, eram enxotados pelos
batalhes que partiam de Rio Grande. Arrebanhavam mais
soldados, corriam com os brasileiros. A terra de ningum era, ora
de um, ora de outro bando. No meio deles, entre eles, esmagado
por eles, o velho poo com Daniel Abraho prisioneiro, entocado
j conhecendo gringos e brasileiros pelo pipocar surdo das patas dos
cavalos.


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        Quando a noite chegava, ele sabia que Catarina no viria mais
perguntar se precisava de alguma coisa. Os soldados ficavam 
espreita, rondando por entre as casas, s vezes foravam a porta, mas
esta no cedia. Quando espiavam pelas frestas, a luz fraca de uma
lamparina deixava entrever uma Catarina recostada na cama,
espingarda nas mos. Debaixo da terra, o marido OUvia o arrastar de
rosetas e apurava o ouvido, temendo que eles terminassem por
arrombar a porta. Morreria naquele buraco. Os cabelos j no tinham
mais tamanho, a barba roando o peito, as unhas encurvadas como
garras. Quando chovia ficava marcando o nvel da gua, de
momento a momento conferindo, se subisse encharcaria Os cobertores
e as roupas. Nos breves momentos de sono profundo sonhava
sempre com o So Francisco de Paulo, durante aqueles meses de mar.
Voltava ao nariz, forte e acre, o fedor dos pores superlotados, as
noites de amor coletivo, a voz dorida de uma jovem mulher de
Dresden, dezenove anos incompletos, dizendo pesados palavres ao
marido, um rapaz magricela arreeiro de profisso.
        Horas inteiras, agora, ele passava de ouvido afiado, catando
um sussurro qualquer de Catarina, um ai, o fole curto da
respirao opressa de quem tem sobre o peito o peso de um homem.
Um simples arrastar de esporas era o sinal para seu desespero,
ainda mais quando isso era percebido na calada da noite. Ficava
excitado, tambm, a imaginao febril trabalhando, Catarina decerto
nua, os grandes seios ofegantes subindo e descendo, banhado, pela
plida claridade da lua, o ventre rolio e branco, ainda com as
marcas dos talabartes.
        Essa foi uma poca de inimigos ausentes, parecendo que a
Cisplatina havia acabado. Ento Harwerther e Mayer retornariam, ele
sairia da toca para sempre e voltaria a ver a luz do dia, o cu
estrelado, o pr-de-sol, a horta, os cavalos pastando. Dormiria
novamente com a mulher e conheceria a filha Carlota de quem j ouvia
os grunhidos. s vezes pedia para Catarina erguer o filho na borda
do poo e l debaixo conseguia vislumbrar a silhueta de Philipp,
os cabelos ruivos incendiados de sol.
        - Estou com as unhas muito grandes, Catarina. Da-me uma
faca.
        Juanito chairou a melhor que havia, experimentando o fio na
l de um pelego. Ento ele pde aparar as unhas, aproveitando a lua
do dia, quando a tampa era removida. Nessas ocasies Philipp subia
para a Sua gvea, vasculhando o horizonte, atento ao menor ponto
negro que vislumbrasse.


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        H quanto tempo ele estava naquela furna? Dois meses, um
ano, dez anos.
        - Quatro meses, mais ou menos lhe dissera um dia
Catarina.
        Aproveitou a faca para cortar a barba e os longos cabelos.
Sonhava em sair dali. Ao mesmo tempo tinha medo. Se morresse,
seria fcil: bastaria entulharem o que restava do poo e sobre ele
colocar uma cruz. Daniel Abraho Lauer Schneider. 1798-1825. L
em So Leopoldo, uma outra famlia estaria ocupando as suas terras
e delas tirando o repolho para o chucrute envinagrado, as rseas
batatas que eram servidas fumegantes, ao molho de manteiga.
Pensava em Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt Grndling, um
nome para no ser esquecido, o generoso e sorridente pagador de
cerveja. A voz de Harwerther, "para Grndling e o Major Schaeffer
no se pergunta muita coisa. Eles pagam bem". Onde andaria
Harwerther quelas horas? E Mayer? Pois Herr Grndling, estou
cumprindo as suas ordens, enterrado vivo aqui neste poo, a mulher
violentada pelos soldados das duas bandas, afinal somos scios e
o        negcio me parece bastante rendoso. Chegamos aqui na misria,
temos agora duas lagoas, quando ontem no se possua nenhuma,
dois poos, s as grandes estncias dispem de dois poos, um s
para fornecer gua cristalina para a famlia, outro s para abrigar
das intempries e dos animais o humilde scio de Herr Grndling.
Dois filhos. Chegamos aqui com um menino, temos agora dois
filhos. A famlia crescendo, a gente no meio desse descampado todo,
muito mais fcil para Deus enxergar os seus filhos. De uma coisa
o amigo jamais poder queixar-se, fui obediente, cavei a terra como
as toupeiras.



4 Grndling no escondia a sua satisfao, estava orgulhoso com
a visita do amigo importante. O Major Jorge Antnio Schaeffer
abria as garrafas verdes do melhor rum da Jamaica, corpo
largado na grande poltrona da sala de jantar, elogiando a casa grande
da Rua da Igreja, voc teve bom senso comprando esta casa, ela 
digna de um Cronhardt Grndling, falta melhorar os mveis,
tapetes aqui dariam calor s peas, quadros e medalhes, substituir
os vidros baratos das bandeiras de portas e janelas por vitrais
franceses. aquele vermelho que ningum ainda no mundo conseguiu,
vermelho de rubi. Aqui o espinilho divisor de guas. a cidade aco-


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modada a seus ps, ao longe as nuvens que deviam estar sobre
So Leopoldo.
      - Ento aquela gentinha que cacei pelos arredores de
Hamburgo, toda ela agora revoltada contra seu criador!
Grndling dizendo que no era bem assim, havia os mais
sensatos, os que costumavam pensar pelas prprias cabeas, sem dar
ouvidos aos arruaceiros. Mas  sempre assim. Muitos deles
morriam de fome na Europa, a nica sada era buscar novos horizontes,
novas terras, criar razes e esquecer o passado. At viagem de graa,
tudo pago, doutor a tempo e a hora. Schaeffer ouvindo enquanto
bebia. O amigo era testemunha dos seus sacrifcios. Agora, se o
governo no dera o que havia prometido por escrito, estavam a as
cartas da prpria imperatriz, o depoimento do General Brant, todos
os comandantes de navios contratados, o problema no era dele,
sua misso terminava quando o barco levantava ncoras. Grndling
de p, meu caro mais vale quem vive de conscincia tranqila, que
se queixem ao bispo. Quando uma criana morria, culpa do Major
Schaeffer. Ele riu. Sabe, Grndling, as crianas morrem at na
Rssia, sob o olhar generoso do czar. Em compensao, todos os
dias nascem novas crianas, a natureza  sbia, meu caro. No
tenho culpa pelas crianas que morrem, como no quero medalhas
pelas que so paridas. Voc me entende, falamos a mesma
linguagem. O major tirara as botas e estendera as pernas sobre um
tamborete. Garrafa e copo nas mos, um bebedor. Degustava com
volpia, espremendo a bebida de encontro ao cu-da-boca. Cheirando
a borda do copo. Grndling sentou, a um gesto seu, para ouvir o
que ele contava. Claro, recebia as barras de ouro das mos do
General Brant, mas o que pouca gente sabia era o que sofrera nas
mos dos inimigos do Brasil. Um homem como ele levado s barras
do Tribunal de Comrcio pela campanha de difamaes do
celerado Kilhe de Wuel. As perfdias do Conde de Grtte. Ah, meu
        velho, no fosse a dedicao dos majores de Heise e d'Ewald e
jamais poderia ter cumprido com a misso do imperador.
        - Tem certeza, Grndling, de que as mulheres viro?
        Um pouquinho de pacincia. Izabela no era mulher de falhar.
Elas so como morcego, temem a luz do dia. Melhor assim, havia
os sobrados vizinhos, as gordas matronas debruadas nos peitoris,
seios esparramados, de olho na rua. Izabela, a paraguaia, repetiu
Schaeffer. Lembrava-se de Brunilde, em Hamburgo, numa velha
pocilga perto do cais, descobrindo sempre uma mulher para cada
marinheiro. No gosto de chegar  noite sem mulher. Ganha-se
dinheiro para isso. Claro, para a bebida tambm. Em Leningrado


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havia uma condessa, Lescova, ou Natacha, pouco importa, uma
princesa de carnes to brancas que eu me divertia apertando o
polegar sobre qualquer parte do corpo s para ali deixar uma forte
mancha roxa. Ela gostava que eu trabalhasse em cima dela desde
que contasse episdios inventados de guerra e de morticnio e muitas
vezes, quando eu descrevia o desfecho, um hussardo espetando a
espada no peito do inimigo, ela me pedia chorando que ainda no,
ainda no. Eu ento prolongava o duelo sangrento at que ela
estivesse realmente preparada para o golpe final. Depois vim a saber
que ela repetia a mesma histria para o marido, sabia a hora exata
em que o oficial enterrava a espada no contendor. Voc precisava
conhecer as mulheres russas.
      - Quantas mulheres essa tal de Izabela vai trazer?
      - Quatro, o que voc pediu disse Grndling.
        No era exagero. Em Sitcha ele costumava reunir num s
quarto oito mulheres. Mestias especiais, pele da cor de azeitona. O que
doa mesmo era a ingratido desses colonos. Querendo a sua
cabea, procurando intrig-lo com a Coroa, indispondo as autoridades
contra ele. Bateu com a mo numa pequena mala de couro, tenho
aqui dentro documentos, provas, cartas escritas pela prpria
imperatriz. D. Pedro satisfeito com os soldados mercenrios. E no s
com os soldados, com os cavalos tambm, que largava tudo o que
estava fazendo, audincias, despachos, Domitila, s para passar
horas nas cavalarias, dando ele mesmo roletes de cana enquanto
alisava as tbuas do pescoo dos belos animais.
      - Prometi a essa gente tudo aquilo que me foi autorizado.
Agora essa conversa de que a Constituio no permite isso, no
permite aquilo. Deviam ter dito antes. Agora que se danem. Sabe,
que se danem - disse o major.
        Acima de tudo, o imperador queria soldados. Teve os soldados
pedidos, ele mesmo os recebera no porto, esfregava as mos de
satisfeito sempre que encontrava um mais alto do que ele, medindo-os
espdua contra espdua, na frente de todo o mundo. Pensava, esses
alemes vo fazer filhos nas mulheres da terra, surgir uma gerao
de homens altos e fortes, louros, rosados. Ah, esse imperador.
Levantou a garrafa no ar, de gargalo para baixo, nem uma gota mais.
Acabou a bebida nesta casa? Grndling abriu outra. Seria melhor
moderar, seno Izabela no encontraria ningum para abrir a porta.
As pobrezinhas sairiam virgens.
        Grndling quis voltar ao assunto dos imigrantes. Se eles nada
recebessem, os seus negcios marcariam passo. O major fez um


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gesto de enfado com as mos. Os imigrantes que fossem  merda,
estava cansado deles, no queria mais ouvir falar neles. Por favor,
quero falar de coisas mais agradveis. Volto amanh como vim, no
quero ver a cara de ningum. Estava meio bbado. Se Izabela
trouxer mulheres velhas tiro a roupa de todas e largo a cambada do
lado de fora da porta, como nasceram. Grndling pediu que ele
ficasse tranqilo, Jzabela era de confiana. Ouviu leves batidas,
levantou o dedo indicador, alegre:
      - So elas. Veja, esto chegando.
        Foi at a porta, abriu meia folha, as mulheres se esgueiraram
pela fresta, elas se amontoaram nos degraus enquanto Grndling
trancava a fechadura, conduzindo o grupo at o amigo esparramado
no cadeiro. Schaeffer reclamou a escurido da sala, no via
direito, queria mais luz.
      - Cheguem mais perto. Tragam o lampio aqui.
        Grndling obedeceu, as quatro moas formaram uma fila 
frente de Schaeffer, Izabela fazendo mesuras.
      - Tirem as capas - ordenou Schaeffer - isso aqui no 
nenhum convento. Belas meninas, pois no. E as roupas, que diabo,
vo ficar vestidas o tempo todo? Ou so meninas de colgio?
        Elas riam entre si, sem entender. Grndling traduziu o que
dizia o amigo e Izabela tratou de fazer com que as moas
obedecessem. estavam diante de fregueses para os quais nada poderia
ser negado. Estava frio, ela sabia disso, mas fazia parte do trabalho.
Ia ajudando e amontoando as roupas no brao, de vez em quando
sorrindo para o major, como a dizer que tudo estava saindo como
ele queria. Grndling foi at uma prateleira e de l trouxe um
vidro de cristal.
      - Para esquentar, um clice de licor dos Trs Suspiros.
        Enquanto servia, explicava para elas os segredos da bebida.
Aguardente, acar, coentro, anis, limo e sementes de anglica.
Se tem alguma coisa mais, no sei. Ao primeiro gole a pessoa
comea a sentir um calor de dentro para fora. Izabela provou, tossiu
e disse para Grndling que jamais havia provado coisa igual. Fez
as meninas beberem, elas assustadas, nervosas, agarradas umas nas
outras, como que envergonhadas diante do estranho, que Grndling
era de casa. Schaeffer ria-se, olhar vago, braos pendentes. Olhou
para o amigo e disse que queria urinar. Grndling explicou para
Izabela e os dois ajudaram-no a levantar-se. A meio caminho o
major parou, virou-se e chamou por uma delas. Disse mole para
Grndling que no queria ajuda de Izabela e sim das moas. Era bom


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que elas comeassem a conhecer um homem de verdade. Grndling
e uma das moas entraram com Schaeffer num dos quartos onde
um lampio de chama fraca deixava ver num dos cantos uma
bateria de urinis de porcelana, com grandes tampas decoradas. As
outras trs permaneceram na sala, medrosas, enquanto
terminavam de despir-se. Momentos depois ele retornava, seminu, ainda
amparado, arriando-se na mesma cadeira, agora com duas grandes
almofadas rapidamente colocadas pelo dono da casa. O membro
murcho, cado da braguilha, ele sorrindo sem enxergar, falando
coisas que ningum entendia. A um gesto de Grndling duas das
moas vieram para junto do major, escondendo risinhos timidos,
enquanto ele deixava a cabea cair sobre o peito. Grndling, sbrio,
carregou com as outras duas para um quarto e fechou a porta por
dentro. Izabela aninhou-se a um canto, envolta no seu grande chale
de l,desinteressada pelo que estava acontecendo, apenas fazendo
as contas de quanto poderia cobrar de Grndling, no dia seguinte.
Dependia tudo do tempo em que ali ficassem.
        Grundling poupara meia garrafa de rum, sabia que era
preciso dividir as coisas. Izabela ouvia os rudos do quarto e olhava
para o major dormindo agitado na poltrona. Fez um sinal
para as meninas, que vestissem as roupas, a sala estava fria,
Schaeffer acabado. Dali ouviam as risadas das companheiras de
Grndling contrastando com o pesado silncio da rua. Que estariam
fazendo os fregueses do salo da ladeira de So Jorge?
        As meninas sentaram ao lado de Izabela, confahulando em voz
baixa, percorrendo o olhar pela grande sala bonita, as poltronas
confortveis, a grande mesa central de ps torneados. Receberiam
alguma coisa  pela companhia feita ao major bbado? A paraguaia
mandou que elas se calassem, o assunto de pagamento era com ela,
deixassem por sua conta.
        A porta do quarto se abriu e Grndling surgiu de ceroulas,
despenteado caminhando direto para a garrafa de rum que ficara sobre
a mesa. Parou um instante, olhou o amigo que dormia, disse para
Izabela que essas coisas acontecem quando os homens tm
problemas e resolvem beber enquanto as mulheres no chegam. Foi uma
pena, realmente uma pena. O major sabia lidar com mulheres - era
uma das suas especialidades. Izabela disse, o rum tambm. Ningum
pediu a sua opinio, se quer saber. Foi at um guarda-loua de
grandes vidros facetados, abriu uma gaveta, remexeu l dentro e voltou
com a mo cheia de dinheiro, entregando-o a Izabela. Ali mesmo
as duas receberam a sua parte. Surgiram do quarto as outras duas,
abotoando as roupas e amarrando cadaros.


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        Uma delas disse para Izabela:
-        Esse alemo o que quer mesmo  beber.
-        Mas paga bem e isso  o que interessa, sua boba.



5 Joo Daniel Hillebrand, mdico de bordo que um dia chegara
ao Brasil recomendado  Imperatriz Leopoldina, enche-se de
brios com a Guerra Cisplatina, os castelhanos invadindo
territrio brasileiro, agora tambm terras de seus patrcios que
continuavam a chegar regularmente, redige um memorial endereado ao
Brigadeiro Salvador Jos Maciel, colocando os alemes a servio
da causa nacional. Trinta e sete colonos marchariam como
voluntrios para os campos de batalha. O presidente achou pouco.
Finalmente havia cinqenta deles, treze dos quais no lao, arrancadas
das suas mos as enxadas e colocadas no lugar delas velhas
espingardas de carregar pela boca. Companhia de Voluntrios Alemes,
Joo Carlos Mayer entre eles, j que haviam descoberto que o seu
fraco eram as armas. Trouxera muitas armas contrabandeadas na
fronteira. Nos primeiros dias de treinamento, a coisa se complicou.
Eles no entendiam as ordens dadas em portugus. Meia-volta-
volver, eles parados, vendo primeiro o que os outros faziam, Os
pelos-duros rindo das trapalhadas. Recebiam ordens e no cumpriam.
Como castigo, vinte chibatadas no lombo, na frente das tropas.
Pedro Meng se enforcara nas traves de uma cancela, pela vergonha
de apanhar na frente de seus companheiros alemes. Ento
passaram a cavar latrinas, limpar armas, lavar cavalos. Isso eles
entendem, dissera um oficial brasileiro. O Dr. Hillebrand revoltado com
o tratamento que estava sendo dado aos seus homens. Escreve outro
memorial ao presidente da Provncia, historiando os vexames, os
sacrifcios, as chibatadas, como se fossem negros escravos.
        Conseguem, finalmente, formar os Lanceiros Imperiais
Alemes, comandados os homens por oficiais falando a sua prpria
lngua.
Desfilaram um dia pelas ruas de So Leopoldo, abanando para
as mulheres e os filhos pequenos, marchavam para os lados da
fronteira. Mayer sem tirar da cabea a imagem da mulher nova
esperando filho, a enorme barriga sacudindo a cada abano que dava,
as lgrimas escorrendo pela cara. Deixara duas espingardas de
espoleta e instrues para que trancasse portas e janelas  noite, que
os bugres sabiam quando no havia homens em casa. Ao pri-


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meiro sinal deles deveria espetar a arma num buraco da parede e
atirar. Os vizinhos acorreriam em socorro.



6 Philipp avistou vultos vindos de Rio Grande e deu o aviso
costumeiro l do alto. Comeou a correria. Quando o piquete de
soldados brasileiros chegou, tudo transcorria normalmente. S
que havia e duas horas depois desapareciam no rumo do Chu. Daniel
Abraho, de sua toca, ouviu desaparecer na distncia o rudo das
patas dos cavalos brasileiros. Ele sabia que eram brasileiros.



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IV


1 Hillebrand reuniu os colonos no centro de um descampado que
chamavam de praa. Estava imponente, cercado pelas
autoridades locais, um delegado de polcia que falava alemo, um
padre, um reverendo, o Pastor Pedro Stilenbauer -  sobrevivente do
naufrgio do bergantim Flor de Porto Alegre, acontecido nas
proximidades da povoao de Mostardas - um representante do
inspetor de colonizao, e ainda dois escravos que sustentavam um
pequeno mastro onde tremulava a bandeira imperial.
        Os colonos - homens, mulheres e crianas - formavam um
aglomerado confuso e inquieto, todos assustados, muitos deles vindos
das picadas mais prximas, sempre  espera de ms notcias.
Outros, ainda, acreditando que o mdico anunciaria a chegada de
dinheiro para o pagamento das dirias em atraso.
        Hillebrand fez um gesto pedindo silncio. Com voz grave
anunciou que havia nascido na cidade do Rio de Janeiro o plncipe
herdeiro D. Pedro. A imperatriz-me passava bem e grandes festas
estavam sendo realizadas em todo o pas, comemorando to grato
evento. O Pastor Stilenbauer cutucou o mdico e segredou-lhe que
seria bom anunciar que o assunto das dirias atrasadas estava a bom
caminho. Ele sabia que isso estava interessando mais quela gente.
O mdico hesitou. Sentiu um certo escrpulo em misturar as duas
coisas, ainda mais que sabia das marchas e contramarchas das
dirias em atraso. O outro insistiu. Os colonos permaneceram apticos
com a notcia do nascimento do prncipe-herdeiro. Mais uma vez
Hillebrand pediu ateno:
-        Ao dar to auspiciosa notcia...
        Ele no achava as palavras adequadas, complicava as frases,
mas podia dizer que o governo da provncia estava diligenciando
para que a Corte mandasse o numerrio pedido para saldar uma


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dvida to importante para o progresso da Colnia. Citou o nome
do Presidente Fernandes Pinheiro - estaria mesmo esse homem
mexendo um dedo em benefcio daquela pobre gente? - um homem
que passava os dias preocupado em tudo dar de si em prol da
coletividade. Repetiu sem querer "em prol da coletividade", quando
justamente buscava palavras mais simples, ao alcance daquela pobre
gente. Quando disse "em breve todos recebero as dirias em atraso"
foi que percebeu a alegria que tomava conta de todos, os casais
se abraando, outros em passo de dana, afinal receberiam o
dinheiro. A pouca gente que assistia  cena, de longe - sabiam que
o filho da imperatriz havia nascido - ficou comovida com a alegria
daquela gente - gente que se mostrava to grata para com o Imprio,
apesar do sofrimento e das privaes que passavam todos.
        Hillebrand voltou para casa na companhia do pastor,
preocupado com o abandono a que haviam relegado aquela pobre gente.
Estava disposto a viajar at Porto Alegre e, de viva voz, relatar ao
presidente os seus fundados temores quanto ao sucesso da
colonizao em to boa hora iniciada. Nervoso, limpava as grossas lentes
de mope polindo os aros de prata. O Pastor Stilenbauer lembrando
ao mdico que fora o prprio presidente o autor daquela idia de
repovoar com alemes os Sete Povos das Misses, quando os
espanhis j haviam devastado aquela provncia, entregando aos
imigrantes uma terra arruinada, a no ser as supostas vinte mil
cabeas de gado que viviam pelas cercanias, em estado selvagem.
Hillebrand disse, o reverendo devia saber que o governo mandara para
l apenas a escria mandada da Europa pelo Major Schaeffer. Que
alemes haviam sido remetidos para l? Bbados e vagabundos,
criminosos comuns, desajustados. Stilenbauer descrente. pois que o
doutor esperasse, dentro em breve todos seriam bbados e
vagabundos, do modo que as coisas iam. Encontrava freqentemente chefes
de famlia nos bares e botecos, bebendo para esquecer. Hillebrand
recolocara os culos, caminhou at uma velha cmoda e de l
retirou um mao de papis. Falava enquanto catava documentos e
anotaes. As levas de alemes viajaram quase dois meses nas
piores condies possveis. At Rio Pardo haviam seguido de canoa
com velhas toldas e de l para a frente em carreta de boi. Que
fazer numa viagem dessas? Beberam e brigaram durante todo o
trajeto. Um deles, Frederico Walfarth, morrera a cacetadas em
mos dos prprios companheiros. Ele vivia provocando brigas,
intrigando, ofendendo as mulheres. Em muitas ocasies o prprio
Capito Jos Bernardes fora obrigado a sacar da arma ameaando de
morte os mais insubordinados, tais foram os desacatos sofridos. O


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pastor dizia "que horror", O mdico desanimado, logo ele que
sempre fora otimista, pois nisso estava o erro das autoridades, dar
terra a quem nunca vira uma enxada, um gadanho, quem no sabia
distinguir um p de mandioca de uma ramada de feijo. Schaeffer
arrebanhara aquela gente nas ruas e bares de Hamburgo, Bremen
e Darmstadt. Stilenbauer disse, muitos voltaram do meio do
caminho, fugidos, andam por a feito mendigos. Hillebrand se
mostrava desanimado. Nunca fora chamado a opinar, fizeram o que
bem entendiam mesmo quando ele nem havia chegado ao Brasil.
Qualquer pessoa de bom senso veria que tais coisas no dariam certo.
trazer assim sem mais nem menos gente saturada dos grandes
aglomerados humanos da Europa, de repente jogada naqueles
descampados, matos e rios, paredes de serra, bugres atacando na calada da
noite. Pois viram no que tudo dera, ah. essa gente sem viso. O
pastor completou os comentrios de Hillebrand: e como acharam
que a obra estava inacabada, mandaram os remanescentes para So
Borja, comando do distrito. E como ficar a nossa gente naquelas
paragens? No falam uma palavra de espanhol e nem de portugus.
Morrero de fome por no saberem pedir o que comer. Onde
encontrar um intrprete? Para mim, um crime.
Ficaram os dois na janela, vendo a gente pelas ruas,
um soldado passou a cavalo e gritou viva o filho do Imperador e
desapareceu levantando poeira. Os colonos ainda continuavam
agrupados sem saber o que fazer.
      - Reze por eles, reverendo - disse Hillebrand. Bem que
esto precisando.



2 Grndling reformava a casa da Rua da Igreja. Revestiam a
fachada com azulejos portugueses. Trocavam telhas e
colocavam vidros coloridos nas bandeiras das portas e janelas. Cada
navio que chegava do Rio trazia da Alemanha encomendas e
presentes de Schaeffer: mveis, lampies belgas, tapetes, roupas de cama e
mesa, quadros, porcelanas e cristais, bebidas e licores, vinhos do
Reno, queijos suos e pratas. Mas continuava sendo uma casa triste,
de solteiro; as mes sonhando com aquele partido para as filhas
que olhavam a rua pelas frestas das janelas. Os pais temendo
qualquer interesse dele pelas meninas, afinal, um devasso de vida
irregular. ningum sabia de onde tirava o dinheiro, em que precisamente
trabalhava. Viam isso sim, a entrada de mulheres-damas, noite aps


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noite, no casaro imponente, todas elas vindas das casinholas da
Ladeira de So Jorge.
        Ningum, a no ser Izabela, ficara sabendo da presena do
Major Schaeffer em Porto Alegre. Mas IzabeLa era discreta, fazia
parte da profisso. Da Alemanha ele escrevera para Grndling
anunciando novas remessas de imigrantes nos prximos meses. Ao
todo, pretendia mandar mil deles, cerca de 160 famlias.
        Enquanto as sumacas despejavam aquela gente em Porto
Alegre, Schaeffer ia recebendo do General Brant, em Londres, as barras
de ouro prometidas em profuso pela Imperatriz Leopoldina. E
as sumacas se revezando nas proximidades da praa da Alfndega,
entre elas a Penha, Alexandria, Delfina, Tentativa, Carolina, os
navios Ana Luiza e Germnia. Grndling controlando a chegada
e contando as cabeas, juntamente com o inspetor de colonizao,
verificando os papis de cada um, anotando nomes e sobrenomes,
at mesmo das criancinhas de colo. Por estas, pagavam menos.
        O        inspetor alertou Grndling:
      - O senhor deve se cuidar. H muito imigrante achando que
a desgraa deles  toda culpa de seu amigo, o Major Schaeffer.
        Grndling j desconfiava disso e observou para o inspetor,
homem de leva-e-traz:
      - Pois no tenho nada a ver com o Major Schaeffer, a no
ser uma velha amizade dos tempos de Bremen. Estou aqui a mando
da Imperatriz Leopoldina para saber se tudo corre bem com essa
gente.
      - Ento, acredito, tem mandado dizer que as coisas no
correm bem.
      - Tenho. As providncias cabem ao presidente da Provncia
e no a mim.
        O        inspetor ficou examinando as unhas e depois disse meio sem
jeito, com timidez, voz semitonada:
      - Se  assim, j que o senhor  uma espcie de agente pessoal
de nossa imperatriz, convinha cuidar-se um pouco mais. Fala-se
muito numa povoao dessas, s vezes at sem razo nenhuma. Quase
sempre sem razo,  claro. Eu, por mim, estou certo de que tudo
no passa de falatrios. O senhor sabe...
      -No entendo, inspetor. Falatrio, falatrio sobre o qu,
podia-se saber?
      - Veja bem, Herr Grndling: eu disse que essa gente costuma
falar sem razo nenhuma. Alis, deviam ser castigados por isso.


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      - Eu lhe pediria, inspetor, que fosse mais claro. Falatrios
a respeito de qu?
        O        homenzinho ficou vermelho, apertava as mos suando:
      - Bem, senhor, falam mais nas visitas que o senhor recebe 
noite, O senhor tem todo o direito,  um homem solteiro, ganha
o seu dinheiro honestamente, no deve nada a ninguem...
      - E ento?
        - Mas acontece que o sobrinho do presidente mora perto, mora
na mesma rua, e tem reclamado o barulho e certas palavras que as
mulheres gritam, altas horas.
        - Pois saiba que esse tal de sobrinho anda falando por no
ter mais nada o que fazer. O senhor mesmo est convidado a
participar numa noite dessas, de uma das minhas reunies sociais. Fao
questo. Ver que a moral impera sempre. Isso de palavres, pura
mentira.
        O        inspetor Jos de Almeida Braga, substituindo o titular que
viajara para o Rio, era um homenzinho de um metro e sessenta, se
tanto, colete trespassado, botinas limpas e chapu-coco.
      - Seria uma honra muito grande, Senhor Grndling, mas sabe,
sou um homem casado, seria muito difcil sair depois das nove
horas num lugar como este nosso.
      - Deixe isso comigo. Uma noite dessas vou busc-lo para
uma reunio muito importante a respeito de imigrantes.
        O        inspetor estava vermelho e confuso. Grndling concluiu:
      - Quanto a esse primo ou sobrinho do presidente, no sei o
seu nome e nem me interessa. Quero que ele morra com n nas
tripas.



3 Cinco dias depois, uma tera-feira, Almeida Braga Ouviu
batidas fortes na porta de sua casa, nove horas da noite -
aquele alvoroo, o que poderia ser? - as filhas se preparando
para dormir, Grndling se divertindo com a correria e com o
murmrio l dentro. Depois silncio.
      - Quem bate? - perguntou o inspetor, engrossando a voz.
      - Grndling, senhor inspetor.
        Novos murmrios, apareceu uma rstia de luz pela soleira
irregular - ouviu-se a tranca sendo retirada. A cara do inspetor era
de espanto e medo, a mulher segurando o lampio, achando que
algo de grave teria acontecido para algum bater na porta dos outros
a tais horas. Grndling percebeu:


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        - A senhora fique sem susto, no  nada de maior. Acontece
que amanh de manh, muito cedo, chega uma sumaca vinda do
Rio e, pelo que sabemos, trazendo elementos perigosos e
indesejveis. - Fez uma pausa teatral, enquanto marido e mulher se
entreolhavam. - Resolvemos, ento, discutir o assunto ainda hoje
para sabermos que providncias tomar amanh. Sei que isso  muito
desagradvel, mas acima de tudo o dever de ofcio.
        A mulher perguntou a Grndling se no queria entrar,
enquanto o marido se preparava, era s enfiar o palet, pegar a
bengala e o chapu. Ele agradeceu, esperaria, ela que ficasse  vontade.
Almeida Braga pediu licena, no se demoraria; os dois ficaram
mudos, a mulher examinando a elegncia e as finas roupas dele.
um tipo comentado nas reunies de famlia, as esposas morrendo
de curiosidade para conhec-lo, muitas delas sem poder imaginar
o que poderia haver na casa rica, depois que portas e postigos eram
fechados  noite. Ela segurando a porta, s deixando entrever
meia cara. Ele de lado, olhando a rua morta, as poucas estrelas no cu.
Almeida Braga voltou, falando alguma coisa em voz baixa para a
        mulher. "no devo demorar". Grndling se despediu com uma
curvatura e saram os dois, o alemo empertigado  frente, o
inspetor logo atrs, saltitante.
        - Mas Senhor Grndling, eu nem podia imaginar, assim to
de repente.
        - Acontece, senhor inspetor, que havia uma reunio marcada
para hoje e eu achei que o senhor no devia perder essa
oportunidade.
        Quando chegaram na casa da Rua da Igreja foi preciso
Grndling insistir para que ele subisse os poucos degraus e ficasse 
vontade. Braguinha topou com um salo iluminado e, esparramadaS
pelas poltronas e almofadas, vrias moas alegres, grandes decotes e
estranhos penteados.
      - Este aqui  o meu caro amigo Almeida Braga, Braguinha,
para os ntimos, para quem eu havia prometido uma festa. Trata-se
de pessoa importante, nosso inspetor de colonizao. Apresento
aqui Dona Izabela senhora de grandes virtudes - todos riram, ele
dizia "um senhorr" - e aqui as suas prendadas sobrinhas, todas
elas moas treinadas para fazer com que um cristo chegue ao cu
antes da data marcada. Enfim, senhor inspetor, moas de boa
conduta na cama.
        Soltou uma gargalhada e empurrou gentilmente o inspetor para
o meio da sala. O homenzinho ficou ali, rodando o chapu entre


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as mos, vermelho e teso. "Muito prazer, muito prazer" era s o
que conseguia articular.
        Grndling fez um sinal para Izabela e serviu um clice, dos
grandes, com licor dos Trs Suspiros. Acomodaram O homenzinho
desconfiado numa poltrona, arrancaram o chapu de suas mos e o
dono da casa pediu que se fizesse um brinde ao inspetor de
colonizao. um homem reto, amoroso chefe de famlia e diligente
funcionrio pblico do Imprio. Almeida Braga sentiu o liquido descer
pela garganta, um nctar divino, muito diferente das cachaas dos
alambiques de Torres; um calor perpassando pelas entranhas, braos
e pernas leves, as caras pintadas das moas ao seu redor, o regao
de uma delas roando os seus bigodes, o colarinho engomado
saltando fora, a voz de Grndling sobrepairando a tudo:
      - Braguinha exemplar, um brinde ao belo filho da
Imperatriz
Leopoldina, o menino Pedro.
        Ao ouvir o nome de Sua Majestade, o Inspetor afastou as
moas que o sufocavam, levantou-se inseguro e exclamou estridente:
        - Viva Sua Majestade o Imperador do Brasil e sua augusta
esposa e seu augusto filho!
        Grndling fez-lhe um sinal pedindo para falar um pouco mais
baixo que o sobrinho do presidente da Provncia bem que poderia
ouvir seus gritos. As moas abafavam o riso com as mos em
concha, enquanto o Inspetor se deixava cair na poltrona pedindo
uma nova dose daquele licor celestial. Calma, senhor inspetor, este
licor  muito forte. Mas que diabo, beba que hoje  um grande
dia, acaba de nascer o herdeiro do trono, o senhor est fora de
casa depois das nove horas e, pela primeira vez na vida, cercado de
virgens cadas do cu. Pois muito bem, zum Wohl! Largou o clice
em cima da mesa, tirou a blusa de uma delas e se aproximou do
inspetor:
        - Veja, meu caro, passe a mo aqui, e me diga se alguma
esposa neste mundo apresenta coisa igual, to grande e to duros.
Vamos, faa uma carcia, a moa  boazinha.
        Pegou do pulso do inspetor e fez com que sua mo enrijecida
passasse vrias vezes no seio da moa que ria. Vamos, Izabela,
uma outra dose de licor ao nosso inspetor. Sentou-se no sof grande,
chamou duas das outras, quero que me ajudem a tirar essas roupas.
Estou sentindo muito calor. O diabo do inspetor parece de palha,
quem teria feito as suas filhas? Ah, ele est encabulado. Pudera,
Nunca viu nada parecido em toda a sua vida de exemplar
funcionrio pblico.


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        Levantou-se nu, pegou uma das meninas e carregou com ela,
de costas, at o inspetor:
        - O senhor j viu na sua vida, meu caro, uma bunda to
branca, to redondinha e to macia como esta aqui?
        Os dois promontrios foram levados at a cara deslumbrada de
Almeida Braga, embaciando os seus culos e obscurecendo o mundo
em redor.
        Madrugada alta, galos cantando, Braguinha acordou vestindo
apenas as grandes ceroulas de pelcia. Duas moas dormiam a seu
lado, os seios arfando, cansadas como as pessoas que perdem uma
batalha, as lamparinas bruxuleando. Viu Grndling acercar-se dele:
        - Foi uma lstima, senhor inspetor, mas ningum conseguiu
desamarrar os cadaros de sua ceroula. Foi mesmo uma grande
lstima. No pode imaginar o que perdeu nesta noite.
        Quando o inspetor chegou em casa, dia amanhecendo, o Guaba
uma grande bacia de prata - sentiu que no estava bem e foi
vomitando pelas paredes at que conseguiu chegar ao quarto, onde
acordada, lamparina acesa, o esperava a mulher, cara franzida sob
a grande touca de rendas. Tudo rodopiava. Ouviu a sua voz
esganiada:
        - A reunio terminou a esta hora, Juca? E o colarinho onde
ficou?
        Deitou-se assim mesmo. O nico som de que se lembrava,
quando acordou ao meio-dia, foi o dos soluos envergonhados da
mulher. Seus gritinhos de "ai, Jesus" e o barulho do arroto que
dera, empestando o quarto inteiro.



4 Juanito desaparecia e passava o dia inteiro na casa de Jos
        Mariano, na Medanos-Chico. Ajudava no aparte das ovelhas
e dos borregos, carneava e salgava a carne dos abates,
regressando  estncia dos alemes ao cair da noite. Levava sempre algum
presente, um costilhame gordo para o assado, uma medida de erva-
mate ou meia sacola de farinha de trigo. Catarina reclamava pelas
ausncias, mas ele no entendia bem e alegrava os olhos dela com
as coisas que levava. O inimigo desaparecera, tanto de um lado
quanto de outro. Naquela noite Catarina foi at a borda do poo,
tirou a tampa, chamou pelo marido. Ele ainda no havia comido,
disse que podia baixar o prato dentro do balde.
      - Acho que hoje j podes subir e comer aqui em cima -
disse ela.


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      - Subir? Ests ficando louca, mulher?
Queres entregar o meu pescoo a essa gente? No vou subir.
        - Daniel Abraho, tu vais terminar paraltico a embaixo sem
poder esticar um brao ou uma perna.
        - Prefiro ficar entrevado a me deixar enforcar naquele galho
da figueira. Desce a comida, eu no vou subir.
      - Pois eu te digo que vai subir. At agora tomei todas as
decises e bem ou mal salvei a tua pele. Mandei fazer uma escada
larga e dois dos negros vo descer para te ajudar. No h ningum
por perto e se vierem no te encontraro.
        Os negros j estavam perto, a um sinal de Catarina levaram a
escada at o poo e comearam a desc-la. A parte de baixo
enterrou na areia do fundo, a de cima quase alcanando a borda.
Juanito tambem veio e dependurou um lampio na trave onde
corria a corda. Dois negros desceram.
      -No vou conseguir subir na escada, Catarina - disse Daniel
Abraho l debaixo, com voz trmula.
      - Pois eles foram para te ajudar. Deixa isso por conta deles.
        Ela viu quando os homens seguraram os braos do marido,
quando ele se apoiou na escada, um negro de cada lado iando o
corpo Inerte que mal se sustinha nas pernas. J quase na borda,
segurou a mo da mulher, os escravos pularam para fora e o
agarraram pelos braos. Foi depositado no cho, sentado.
      -No sei mais andar, Catarina. Se eles aparecem de novo
no vou poder correr, me pegam no cho como um animal. Eu no
devia ter sado.
      - Vais reaprender a andar, no nasceste assim.
        A um sinal, os dois negros o levantaram do cho, fizeram com
que passasse os braos em torno do pescoo de cada um e
comearam a andar. Catarina e Juanito atrs, olhando. Perto da porta
da casa ela apanhou a banqueta e mais adiante disse a ele que
bastava e o ajudou a sentar-se. Daniel Abraho estava ofegante.
      - Achei que no fosse agentar.
        - Agora espera a, vou trazer a comida. Juanito preparou um
assado especial para a noite de hoje.
        Catarina trouxe Philipp para ver o pai, o guri meio arredio,
assustado, Daniel Abraho diferente, com aquela enorme cabeleira,
a barba chegando ao peito. Ele puxou o filho para junto de si,
abraou-o apertado, disse que era um menino muito corajoso, que
estava muito orgulhoso dele e que ele no ficasse triste, pois estava
chorando de alegria. Agora queria ver a filha. Estava dormindo,
mas queria ver assim mesmo. Mal a conhecia. Catarina voltou com


63


a filha nos braos, passando-a para o colo do pai. Tragam luz, pediu.
O        ndio veio correndo com o lampio que deixara no poo. Carlota
dormindo, as lgrimas de Daniel Abraho encharcando a barba
ruiva.
        Depois de comer, deu outra caminhada curta, sempre
amparado pelos dois negros. Desceu com dificuldade para a sua toca,
ouviu o rudo da recolocao da tampa e dormiu acariciando o
rostinho imaginrio da filha.



5 Daniel Abraho preferia sair do poo durante o dia, quando
Philipp, do alto da figueira, ficava de sentinela. Apanhava sol,
aspirava a plenos pulmes o ar salitrado que vinha do Leste,
fazia pequenos trabalhos de horta e se divertia olhando a filha,
vendo o filho acomodado no seu jirau de taquaras. Antes do
do-sol se recolhia, depois dessa hora os olhos atentos do filho de
nada serviam e ele podia ser encontrado por algum piquete
avanado das tropas em guerra. Mas alguma coisa devia estar
acontecendo ou a guerra teria acabado. Por falta de informaes, era
melhor precaver-se. Dormia sempre na toca, agora melhorada, os
negros descendo para ajudar nas escoras, para aumentar o espao,
havia sempre um pequeno estoque de comida e gua, para a
eventualidade de os soldados retornarem e mais uma vez ficarem por
ali nos caponetes.
        Um dia Philipp deu sinal de gente  vista, agora das bandas do
Uruguai. Correria, Daniel Abraho voltando ao poo, a tampa
recolocada, sobre ela achas de lenha e caixas de muda. Era um
cavaleiro s. Chegou, foi recebido por Catarina, conversou meia hora
com ela e prosseguiu viagem para Rio Grande. Ela abriu o poo,
o marido subiu a escada e botou apenas a cabea de fora.
        - Um alemo que veio de Montevidu. a guerra continua,
nos trouxe ms notcias.
        - Que ms notcias?
        Harwerther foi degolado por soldados da Argentina. Ele
conheceu Harwerther e viu a cabea dele, no dia em que foi morto.
        Daniel Ahraho ficou com os olhos midos e pediu um trago.
Afinal, era seu amigo e havia se envolvido naquilo apenas para
arrumar a vida, sem adivinhar o que poderia acontecer.
-        E que mais disse o homem?
      - Pouca coisa mais - falou Catarina, pensativa. - Muita
coisa no entendi. Estava a servio de um tal de Frederico Bauer,


64


alemo que apareceu em Buenos Aires e que se diz emissrio dos
alemes do Brasil. Disse que os alemes, agora, querem lutar do
lado de l. No sei, no. Alguma coisa est acontecendo que a
gente no entende.
        Daniel Abraho viu o filho no seu posto e saiu da toca. Pediu
o        machado para cortar lenha, queria fazer um exerccio mais
violento. Cada machadada era como se acertasse em algum. Estava
com dio, no sabia bem do qu. Mandou Philipp descer da figueira
e jantou naquela noite dentro de casa, com a famlia. Ajudou a
deitar os filhos, mandou os escravos se recolherem e viu quando
Juanito se dirigia para a carroa onde dormia. Ficaram s os dois,
sentados do lado de fora da porta, quase sem falar. Pegou
Catarina pela mo, levando-a para um monte de pasto que havia sido
cortado aquela tarde. Esparramou o pasto com o p, ela tirou a
saia rodada e forrou a cama improvisada, despiu a blusa e deitou-se.
Daniel Abraho comeou a tirar a roupa com vagar, temia haver
desaprendido.



6 Um dia vieram cavaleiros de Rio Grande. Ao se aproximarem
Catarina viu que eram brasileiros. No mais que vinte. Quando
apearam, um deles, alemo, falou com Catarina. Ela ficou
emocionada quando ele disse que era de So Leopoldo. Identificou-se
como sendo Valentim Oestereich, natural do Gro-Ducado de Hesse,
chegado ao Brasil por obra do destino, pois viajava na galera
holandesa Company Patie, aprisionada pela marinha imperial, quando se
dirigia para Buenos Aires. Perguntou se ela vivia s naquela regio
e vendo as crianas, quis saber do pai delas. Catarina armou um
ar de tristeza:
      - Ele foi aprisionado pelos gringos e levado para os lados de
Montevidu. E por que anda o senhor por estas bandas e vestido
de soldado?
      - Deus pe e o diabo dispe - disse ele. - Levado para So
Leopoldo, terminei obrigado a sentar praa.
        Juanito providenciou uns mochos para tomarem chimarro
sentados,  sombra, enquanto os demais soldados davam gua para os
cavalos e tratavam de comer o que era oferecido pelos escravos.
Catarina perguntou como estava a colnia de So Leopoldo, pois
viera de l, se todos haviam recebido a terra e o dinheiro
prometidos pelo governo.


65


      - Terra, quase todos receberam - disse Oestereich - mas o
resto parece que continua na mesma. Tudo muito atrasado ainda
e agora a coisa piorou com esta guerra. O Dr. Hillebrand ofereceu
ao governo trinta e poucos voluntrios alemes para ajudar as tropas
brasileiras.
        - O        senhor foi um deles.
        - No. O presidente da Provncia achou pouco e terminou
completando a Companhia de Voluntrios Alemes com gente
recrutada. Entre eles eu.
        - E que faz por aqui, neste corredor de lagoas e de areia?
        Pois parte desses homens foi mandada para Rio Grande,
havia notcias de incurses de inimigos por esta faixa de terra. A
cidade est sendo fortificada e ns fazemos as vezes de batedores.
Qualquer movimento suspeito a gente volta e d o aviso.
        Sol a pino. Juanito providenciou um churrasco de charque-de-
sol de dois dias, com mandioca e farinha de pau. Para comear, um
copinho de cachaa trazida pelos prprios soldados. Catarina
mostrou ao compatriota os filhos. Philipp bastante grande, alemo
mesmo, nascido em Hamburgo. veio para c com quase cinco anos,
Carlota chupando um dedo, arredia.
        - E pelo visto, um outro a caminho - disse o homem
apontando para a barriga j saliente.
        Catarina corou, passou a mo no ventre, ficou sem saber o que
dizer.
        - Mas seu marido foi levado h pouco, pelo que vejo. A
no ser...
-        No faz muito - gaguejou nervosa.
        - Como se chama o seu marido?
        Ela teve vontade de inventar um nome qualquer, mas a coIsa
saiu espontnea:
        - Schneider.
        - Daniel Abraho Schneider, pois no. Sei quem . L em
So Leopoldo falaram uma ocasio no nome dele. Um tal de Mayer
disse que ele contrabandeava armas nossas para os castelhanos.
      - Pois Mayer mentiu - disse Catarina - as armas que
passaram por aqui vieram das bandas do Uruguai para So Leopoldo.
Como Joo Carlos Mayer teve coragem de inventar uma coisa
dessas?
Oestereich ficou meio sem jeito.
      - Bem, estou dizendo apenas o que ouvi. Mal conheo esse
Mayer. O fato  que h uma ordem em Porto Alegre para pren-


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derem seu marido. Desculpe, mas eu no tenho nada a ver com
iSSO.
        Comeram em silncio, Catarina queimando por dentro, mal
podendo engolir. Perguntou ao alemo:
      - O senhor j ouviu falar num tal de Grndling? Cronhardt
Grndling?
        Ele fez um ar de surpresa, passou as costas da mo na boca,
limpando a farinha engordurada.
      - De onde a senhora conhece Grndling?
      - De So Leopoldo. Por que?
      - Grndling mora hoje em Porto Alegre, era agente secreto
da imperatriz. Trabalha tambm para um tal de Major Schaeffer,
hoje na Alemanha a servio do Imprio.  agenciador de
agricultores e de soldados tambm. Ns, que viemos no Company Patze,
no aceitamos as suas ofertas e preferimos Buenos Aires.
Infelizmente l no chegamos.
      - E Grndling ainda trabalha para a imperatriz?
      - Para a imperatriz? - disse Oestereich confuso - mas ento
a senhora ainda no sabe que a imperatriz morreu?
      -No sabia, no.
      - Pois morreu no Rio justamente quando D. Pedro I visitava
a cidade de Rio Grande, preocupado com essa guerra. Quando
recebeu a notcia, voltou imediatamente para a Corte.
        Catarina comeou ento a falar em voz to baixa e to
indiferente  presena de Oestereich, que ele achou que a mulher no
estava muito boa da cabea. Afinal, viver naquele fim de mundo,
com trs crianas, sem marido, alguns escravos e um ndio meio
torto, bem que podia deixar as pessoas variando. Ela disse:
      - Ento a imperatriz morreu; Dona Leopoldina, filha da Casa
dos Habsburgo, amiga apaixonada do Major Schaeffer, protetor de
Grndling e de toda a sua gente. Agora o nosso amigo sem a
imperatriz, Schaeffer na Alemanha sem a imperatriz. Isto at que est
ficando engraado.
        A se deu conta da presena de Oestereich que a olhava sem
compreender.
      - Isso muda muito as coisas, Herr Oestereich.
      - O que, o imperador vivo?
      - Isso mesmo, o imperador vivo. O senhor no acha que eu
tenho razo?
        O        alemo riu e continuou roendo a sua costela gorda. Chupou
os dentes, limpando-os da carne entalada e concordou:
      - Pois se a senhora acha que muda, muito bem, muda mesmo.


67


        Os soldados tiraram uma sesta debaixo das rvores e a seguir
comearam os preparos para regressar.
      - A senhora no quer nada para Rio Grande? - perguntou
Oestereich j montado, enquanto os outros partiam.
      -Nada. Obrigada. Se encontrar Herr Grndling diga a ele
que Catarina Klumpp Schneider lhe manda lembranas. Ele me
conhece muito bem. At demais.
      - Direi isso a ele, se por acaso encontrar o homem, o que
acho muito difcil. Grndling  muito importante para receber um
simples soldado.
        Partiram a galope, deixando Catarina parada, olhos perdidos no
descampado que comeava a ficar arroxeado com o cair do sol, os
primeiros morcegos a ziguezaguear por entre as casas e rvores.



Daniel Abraho no esperou que o piquete sumisse. Saltou do
poo e quis saber da mulher quem era o soldado alemo. Ela
        disse: um tal Valentim Oestereich. O marido acrescentou: dos
lados de Hesse.
      - De l mesmo Catarina falava como se tivesse o
pensamento distante. - Disse que a Imperatriz Leopoldina morreu, que
Grndling mora em Porto Alegre e que Schaeffer ainda est na
Alemanha arrebanhando gente. O imperador soube da morte da
esposa quando estava aqui perto, em Rio Grande. Voltou logo, com
a notcia. V, Daniel Abraho, Grndling em Porto Alegre, figura
muito importante.
        - Ele deu notcias da Colnia? De Joo Carlos Mayer?
      - Deu. Mayer foi quem disse que o seu grande e velho amigo
Schneider fazia contrabando de armas para os castelhanos.
        Daniel Abraho ficou espantado, olhando para a mulher, como
se recusando a acreditar.
      -No pode ser. Esse Oestereich mentiu.
      - Eu acho que no, nem tinha necessidade disso. Para mim,
isto foi obra do prprio Grndling, para salvar a pele.
        - Mas eu no entendo. Bastava dizer a verdade.
      -No convinha. De qualquer maneira era contrabando, era
coisa ilegal.
        - Depois dessa - disse Schneider fica-se sem acreditar em
mais nada, em mais ningum.
        Catarina deixou o marido, encaminhando-se para a porta da
casa.
        - No quer aproveitar e comer a janta antes de descer?
        Durante a comida no trocaram uma palavra. Cada naco de
carne descia pela goela embrulhado num pensamento confuso.
        Meio da noite, na sua toca, Daniel Abraho sonhou com a ba-


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talha de Waterloo. Napoleo, s vezes, ganhava a figura de
Grndling, um Grndling pequeno e obeso. O velho corneteiro Schneider,
seu pai, assoprando desesperado, as veias do pescoo saltadas, e
depois caindo varado de balas. As tropas em debandada, os quadrados
flanqueados e desfeitos, os campos juncados de mortos e feridos,
armas abandonadas, seu amigo e companheiro Mayer sangrando,
pedindo que o salvasse. E ele sem tocar no corpo, vendo o sangue
sair dos ferimentos e alagar o capim pisoteado e molhar a sua
prpria roupa, as calas e as botas. Acordou chorando, urinado.
        Naquele ano nascia Mateus, nome que Daniel Abrahao quIs
dar em homenagem ao pai de Catarina. Um menino melado, branco.
alemo. Catarina no pegara filho daqueles soldados bandoleiros.
O menino era um Schneider. Mulheres do tipo de Catarina s
pegavam filho do prprio marido. O tero se fechava ao esperma
dos violadores. Animais de raas diferentes no procriam. Mateus.
alm de um Klumpp, era um Schneider.
        Ensinado por Juanito, Philipp j montava como um gacho, em
pelo e s de brido. Sabia preparar um braseiro para o assado,
capinava a horta como gente grande e da sua gvea improvisada
sonhava com um mundo bem maior e desconhecido, que no fosse
s cu e campo.
        A escrava Manoela tivera outro negrinho, eram agora dois.
Compravam trigo na estncia de Medanos-Chico e de l trouxeram
dois casais de porcos. O milho j era suficiente para os cavalos de
montaria e havia abbora para a criao dos sunos. As galinhas
punham ovos para o po caseiro, agora cozido num forno mais
aperfeioado, forno que depois passou a assar leites e o gordo
costelhame das reses abatidas.
        Juanito, com o brao esquerdo com meio movimento - que a
coronhada dos castelhanos lhe partira a clavcula e os ossos mal
soldados o deixaram de ombro cado - ia amide a
Chico. Descobrira l uma chinoca minuano encontrada ao lu em
Rio Grande e encaminhada para ser criada com gente de trato. O
dono da estncia, Jos Mariano, achou que Juanito era bom. fingiu
que no sabia do namoro, deixava que ele se exibisse em
demonstraes de fora, partindo lenha e arrastando toras. Ao cair da
noite mandava o ndio embora, que a moa tinha menos de quinze
anos e podia esperar. Catarina desconfiou que andava fmea para


69


aqueles lados e fechava os olhos para as ausncias de Juanito.
Ficara defeituoso por defender Daniel Abraho. Bastaria, naquele
dia, apontar o poo e fazer sinal para baixo. A velha e enformigada
rvore sustentaria no seu galho matador mais um corpo, o do seu
marido, pai de Philipp e da pequena Carlota.
        Juanito que tratasse de sua vida. Agora, em noites de
tempestade, quando os soldados desapareciam e deixavam a terra s deles,
eles se amavam, a casa indevassada, Daniel Abraho nos braos da
mulher, as tmporas latejando e o ouvido aguado, entre um trovo
e outro. Naqueles momentos, Juanito, encharcado at os ossos,
circulava pelos arredores com seu cavalo de patas de seda, olhinhos
atentos para o clarear dos relmpagos, os campos virando dia por
segundos contados.



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V


1 A menina alem devia ter, no mximo, dezesseis anos. O
cabelo de um amarelo leitoso, terminando em duas tranas
esfiapadas, pele desmaiada, dois grandes olhos azuis espantados,
seios midos que desapareciam sob o vestido de l que mais parecia
um trapo, um balandrau sem cor e sem tempo. Fora largada na
Rua do Passo, no centro de So Leopoldo, por algum que pouca
gente vira. Uma testemunha afirmava que o homem tinha cara de
ndio ou de castelhano, que chegara a galope com a menina na
garupa e que a largara como quem se livra de um saco. O
carpinteiro Joo Dieffenbach vira a cena atravs de uma fresta de sua
janelinha, o homem lhe parecera um desses caudilhos errantes que
se agregam a qualquer guerrilha de fazendeiro ou de posseiro. Como
um pequeno animal acuado, ela se encolhia toda diante das pessoas
que se aproximavam, lbios a tremer, prestes a desatar em pranto.
Toda aquela gente a falar e a bisbilhotar, uma velha disse que "ela
devia ser uma dessas que fogem de casa para virar mundo, cada
dia com um macho diferente".
        Apenas o Dr. Hillebrand, fisionomia sria e tranqila, pareceu
deseriar o bicho do mato. Ele perguntou muitas coisas, carinhoso,
falou no alemo mais simples que conhecia, pronunciando bem as
palavras; acariciava a sua mozinha trmula, como quem amansa
um potro, alisando as tbuas do pescoo, conquistando confiana
aos poucos. Perguntou seu nome: Gertrudes Brbara, Maria,
Henriqueta? Sentiu que ganhava terreno quando viu que ela comeava
a responder negativamente, sacudindo a cabea de leve. Hillebrand
pediu s pessoas que sassem, a menina estava por demais assustada
com a aglomerao.


71


        - De onde voc veio, minha filha? Como  seu nome? Fale.
Como voc se chama?
        Ela olhou bem em redor para ver se no havia mais ningum,
segurou forte a mo do mdico e disse um apagado "Sofia".
        - Muito bem, Sofia, voc quer comer alguma coisa? Est com
fome?
        Ela fez que sim com a cabea. Estavam agora na salinha de
frente da casa da famlia Werb. A dona da casa, Frau Gerda,
espiava da porta. Hillebrand pediu que a velha trouxesse, por favor,
algo para a menina comer. Quem sabe um copo de leite, um doce.
A metade da cara sumiu e voltou trazendo uma pequena tigela de
arroz-doce. Hillebrand foi a seu encontro na porta e pediu que ela
no entrasse na sala. Sofia arregalou os olhos para a tigela. O
mdico encheu uma colher e ofereceu o doce, mo parada  sua
frente, Sofia baixando a cabea e abocanhando a colher, faminta;
ento, com suas prprias mos, comeou a devorar tudo o que havia
dentro, raspando as sobras com os dedos.
        - De onde voc veio, minha filha?
        Quase colava o ouvido  boca da menina, tentando obter
qualquer resposta. Comeou a ouvir. Viera de So Borja para onde a
famlia fora levada dos Sete Povos das Misses. Seu pai,
Spannenberger, morrera degolado por gente de guerra. A me desaparecera
e ela fora carregada por um gacho de quem no sabia o nome.
Depois um outro homem ficara com ela, andando de povoado em
povoado. Um dia fora deixada na casa de um velho e l morara
muito tempo. No sabia quanto tempo. O velho morrera
assassinado e um rapaz de nome Pedro ficara com ela e depois os ndios
o mataram e ela ficou vivendo entre os ndios - um ms, um ano,
no sabia bem; como os bugres andavam em guerra conseguira
fugir at ser encontrada por um outro homem de melenas grandes
e pretas, para quem trabalhava e com quem dormia. Hillebrand
ouvia a histria sem esconder a sua ira, uma menina ainda e
aqueles selvagens nmades se cevando no corpinho informe.
        - E foi este ltimo homem quem te deixou aqui?
        Ela fez que sim com a cabea, olhando assustada para a porta,
como se temesse que ele voltasse e novamente a carregasse para o
campo, para as noites ao relento, chuva e sol. Fora largada ali
porque o bandoleiro estava sendo perseguido por soldados. O cavalo
no ia resistir ao peso dos dois. No sabia para que lado ele fugira.
        - Isso no importa, minha filha, voc agora esta segura.
ningum lhe far mal.


72


        chamou Frau Gerda e perguntou se a pequena poderia ficar
ali naquela noite, depois veria um lugar ou uma casa para abrigar
a menina.
        Na manh do dia seguinte Hillebrand encontrou Grndling que
estava a negcios na cidade. Narrou a histria da menina,
penalizado.
      - Eu sempre fui contra essa colonizao dos Sete Povos das
Misses. Veja o que aconteceu com essa menina. Ela  bem o
espelho de tanta desgraa - disse Hillebrand revoltado, olhos midos
atrs das grossas lentes.
      - Deixe que eu ajudo esta pobrezinha, doutor - disse ele,
impressionado com a tristeza e com a revolta do mdico. - Levo a
menina para Porto Alegre e me responsabilizo por sua educao.
Afinal  da nossa gente.
        Grndling ajudou o mdico na escolha de um vestidinho novo,
escolheu um par de sapatilhas de l. Fez questo de pagar tudo.
Depois se dirigiram  casa dos Werb. O animalzinho estava mais
calmo e confiante. Seus olhinhos brilharam ao enxergar o mdico,
encolhendo ante a figura imponente do outro, suas barbas ruivas e
suas belas roupas.
        - Sofia - comeou o mdico - este senhor  um amigo
meu e veio disposto a ajudar voc. Quer lev-la para Porto Alegre,
uma cidade grande e muito bonita. L voc vai ter tudo o que
quiser.
        Ela baixou os olhos, tranou os dedos e no disse nada.
      - Sempre que puder irei v-la - virou-se para o amigo: - o
senhor volta pelo rio?
      - Sim, doutor, acabo de comprar quatro lanches para
transporte de mercadorias. Voltarei num deles. A menina ter uma
viagem muito boa e confortvel, h uma casinha na popa com cama
e tudo.
        Na manh do dia seguinte - mal o sol despontara - Grndling,
acompanhado pelo mdico, foi buscar Sofia na casa dos Werb.
Ao sarem, Grndling deixou na mo de Frau Gerda algumas
moedas "pelo trabalho e pela boa vontade".
        O        lancho comeou a desatracar e Hillebrand guardou nos
olhos, por algum tempo, a expresso agoniada, quase de pavor, da
menina.


73


2 o lanceiro Joo Carlos Mayer marchava com a tropa
comandada pelo General Felisberto Caldeira Brant Pontes, Visconde
de Barbacena, da serra do Camaqu para os braos do inimigo,
urugu aios, argentinos e, tambm, alemes comandados por Alvear.
O Cirurgio-Mor Jos Knapp zelava pela sade dos lanceiros, seus
compatriotas, recrutados em So Leopoldo. Mayer fizera amizade
com o Quartel-Mestre Matias Drnte, e sempre que penetravam em
zona de mata, perdendo a viso das coxilhas, temia um ataque de
surpresa das tropas inimigas, que ningum sabia bem por onde
andavam. O amigo o tranqilizava, Brant mandara batedores  frente
e piquetes de cavalaria guarneciam as laterais, um deles sob as
ordens de Bento Gonalves. E de mais a mais, o inimigo devia andar
longe, possivelmente em terras orientais, que no se aventurariam
a penetrar territrio brasileiro. Nos bivaques noturnos, ao redor das
fogueiras, os alemes no se misturavam, formavam grupamentos 
parte, isolados pela lngua. De vez em quando eram vistoriados por
algum oficial, a mando, na certa, do prprio comandante-chefe.
A cavalhada exausta no permitia marcha forada, muitos animais
caiam de joelhos, deitavam e no havia fora humana e nem
chicote que os fizesse levantar. O soldado desmontado recebia outro
cavalo da reserva e antes de prosseguir descarregava a espingarda
na testa do animal, que ali ficava de olhos abertos, esperando os
corvos que acompanhavam a tropa em evolues lentas, planando
ao sabor do vento. Mayer, temeroso, advertiu o quartel-mestre:
      - Esses bichos miserveis vo terminar nos denunciando ao
inimigo.
      - Que nada, eles tambm andam por cima das manadas de
bois xucros. E assim como andam por cima da gente tambm
andam por cima dos castelhanos.  de quem enxergar primeiro, meu
velho. Urubu no escolhe bandeira, tanto faz imperial como
republicana.
        Ao cair da tarde, 19 de fevereiro, cavalos e homens suados, um
dia limpo de sol estorricante, foi dada ordem de alto, mas ao
contrrio dos outros dias, o bivaque seria curto, tempo apenas para
desensilhar os cavalos, comer qualquer coisa, tirar uma tora geral
para recuperar energias.
-        No estou gostando disso - falou Mayer ao Alferes Reiff,
ou se fica para dormir at de manh ou se continua.
      - Ordens do comandante-chefe - respondeu o alferes. -
Com certeza ele sabe o que faz.
      -No sei, no. Essa gente nunca sabe o que faz.
        A conversa dos dois foi interrompida por um chamado:
Soldado Joo Carlos Mayer!


74


      - Presente.
        o        sargento-Ajudante Mller postou-se  sua frente, mandou
que ele se perfilasse e ordenou:
      - Apresente-Se ao Major-Comandante Guilherme Yeates, junto
com o Soldado Grovel, para uma revista nas tropas alems.
Imediatamente.
        o        major-comandante caminhava a frente, passo marcial, fazendo
alto em cada companhia:
-        Primeira Companhia. Capito de Friederichsen!
- Alies in Ordnung!
      - Segunda Companhia. Tenente-Comandante David Gatiker!
- Alies in Ordnung!
        E assim prosseguiu at a sexta companhia. Tudo em ordem
com o Capito Plewcts, Capito de Marsev, Tenente Bormann,
Capito Henrique de Blow.
        Mayer retornou de mau humor. Bem que teriam podido
arranjar um outro boneco de engono para acompanhar naquela tolice.
Ou pensavam que algum dos alemes houvesse fugido durante a
marcha? Meu velho Drnte, quero uma cama de capim onde largar
o        corpo. Vou dormir com o nariz virado para o lado do vento, no
suporto mais o fedor do meu fardamento. Para falar a verdade
no suporto mais o fedor de todos ns. Aqui ningum toma banho
h mais de duas semanas. O quartel-mestre levantou o brao,
cheirou o sovaco, fez uma careta e concordou com Mayer.
      - Imagina s o cheiro desses castelhanos, tudo mestio com
negro e com bugre. Essas Tower, de pederneira, vo causar menos
estragos!
        Um destacamento especial carneou as vacas necessrias, a
carne foi distribuda, cada companhia preparou o seu prprio
braseiro e assou o seu churrasco. Os piquetes de sentinela se
embrenharam na escurido e a soldadesca dormiu ao relento, sobre os
pelegos. Recomearam a marcha antes das duas horas da
madrugada, um ventinho fresco varrendo os campos, os homens
sonolentos, O quartel-mestre sacudiu Mayer:
      - Vamos, homem, ou terminas ficando para trs.
-        Pois olha, bem que eu preferia.
        J dia claro, sol fora, seis horas, o exrcito imperial avistou,
do outro lado do Passo do Rosrio, os homens de Alvear e
Lavalleja, meia lgua, se tanto, coroando a elevao que ficava do outro
lado de uma sanga que dividia a frente de batalha. Barbacena e
Brown determinaram logo o desdobramento das tropas brasileiras.
As brigadas de cavalaria de Jos de Abreu e de Bento Gonalves,


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compostas de paisanos armados e de milicianos gachos, estavam na
vanguarda. O corpo de voluntrios do Baro de Cerro Largo,
miszura de paisanos vaqueanos da regio, pees de estncia, desertores
com indulto e gente agregada pelo caminho, mais parecia um bando
de malfeitores. No havia disciplina e nem fardamento, cada um
armado com o que havia conseguido, espingardas velhas, espadas
enferrujadas, lanas e adagas.
Os Lanceiros Alemes foram mandados para constituir o
primeiro corpo de vanguarda. Seguiram-se a eles o 27.o e o 28.o
batalhes de caadores, constitudos s de alemes, com exceo de
Major JeSUS, do Estado-Maior.
      - Vamos de carne para canho bradou Mayer para o
quartel-mestre.
        - Esses filhos de uma puta ficam aqui atrs, de binculo, no
fresquinho, a gente J naquele paliteiro de lanas dos castelhanos
-        disse Jos Knapp, cirurgio-mor.
        - O        negcio  que ningum sabe o que fazer.
        Ouviram repetidos toques de corneta, montaram, Mayer
apertava com dedos de ao o cabo de sua lana, por todos os lados
comearam a surgir os volteadores inimigos, o Coronel Arajo Barreto
deu o exemplo, a misso era limpar os flancos da infantaria, numa
corrida rumo  sanga que dividia o campo de batalha e ali os
castelhanos rodavam dos cavalos e eram trespassados pelas armas dos
alemes. Quando se reagruparam, Mayer gritou para o Sargento
Frederico Bunte:
        - Derrubei um do cavalo e o outro entrou pela minha lana
adentro, s passando mesmo o cavalo. Acertei na barriga como se
fosse num saco de milho.
        Os couraceiros de Buenos Aires j vinham novamente, os
alemes tornaram a avanar, a artilharia inimiga, de cima da coxilha,
atirava sem parar, Mayer viu quando a cavalaria de Bento Gonalves
era separada do grosso das tropas pelo arremesso da Diviso Lavalle,
viu quando os gachos irregulares de Abreu debandavam acossados
e viu, de repente, que estava em plena luta com alemes do Baro
Heine. Finalmente eles se entendiam com algum, distinguiam os
velhos palavres da lngua materna e no se queriam matar, era s
o        bater de espadas e o entrechoque de lanas. Mayer riu. Que
loucura mesmo, Keller. Achou que a coisa estava perdida, a infantaria
brasileira formava quadrados para impedir o assdio da cavalaria
castelhana. As vozes de comando eram gritadas a plenos pulmes:
primeira fila, fogo! segunda fila, fogo! cavalos e homens rodando,
agora em meio de densa fumaa do capim seco queimado, os


76


argentinos estavam ateando fogo no campo. Mayer ouvia com nitidez o
estalar das fecharias das pederneiras, as batidas dos slex nas
culatras de ao, o troar da artilharia inimiga e num ltimo entrevero
perde a lana e quase cai do cavalo. Deu de rdeas e voltou para a
retaguarda, perseguido de perto por um dos lanceiros de Heine. Uma
disparada que parecia no ter mais fim, o outro chegando cada
vez mais perto, brandindo a espada e gritando. Finalmente o outro
mandou que ele parasse, no queria mat-lo, rapaz a gente no tem
nada que ver com essa briga. Estaria entendendo bem? Era uma
artimanha, se ele parasse o outro viria com a espada e seria mais
um soldado morto no Passo do Rosrio. Foi quando o seu cavalo
rodou e ao bater com a cabea no cho perdeu por uns momentos
a conscincia. Quando abriu os olhos viu o soldado alemo de p,
espada ainda na mo, havia chegado a sua hora.
      - Rapaz, eu sou de Badenbach-Trier. Meu nome  Peter Sen
Ludwig.
      - Eu me chamo Joo Carlos Mayer. Por que voc no enfia
logo essa espada em mim. Vamos, est com medo?
        O        outro riu. Era o que devia mesmo fazer. Olhou e viu que
estavam longe da luta, sentou-se ao lado de Mayer e descansou a
arma no cho.
      - Voc no acha engraado a gente estar metido nisso sem
ter nada a ver com a coisa? - perguntou Ludwig desabotoando a
tnica empapada de suor.
     - , a gente sai da Europa por causa das guerras e vem para
c e  guerra de novo. Em qualquer lugar  assim.
      - Eu no quero mais saber de guerra. Fui obrigado a ser
lanceiro do Baro Heine e afinal a coisa foi divertida at ontem. Um
homem fora da prpria terra fica muito sozinho. E contra isso
qualquer coisa serve. Veja voc, encontrar um compatriota por aqui,
como inimigo. Sabe, o melhor  tomar um rumo qualquer e
desaparecer.
        - Voc quer dizer fugir.
      - Desaparecer mesmo - retrucou Ludwig. - Para voltar
agora eu precisava primeiro enfiar esta espada na tua barriga,
montar a cavalo e continuar na guerra. Olha para esta farda, 
diferente da tua.
-        Mas a lngua que ns falamos  a mesma.
        - Vejo que voc comeou a pensar certo. Que  que fazia
antes de se meter nesta coisa? - perguntou Ludwig.
        - De tudo. Fui agricultor, contrabandista de armas, ajudante
de ferreiro, mestre-escola, ajudei a empalhar bicho, um certo tempo


77


fui macerador de ervas para o preparo de remdios. Agora, como
est vendo, sou lanceiro alemo do lado imperial.
      - E eu lanceiro alemo do lado republicano. J ouviu falar
de Alvear? Se no ouviu, melhor. Homem violento estava ali. No
saque de Bag deixara que a tropa saqueasse as casas e violentasse
as mocinhas. Ele mesmo participara da festa, mandando buscar, 
fora, meninas para a sua carruagem. Uma delas conseguira
derrubar o homem da carroa, nu em pelo, fugindo campo a fora.
Ele ficou possesso diante dos soldados que riam daquela cena. E
nem  to valente como dizem. O Coronel Escalada dera-lhe uma
bofetada diante dos oficiais.
        Mayer achou melhor montar e partir. Devagar, que os cavalos
estavam mais mortos do que vivos. A fumaa do campo em chamas
no deixava que vissem nada, a no ser os estrondos dos canhes e
os tiros de espingarda dos quadrados, em compasso certo.
      -No me agento mais de sede - disse Mayer.
      -No demora se encontra um rio qualquer pela frente.
      - De fome, nem se fala. Comia um boi agora, cru mesmo.
        Os cavalos iam a passo, rdea solta, falavam sobre coisas da
terra, a noite comeava a cair. Mayer avistou uma linha de mato,
ao longe:
      - Vamos para l, deve haver gua.
        Era um crrego fino. Beberam gua com as mos em concha,
lavaram a cara e os braos, encharcaram os cabelos. Resolveram
dormir por ali mesmo, em cima dos arreios e pelegos. J quase
dormindo Mayer disse para o companheiro, que no respondeu,
estaria dormindo:
      -Nunca senti tanta fome na minha vida.



3 Quando Mayer acordou - o dia escuro de grossas nuvens ia
alto - viu as botas grosseiras, os culotes sujos, dlm
brasileiro, a cara barbuda de um oficial, o brao direito esticado,
na mo uma espada e a ponta da espada encostada na sua garganta.
S abriu os olhos, estremunhado. Qualquer tentativa que fizesse de
levantar-se, o ao enterraria no seu pescoo. Virou os olhos para
onde estaria Ludwig e viu que o compatriota estava mais ou menos
na mesma situao, s que era um sargento, com a espingarda de
baioneta calada. Quatro soldados surgiram do lado das rvores e
o tenente gritou ordens que nem ele e nem o amigo conseguiram
entender. Foram agarrados e postos de p, tiveram as mos amar-


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radas. Tenente, que negcio  esse, lutamos do mesmo lado, sou
da Companhia de Voluntrios Alemes. Esse rapaz a se chama
Peter Ludwig, estava nas tropas castelhanas mas veio para o nosso
lado. Que brutalidade, tenente, isso no se faz Com Um Co. Ento
ser levado assim, preso numa corda, a p, enquanto vocs bem
montados, vou me queixar para o Quartel-Mestre Drnte.
      - Eles no entendem uma palavra de alemo, Mayer - disse
Ludwig que caminhava apressado a seu lado.
      - E da, eu tambm no entendo uma palavra do que eles
dizem. Quero que vo para o diabo.
      - Se pelo menos a gente tivesse comido alguma coisa.
      - Olha l, dois soldados trazendo cavalos para a gente - disse
Mayer sem flego.
        O        grupo parou, os soldados chegaram.
      - Tenente - disse um deles - faa montar os dois presos.
o coronel disse que assim eles no chegam nunca. Os castelhanos
desistiram de atacar e vamos bivacar perto do Passo do Cacequi.
        Os dois alemes foram ajudados a montar e partiram a trote,
deixando para trs, na distncia, a fumaa que ainda subia dos
campos incendiados. Tenho pena de voc, Ludwig, que afinal 
inimigo, veste a farda deles, queira Deus que eles no te passem
pelas armas. Ludwig, com as mos para trs, amarradas, ia teso,
tentando manter o equilbrio no trote duro. No conseguia ouvir
o que o outro dizia. Mayer quebrando a cabea, que diabo
estariam pensando eles, prender como um criminoso um soldado da
prpria tropa e logo de uma companhia alem, justamente as que
haviam formado as primeiras linhas da batalha. No dava para
entender. Afinal, quem havia ganho a batalha?
      - Ludwig - gritou Mayer a plenos pulmes - quem ganhou
a batalha?
        O        outro virou a cabea e deu de ombros. Sol a pino, Mayer
achou que estava prestes a desmaiar, encontraram um batalho em
bivaque provisrio, preparando um assado. Apearam os presos e
fizeram com que ficassem sentados, lado a lado, no cho. Um
sargento trouxe um corote com gua e foi buscar uma concha de
madeira.
      - Desamarrem as mos desses dois - ordenou.
        Eles ficaram esfregando os pulsos doloridos, com feridas das
cordas. Mayer bateu na farda, ento Vocs no vem logo que eu
sou soldado brasileiro? No h ningum nessa merda de exrcito
que entenda o que a gente fala? Chamem os meus companheiros


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dos Lanceiros Alemes, o Cirurgio-Mor Knapp, o Quartel-Mestre
Matias DrnLe, o Tenente Bormann. Est ouvindo, sargento?
        - Rapaz, cala essa boca e trata de matar a sede que a viagem
vai ser longa. J vou mandar trazer carne - empurrou o corote
para junto de Mayer e entregou-lhe a concha. Ele comeou a beber
com sofreguido. Passou a concha para Ludwig:
        - Vamos, bebe, no adianta falar com eles. Meu Deus, essa
agua vai ser pouca. Tenho uma fogueira por dentro.
        Ludwig comeou a beber at sentir dores na barriga. Mayer
voltou a beber. Quando os pedaos de carne sangrando chegaram,
eles no tinham tanta fome. A boca doa como se estivesse em
carne viva, uma carne inchada, gengivas descoladas.
        -  o pior churrasco que comi nos ltimos anos - disse
Mayer - nem sal eles botaram.
        Ludwig no disse nada. Permitiram que eles montassem de
mos soltas, os cavalos puxados pelos soldados. Partiram deixando
o braseiro aceso, o resto de assado queimando, os corotes e
trempes de guerra. Encontraram o grosso da tropa noite alta,
identificado aos gritos por um piquete de sentinelas. A soldadesca ao
redor de centenas de pequenas fogueiras. Quero ser levado ao
comando dos Lanceiros Alemes, exigia Mayer aos soldados. Eles riam
e no diziam nada. Comeram e dormiram entre guardas.
        Madrugada clareando foram acordados por toques de corneta,
sargentos caminhando por entre os homens aos gritos de ordem,
mas no parecia partida, ningum arrebanhava os cavalos,
formavam filas, tomando distncia com o brao estendido. O General Brant
passaria em revista as tropas, de longe era visto caminhando
nervoso, mos s costas, depois montou e, seguido por grande escolta,
desfilou por entre os homens perfilados. Ia de cara fechada. Mayer
disse para o companheiro: "est com jeito de quem perdeu a
batalha". Minutos depois alguns oficiais voltaram, a p, com suas
ordenanas. procedendo a uma chamada nominal. Os homens citados
iam sendo levados para uma pequena coxilha prxima do bivaque
do Estado Maior. Dos Lanceiros Alemes cinco homens foram
chamados: Augusto Mosel, Eduardo Sprenger, Conrado Mischel, o
Sargento Guilherme Quenzel e Joo Carlos Mayer.
        De cada unidade chamavam novos nomes e quando no
quiseram chamar mais ningum, um oficial com papel na mo citava
o nome de um homem, este era carregado uns vinte passos adiante,
tiravam-lhe a tnica, era obrigado a ajoelhar-se e baixar a cabea,
levando dez chibatadas. A tropa inteira assistindo ao castigo, num
silncio mortal. Sprenger, quando chamado, disse para Mayer esses


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homens ficaram loucos, o visconde perde a batalha e se vinga nas
nossas costas. Mayer gritou, vou morrer de vergonha, isso no se
faz com um homem. Estava to impotente como uma criana, no
poderia comear a chorar, iam pensar que era de medo. Para ele,
era de dio.
        Foi o ltimo a ser chamado. Ficou sozinho na elevao do
terreno. Um vento fresco passando por entre as guedelhas ruivas.
Sentiu na voz do oficial uma entonao diferente, cinco soldados se
aproximaram, juntaram as suas mos s costas, tornaram a
amarr-las. Ouviu distintamente quando algum - teria sido o seu amigo
quartel-mestre? - gritou em alemo "no fuzilem o homem,
covardes! Ainda tentou ver quem era o homem que seria fuzilado,
pois ento cometeram uma barbaridade dessas na sua frente, diante
de seus olhos, todos aqueles homens, milhares deles, espalhados
pelos campos de Cacequi, olhando para o crime, perfilados. Primeira
companhia, sentido! Segunda companhia, sentido! E aqueles
soldados ali, a menos de seis passos dele, se levantassem as armas talvez
encostassem as massas de mira no seu peito. Por que no seu peito?
Ana Maria cuidando da filha - ou teria nascido um menino, como
ele queria? sem barriga, cuidando da horta, de noite fechando
a casa que os bugres podem chegar sem que ningum espere as
duas espingardas de espoleta bem  mo -  s enfiar no buraco da
parede ao primeiro sinal deles - e dar no gatilho, os Wallauer viro
correndo, os Timm, os Selzer, os bugres fugiro. Daniel Abraho
cuidando das armas, Harwerther passando a fronteira, Grndling
recebendo as caixas, servio bem feito - vamos beber uma cerveja
em comemorao  sade dos estancieiros de Jerebatuba - ao dinheiro
ganho por Harwerther - um bom companheiro esse Harwerther -
quando ganhar bastante dinheiro vamos organizar uma companhia de
transporte martimo de Rio Grande ao Rio de Janeiro, quem sabe
um dia se compram navios para atravessar o oceano -  com gente
assim que se ganha dinheiro. Pra de chorar Ana Maria, isso no
fica bem para a filha de um Pfeiffer, isso pode prejudicar a criana.
a guerra dura pouco e a gente volta, vamos plantar essa terra,
ganhar dinheiro com o amigo Grndling - na volta em noite de chuva
vamos os quatro sentar naquele boteco da Praa do Cachorro e
beber at cair. Que diabo de ordens d esse tenente de merda, onde
andava ele quando espetei aquele castelhano? Preparar, apontar,
fogo! Reconheceu, em portugus, a palavra fogo e tudo desapareceu
dos olhos e da cabea. As balas abriram um rombo no peito que
dava para enfiar o punho fechado. O cirurgio-mor exclamou que
aquilo era um absurdo. O quartel-mestre endureceu a cara, as l-


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grimas saltando dos olhos, ento um homem como Mayer merecia
aquilo, por acaso? Novas ordens. agora era montar e reiniciar a
marcha. Os soldados alemes no tinham pressa. Augusto Mosel
e os outros que haviam apanhado de chibata, tiraram as camisas
e mantas, que os verges doam como ferro quente, como urtiga
em pele esfolada. A cavalhada de cabea baixa, exausta. Para um
oficial brasileiro que passou prximo dos Lanceiros, Sprenger gritou
levantando o punho de mo fechada "puta que os pariu".
        Ouviram um vozerio vindo de um caponete ralo, alguns homens
correram, Knapp e outros alemes tambm. Um oficial do Estado
Maior abriu caminho entre os homens, esporeando o cavalo, e viu
um soldado alemo, corpo balanando de um galho fino, envergado
a ponto de partir-se.
        Era o lanceiro Conrado Mischel que se enforcara de vergonha.
Quando as tropas partiram, depois de acharem o capote roubado
do comandante-chefe, deixaram sentado no cho, mos a marradas,
o lanceiro Peter Ludwig, soldado do Baro Heine, defensor do
exrcito argentino.



82


VI



1 A escrava da casa da Rua da Igreja recebeu a estranha com
desconfiana e m vontade. Chegou a dizer ao amo que a
menina era muito novinha para aquelas coisas. Grndling disse
irritado:
        - Para que pensa voc que estou trazendo esta menina para
a minha casa, hein? trata de arrumar um quarto para ela. Vou sair
para fazer compras. Vamos, no fica a parada, olhando a
pobrezinha que ela mal conhece negro. Vai acabar morrendo de susto.
        Sofia sentou-se numa grande marquesa, mozinhas cruzadas
sobre os joelhos, correndo os olhos pelas maravilhas que adornavam
a sala, as cadeiras douradas, os grandes e reluzentes lampies em
forma de lustre, os tapetes bordados e os armrios cheios de louas
e cristais. Estava com medo de sujar com os ps descalos o
assoalho limpo e brilhoso como se fosse o tampo da mesa de comer.
A mucama desapareceu por uma das grandes portas, a dizer coisas
incompreensveis. Boa empreitada para um homem que no fica em
casa. A preta velha sem falar uma palavra de alemo, a menina
calada, o melhor seria contratar uma professora de respeito, ouvira
falar de uma que morava na Rua da Olaria, pessoa de boas
maneiras. Viu a cor das suas unhas e a pele escamada e coberta de
grosseiras. Chamou a escrava:
        - Enquanto saio prepara um banho bem morno, com sais,
e limpa bem a pobrezinha. A roupa eu trago em seguida.
        Saiu com a impresso de que cometera um erro metendo em
casa uma meninazinha como aquela que despertaria, de imediato, a
cobia da safada da Izabela, aliciadora de mulheres, sedenta
sempre de novidades para a freguesia.


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        - Mas essa no! se surpreendeu dizendo em voz alta,
enquanto se dirigia para o comrcio tumultuado da Rua da Praia.
        Meio forada, agarrada, empurrada, Sofia terminou por
enfrentar a banheira de zinco, em forma de balano, cabeceira alta,
cheia de gua limpa onde a negra despejou o contedo rosa de um
frasco de sal perfumado. Como uma esttua, Sofia deixou-se despir.
Cada pea de roupa que a escrava pegava com a ponta dos dedos,
provocava uma cara de nojo, boca desatrelada dizendo coisas e
proferindo exclamaes. Como era possvel andar assim to suja? Teria
sido achada no meio do mato, entre os bugres? Sentiu a negra
esfregando suas costas com esponjas empapadas de sabo cheiroso.
Aos poucos a gua, antes cristalina, foi se tornando cinza e Sofia
cada vez mais branca, os cabelos recobrando um tom de ouro pobre.
ela sentindo uma sonolncia gostosa, comeando a dormir com a
cabea encostada na borda alta. O poo de gua morna no rio
Uruguai, peixinhos prateados riscando a massa vtrea, o sol a pino
convidando  sesta. A negra ria; ento o bichinho do mato dormia
como um lagarto, os bracinhos finos boiando na espuma, o amo,
coitado, no reconheceria mais a menina quando voltasse.
Prepararia logo a cama de alvos lenis, o travesseiro de penas, a fronha
estalando de engomada.
        Sofia levou um susto quando saiu da modorra, como se
tivesse cado, de repente, do alto das nuvens. Foi enxugada como
uma criana, depois perfumada e conduzida, meio sonmbula, para
o quarto, a cama limpinha e macia, os postigos fechados, o quarto
na penumbra, a cabecinha afundando, o mundo inteiro rodopiando
e ela a mergulhar sem paradeiro num estranho, gostoso, imenso lago
s de espumas.
        Quando Grndling voltou, foi levado at o quarto pela negra
que ria satisfeita. Ento ele viu a menina dormindo coberta
apenas por um lenol, os longos cabelos esparramados sobre a fronha
branca, rendada, uma expresso serena e bela, os grandes olhos
azuis velados pelo peso das plpebras, uma pequena imagem de
marfim. Fez um sinal para a negra sair, olhou ainda mais uma vez para
a menina dormindo. Quando fechou a porta, Grndling teve a
impresso de estar isolando do mundo hostil um quieto e morno
santurio.


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2 Em abril os castelhanos resolveram atacar pelo sul. Dez mii
homens reunidos na vila de Melo, departamento de Cerro Largo.
Parte dos homens recebeu a misso de ocupar lugares
estratgicos visando a impedir qualquer agresso das tropas uruguaias
isoladas em Montevidu e Colnia, dois pontos de resistncia 
ambio do General Lavalleja que se mantinha a servio da bandeira de
Buenos Aires. Parte das tropas permaneceria na fronteira natural
do rio Jaguaro, bivacando  margem direita. Esses homens dariam
cobertura s tropas que invadiriam o Brasil, no caso de uma
retirada forada. Lavalleja  frente de seu Estado Maior, aproveitou
a vazante das guas. vadeou O rio pelos baixios e se internou em
territrio inimigo. Cinco mil homens, se tanto. Outros quinhentos
rumaram para a costa, lados do Chu, com a inteno de bloquear
o estreito de terras entre as lagoas Mirim e da Mangueira. Da costa,
os soldados viam os navios imperiais viajando para o sul; sabiam
que a misso deles era proteger Montevidu. Erguiam os punhos,
raivosos, ameaando os barcos distantes, gritando palavres,
cuspindo com desprezo.
        Buscando algumas rezes extraviadas, Juanito viu a
concentrao de tropas, fez sinal para os dois escravos que o acompanhavam
e voltaram a galope desenfreado para a casa dos Schneider. Uma
hora depois chegavam, Juanito boleando a perna com o cavalo
ainda em movimento, correndo em direo de Catarina que farejava
desgraa. O ndio a tartamudear coisas naquela sua algaravia,
juntando os dedos para indicar quantidade e sempre apontando para
os lados da fronteira.
      -Miles e miles - era s o que sabia dizer.
        A noite caindo, Catarina desconfiou que eles no se
atreveriam a invadir aquelas terras na escurido. Quem sabe estaria na
hora de fugir para Rio Grande, na nica carroa inteira que
Sobrara. Daniel Abraho apontou a cabea na borda do poo.
Catarina, o que est havendo? O ndio, Daniel Abraho, diz que anda
muito soldado para aqueles lados. Ele ficou mudo, olhando para a
direo da mo da mulher. Juanito rodeado pelos escravos,
narrando tudo o que vira. S ela a pensar, Catarina, que o marido j
desaparecera poo abaixo e de l gritava histrico para a mulher,
a tampa, a tampa na boca do poo, que sobre a tampa botassem
lenha, toda a lenha que existisse por ali. Naquele momento
Catarina pediu a Deus que no permitisse que Philipp sasse ao pai,
nem Mateus. Sua deciso estava tomada: no arredaria p de suas
terras, aquela imensa solido de horizontes era sua e de mais nin-


85


gum. Custara dores e desgraas, custara o sangue de Harwerther
e o aleijume do ndio fiel. Foi at a borda do poo:
      - Daniel Abraho.
        Ele respondeu, depois de breves momentos, com um grunhido
abafado, rouco. Catarina disse:
      - Vou acabar de entulhar esta gua suja a embaixo.
        Chamou Juanito e os escravos e deu o exemplo, comeando a
jogar pedras e pedaos de paus e lenhas. Ouviu o marido gritar
"que  isso, mulher, voc ficou doida?" Ele pensou que estava sendo
enterrado vivo. Quando ela viu que a gua j estava encoberta,
ordenou que jogassem ramos verdes, indicando um cinamomo
chapu-de-sol, de copa baixa. Pegou sacos de mantimentos, encheu
vrios corotes com gua fresca e com gestos determinou aos escravos
que fossem carregando tudo para o fundo do poo. O que havia de
mais aproveitvel foi sendo colocado  beira da toca de Daniel
Abraho; Juanito, compreendendo as intenes de Catarina,
determinando a cada negro o que devia fazer. Mandou descer Mateus,
envolto em panos, depois Carlota e Philipp. A me dizia "fiquem
l embaixo com papai, bem quietinhos". Mandou que os negros
descessem tambm, que ficassem sobre os galhos verdes, que l
dormissem como fosse possvel. Ajudada pelo ndio tapou a boca do
poo, esparramou um resto de linha por cima, grossas toras de
madeira verde. Noite fechada mandou o ndio deitar-se sob a
carroa, entrou para a casa, deitou-se e ali ficou rodopiando a noite
inteira em torno dos mesmos pensamentos, um labirinto
inextricvel. Lgrimas lhe corriam pelo rosto crestado, lgrimas de
orgulho, estava prendendo com unhas e dentes a sua inteira solido.
        Ao clarear do dia ordenhou uma vaca que havia ficado presa
 soga, encheu uma panela de ferro e por uma fresta da tampa fez
com que a mesma chegasse l embaixo. Assou pedaos de charque
gordo e mandou tudo para a gente subterrnea. S ela e Juanito
a esquadrinhar o horizonte, comeando a ver os primeiros
pontinhos negros ao longe, os pontinhos aumentando - onda bblica de
gafanhotos vorazes - numa linha a se perder de vista. Catarina
juntou gravetos para fazer mais fogo, Juanito capinando ao natural,
olhinhos vivos espreitando a faixa negra e reluzente que se
aproximava. Distinguiam j os fardamentos azuis e vermelhos, as lanas
em riste com bandeirolas agitadas. Por fim chegaram os primeiros
cavaleiros. O grosso da tropa passava ao largo. Quatro deles
espOrearam seus cavalos e cercaram Catarina. Um oficial inferior berrou
qualquer coisa para os demais; os outros se calaram.


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        - Mire, seora...
        Juanito se aproximou cauteloso, fazendo mesuras, sorrindo
forado; a senhora era alem, no entendia uma palavra da lngua da
terra. Os brasileiros haviam levado seu marido e os filhos. Fez o
gesto de quem leva uma espingarda  altura dos olhos: pum, pum,
pum. Os soldados se entreolharam. Mataram a gente dela?
Transmitiram isso a um oficial mais enfeitado de dourados que fez um
sinal para prosseguirem. Partiram a galope, seguindo a tropa, mas
os soldados que por ali ficaram deram urros brbaros e vararam
com suas lanas aquilo que topavam pela frente, latas, cabrotes
terminando por levarem, na ponta de uma lana, um bom pedao de
charque que secava nos varais. O oficial inferior sofreou o cavalo
e de onde estava gritou levantando a espada:
-        Volveremos a vernos, comadre.
        Juanito pensa na chininha da estncia Medanos-Chico e sente
o corao disparando no peito. Que fariam os bandidos com ela?
Gesticula para Catarina apontando Medanos-Chico e pronuncia
"Ceji", passando os dedos em forma de garfo pelos cabelos, como
se fossem compridos. Pega um cavalo, enfia-lhe pela boca o brido
e, em pelo, galopa desabrido na direo de Cej. O mau
pressentimento que tivera comea a ganhar corpo quando enxerga no
horizonte uma espiral de fumaa negra, tocada de leve pela brisa
noroeste.  na Medanos-Chico; a fumaa sobe do meio do pomar,
cobre a casa do velho Jos Mariano. Quando apeou viu que os
castelhanos haviam arrasado tudo, a casa central em chamas, galpes j
em cinzas. Afinal v o que no queria, Jos Mariano atirado sobre
um canteiro, a roupa em frangalhos, o pescoo cortado de orelha
a orelha. Olhou para todos os lados, remexeu as cinzas quentes de
um galpo; teriam levado Ceji? Pairava sobre tudo o esprito
agourento de Quanip e de seus companheiros vampiros. Gritou pelo
nome de Ceji. Perambulou tonto por entre a terra devastada, era
como se por ali houvesse passado um tufo de morte. A horta
desaparecera sob as patas da cavalhada; o pomar fora depenado a
golpes de espada. Poucos animais vivos, dois cavalos pastando, alguns
bois distantes, galinhas inquietas. Caminhou por entre as rvores,
os pessegueiros, passou pelas guanxumas crescidas, as ramadas de
mandioca. Ceji! Quanip maldito, choramingou sem esperanas.
Voltou. De repente ergue a cabea, atento, como um co de caa.
OuVira um som, alguma coisa por perto. Estaca, corpo atilado e tenso.
Agora mais ntido, um ai, um queixume. Corre direto, guiado pelo
ltimo. Ceji de bruos, seminua, o rosto enfiado nas macegas. Vira-


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lhe o corpo, com cuidado, mos de seda, o rosto batido,
machucado, o sangue ainda vermelho e vivo na saia rota. Carrega a
indiazinha nos braos e a deposita nuns pelegos perdidos. Vai buscar
gua, lava seu rosto. os olhos intumescidos, os lanhos sangrentos
que vo do pescoo aos seios midos, sangrando ainda por baixo,
os filetes pastosos com estrias at os joelhos. Atrela o cavalo numa
carroa abandonada, nela coloca Ceji e inicia a viagem de volta;
Catarina saberia cuidar dela. Voltaria mais tarde para enterrar o
velho Jos Mariano.



3Os gringos no levaram dois dias em terra alheia. Dois dias
que permitiram ligeiras escapadas dos que estavam no poo.
Philipp cumprindo suas obrigaes no alto da gvea, dando
alarma ao menor sinal de piquetes esparsos passando ao longe. As
crianas tomando sol e Daniel Abraho apenas apontando a cabea de
barba hirsuta sobre a amurada de pedras. Comiam naqueles breves
momentos. Catarina fez uma fornada de po e mandou baixar tudo
para o esconderijo. Tratava as feridas da chininha, com Juanito ali
postado, co de guarda a lamuriar vingana e dio. Ao sinal de
"tropa ao norte" at mesmo Ceji desceu nos braos dos escravos.
Por algum tempo, depois de reconhecer que eram os gringos de
volta, Catarina ainda ouviu o choro de Mateus, s vezes abafado,
algum tentando impedir que continuasse a chorar; Juanito alerta,
Catarina comeando a caminhar para longe das casas, saindo
campo afora, solitria como um bicho acuado, na esperana de atrair
a ateno das tropas para si, querendo desviar o interesse dos
homens pelo que poderiam pilhar na estncia. Mas voltavam os
soldados to assustados que nem sequer olharam para os lados das
casas, dos currais, hortas e pomares. Catarina parada no meio do
campo at que um grupo passou por ela, derrubando-a com as patas
dos cavalos. Centenas de soldados debandando. Atrs deles grossos
contingentes da cavalaria imperial; entreveros esparsos, retinir de
espadas e volteios de lanas. Cavalos sem cavaleiros a correr
desenfreados e esbaforidos, chicoteados pelos prprios estribos pendenteS
dos loros.
        Catarina voltou para casa. Encontrou soldados brasileiros
perguntando se no havia algo para comer. Juanito disse que os
castelhanos haviam levado quase tudo. No falaram com a dona da casa
que lavava o rosto e os braos feridos numa bacia de gua
ensaboada. Sua fisionomia permanecia a mesma, sem um sinal de dor.


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Contraiu os msculos do rosto quando ouviu bem claro o choro de
Mateus, como se viesse de longe. Os soldados tambm ouviram e
olharam em redor, no vendo nada. Um oficial perguntou de onde
vinha aquele choro, fez um gesto de ninar criana nos braos,
levantando o queixo interrogativo. Ela foi at o poo, tirou a lenha
empilhada, removeu as toras e falou para baixo, fazendo sinais para que
os escravos subissem.
        - Fica a embaixo, Daniel Abraho, manda trazer as
crianas, no h perigo.
        Os negros comearam a sair, ofuscados pela luz do dia, tontos;
trouxeram Ceji e as crianas. Juanito prestimoso, ajudando, olhos
pregados na chininha que aos poucos melhorava. O oficial abriu os
braoS, como a perguntar por que haviam escondido toda aquela
gente no poo. Catarina falando em alemo, mas explicando o
melhor que podia por gestos. Os homens do sul - apontava para o
Chu - saqueavam as estncias e matavam seus donos. Ele no
havia visto Medanos-Chico? Fez um gesto de degola apontando para
a estncia incendiada. Catarina mostrou a indiazinha, apontou para
o ombro cado de Juanito.
        Os soldados partiram e de todos os pontos piquetes se reuniam
a distncia, desaparecendo ao cair da noite. Catarina voltou a tapar
a boca do poo, levou as crianas para dentro de casa e l ficou,
abraada com elas, com a viso do mundo a seu redor se
distanciando cada vez mais pelo sono invencvel. No armrio de tela com
charque dependurado, a cara de Grndling, sorridente, a barba bem
aparada, o colete de veludo bordado, a corrente de ouro do relgio,
as mos finas, a voz educada, quantos bergantins, galeras e sumacas
ainda esto por chegar? Estou lhe oferecendo uma grande
oportunidade, uma fatia de terra que no acaba mais, em troca de um
quadrado de mato, numa zona onde vivem tigres e bugres. Ela est a
entrando pelos olhos, s no v quem  cego. Do dia para a noite
os seus negros cortam rvores e levantam casas, galpes, eles so
mestres em cobertura de santa-f. E mais este dinheiro, Daniel
Abraho, para um comeo de vida tranqilo nos melhores campos
do mundo. E eu conheo os campos do Sul da Frana e as
pradarias da Prssia, e tudo no passa de um quintal. Catarina agora
mergulhava numa espessa gelatina, derrotada afinal, sozinha, corpo,
nervos e msculos estraalhados.



89


4 Grndling abrira um entreposto de produtos coloniais,
contratou dois auxiliares para cuidarem do negcio; um casaro
velho, de madeira, a meio caminho entre a antiga Feitoria e Porto
Alegre. Jacob Schlaberndorf, 42 anos, casado com Judica Gherardt,
e Henrique Einssfeld, 39 anos, casado com Juliana Metz, de Hesse.
Ambos haviam chegado ao Brasil na galera hamburguesa Der
Kranisch, comandada pelo Capito Klauss Frederico Becker. Eram
homens em quem se podia confiar. O negcio era para ganhar
dinheiro. Parte das mercadorias compradas nas colnias e que
chegavam a So Leopoldo em lombo de burro - s havia picadas
estreitas abertas no denso matagal da encosta da serra - Grndling  a
remetia por gua, nos seus lanches com nomes pintados com
garranchos, Dresden, Hamburgo, Friburgo e, o mais novo deles, com
letras caprichadas. Jorge Antnio, em homenagem a seu amigo
Schaeffer.
        Com o passar do tempo Grndling comeou a entrar no
comrcio grado de planches de grapiapunha, remos para lanches,
rodas ferradas para carretas, madeiras-de-lei, lombilhos lavrados,
obras de funileiro e couros curtidos. Aos poucos foi aumentando
o primeiro galpo, as meia-guas descendo at quase o cho. Carretas
e carroes descarregando as compras feitas nas colnias; outros
partindo abarrotados para Porto Alegre onde, seis meses depois,
abria novo armazm no Caminho Novo, enchendo os depsitos com
tudo o que vinha da encosta da serra, desde a Linha Herval at
a Linha Hortnsio, descendo por Estncia Velha e So Leopoldo.
Mas na manso da Rua da Igreja no entravam mais as moas
de Izabela. O dono da casa e seus amigos, muitos deles
comerciantes em Rio Grande e que buscavam mercadorias para exportar,
buscavam as espeluncas da Ladeira de So Jorge, algumas delas
ganhando reformas e melhorias com o dinheiro de Grndling. O
primeiro piano importado por ele no foi para a sua casa. foi direto
para o salo bailante inaugurado por Izabela. O cego Jacob
Heichert - o nico que sabia tocar - embalava as farras de Grndlng
e seus amigos com titubeantes Lieder de Schubert. Madrugada alta,
salo vazio, um ou outro bbado derreado sobre as mesas, Jacob
ainda ficava dedilhando o instrumento, pegando de ouvido as
melodias paraguaias, os primeiros pura jhe cantarolados por Izabela.
Nessas horas, Jacob acertando as msicas, ela chorava
discretamente, passando o lencinho de rendas sob os olhos. Mandava
preparar churros e s os dois, a casa j deserta, a luz do dia entrando
pelas frestas, comiam em silncio, bebericando licor de bergamota.


90


5 Trajando roupagens mandadas de Hamburgo por Schaeffer,
foi levada pela escrava de Grndling, pela primeira vez,
a um passeio a p pela cidade. Olhares bisbilhoteiros seguiam
a menina e a preta velha. A manteda de Herr Grndling. Um
escndalo. Uma menina que ainda podia brincar com bonecas. Ia
agora ali feito mulher, o escarlate da sombrinha elegante tingindo
suas faces de um rosado vivo, os graciosos sapatos importados,
aos poucos se cobrindo de poeira; maravilhada com o comrcio
barulhento da Rua da Praia, homens a cavalo, negros carregando
embrulhos e pesados volumes, marinheiros, vendedores de legumes
e de quinquilharias, lojas expondo nas portas os seus artigos,
correeiros, oficinas de consertos, moleques com tabuleiros cheios de doces
feitos com acar mascavo, carroes descarregando fardos,
moendas a manivela espremendo cana e vendendo canecas de garapa.
A negra Mariana sorrindo ante o espanto da menina e por fim
carregando-a para a Rua da Bandeira onde se avantajava, imponente,
a Igreja Nossa Senhora do Rosrio, levantada e mantida pelos pretos.
Mariana pertencia, tambm,  irmandade do Rosrio e fez questo
de que a menina conhecesse a igreja e nela entrasse. Sofia admirada
com as suas torres quadrangulares, as trs portas imponentes no
primeiro plano, as trs janelas superiores, um campanrio de seis
sinos, muito mais bonito do que o prprio campanrio da Matriz.
O adro lajeado, pilares de alvenaria e gradis de ferro trabalhado.
        Mariana explicava: Sofia nada entendia da parlapatice da
negra.  das nossas naes africanas, candombls da Me Rita.
Era de ver os cocumbis para o Natal e para as festas do Rosrio,
quando da Rua da Igreja se podiam ouvir os ganzs, as marimbas e
 urucungos, os tambores surdos e ritmados. O Rei entrando,
seguido da Rainha e dos Aristocratas, o povo sapateando e cantando.
Ah, Sinh Sofia, tudo lindo de chorar. Os negros todos prostrados
diante do altar central, os do vo do Cruzeiro queimando as
compridas velas, entre ramos e flores.
        - Dezessete imagens, Sinh Sofia - exclamava a negra
Mariana, emocionada.
        A menina sem saber o que fazer ali dentro da penumbra
silenciosa; alguma coisa dentro dela sofrendo, o corao pulsando mais
forte. Imitou a escrava quando ela se ajoelhou, fazendo o sinal-da-
Cruz. Olhando para Sofia, com seus grandes olhos de vidro, Nossa
Senhora da Conceio.
        Na rua, sol amarelado da tarde morrendo, Sofia no
conseguindo ver ningum, enfeitiada pela igreja, to diferente de tudo
O que vira at ento.  noite, enquanto jantava com Grndling,


91


ligou o bruxulear das velas da mesa as crandes velas do altar. Ele
comendo voraz, ela apenas beliscando, a trocar olhares cmplices
com a negra Mariana, toda a vez que a escrava vinha trazer comida
ou levar pratos vazios.
      - Voc perdeu a fome? - perguntou Grndling.
        - Obrigado, Herr Grndling, mas no estou mesmo com fome
disse Sofia cruzando os talheres, sempre com medo de ser
repreendida por ele, por um gesto mal educado, uma palavra mais
grosseira, o modo de sentar-se.
        Uma moa no fala desse jeito. Uma moa no senta assim,
isso no so modos de comer. No se fala com a boca cheia. No
passa a manga do vestido na boca. No mete o dedo no nariz. Uma
moa no cospe.
        Ela quebrou o silncio, querendo agradar:
        - Eu e Mariana demos um passeio hoje de tarde pela cidade.
Grndling interrompeu o caminho do garfo cheio, ficou de boca
aberta, olhos cravados na menina.
        - Um passeio pela cidade?
      - Ela me levou a ver a igreja do Rosrio. Que beleza, Herr
GrndLing. nunca pensei que os negros pudessem ter uma igreja
to grande e nem to bonita. As velas de l so at maiores que
estas.
        Grndling passou o guardanapo na boca engordurada e gritou
para dentro:
      -Mariana, vem c Mariana!
        A preta surgiu assustada na porta. aproximando-se do amo.
Carregava nas mos uma compoteira de ambrosia. Perguntou se
havia demorado com a sobremesa.
        - Ningum aqui quer sobremesa, Mariana. Como se atreveu
a levar a menina naquela suja igreja do Rosrio? Andar por essas
ruas imundas de lixo, duas mulheres sozinhas, servindo de pasto
aos falatrios dessa gentinha!
        A escrava depositou a compoteira sobre a toalha de linho,
dando a impresso de que nada ouvira. Comeou a recolher os
pratos do jantar.
      - Falei com voc, Mariana! - berrou Grndling, colrico,
batendo com a mo aberta na mesa.
      - A menina disse que estava com vontade de dar uma volta,
fez assim com a mo dizendo que queria tomar um pouco de sol.
Achei que no havia mal.
        Sofia no entendera uma palavra do dilogo em portugus. Ele
fez um gesto enrgico mandando a negra embora. Ficou algum


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tempo batendo ritmado com dois talheres, aborrecido. Grndling
comeou a falar devagar:
      -No quero mais que voc saia sozinha com Mariana. Se
tiver que sair, sair comigo. Esta cidade anda cheia de vagabundos
e andarilhos, ndios e malfeitores. Espero que esta tenha sido a
primeira e a ltima vez que isto acontea. No estou cuidando de
Voc para que sirva de motivo para falatrios e cochichos de porta
de botica - levantou-se e passou para uma cadeira de braos, a
preferida de Schaeffer quando estivera em Porto Alegre. - Coma
o doce e venha sentar-se aqui perto. Estou falando para seu bem.
        A menina estava ficando mulher. Os seios crescidos, esticando
os vestidos de tafet francs. Os olhos de Grndling atrados para
o vale entremostrado pelo decote, a cintura delgada, as ancas
proeminentes, seu modo acanhado de falar palavras erradas, ele
corrigindo e passando delicados cares. Ensinada por Mariana, comeara
a bordar razoavelmente, os dedinhos de lrio tramando a linha, o
tique nervoso de morder levemente os lbios. Frau Felipina Grub
ensinando as primeiras letras, boas maneiras e trabalhos domsticos.
O        pensamento de Grndling esvoaando para o dia em que o Dr.
Hillebrand lhe mostrara o bichinho do mato, em So Leopoldo. A
histria do cavaleiro inditico que a largara no povoado. Os
caudilhos e os bugres com a pobrezinha para c e para l. Teria sido
deflorada com quantos anos? Doze ou treze? Sentiu o sangue ferver
nas suas veias. Animais! Pois agora aprenderia a ler, comearia o
aprendizado de grande dama, mandaria buscar cartilhas, uma lousa
para desenhar as letras, depois as declinaes, a pobrezinha as usava
to mal. Olhava para ela, disfaradamente. Tinha a estirpe das
grandes mulheres. Famlia Spannenberger, do Gro-Ducado de
Hesse. No viver l um Conde de Spannenberger? Este ltimo
pensamento sara em voz alta. Sofia estremeceu, sem compreender.
      - Conde? Meu pai se chamava Julius.
      -No foi nada, no. Estava pensando em outra coisa. E como
vo os estudos com Frau Felipina?
        - No sei, acho tudo to difcil. Ser que  preciso mesmo
aprender a ler?
      - Claro que  preciso. Voc vai gostar. Vou mandar trazer
livros, histrias de reis e de guerras. Uma moa deve saber ler.
        Ela sorriu, agradecida. Grndling sentiu o seu olhar de carinho
e gratido. As duas covinhas de cada lado do rosto, quando sorria.
At que ponto a desgraa havia marcado a sua vida?


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      - Quando seu pai foi morto (ele quase disse degolado), que
aconteceu com sua me?
        Sofia ficou imvel, em guarda.
      -No sei, no me lembro.
      - E o primeiro homem que te carregou? Quem foi?
      -No me lembro. Herr Grndling, por favor - seus lbios
comearam a tremer, estava prestes a chorar - no me lembro
de nada.
        Grndling levantou-se resoluto, pegou as mozinhas dela e
tentou tranqiliz-la:
      - Esquea mesmo tudo isso, esquea. Prometo no perguntar
mais nada. O que passou, passou. A vida comea agora.
        Sentiu-se um pouco ridculo, falando daquela maneira. Disse
a ela que precisava sair e que pediria  Mariana para lhe fazer
Companhia na sala. Fosse deitar quando sentisse sono.
        Saiu confuso a respeito de si prprio e isso fez com que seus
ps o levassem direto  casa de Izabela, aquela noite abarrotada de
gachos e de marinheiros, o cego Jacob martelando o piano e dele
saindo uma melodia em desacordo com o ambiente carregado de
bodum e suor velho. Jacob solitrio na sua cegueira, a freguesia
em algazarra. Grndling acercou-se do pianista, permaneceu um
pouco em silncio, botou a grande mo sobre seu ombro:
        - Que  isto que ests tocando, Jacob?
        O        cego prosseguiu tocando, reconhecendo a voz do amigo e
protetor.
      - De Beethoven, Herr Grndling. Mondschein. Gosta?
      - Continua, estou gostando muito.
        Izabela j estava a seu lado, efusiva e contente por v-lo ali,
naquela noite. Sugeriu que passassem para o reservado, estava com
a casa muito movimentada. Levaria para L as meninas que
quisesse. Grndling fez um sinal para que ela esperasse. Estava
fascinado pela msica. Lembrava-lhe Sofia, delicada, terna, meiga,
suave, estranha, selvagem. Virou-se para Izabela e disse autoritrio:
      - Quero beber hoje como nunca!
        No reservado tirou o grosso casaco e mandou vir cerveja. No,
no quero mais do que uma mulher. Traz Cholita, que tem a pele
mais fina e os peitos duros. Depois comea a botar esses bbados
para a rua, quero ouvir Jacob tocando s para mim. Baixa a luz
desse maldito lampio. A menina j vem, Herr Grndling, assim
que se desocupe. j avisei. A luz assim est boa? Mais fraca? Assim?
O senhor no vai enxergar a boca, nem as garrafas. Alguma coisa


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muito triste estava se passando com Herr Grndling. No era,
naquela noite, o mesmo homem. Saiu e deixou o fregus sozinho.
Como era difcil criar um diabinho desses, largada no mundo,
de mo em mo, os bandoleiros filhos da macega fazendo da
inocentinha o que bem entendiam, como se fosse uma coisa, um traste,
um potro. Agora Voc vai aprender a ler, vai ganhar boas
maneiras, ser uma dama, Os dois seios opressos sob o vestidinho, as
mos pequenas e nervosas tentando esconder os dois regos de fina
penugem. Pois  nossa sade, menina! Beba tambm para esquecer
aqueles animais melenudos, de grossos bigodes cados, o cheiro de
suor de cavalo. As patas imundas dos bandoleiros tocando no
corpinnho dela. Mais cerveja para afogar esses fantasmas odientos. Eles no
existiram, nunca existiram, S na imaginao dela, uma
meninazinha assombrada. Tudo vai comear agora. Bota-se o passado
sobre esse monte de graVetos secos e  s tocar fogo, os tigres
viraro cinzas e as cinzas desaparecero com as chuvas, e as chuvas
levaro o resto de tudo para os rios e da para o mar. Adeus,
fantasmas!
        Cholita colada nele, sem ser notada, mos ensinadas e treinadas
se insinuando entre a camisa e a pele. Apague esse lampio maldito,
menina, assim na escurido os fantasmas no sero vistos... Sua
enorme mo pegando na mozinha dela, ajudando a escrever as
slabas soletradas, o perfume dos seus cabelos soltos, sua prpria boca
escorregando pelo fino pescoo, beijando seus seios que sobem e
descem. No se assuste, a vida comea hoje. Despe-lhe o vestido
dos ombros, a carne surgindo das rendas e das sedas, a menina
deitada nos seus braos, os lbios frescos entreabertos, leves gemidos
de xtase, no se assuste, menina, Mariana se foi, estamos s ns
dois nesta imensa cama cercada de grades por todos os lados, este
grosso cadeado deixa o mundo inteiro do lado de fora. Quero beijar
seu ventre, um mergulho nessas guas para sempre.
        Cholita deixa o reservado, abotoando-se ajeita os cabelos
negros, puxa a porta e encontra o olhar curioso de Izabela.
        - Herr Grndling, Dona Izabela, estava muito diferente, to
delicado. Ficou debruado na mesa, o pobre, dormindo de bbado.



95



VII


1 Daniel Abraho aperfeioou a toca de maneira a passar nela
o resto da vida. Gostava da sua solido, muito mais do que
das vezes em que era chamado a sair do poo, nas breves e
inesperadas ausncias de soldados. Estava numa terra de ningum,
espremido por dois inimigos, ambos querendo o seu pescoo para
ornar um galho de rvore ou sua cartida. Para ele o mundo
dividira-se em dois: essas duas partes brigavam entre si para saber qual
delas receberia, ao final, o trofu cobiado: a sua cabea. Com o
tempo. passara a identificar cada um dos bandos. Por simples
detalhes, pelo arrastar de rosetas no cho, pela fala incompreensvel,
mas distinta, pelas prprias patas dos cavalos. Dispondo agora de
um pequeno lampio de azeite de peixe, s o acendia a curtos
intervalos, temendo que um fiapo de fumaa o denunciasse.
        Acostumara-se a escurido. Ela era a me dos seus devaneios.
A luz do dia feria os seus olhos congestionados e sensveis, mesmo
ao cair da tarde, quando no havia mais sol no cu. Numa furna
onde quase no conseguia sentar-se, ganhava uma sensao de
segurana que lhe escapava quando sobre a terra. O horizonte livre
e infinito representava para ele um constante perigo. O cu aberto,
as nuvens e o prprio vento, podia ser uma leve brisa, passaram a
ser uma permanente ameaa. A amplido era a sua cadeia.
Liberdade para Schneider, deveria ter, para ser completa, uma tampa
rstica de tbuas; sobre ela, ainda, pedras e lenha. Contava os dias
cavando anis em varas de cinamomo, com a habilidade de seleiro
de profisso. Numa vara mais grossa marcava a passagem das
tropas castelhanas; na outra face, o passar dos soldados brasileiros.
Levara cinqenta e quatro dias para transformar uma tora de
madeira num serigote artstico, esculpido com detalhes, usando como


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ferramenta to-somente o afiado faco que um dia recebera para
cortar a barba e os longos cabelos.
        Muitas vezes comia sobre a borda do poo, pernas enganclladas
nos degraus rolios da escada. Nessas ocasies via os filhos Philipp
encabulado, tmido, meio de longe, Carlota levada pela mo de uma
escrava, chorando sempre que o barbudo do poo estendia a mo
para toc-la com carinho. Mateus carregado nos braos de
Catarina. Ele sempre dizia: "um Schneider, isso ele no poder negar
jamais". Catarina contrariando em pensamento "um Klurnpp, toda
a vida". O bicho do poo limpava o prato e desaparecia no abrigo.
        Se a tampa no era recolocada logo, ele reclamava em altas vozes.
Ento no viam que ele corria perigo, que os bandidos poderiam
chegar a qualquer momento, sem aviso e nem alarde? Botem a
tampa de uma vez, miserveis! Passava horas cortando as grossas
unhas dos ps e das mos, alumiado pelo lampiozinho fraco.
Cortava, raspava, escarafunchava - Limpava as espingardas com sebo
de boi, usando trapos para o polimento. L em cima, os escravos
cuidavam da horta e do pomar. Os primeiros pssegos haviam sido
colhidos, ainda verdes, pelos castelhanos. As primeiras melancias
estriadas haviam sido arrancadas do talo, pelos brasileiros -
quebradas e dadas aos cavalos.
        Nem mesmo a mulher ele desejava dentro de casa, na cama em
comum. Pedia, implorava que ela descesse. Sentia prazer redobrado
sob a terra, entalados os dois entre aquelas paredes midas e
morrinhentas. Para um banho semanal, ficava de p sobre o entulho do
poo. Catarina derramando baldes de gua l de cima. Deitava-se
ainda nU, esperando que o corpo secasse. A mulher a repetir que
ele ficaria aleijado com o tempo, se no sasse para caminhar, fazer
algum exerccio, esticar pernas e braos. Em certas ocasies, os
Soldados desapareciam semanas inteiras, no se via uma sombra
pelas redondezas. Catarina doutrinando o marido para que sasse
um Pouco. Ele sem dizer uma palavra, a dizer no apenas com a
cabea. Ela dava de ombros; o marido era maior, sabia ler e
escrever, conhecia a Bblia e tudo o que Deus tivera a inteno de
dizer aos homens.
        Quando era dominado pela melancolia, trocava o prato de
comida na borda do poo, pela velha e surrada Bblia que trouxera
debaixo do brao desde a partida da Alemanha. Chamava Catarina,
que se via obrigada a largar dos seus afazeres domsticos para Ouvir
trechos do livro sagrado. "Tende, pois, pacincia, irmos, at a
Vinda do Senhor. Vede como o lavrador aguarda com pacincia o
precioso fruto da terra, at receber esta as primeiras e as ltimas


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chuvas". Dizia: versculo 7, captulo 5. Catarina completava: So
Tiago. Voltava, ento, irritada, para o trabalho e ficava a pensar
se o marido no comeara a endoidar. Nenhum inimigo  vista, nem
do norte e nem do sul, tampouco do cu, que era mais fcil o
demnio sair de sua morada debaixo da terra, e Daniel Ahraho
ruminando a sua velha Biblia  luz mortia do lampio, detestando o
ar puro e o sol, vivendo no seio da terra, morada do diabo.
        Quando recolocava a tampa, ao cair da tarde, Catarina ainda
ouviu a voz soturna do marido:
        - Estamos nos tempos do Apocalipse, Catarina,  chegado o
sexto selo!



2 Havia mais duas novas mucamas na casa. Enquanto MarYna
cozinhava e preparava os doces, elas cuidavam da limpeza do
cho e dos mveis, zelavam pelas roupas e coisas de Sofia.
Schaeffer remetia, atendendo encomendas especiais do amigo,
cremes e pomadas milagrosas para a pele, sedas e perfumes. "No
imaginava que um homem como voc fosse ficar assim apaixonado
como um menino. Quando eu for ao Brasil quero conhecer essa
rainha, que toda a alem que se preza deve ser uma deusa na cama."
Um dia remeteu um estojo com um anel medieval, todo de ouro,
duas pequenas mos tranadas. Apertando-se um invisvel boto
lateral, as mos se abriam. "Antigamente as mulheres usavam esse
anel com veneno entre as mos de ouro. Na desgraa, quando
sofriam tentativas de estupro ou de morte, suicidavam-se com o p
escondido entre as mozinhas. Acho que no caso de vocs o anel
deveria conter algum p afrodisaco, pois meu caro amigo no ter
foras para manter viva a chama do amor, to consumido andar
com essa paixo."
      - Schaeffer adivinhou o tamanho exato do anel. Parece que
foi feito sob encomenda - disse Grndling, na noite em que
explicava para ela o segredo de abrir e fechar as mozinhas.
        Sofia se colocou na frente do grande espelho de cristal da
sala, ensaiou uma pose afetada, a mo graciosa sobre o colo. Ele
permaneceu onde estava, despindo a moa com os olhos, admirando
os cabelos soltos, caindo pelos ombros at quase a cintura. Quando
voltou para seu lado, Grndling quis saber como iam as aulas cOm
Dona Felipina. seus cadernos, examinou com ateno as lies. as
garatujas finas e arredondadas, depois abriu um livro e pediu que
ela tentasse ler um trecho. Sofia cobriu o rosto com as mos, nO


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teria coragem para tanto. Vamos, voc j est em condies de
ler. Apontou para uma linha, ela chegou a cabea bem perto, os
fios de cabelo roavam o nariz de Grndlng. Comeou lentamente:
      - Es ertolgten daher de von der... Geschichte verzeichneten
immer... schwerwiegende... . Untaten: Mord und Brand.
      - Bravos, no pensei que estivesse to adiantada.
        Depois calou-se, parecia cansado. Ela ainda continuou lendo
em silncio. Que livro era aquele? Um livro de histria, as guerras
napolenicas, no era livro para ela. Acho melhor a menina deitar-se.
Sofia ento perguntou se ele andava preocupado com alguma
coisa. Seriam OS negcios?
        - Meus negcios nunca andaram to bem, menina - disse ele.
      - Ento quem sabe sou eu?
Grundling teve um sobressalto.
        - Voc? Ora essa -, riu forado, tentando levantarse.
      - E por que no? - insistiu ela - se estou sabendo que
muitas mulheres vinham para c, de noite vinham tambem seus
amigos. Pelo menos era mais divertido do que agora.
-        E quem lhe teria dito essas coisas? Mariana?
      -Mas se eu no entendo uma palavra do que ela diz. Sabe,
as mulheres notam coisas Invisveis, marcas, cheiros, s vezes um
corpete no fundo de uma gaveta - a prpria Mariana com seus
olhares alcoviteiros...
      - Pois se as mulheres notam isso, espere at chegar l, menina.
Traga dali um clice e uma garrafa de rum, vou beber em
comemorao do misterioso anel que Schaeffer nos mandou, o anel
mortal.
        Ela obedeceu, trouxe a garrafa e dois clices.
        - Vou comemorar junto, afinal o anel veio para mim.
        - Voc beber rum?
        -         E por que no? - disse Sofia derramando a bebida nos
clices.
        Tocaram os cristais que retiniram. Grndling esperou que ela
bebesse primeiro, queria ver a sua reao. Soltou uma gargalhada
diante da careta que ela fez, como se tivesse engolido fel ou fogo.
Depois entornou o dele, para demonstrar como se fazia para beber
um bom rum.
        - No fao mais cara feia, quer ver?
        - Devagar, menina, isso  muito forte.
        - Ao querido amigo Schaeffer - disse Sofia erguendo o
clice acima da cabea - aos negcios de Herr Grndling, aos seus
amores, aos seus milhares de amores daqui e de alm-mar.


99


-        No tenho amores. At agora s tive mulheres.
        - E no faa uma cara to espantada assim, menina, h muita
diferena entre as duas coisas. Ah, pensou que no! Chega de
brindes, essa  muito boa, um brinde para os dois tipos de mulheres, veja
l que bobagem diz a menina. Cudado com esse rum. V? eu dizia
cuidado com isso, voc no est acostumada,  bebida para
marinheiro. Sofia deitando a cabecinha perfumada no seu colo. Que
engraada esta sensao de andar tudo  roda. Acho que vou cair
desta rvore. Por favor me d a mo, por favor. Eu quero ficar
aqui, tenho medo dos bugres.
        O        corpo de Sofia caiu mole sobre suas pernas, engrolava as
palavras, no se entendia mais nada. Carregou a menina bbada.
Leve como uma boneca de pano. Assim, na grande cama, ela ainda
parecia menor. Tirou-lhe os sapatos, precisava agora trocar o
vestido pelo camisolo rendado. Mariana e as outras duas negras j
deviam estar dormindo. Sofia lutando contra a sonolncia, tentando
ainda dizer alguma coisa. No quero ir, no quero ir. Depois gemia,
chorava de correr lgrimas, debatendo-se contra algo invisvel.
Pobrezinha, deve estar se lembrando daqueles bandoleiros. Tirou
da gaveta da cmoda a camisola, sentou-se na beirada da cama e
ficou passando a mo nos seus cabelos, afagando o rostinho
avermelhado. Comeou a desabotoar o vestido de gola alta. Um, dois,
trs. quatro... meu Deus, por que fazem os vestidos assim com
tantos botes? As grandes mos trmulas despindo a menina. Ela
voltava a falar mais claro. No deixe que me levem, eu no quero
ir.        Ningum a levar, jamais. Pode dormir quietinha que eu fico
aqui de guarda, eu, Carlos Frederico, est ouvindo, sua bobinha?
        Puxou o corpo nu e palpitante para si, a cabecinha deitada
no peito largo, de repente uma vontade sofrida de fugir em
desabalada corrida. Socorro, Izabela, quero cem mil putas s para mim,
cem mil mulheres de verdade, que venham de Montevidu, de
Buenos Aires, de Assuno. Sofia com a cabea cada para trs, boca
entreaberta, os dois seios crescidos, o ventre perfeito, as penugens
douradas, as grossas coxas leitosas. No posso. S um doido faria
uma coisa dessas. Uma arrematada loucura.
        Aninhou o corpo nu de Sofia sobre os lenis, a cabea
afundada no travesseiro de penas, em profundo sono. Beijou de leve seus
ombros, os seios, o ventre, as pernas. O gesto mecnico puxando
a coberta e escondendo a menina.
        Saiu tonto do quarto, o corao batendo no peito; abriu a porta
e caminhou autmato, como um boneco de engono, direto ao salo
de Izabela. Antes de bater na porta parou para enxugar o suor que


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escorria da testa. Viu a fumaa densa dos cigarros e dos charutos
fugindo pelas frestas das janelas. Abriu a porta com um pontap.
A algazarra cessou como por encanto. O cego, por um momento,
suspendeu as mos do teclado e sentiu no ar que Herr Grndling
havia chegado.
        Grndling teve vontade de chorar quando Jacob dedilhou com
carinho Mondschein. Izabela, no fundo do balco, ficou meneando
a cabea.



3 A Casa da pera, no Beco dos Ferreiros, revive os seus ureos
tempos da Casa da Comdia, ainda no mesmo barraco de
madeira caiada, fachada de pau-a-pique raso, liso, amarelo.
Grndling percorre o olhar em redor. Conta trinta e tantos camarotes.
Uma platia para mais de trezentas pessoas. Quatrocentas quem
sabe. Na sua maioria soldados em trnsito, alguns casais de
namorados na companhia dos pais, engomadas senhoras de amplos
vestidos. A mobilidade da Guerra Cisplatina transformara Porto Alegre
num entreposto de tropas, ora enxotando os homens de Lavalleja
que procuravam penetrar na Provncia por Bag e So Gabriel, ora
dando combate aos regimentos que intentavam conquistar Rio
Grande e toda a costa. Na rua, aproveitando as luzes de carbureto da
fachada, escravos, caixas e punilhas, vendedores de doces caseiros
formigando entre as famlias e os soldados que entram no teatro.
        Nesta noite, brilhando outra vez depois da morte do Padre
Amaro e de seis anos de completo abandono, o teatrinho encena
o Entremez do Barbeiro. A casa no poderia estar mais cheia, mais
ainda do que na semana anterior, quando Arajo Porto Alegre
brilhara na pea Viajantes da Bahia. Num cartaz rasgado, a um
canto, Grndling ainda pde ler: "Venha ver Arajo Porto Alegre
no papel de Calixto Oristenes de Souza Gomes Salazar Meio da
Costa Teles Souza Pereira Albuquerque da Gama e Lopes". Sofia
perguntou o que dizia o cartaz. Ele fez um gesto amuado com a
mo, era um nome muito grande para ser traduzido. Alis, a
menina Pouco vai entender de tudo isso. Trouxe para que no vire
bicho do mato. Soldados de p, encostados pelas paredes, grandes
chapeles de feltro, as caras barbudas e maltratadas. Num dos
camarotes, entre amigos alemes o Dr. Hillebrand. Ao dar com Sofia
Cumprimentou sorridente, com uma curvatura exagerada.
Grndling bateu no brao de Sofia, chamando sua ateno e retribuiu
O Cumprimento. Atrs dos dois, como uma sombra, a negra Ma-


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riana. As senhoras olham discretamente para os dois e comentam
entre si. Uma pouca vergonha o que vem acontecendo nas barbas
do chefe de Polcia. Um homem importante da Colnia,
endinheirado, beirando os seus trinta e seis anos bem vividos, mantendo em
casa uma concubina que escassamente estaria chegando aos
dezenove. Talvez nem isso, dezoito anos no mximo. E como mudara
de corpo em pouco tempo aquela menininha franzina, de peito
encovado, corpo esguio, agora ostentando ancas de mulher casada,
seios de quem amamenta - ele, o sem-vergonha,  quem suga
aquelas tetas - anis e colares faiscantes, moda francesa, europia.
Assim, em pleno teatro, entre damas e respeitveis cavalheiros da
terra, casados na igreja. E ningum para impedir aquele desaforo.
        Um ator se apresenta na boca de cena e anuncia para a noite
do dia seguinte, O Salom Morganado. Grndling percebe que Sofia
se sufoca com a fumaa de carbureto. Recomenda que coloque o
lencinho perfumado sobre o nariz e respire atravs dele. As
mulheres observam: a cadelinha com nojo do cheiro do teatro,
acostumada que est com os perfumes europeus que o alemo lhe
borrifa nos lenis, nas grossas farras da madrugada. Ele impassvel,
percorrendo com os olhos os casais nativos, os chapeles femininos
de mau gosto, vestidos caseiros e caras trigueiras de mestio. V
quando algum se aproxima do Dr. Hillebrand e lhe segreda
qualquer coisa ao ouvido, O mdico sai. Seus companheiros o
acompanham. Trs pancadas lentas nos bastidores, cessa o vozerio, apenas
um murmrio, gente se ajeitando nas cadeiras incmodas, o pano
que se abre. Inicia-se a funo. Alguns empregados comeam a
diminuir as luzes da platia.
        Grndling puxa a menina para perto de si e, em voz baixa,
procura traduzir as falas. A pea transcorre montona, Sofia batendo
no brao de Grndling para dizer que no precisava traduzir, no
estava muito interessada. Os irmos Gomes, Vicente, Apolinrio e
Lcio no revezamento dos dilogos. Ento algum entra no palco,
os atores calam,  Joo Batista Cabral, diretor do Teatrinho
Particular. Mas o que houve? O homenzinho enche o peito de ar:
        - Minhas senhoras e meus senhores, respeitvel pblico, peo
escusas por interromper to aprecivel obra de arte, mas se faz
imperioso. Tenho a subida honra de informar a todos que acabamos
de receber notcias da Corte dizendo que foi assinada a paz entre
o        Brasil e a Argentina, tornando-se assim Estado Independente, a
Banda Oriental do Uruguai.
        Sofia mal consegue ouvir de Grndling a traduo, tal a
balbrdia que se estabelece. Os soldados do hurras e abraos, os


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casais a abandonarem o pardieiro que treme, os atores imveis, sem
saber o que fazer. S Batista Cabral incentiva as comemoraes,
gritando vivas ao Imprio, ao Brasil e seus heris. Duas moas
entram em cena desfraldando a bandeira imperial e outras duas jogam
ptalas de rosas sobre as primeiras filas da platia.
        Cabral pede silncio, depois de haver desencadeado a confuso.
Anuncia, empostando a voz para o teatro, que amanh, no mesmo
horrio, levaremos  cena um Elogio Dramtico em honra a to
belo feito das armas imperiais. Uma insigne declamadora recitar
para a distinta platia uma longa e graciosa poesia de afamado
poeta local. O Entremez do Barbeiro nunca mais entrou em cena.
No dia seguinte o povo saiu s ruas com estandartes e bandeiras do
Imprio, tablados improvisados foram montados nos largos, com
atuao furiosa de grupos formados entre amadores, curiosos,
instrumentistas e funmbulos exibindo habilidades e proezas. Chegando
em casa, Grndling anuncia para Sofia que morre de sono:
      - Vou passar alguns dias fora. Viajo esta madrugada, preciso
reestudar a situao. No gostei muito dessa coisa de paz, sem mais
aquela.
      -Mas todo o mundo ficou to alegre.
      - Alegres porque eles no so homens de negcio. Paz  bom
para quem no tem negcio.
      -No entendo - disse Sofia subindo os degraus da entrada,
enquanto Mariana levanta a luz dos lampies.
      - Claro, mas um dia todos entendero.
        Grndling tira o casaco e o entrega  negra. Senta-se pesado
numa poltrona, abrindo o colarinho. Sofia no diz nada, permanece
de p, a sua frente. Mariana fica olhando os dois, do corredor.
V a menina tirar o chapu, os grampos do cabelo, o corpete justo;
deixa cair aos ps a larga saia de tafet negro.
      - Voc no podia deixar para fazer isso no quarto? - diz
Grndling.
        Despe o resto da roupa, inteiramente nua senta nas pernas do
homem pasmo, passa os braos em torno de seu pescoo e inicia
um longo beijo, a que Mariana assistiu em parte, fugindo espantada
rumo aos seus penates.
        Grndling carrega o corpo leve para o quarto. Ela decidiu, sou
escravo tambm da sua deciso. Mais cedo ou mais tarde isso
aconteceria, estava escrito. Deita-a na cama, fascinado, ouve a voz
abafada do Dr. Hillebrand, "este senhor  um amigo meu e veio
disPosto a ajudar voc. O senhor volta pelo rio?" Antes de fechar a
Porta, grita para a negra que no querem mais nada, que no que-


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rem ser incomodados. Torce a grande chave, v a menina nua,
imprecisa como num sonho, mais branca ainda pela luz das duas
lamparinas das mesinhas de cabeceira.
        Esta noite voltaria  sua memria quarenta e seis anos depois,
quando sentiu uma bala penetrar-lhe nas costas e o sangue quente
jorrar pela cintura abaixo, como um rio de lava incandescente.
Noite de frias e de avalanchas, de ais e suspiros, douras e
crueldades, de posse e de conquista, de macho brutal dominando a frgil
presa - fmea objeto e arma. dcil e irascvel, noite de
esgotamento e morte, O temor de que chegasse a madrugada, em cada
cantar de galo um aviso. At o fim de seus dias, quando
mergulhava na solido, a noite de Sofia se entregando vinha  tona, o
seu perfume, o cheiro de carne em cio, o gosto de sua boca, os
cabelos soltos desenhando arabescos no lenol impecvel; sempre
nos seus ouvidos a voz da menina-mulher, o desespero da entrega
alucinada entre quatro paredes, a sua reafirmao de guerreiro
imbatvel, o desprezo pelo raiar do dia, pelo passar das horas,
por tudo aquilo que estivesse acontecendo no mundo. Quatro dias,
ainda, ficou fechado entre aquelas paredes repletas de quadros,
espelhos e tapetes. A mucama velha entrando na semi-obscuridade para
servir comida e gua, levar garrafas de bebida, recolher toalhas,
trocar a roupa da cama enquanto o amo, inteiramente nu, segurava
em seus braos a menina despida e muda.
        No quinto dia, plido e abatido, lento, inseguro, ruma para o
cais, embarca num dos seus lanches e vai tratar de seus negcios.
Sim, os negcios caem assustadoramente em tempos de paz. Agora
Grndling do compra e vende, rude e impiedoso, gritando com os
empregados, ameaando com os punhos todo aquele que casse em
erro, que tropeasse no mais leve descuido. Por fim a bofetada,
estalada e sonora, em pleno rosto de Schlaberndorf, sua mulher Judica
presente, a humilhao do scio, a faca repentina atravessando o
brao de Grndling, a correria dos homens afastando os
contendores. Dali segue numa carroa para So Leopoldo em busca do
mdico amigo.
      -Mas isto me parece uma facada, Herr Grndling - diz o
Dr. Hillebrand.
      -Mas no , doutor. Um ponto de ferro a bordo, um
pequeno descuido, um escorrego e a tem o senhor o meu brao para
um rpido conserto.
      - Bem, no me resta outra sada seno acreditar na sua
verso, Herr Grndling, mas se me d licena tratarei o ferimento
como se fosse de faca. D no mesmo.


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        Nem um tiro a mais na disputa de fronteiras. Do lado de ca
do rio, tudo brasileiro. Do outro lado, castelhanos. Pois se o
imperador queria isSo, parabns, a estava a coisa feita. Soldados
passando em bandos, arruaceiros, desmobilizao sem ordem e nem
comando, os botecos regurgitando de bbados, os armazns
pilhados, sacos de mercadorias levados nas garupas dos cavalos, ladres
fugindo a toda brida campo afora, desaparecendo por veredas e
picadas, matos e rios. Grndling a correr de um lado para outro,
contratando guardas armados para proteger os seus negcios. Cada
carroa guardada por escoltas, atiradores debaixo dos toldos, dedo
no gatilho. Ah, esses ladres brasileiros. Ladres fardados, ladres
de chirip. O primeiro a tocar num saco de farinha leva um tiro
no bucho, no vai ter tempo de comer o po. Ladres. Eles pensam
que ns estamos aqui para trabalhar de graa. Claro, os heris de
Bag, os heris do saque. Os valentes guerreiros do Passo do
Rosrio, os bravos marinheiros de Monte Santiago. Pois no ofereo
a eles uma garrafa de cachaa, um naco de charque. Olhem aqui o
machado, peguem no cabo da enxada e faam o que ns fazemos,
ns os alemes. Ah. meu caro delegado regional, meta no rabo os
seus quatro gatos pingados de espada enferrujada na cintura. Vou
ao presidente da Provncia reclamar proteo. O imperador saber
de tudo isso pela palavra do Major Schaeffer, ningum tenha
dvidas, ele saber.
        Quando caa a noite, exausto, sujo, raivoso, lembrava-se de
Sofia e seus pulsos e tmporas latejavam como se fossem
estourar. Se pelo menos Izabela mandasse as suas mulheres, pretas,
brancas ou mestias, se o cego Jacob arrastasse at ali o seu maldito
piano ento dormiria esquecido de tudo o mais. Mas quando
se estirava nas camas de forragem dos velhos galpes, lutava contra
a viglia amando Sofia, inerte, desmaiada, branca, inteiramente sua.



4 Valentim Oestereich fazia parte do ltimo piquete a retornar
da fronteira. Catarina ficou sabendo por ele que a Guerra
Cisplatina terminara havia dois meses.
      - E que ficaram vocs fazendo por estes lados? - perguntou
ela desconfiada, vendo os companheiros de Oestereich num dos
caponetes.
        Ele disse, vadiando. Terminada a guerra, haviam comeado
outra, correndo atrs de mulheres tresmalhadas, elas andavam aos
magotes pelos arredores dos povoados, seguindo o rastro das tropas des-


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mobilizadas. Comendo gado gordo, que era tempo, comemorando
a paz, afinal. Depois de tudo, a saudade da mulher e dos filhos,
dos amigos, a vontade de beber sem pressa nos botecos, os dias sem
tiros e nem vozes de comando. Cada um dono do seu prprio nariz.
Catarina surpresa: quer dizer que a guerra acabou? Seu
pensamento voou para dentro do poo, no ouvia mais o que falava
Oestereich, no via mais nada em redor, a toca escura e preso nela
o marido acuado como um bicho, a noite e o dia emendados, o
tempo sem se deixar prender. O galho da figueira, intil, ningum
mais seria dependurado nele. Daniel Abraho abandonando o poo,
braos esticados, abertos, cabea erguida para o sol, pulmes cheios
de ar puro.
      - A senhora est me ouvindo?
      - Desculpe, Herr Oestereich, eu estava justamente pensando
nisso tudo.
      - Tudo o qu?
        Ela estava tendo uma estranha sensao de velhice, havia
passado muito tempo. Pois ento que cada um voltasse para as suas
casas, que cada um passasse a viver a sua prpria vida. Oestereich
riu, meio confuso, mas a senhora no tem do que queixar-se. est
na sua casa, junto dos filhos, tem terra para viver cem anos. Veja
o meu caso, que se pode dizer de mim, um soldado a mais, sem
guerra. Catarina voltada para o poo velho. Esta no  mais a
minha casa.
      -No entendo, desculpe - disse Oestereich.
        Sim, era difcil entender, ele talvez jamais entendesse de
verdade. Pois acabo de mudar de idia, parece engraado mas mudei.
Lutei o que pude por estas terras, jurei a mim mesma que daqui
ningum me arrancaria com vida. Hoje, no vejo mais motivos
para isso.
      -Mas esta beleza de terra...
      - Pois fao um negcio com o senhor, um negcio para ser
fechado agora mesmo. Fique com as terras, fique com tudo, me
pague um arrendamento qualquer, em troca me d alguma coisa na
colnia. Os Klumpp Schneider vao embora.
        Comeou a caminhar, fazendo um sinal para Oestereich segui-la.
Uma caminhada sem rumo e sem pressa. Os pssaros em revoada,
assustados. Bois e cavalos levantando a cabea, atentos. Um
cu limpo de outono. Ela falava sobre a estncia, como a fazer um
inventrio, depois cortou o assunto. Oestereich precisava saber de
toda a histria, isso talvez ajudasse a sua deciso. Pois chegava o
momento de pr um ponto final em todas aquelas infmias que


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estavam transformando o seu marido num animal, animal de toca,
mente comeando a ficar doente, as crianas sem pai, ou tendo por
pai um bicho. Fazia a proposta de corao aberto: Oestereich
trataria de limpar o nome de Daniel Abraho junto s autoridades,
que o deixassem em paz, que o largassem de mo, que esquecessem
o seu nome, as mentiras, as infmias, como qualquer um, ele teria
o direito de viver em paz, de viver como um homem. Em troca lhe
daria por arrendamento todas aquelas terras, as casas, os
semoventes, hortas e pomares, arrendamento de pouco dinheiro e de
poucas obrigaes, apenas quando desse. Um bom trato, agora que
os castelhanos viriam fazer negcios, comprar coisas, oferecer
trocas. Pois sem soldados para matar o gado e requisitar bens,
Oestereich plantaria ali os seus ps e viveria como gente.
        Philipp, na borda do poo, contava ao pai o que estava
acontecendo. Havia soldados no caponete, a me e o desconhecido
caminhavam lado a lado pelo campo, ela falando muito, ele de braos
cruzados, pensativo. Que estaria dizendo ao estranho Catarina?
Daniel Abraho subiu a escada e espiou por uma fresta da tampa o
cu azul sem nuvens, um bando de garas voando em formao, do
sul para o norte. Mandou o filho afastar-se, sair dali, desceu e
enfumou-se, poderiam desconfiar. Uma voz ecoou dentro de sua
cabea: "quando forem cumpridos os mil anos, satans ser solto de
sua priso". Que estaria Catarina revelando ao inimigo, Deus
misericordioso? Queria dormir. Se pudesse, choraria. Ouviu rudos,
algum removia parte da tampa, por fim a voz de Catarina:
      - Daniel Abraho, sobe e vem aqui falar com Valentim
Oestereich.
        Ela o entregava, afinal. Isso aconteceria mais cedo ou mais
tarde. No queria acreditar, pelo amor que eles tinham aos filhos. Ser
assim entregue aos soldados, como um criminoso. Encolheu-se como
pde no fundo da toca, carregou a espingarda sem fazer o menor
rudo. Novamente a voz da mulher chamando pelo seu nome. O
poo parecia deserto, Catarina olhou para Valentim que no
acreditava ainda na histria, estaria ficando maluca a pobre mulher?
Ela comeou a falar diferente, voz macia. Oestereich  nosso amigo,
um bom homem da nossa terra, contei a ele toda a histria, a
histria verdadeira, ele vai nos ajudar, tem amigos na colnia.
Valentim procurava olhar para dentro do poo, no via nada, que
diabo de homem era esse que morava debaixo dgua, como um
Cgado, um ser submarino criado pela imaginao da mulher doida.
Puxou Catarina pelo brao, deixasse, seu marido deveria estar
dormindo, no fazia mal, outra vez falaria com ele. Nisso ouviu distin-


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tamente uma voz de gente, meio de bicho, semitonada, rouquenha:
e os soldados, Catarina? Ela ento disse, a guerra terminou, Daniel
Abraho, j no h mais soldados, agora  gente como ns que
volta para casa, sobe homem, por favor, sobe. Ficaram os dois
escutando os primeiros movimentos do bicho enfurnado, ele sempre
repetindo os soldados, os soldados, Catarina falando coisas,
repetindo frases, como quando se fala com um cavalo xucro rebelde 
doma, Valentim constrangido, admirado, afastando-se um pouco
facilitar o dilogo difcil entre marido e mulher; viu quando
surgiu o cano de uma arma e depois as mos em forma de garra,
afinal a cabea melenuda do homem, grandes olhos examinando
Oestereich da cabea aos ps. Queres me entregar mesmo para os
soldados, isso no se faz, nunca pensei. Catarina tirou a espingarda
do marido e fez um sinal para Valentim, ele que se aproximasse.
Oestereich no  mais soldado,  um homem de paz, um patrcio
da gente, prometeu nos ajudar, vai dizer em So Leopoldo toda a
verdade, no podes continuar o resto da vida a dentro. O visitante
estendeu a mo em sinal de amizade e sentiu uma certa repulsa
pela mo imunda do outro. Ajudou Catarina a pux-lo para fora,
carecia de amparo para os primeiros passos, as pernas frouxas,
alquebrado. pele enrugada e peito chupado, mais parecendo um velho.
A mulher notou fios brancos na barba e nos cabelos compridos.
Philipp de longe assistindo ao ressurgimento do pai diante de
estranhos. os escravos espiando. Valentim dizendo, incrvel, no queria
acreditar no que os seus olhos viam, a mulher tentando melhorar
a sua aparncia, tirando placas de barro ressequido da roupa de cor
indefinida. pedaos de folhas e de galhos. Colocaram-no sentado
num mocho de trs ps.
        - Voc est me entregando, Catarina. Fala a verdade, pelo
amor de Deus. Diz que est me entregando - gemeu ele.
        Valentim disse, no  verdade, Herr Schneider. Vou clarear esta
histria e volto ainda aqui para arrendar estas terras, cuidar delas,
comea agora uma vida nova. Arrendar a terra? perguntou Daniel
Abraho arregalando os olhos. O visitante disse, Frau Catarina
depois explica melhor o trato, eu agora vou reunir os meus homens
e partir antes que a noite caia de todo. Botou a mo no ombro de
Catarina, fique descansada, tudo ser resolvido para melhor, isso
no se faz com um co, um bugre no merecia isso. Catarina ficou
com medo de chorar, no era o momento.
        - V com Deus, leve comida e volte logo.
        Quando partiam, Oestereich ainda abanando para Philipp que
corria para a figueira, Daniel Abraho disse para a mulher:


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- Quero voltar para o meu lugar, quero voltar para o poo.
Foi levado para l, sem uma palavra de Catarina que quase
no reconhecia mais aquele Daniel Abraho Lauer Schneider que
um dia viera com ela e o filho da Europa distante, chegando  nova
terra numa tarde de agosto, nos imundos pores da sumaca So
Francisco de Paulo.



5 Valentim no gostaria de dar aos Schneider uma casa caindo
aos pedaos, entregando-se da manh  noite a consertar o
telhado, remendar as paredes, repregar portas e janelas, cortar
o mato que tomava conta do quintal, o ltimo terreno da Rua do
Sacramento. A mulher deixara o filho com um vizinho e viera ao
povoado ajudar o marido. Quanto mais ouvia a mulher mais se
convencia de que estava dando um passo certo, Os bugres andavam
cada vez mais atrevidos, nem esperavam a noite para atacar, ela
mesma vira um bugre morto por Franz Bohrer, o corpo ainda
quente. Matavam homens e mulheres, raptavam as crianas,
saqueavam,queimavam as choupanas. Era uma desgraa receber um lote
mais distante, no comeo do mato grosso, perto dos rios.  noite
dormiam numa cama improvisada com enxerges e pelegos e
Valentim dizia que estava muito cansado para ouvir histrias assim
e que preferia matar a saudade dela, a lamparina de Tuz fraca
ajudando a reencontrar o corpo da mulher, ele dizia, quantas noites
pensei em ti, no meio da campanha. s vezes achava que ia
enlouquecer, no conseguia sequer imaginar o teu corpo, como eram
os teus olhos, teus cabelos, no sobra muito para quem est na
guerra e a gente nunca sabe se vai viver um dia, um minuto ou
um ano, muito difcil um ano. Ele pedia, no veste a roupa ainda,
quero te ver, passava a mo calosa por todo o corpo, como um cego,
tateando, o desejo voltando, ela exausta, quem sabe a gente dorme
um pouco, falta tanta coisa ainda para arrumar, ajeitar, limpar, que
vergonha a mulher dele chegar aqui e encontrar a casa como est,
tudo to estragado pelo tempo e pelos bichos.
        Quando estava tudo a contento, na vspera de partir, a filha
Ana Maria j com eles, as carroas preparadas, Valentim disse 
mulher que gostaria de rever os amigos, despedir-se, beber uns
tragos com os antigos companheiros dos Lanceiros Alemes,
rememorar feitos e valentias, brindar pela paz eterna dos que haviam
morrido, Foi quando chegou o Pastor Joo Jorge Eblets, todo vestido
de preto e encurvado como um urubu, mos em garra segurando


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uma Bblia. Quando Valentim enxergou o reverendo disse  mulher,
l vem aquela alma penada, que ser que ele quer comigo?
Bisbilhotar, pelo visto, que dinheiro ele sabe que eu no dou. Ela disse,
ele parece to agourento, o pobre. Ehlers deu bons-dias, que Deus
Nosso Senhor estivesse com eles, agora sim a casa comeava a
tomar ares de casa mesmo, que Deus abenoa os casais que
trabalham e crem nele. Valentim disse, no vamos morar nesta casa,
estamos arrumando para fazer uma troca com terras da fronteira,
vem para c uma outra famlia, amigos meus. Uma lstima, disse
o pastor, So Leopoldo est muito precisada de gente como voc,
Oestereich, h muito ainda o que fazer aqui, limpar a vila de
elementos malignos, proteger o rebanho do Senhor, o diabo no perde
ocasio, dorme com um olho aberto. Pior ainda, para mim ele no
dorme. Mas graas  Providncia Divina ele, Oestereich, ainda
estava ali e seu nome devia constar de um abaixo-assinado em defesa
de todas as famlias. Valentim largou o que tinha nas mos, olhou
intrigado o pastor.
      - Em defesa de que, reverendo?
        O        homenzinho fez um ar sombrio, precisavam afastar da
cidade o falso Doutor Carlos Godofredo von Ende, um charlato
desleixado e ignorante. Imagine, curou torto o brao de uma pobre
mulher e deixou um escravo aleijado para o resto da vida com a
sua medicina de mentira. Voc, Valentim, faz parte da nossa
comunidade e deve assinar este memorial. Pois no vou assinar, desculpe,
no quero encrenca, gastei na Cisplatina toda a vontade que tinha
de brigar. Sei, o senhor no vai entender, pacincia, amanh mesmo
me mudarei para sempre daqui. Ento o homenzinho levantou a
Bblia e gritou que a ira dos cus recairia sobre ele e toda a sua
gerao, Deus no gostava de ovelhas tresmalhadas. Calma,
reverendo, deixe que eu mesmo converso com Deus, ele me enxerga
por dentro, j o senhor - no acabou de dizer o que comeara, o
pastor dera meia volta e sumira na rua batida de sol.
        Oestereich saiu e quando voltou j era noite. Estava meio
bbado. Imagina, disse para a mulher, que encontrei Kirchardt,
Hoffeld e Oberstadt, companheiros de guerra, e os trs a insistirem para
que eu assinasse outro memorial para expulsar de So Leopoldo sabe
quem? pois veja, expulsar o Pastor Ehlers que anda babando dio
contra o mdico, um bom sujeito na opinio deles. Sabe de uma
coisa? Amanh de manh partimos daqui e nem olho para trs, h
muito dio solto, ningum se entende, no agento mais. E outra
coisa: falei com o Dr. Hillebrand, expliquei bem o caso do
Schneider, ele me disse que no sabia quem era, ouviu alguma coisa h


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muito tempo e que Schneider viesse com a famlia que no havia
mais nada contra ele, era coisa de guerra e que agora vivemos na
paz, os soldados tirando a farda, deixasse a coisa com ele. Sabe, o
doutor tem prestgio, ningum aqui  capaz de fazer qualquer coisa
sem que ele aprove. A mulher achou que estava certo, disse que
os escravos haviam aprontado as carroas, comprado os cavalos,
estava na hora mesmo de partirem e que estava pedindo a Deus que
o sol do outro dia no mais os encontrasse por perto. Sabe,
Valentim, estou me sentindo to contente como num sonho. Ento
vamos comemorar, disse ele desabotoando o vestido de gola fechada
da mulher.
        Partiram noite ainda, quatro carroas, cavalos de reserva,
Oestereich comandando mulher e filha bem acomodadas, munio de
boca  vontade, badulaques deixados, dvidas pagas e na porta,
pregada, uma tabuleta mal pintada informando aos passantes que
haviam partido e de que em lugar deles viria morar na casa uma
outra famlia. A casa ficava no fim da rua, porta e duas janelas,
quintal a perder de vista, ps de laranjeira, horta abandonada e,
banhado adentro, uma plantao de agrio, como ino.



6 Sofia grvida. Barriga de cinco meses. Grndling comprando
mais duas escravas, uma calea vinda do Rio com quatro
grandes e elegantes rodas, pequeno toldo na traseira, servida agora
por um cocheiro negro. Sofia, acompanhada sempre por Mariana em
rpidas fugidas pelas redondezas, aproveitando as breves ausncias
de Grndling. Fora disso, o casaro confortvel da Rua da Igreja
por menagem. As vizinhas entrincheiradas nos postigos, notando o
ventre inchado. As mais afoitas passando rente  porta lavrada,
pequenas paradas casuais, ouvido afiado para os menores rudos
vindos do interior. Mais tarde Grndling mandou construir um largo
Porto lateral por onde a calea entrava e saa, tirando Sofia dos
olhares curiosos.
        No havia mais vestido que escondesse a realidade. Sofia
bordando camisinhas tecendo l, recebendo da Alemanha as
novidades desconhecidas na Provncia. Schaeffer escrevendo bilhetes
secretos para o amigo, "isso de fazer filho na menina foi realmente uma
loucura. Segundo um mdico daqui, vocs podem fazer amor at o
Oitavo ms, desde que adotando cuidados especiais. E j deves ter
notado, sensvel como s, que a vagina da mulher prenhe tem um


111


grau a mais de temperatura. Trata-se de um requinte, mas de
requintes sei que ambos vivemos".
        No fundo, Grndling detestava a linguagem do amigo quando
se referia a Sofia. Para Schaeffer, todas as mulheres eram iguais.
"No sei se ficars com a menina e sua cria, mas estou remetendo
esta semana um bero lavrado em madeira-de-lei pelo melhor
arteso marceneiro que encontrei em Hamburgo. Junto segue uma
caixa de msica, comprada na Sua, para fazer o beb dormir
enquanto amares a me dele."
        Um dia, Grndling tomou uma deciso. Mandou chamar de
So Leopoldo o Padre Antnio Nunes de Souza. Precisava
conversar com ele sobre coisas da alma, afinal a vida no era s negcios.
Um Cronhardt Grndling estava a caminho. O padrezinho veio por
gua, instalado na casinhola de r de um dos seus lanches. Quando
subiu os degraus da entrada, assustou-se com a riqueza da casa.
A grande sala euronia, as cristaleiras de fina madeira com portas
de vidro facetado, obra de artistas franceses. As poltronas forradas
de cetim, tapetes de veludo. O padre aceitou o convite para sentar,
chapu rodopiando entre os dedos, o colarinho clerical empoeirado,
as pesadas botinas sujas de barro. Grndling  vontade, passeando
de um lado para outro, mos s costas, fisionomia carregada, como
a pensar no que havia de dizer ao homem. Decidiu-se:
        - Padre, pedi sua presena nesta casa para combinar a
cerimnia do meu casamento. Alm do que custar o seu trabalho,
ajudarei a levantar em So Leopoldo, em terreno de minha
propriedade, uma bonita capela para as suas missas. Como gratido,
compreende.
-        No h nenhum problema, Herr Grndling. O senhor 
muito generoso. Apenas no sabia que j estava noivo - disse o padre
em pssimo alemo.
        - Estou disse Grndling.
        O        padre puxou umas folhas de papel do bolso interno da
batina, lambeu a ponta de um lpis e ficou olhando para o dono da
casa, que continuava a caminhar pela sala.
        - Nome da noiva, por favor.
        - Sofia Grndling.
        - Eu pergunto pelo nome de solteira.
        - No importa, padre.
        - Nome dos pais?
        - Escreva a, desconhecidos. A moa me foi entregue pelo
Dr. Hillebrand, em confiana. Agora quero casar com ela. Por acaso
isso contraria as leis da igreja?


112


      - Bem...
      - E diga logo de quanto precisa para comear as obras da
capela. Forneo tijolo da minha olaria, escravos para a mo de
obra e mando buscar um sino especial da Alemanha. Quero o
casamento depois de amanh, em casa mesmo.
        - Mas temos bonitas igrejas em Porto Alegre, Herr
Grndling.
      - Quero aqui na minha casa, padre. Depois da cerimnia
mandarei servir um jantar especial para um grupo de pessoas,
amigas minhas. O senhor sentar  cabeceira e beber do melhor vinho
do-reno.
        Sofia abriu uma porta e surgiu na sala, O Padre Antnio
levantou-se pressuroso, olhando para Grndling.
      - Esta  Sofia, padre, minha mulher. Isto , que ser minha
mulher - corrigiu sorrindo.
        Sofia pediu ao padre que ficasse  vontade, sentou-se com
dificuldade na poltrona ao lado e disse:
      - De onde estava ouvi as suas perguntas a Herr Grndling.
Tome nota que eu mesma posso lhe fornecer os dados pedidos. Meu
nom  Sofia Spannenberger. filha de Julius e de Cristina
Spannenberger. idade, vamos ver, talvez dezenove anos. Ou vinte. Acho que
isso no importa muito. Meus pais, pelo que sei, eram luteranos.
        Nervoso, o padre ia tomando nota, molhando sempre a ponta
do lpis na lngua. Grndling deixara de caminhar, encostando-se
na ponta da mesa, braos cruzados, achando graa no desembarao
da menina. Sofia de cabea erguida, descansando as mos sobre a
barriga.
        - Estou com cinco meses, talvez faltando pouco para seis
meses de gravidez. Isso importa alguma coisa, padre?
        - Bem, creio que no. A senhora conhece a parbola da
prola?
        Sofia fez que no, com a cabea.
-        Est em So Mateus. "O Reino dos cus  tambm
semelhante a um negociante que buscava as boas prolas; e tendo
achado uma de grande valor, foi vender tudo o que possua e a
comprou."
Grndling sorriu largo:
      - O senhor poderia me dar esta citao por escrito, padre?
Gostei muito dela. Ento o negociante encontrou a prola que
queria, vendeu tudo o que tinha e a comprou. Est a uma coisa que
Senta como uma luva para o meu caso. S que eu no precisei
Vender tudo o que tinha, mas fiquei com a prola que queria.


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        Serviu um clice de rum ao padre, outros dois para ele e Sofia,
erguendo o seu bem alto:
      - Pela felicidade do nosso casamento, pela nova capela do
Padre Antnio e pelo nosso filho que vem a. Ah, ainda pela prola
que o senhor disse que encontrei.
        O        padre emborcou a sua dose, constrangido, devolveu o clice
para Sofia e pediu licena para sair.
        Grndling acompanhou at a porta, bateu amigvelmente
nas suas costas e lembrou, o padre na rua, ainda de chapu na
mo, confuso:
      - Depois de amanh, s sete horas. As testemunhas j esto
avisadas.
        Quando retornou  sala, Sofia continuava na mesma posio,
segurando os clices vazios.



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VIII


1 Quando a caravana de Oestereich surgiu no horizonte, notada
por Philipp, Catarina j tinha tudo pronto, definido; sabia o
que levar e o que deixar. O casal de escravos com filhos
ficaria. Os outros seguiriam juntos, ajudando na viagem. Havia
levado Juanito at o padre da parquia de Santa Vitria e l tratara
de fazer o casamento com Ceji, passando o ndio e a mulher a
formar um novo casal Schneider, que era preciso um sobrenome
cristo. A princpio pensara em deixar os dois tomando conta da
Estncia Medanos-Chico, abandonada como tapera desde a degolao
de Jos Mariano; mas pensou melhor, poderia surgir amanh ou
depois um parente reivindicando a propriedade. Juanito seria
expulso no mesmo dia. Eles agora eram gente de casa, iriam junto.
        A caravana se aproximava, Catarina postada resoluta sobre os
ps separados e bem plantados. Olhar vencendo coxilhas, rio e
serras, fitos na colnia distante onde recomeariam uma vida
quebrada pela guerra e quase destruda pelo dio.
        Daniel Abraho espiando pela borda do poo, indormido havia
quase trs dias. As pessoas que vinham eram os seus inimigos,
aqueles que ameaavam a sua furna, a sua solido. Que fariam com o
velho poo? Com a toca em forma de galeria, escorada, protegida,
cada coisa em seu lugar, a marca de fuligem do lampio, as
prateleiras para o po, o charque, para as garrafas de cachaa, as
forquilhas onde descansava a espingarda, longe da umidade, a tampa
de caixa onde colocava a velha Bblia. O tempo aprisionado ali
dentro, naquela pilha de varas aneladas. Cada anel assinalando um
fato, uma hora de terror, posse e viglia, dores e pesadelos. Ah, os
interminveis pesadelos daqueles dias de travessia; nos ouvidos,
Como uma concha, o rosnar do mar bravio. O tamborilar das patas
de cavalo, os gritos dos invasores. Tudo ali guardado, marcado, gra-


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vado, Os bandidos estuprando a sua mulher, quebrando a
coronhadas o ombro do ndio, o roubo das espingardas de contrabando, o
eterno galopar dos inimigos na demonaca roda-viva da guerra sem
fim. L vinham eles, os ladres, agora que a paz comeava a
reinar; no instante mesmo em que ele tencionava transformar a toca
num profundo lago solitrio.
         noite - Daniel Abraho comendo debaixo da terra e l
ficando para dormir - as famlias Schneider e Oestereich
confraternizaram. acertando os detalhes da troca. A pequena Ana Maria
dormindo nos braos da me e esta sem ouvir e nem falar. Philipp
atento, sonhando com a viagem maravilhosa, novas rvores, outros
pssaros, bichos novos. Catarina e Valentim esmiuando detalhes,
tudo muito tranqilo, nenhum dando de si mais do que desejava.
        - A senhora volta com duas das minhas carroas novas -,
disse Valentim - com parelhas de cavalos. Boi se arrasta muito, o
tiro  longo. Dois dos meus escravos voltam tambm, trilhando o
mesmo caminho. Sabem onde fica a casa, conhecem gente do
povoado.
      - Os meus escravos casados ficam com o senhor.
      - Parte dos mantimentos que vieram comigo - continuou
Oestereich - voltam com a senhora. Um pouco de cada coisa, o
sficiente para a viagem. Cachaa, leo de peixe, farinha, acar,
um pacote de palitos de fsforo, meio saco de milho para ajudar
na alimentao dos cavalos, capim s no chega para to longa
puxada. L na casa ficaram camas, mesas, cadeiras e mochos, dois
lampies, dois baldes e alguma coisa mais que comprei  ltima
hra.
        O        ndio e a mulher servindo churrasco de carne fresca,
Catarina havia ordenado Juanito a carnear uma ovelha, mal avistara a
caravana. Deram canecas de leite para as crianas, Philipp e
Carlota roendo, pela primeira vez na vida, um pedao de rapadura.
        Madrugada clareando, Catarina iniciou os preparativos para a
viagem. As ltimas estrelas comeando a desaparecer, enxotadas
pela dbil claridade do sol que se anunciava distante ainda.
Oestereich, logo depois, ajudando a carregar as carroas. Tudo amarrado,
pronto, feitas as acomodaes para as pessoas, comearam os
escravos a atrelar os cavalos, S Daniel Abraho alheio a tudo,
enterrado.
        - Marido, vamos?
      - J vou subir - respondeu Schneider, ainda sem dormir.
        A noite inteira de lampio aceso, preparando as suas coisas
com mincias, os feixes de varas-calendrio cuidadosamente amar-


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radas. Um saco de pedras limosas, as que lhe diziam qualquer coisa,
por misteriosas razes.
        Catarina percorrendo os arredores dos ranchos, passando os ps,
devagar, no cho onde O primeiro soldado a violara, caminhando
por entre as rvores novas do pomar, examinando com carinho as
folhas das hortalias, controlando uma vontade de chorar. Cada
coisa tinha a sua marca, fora feita por suas mos, lembrava uma
noite, um dia, uma certa madrugada. Mandou Juanito encher de
gua OS corotes. Juanito no entendeu, e nem precisava, ela disse
"gua do segundo poo". Depois foi buscar Daniel Abraho. O ndio
baixou para ajudar a carregar as suas coisas, ele nem sequer olhou
para trs, levava a espingarda e as varas. Entrou direto para o lugar
designado pela mulher, l se amoitou. A seu lado, Carlota e
Mateus, ainda dormindo, acomodados entre cobertores. Catarina
apenas estendeu a mo para Oestereich:
        - Quero que o senhor e sua famlia sejam muito felizes aqui
neste lugar. Mais do que ns fomos.
        - Desejo o mesmo para a senhora, Frau Catarina. Em So
Leopoldo, qualquer coisa procure o Dr. Hillebrand. Ele est
sempre pronto para servir os outros,  um grande corao.
        Ela subiu para a carroa, ao lado do marido. Dois escravos
fustigaram os cavalos da primeira carroa, iniciando a marcha.
Juafito dirigia a outra, a indiazinha sentada mais atrs, com uma das
mos agarrada ao cinto do marido. Os outros seguiam a cavalo,
cabresteando os de reserva. O primeiro claro do sol de um dia de cu
limpo encontrou a caravana passando ao largo de Medanos-Chico.
Ceji tapou o rosto com a mo e comeou a chorar. Catarina
impvida, olhar perdido na distncia, confusa.



2 O Padre Antnio bateu  porta carregando os paramentos numa
sacola de veludo bordado, batina colada ao corpo pela chuva
fina que caa, o pampeiro varrendo as ruas, sentindo a gua
molhar as meias.
        Mariana abriu a porta, protegendo-se da gua e do vento,
fazendo sinais para que ele entrasse ligeiro. Grndling surgiu no alto
da pequena escada, trajado com esmero, cabelo bem penteado, copo
na mo.
        - Que desastre esta chuva, padre. No ligue para os tapetes,
entre logo.


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        O        padre arregaou a batina e mostrou as botinas enlameadas.
O dono da casa deu meia volta, demorou-se um pouco, trouxe
enfiadas nos dedos as suas prprias chinelas de dormir.
      - Deixe as botinas a e calce estes chinelos secos.
        O        padre obedeceu, tirou as meias molhadas tambm e subiu
os degraus com dificuldade, que os chinelos sobravam. Sentiu logo
o calor aconchegante da sala, esfregando as mos aliviado.
Grndling apresentou o padre aos amigos.
        - Aqui Herr Joo Sulzbach - ia dando tempo para os
apertos de mo e as mesuras -, Benjamin Zimmermann, Jaques
Schiling Gruilherme Tobz e a Senhora Izabela... Izabela Silveira, da
famlia dos Silveiras de Viamo, gente da terra.
        Izabela estendeu a mo constrangida, que a negra Mariana se
mostrara surpresa com a sua presena; o grande chapu de feltro
com a abas balanando, a cara quase irreconhecvel de tanta
pomada e colorido, um decote exagerado que deixava entrever um par
de seios cados, murchos.
        - Fique  vontade, padre - disse Grndling servindo uma
forte dose de rum - que o calor mais forte sempre vem de dentro.
        Ao sentar-se, o padre puxou a batina tentando esconder os
chineles floreados que havia recebido. Bebeu o rum em pequenos
goles, passando a lngua pelos lbios.
        Mariana subiu numa cadeira e acendeu os seis lampies do
lUstre, clareando mais a sala. A conversa se desenrolava em
grupos, a meia voz, o padre e Izabela mudos, encolhidos nas suas
cadeiras. As duas escravas moas ofereciam em pratos de porcelana
pequenas fatias de porco e quadradinhos de um queijo vermelho
que o padre nunca vira antes. Mastigou um pedao e arregalou os
olhos, fazendo sinais de aprovao com a cabea. Grndling
quebrou o gelo do encontro:
      -No sei se vocs j ouviram alguma coisa, mas eu ando
preocupado com certos boatos que andam correndo pela colnia.
Conversa de descontentamento, de conspirao. Voc ouviu alguma
coisa sobre isso, Tobz?
        - Kalsing andou me falando de coisas assim - disse o outro -
mas no acreditei em quase nada. Claro, gente descontente h
em qualquer lugar do mundo, mas da para se falar em conspirao,
pelo amor de Deus.
        Schiling entrou na conversa:
      -Mas todo o mundo sabe que os nossos patrcios esto
irritados com essa questo de atraso dos pagamentos por parte do
governo. Tem gente a passando fome, Grndling.


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      - E isso seria motivo para conspirao? - perguntou ele a
Schiling - pois se no recebem o dinheiro do governo que
reclamem os seus direitos, que peam ao Dr. Hillebrand que exija o
cumprimento dos contratos. Isso  o que entendo, poSso estar errado.
      -Na verdade - interveio Zimmermann - essa falta de
pagamento prejudica os nossos negcios. Vender para quem, se
ningum tem uma moeda para pagar?
      - O senhor ouviu alguma coisa a respeito, padre? - perguntou
Grndling, servindo mais rum.
      - Bem, sei que falam, mas eu mesmo conversei com o Major
Joo Manuel, e ele me asseverou que o boato sempre corre  frente
da verdade.
      - Pois ele, mais do que ningum, deveria saber de tudo -
afirmou Tobz de boca cheia, mastigando pedaos de pernil assado.
        Grndling empinou o seu clice de rum:
      - Pura conversa, falatrio de quem no tem o que fazer.
Imaginem vocs que citaram at o nome do Major Oto Heise, um dos
grandes amigos do Major Schaeffer, como um dos principais
conspiradores. Santo Cristo! Um homem de bem, um homem que
ajudou a trazer para o Brasil, a mando da falecida imperatriz,
alemes da melhor cepa guerreira que formaram dois batalhes que
tantas glrias deram ao Imprio. Vejam s, Oto Heise conspirador!
        Virou-se para Izabela, toda empertigada na sua cadeira:
      - Que diz a minha cara amiga de tudo isso? Conhece tanta
gente, tem um crculo social to grande - concluiu piscando um
olho, depois de falar o seu portugus cheio de erros.
        Izabela mexeu as mos, nervosa, olhou assustada para o padre
-        havia tanto tempo que no via um padre - e disse com voz
sumida, olhando para Grndling:
        - Nem sei do que esto falando, no entendi nada.
Grndling riu alto e disse para os amigos:
        - Dona Izabela no entende uma palavra de alemo. Mas na
certa no sabe de nada do que estvamos falando.
        Houve um silncio geral, o padre segurando sobre os joelhos a
sacola com os paramentos, os amigos calados, mastigando e
bebendo.
        - Padre - disse        - venha comigo at aqui, acho
que est na hora de prepararmos a cerimnia. Coisa simples, padre,
nada de muito latim.
        O homenzinho seguiu o dono da casa, arrastando penosamente
OS chineles, fazendo mesuras aos demais, como a pedir licena.
Desapareceu por uma porta aberta por Grndling que logo a seguir


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gritou para dentro chamando a noiva, estava chegando a hora, que
no demorasse.
        O        padre abriu uma fresta da porta, enfiou a cabea e disse
para Grndling, em voz baixa:
      -No seria melhor mandar buscar as minhas botinas? Acho
que assim, no sei...
      - Qual nada, padre, aqui ningum repara numa coisa dessas.
Fique  vontade - e virando-se para a sala - todo o mundo fica
proibido de olhar para os ps do padre. Quem desobedecer ser
castigado pelos cus.
        O        padre recolheu a cabea, desaparecendo. Grndling voltou
rindo.
      -No h de ser um padre de chinelos que ir impedir Deus
de abenoar o nosso casamento. Vocs no esto de acordo
comigo?
        Minutos depois o Padre Antnio surgia com sua tnica de
rendas, estola e um manpulo pendente do brao esquerdo. Apertando
na mo direita o livro litrgico, com o Pontifical Romano. As duas
mucamas abriram a porta, postando-se uma de cada lado, como
ensaiadas, surgindo entre elas Sofia, inteiramente vestida de branco,
vu e grinaldas europias, um conjunto especialmente mandado da
Alemanha por Schaeffer. "Vai a o vestido de noiva pedido, com
o vu lindo e as grinaldas com flor de laranjeira, smbolo da
virgindade. Se algum erro existir em tudo isso, voc ter sido o nico
culpado. Podia ter tido um pouco mais de pacincia."
        Entre os homens causaram sensao os ombros nus e o rasgado
decote terminando em ponta, deixando  mostra o regao opulento.
A larga saia armada com crinolinas, encobrindo os ps. Uma
roupagem que lembrava os exageros dos tempos de Maria Antonieta.
Por aqui ainda se viam as mulheres com vestidos cujo comprimento
no ia alm da canela, deixando entrever os cales rendados e
fofos. Mangas imensas e gordas, ao contrrio do vestido de Sofia,
de mangas largas at os cotovelos e justas at os punhos. A cintura
baixa - Schaeffer no atentara para esse detalhe - deixava ainda
mais saltada a grande barriga, com a saia aberta nas costas,
discretamente disfarada pelo vu que se prolongava at o cho, com
sobra de extensa cauda.
        Sofia caminhava lentamente, com dignidade. Izabela a pensar
no dinheiro que faria com uma menina dessas no seu salo.
Bastaria t-la encontrado antes de Grndling. Quase sem nenhuma
pintura, seu rosto era perfeito. Os grandes e calmos olhos azuis con-


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trastando com a roupagem branca, os lbios entreabertos,
fisionomia sria. O padre evitando olhar para a barriga, o livro litrgico
aberto, nervoso.
        Grndling caminhou ao encontro da noiva, ofereceu-lhe o
brao, encaminhando-se os dois para o meio da sala, como se
estivessem trilhando um tapete de igreja. Estacaram diante do padre.
        Houve um breve silncio, todos se levantaram:
      - Estamos aqui reunidos para unir pelo sagrado matrimnio
da Santa Madre Igreja - o padre consultou suas anotaes -
Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt Grndling, solteiro,
catlico, alemo, e Sofia Spannenberger, solteira, alem, de pais
luteranos.
        Grndling puxou as mos de Sofia que descansavam sobre a
barriga, seu costume nos ltimos tempos; abotoou seu grande
casaco preto, ficando ainda mais empertigado. O padre lia o seu
aranzel, enquanto Izabela se deslumbrava com a cerimnia, mal
contendo as lgrimas de emoo. Tudo era to bonito, nunca havia
assistido, antes, a um casamento. Tobz continuava a mastigar, com
discrio, os pedacinhos de pernil.
      - A Igreja concede, dispensa a casamento entre catlico e no
catlico, desde que haja para isso razes justas - novamente olhou
para todos - desde que a parte no catlica prometa evitar qualquer
perigo para a f catlica, prometendo ambas as partes batizar seus
filhos segundo os rituais da Santa Madre Igreja.
        Grndling, sorridente, bateu de leve na barriga de Sofia:
      - Pode contar, padre, que este aqui ser batizado na Igreja
Catlica.
        Os outros riram. Sofia fez cara de contrafeita, o padre
prosseguiu irritado com a interrupo:
      - A Santa Madre Igreja exige a certeza moral de que esses
compromissos sejam cumpridos. Esta cerimnia dispensa os ritos
sagrados de costume, os banhos no devem ser publicados  nem
haver missa e nem bno nupcial. Mas aqueles a quem Deus
une, ningum mais os separara.
        Folheou o livro, fez uma pausa e empostou a voz:
        - Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt Grndling, aceita
Sofia Spannenberger por sua legtima esposa?
      - Claro, padre, aceito - respondeu alegre.
      - Sofia Spannenberger, aceita Carlos Frederico Jacob Nicolau
Cronhardt Grndling por seu legtimo esposo?
      - Aceito - respondeu a noiva com um fio de voz.


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      - Pois no havendo nenhum impedimento ou se algum souber
de algum que torne este casamento ilcito ou nulo  obrigado, sob
pena de pecado mortal, a denunci-lo.
        Fez uma pausa, estendeu a mo esquerda conduzindo a estola,
pedindo a Sofia que colocasse sobre ela a sua mo direita, sem
luvas, com a palma voltada para cima. Pediu a seguir a Grndling
que colocasse a sua mo direita sobre a mo da noiva. Sobre ambas
colocou a outra ponta da estola, prosseguindo:
      - Repita comigo, Herr Grndling: eu, Carlos Frederico Jacob
Nicolau Cronhardt Grndling...
      - Eu, Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt Grndling.
      - Recebo a vs, Sof ia Spannenberger, por minha legtima
mulher.
      - Eu, Sofia Spannenberger, repita comigo.
      - Eu, Sofia Spannenberger...
        - Recebo a vs, Carlos Frederico Jacob Nicolau Cronhardt
Grndling, por meu legtimo marido.
        Sofia repetiu com voz pausada, baixando os olhos.
      - Eu vos uno em matrimnio, im Namen des Vaters, des
Sohnes und des heiligen Geistes, amm. Pela asperso de gua benta,
Deus Onipotente vos conceda sua graa e bno.
        Grndling beijou Sofia, depois cada um dos presentes fez o
mesmo. Izabela apertou a mo da noiva e fez uma curvatura to
exagerada - afinal estava diante de uma senhora casada - que o
grande chapu caiu sobre os olhos, desmanchando ainda mais a
pintura.
      - Padre - disse Grndling - dispa-se dessa coisarada toda
e venha ocupar o seu lugar de honra em nossa mesa. Mas antes
disso, um momento, senhores e senhoras, para uma comunicao.
Senhores, ateno! Quero que todos saibam que o Padre Antnio
acaba de ganhar um excelente terreno de minha propriedade, em
So Leopoldo, terreno de esquina, para nele construir a sua igreja.
        Tirou do bolso um papel:
      -Neste documento concretizo a doao. E mais, darei os
tijolos necessrios para a construo e mais escravos para a mo
de obra.
        Padre Antnio, sem esconder a sua alegria, acrescentou:
      - Sem falar no sino especial, Herr Grndling, que mandar
vir da Alemanha especialmente para a capela.
        - Ah, seu vigrio esperto, no esqueceu nem a promessa do
sino. Pois mantenho a palavra. Quero um sino que seja ouvido at a


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Feitoria, chamando gente das picadas e das linhas. Est satisfeito,
padre? Pois ande logo e venha para a mesa.
        O        padre sumiu pela porta, de onde sara paramentado, Sofia
foi acomodada ao centro da mesa, Mariana trouxe dois castiais de
prata com velas acesas, as mucamas comearam a trazer travessas
e pratos fumegantes.
        O        ltimo a sentar-se foi o padre, que antes pediu silncio,
baixou a cabea e disse:
      - Peo a Deus Nosso Senhor que abenoe o alimento que
hoje nos d, amm.
        Grndling abancou-se e repetiu bem humorado:
      - Amm, amm, amm que este leito faz qualquer vivente
morrer afogado de tanta gua que nos vem  boca.
        Sacudiu uma sineta de cabo de marfim, gritando para dentro:
      -Mariana, traz o meu vinho-do-reno especial.
      - Do Reno mesmo? - perguntou o padre.
      - E de onde queria o senhor que eu fosse buscar o vinho para
comemorar o meu casamento? Dos parreirais do Rio Grande, que
mais se parece com vinagre ardido?
        Mariana veio com quatro garrafas num cesto, Grndling ia
tirando garrafa por garrafa e dizendo:
      - Este branco  da regio do Mosela. Este tinto, muito raro,
vem do Sarre. Aqui temos um branco seco do Meno e outro de
Nahe, todos eles filhos legtimos das vertentes do Rheingau.
        Schiling foi o primeiro a provar. Estalou a lngua no cu da
boca, "s aos deuses  dado tal prazer". Zimmermann fingiu
desmaiar, "depois disso a morte, a gloriosa morte deuses do Olimpo".
Grndling cortava o leito com uma grande faca de prata, pedindo
que cada um escolhesse o seu pedao. Sofia pediu uma fatia
pequena de peru, sentindo-se mal com a grinalda que ameaava cair
a todo o instante, o vu prendendo nos recortes da cadeira de
espaldar alto. Izabela de olhar fixo para o decote que entremostrava
dois rijos, macios, veludosos seios de menina-moa, "h quanto
tempo no vejo uma coisa assim. Com uma menina dessas eu faria
fortuna em menos de um ano".
        - Padre, disse Grndlin, de boca cheia, faamos um
brinde  sua futura igreja na colnia de So Leopoldo. Que Deus
passe a morar dentro dela, para a salvao das almas de todos ns!
        Levantaram as taas, Padre Antnio disse "que Deus os
abenoe", agradecido, j imaginando o incio das obras dentro de mais
algumas semanas, se as chuvas passassem. Enquanto isso, era
beberem do melhor vinho do mundo, aqueles acepipes cados do cu.


123


S Izabela sem nada entender, lembrando-se, um pouco preocupada,
de que quela hora o salo j comeava a receber a freguesia de
sempre, Dolores tomando conta do negcio, os ltimos soldados
chegados da guerra tomando conta das mesas e das mulheres, iniciando
pela dcima vez a borracheira em comemorao pela paz. L estava
Jacob batucando seu piano, a fumaa compacta dos palheiros, os
palavres e as danas com retinir de esporas.
        Quando Grndling gritou, batendo na mesa, que no agentava
mais de tanto comer, os demais j haviam cruzado os talheres. As
mucamas vieram tirar a mesa, trazendo logo a seguir as belas
compoteiras coloridas com doce de leite, ambrosia, pssegos em calda,
fios de ovos e bom-bocados.
        - Deus no aprecia os gulosos - disse Padre Antnio
estendendo a mo com o pratinho vazio - mas perdoa sempre os que
sabem apreciar os deliciosos doces de casamento. Gostaria de provar
um pouquinho de cada um deles, se no estou sendo mal educado.
        - Pois eu fao o mesmo, padre, e sei que no estou pecando
-        disse o dono da casa tirando fios de ovos com um grande garfo.
-        Primeiro desse aqui que s Mariana sabe fazer, s ela tem o
segredo.
        Sofia pediu tambm fios de ovos.
        Grndling ainda esperou que o padre terminasse de comer o
ltimo doce - o homenzinho jantava de novo para sugerir que
o caf fosse tomado nas poltronas. Ajudou Sofia a levantar-se.
        - Estou com vontade de tirar esta roupa - disse ela.
      -No senhora - contestou Grndling - isso daria azar.
        E mais baixo, s para ela ouvir: Quem deve despir a noiva  o
noivo. Disto no abro mo.
        Depois do caf as negras serviram, em bandejas de prata
cobertas com finos guardanapos de renda, pequenos clices com licor
de anis. Zimmermann levou seu clice de encontro a uma vela e
disse para os demais:
        - Algum j viu cor mais bela?
        O padre bebeu o licor de um gole s, olhos amortecidos, cabea
pendente. tonto de sono, com o vinho branco a borbulhar no
estmago, perdidos os dois chinelos sob a mesa, deixando de fora da
batina os ps macilentos, de grandes unhas curvas e encardidas.
        Mariana trouxe, a um pequeno sinal de Sofia, a caixa de
msica mandada por Schaeffer, colocando-a na mesinha ao lado do
padre. Abriu a tampa e se ouviu um trecho repetido de valsa, leves
notas delicadas, puras, cristalinas, Padre Antnio achando que era
msica de anjo, enchendo a sua cabea de sonhos e de nuvens,


124


vendo-se carregado por uma legio de querubins diretamente para o
reino celeste. Uma suprema graa de Jesus Cristo Nosso Senhor,
como a concedera a Elias, levado para os cus num refulgente carro
de fogo. Ou como Henoch, sugado para o cu em carne e osso.
        - O nosso bom padrezinho se apagou, senhores.
        - E ns vamos deixar o encantador casal iniciar a sua lua-de-
mel - disse Schiling, levantando-se sem firmeza.
        Todos o imitaram. Grndling afastou-se de Sofia, chamou os
amigos e confidenciou, de lngua mole, que Izabela havia preparado
a continuao da festa na casa dela. Cada um recebe a esposa que
merece, mulherio escolhido a dedo para meus convidados. Tudo
por minha conta.
        Formaram fila, cumprimentando Sofia, desejando felicidades
sem conta, ela empertigada na sua cadeira, sorrindo sempre. A
ltima foi Izabela. O dono da casa acompanhou os convidados at a
porta, onde os guardava a calea fustigada pelo vento e pela chuva
fina.
        Grndling voltou:
        - E que fazer, agora, com o nosso bom padre?
        - Acho melhor lev-lo para o quarto de hspedes - disse
Sofia.
        Foi o que o marido fez, ajudado por Mariana e as duas negras.
Foi jogado na cama macia de batina e tudo e sobre ele colocaram
um cobertor de l.
        As negras se retiraram a um sinal do dono da casa. Ele
caminhou at Sofia, levantou-a no colo e foi direto para o quarto,
abrindo a porta com um leve empurrar de p. Estava tudo
preparado por Mariana, uma lamparina acesa sobre a cmoda, os grandes
travesseiros engomados, os lenis perfumados e reluzentes.
Depositou a noiva na cama, com cuidado, tirou o pesado casaco e o
colarinho, desabotoou o colete, descalou os sapatos esfregando um
p contra o outro. Sentou-se ao lado dela. Sofia inerte, os grandes
olhos parados. Ento tirou o vu e as grinaldas, comeou a
afrouxar o corpete, retirou a saia e terminou de despi-la,
aconchegando-se a seu lado. Voc fica engraada assim nua, com a barriguinha
esticada como um tambor. Como ser que a pele  feita? Parece
de borracha, a natureza  sbia. Quero ver quando o guri sair da,
se a pele volta a ser o que era. H mulheres em que isso no
acontece, elas ficam, depois dos filhos, com a barriga cheia de rugas e
pregas. Mas isso com as mulheres velhas.  gostoso passar a mo
assim, bem de leve. Deixa eu escutar esse moleque, silncio, quieta,
acho que estou ouvindo o coraozinho dele bater. Teus seios, ve,


125


esto ficando enormes, l na mesa eu estava com cimes dos olhares
de todos eles. A certa altura me deu vontade de abrir ainda mais
o decote e mostrar a eles o que  s meu, de mais ningum, eles
morreriam de inveja. Claro, eu  que passarei a ter inveja. Vem
a algum que se adonar deles, isso no  uma coisa engraada?
Disse Sofia, meu amor comeu tanto,  perigoso. Ele comeou a
passar a boca semi-aberta, pelos bicos arroxeados. Comer ou beber
nunca fez mal ao amor, pelo contrrio. Deitou o rosto junto ao da
mulher, hoje  a nossa grande noite. Sofia ficou passando os dedos
abertos em seu cabelo, na orelha, para mim tambm  uma grande
noite, mas no maior e nem melhor do que aquela noite, sabes do
que estou falando, daquela grande noite. Foi quando chegamos do
teatro, quando eu vi todas aquelas mulheres horrorosas agarradas
no brao dos maridos, sabendo o que fariam quando chegassem em
casa. Eu sonhando a cada minuto contigo, ouvindo rudo de porta
se abrindo, naquelas longas noites, madrugadas inteiras me
revirando na cama, desejando-te com loucura. Aquela sim, foi a grande
noite, a maior noite. Ele aspirava o perfume forte da marcela,
enguilha e desatando o tope das ceroulas. Isso mesmo, aquela foi a
grande noite, repetiu ele. Sentiu a mo da mulher penetrando a
roupa, tocando na sua pele. Facilitou a procura, nervoso, o corao
disparando, acelerado. Tenho medo de machucar o beb. Vira
assim de lado. Assim. Sofia ficou de costas, descansou a grande
barriga sobre os lenis, ajudava o marido, sentiu as suas mos
abarcando os seios trgidos, uma sensao de quem desmaia.
        Acordou na manh do dia seguinte ouvindo o barulho da chuva
que no parara e o canto molhado de um galo prximo, o raiar de
um novo dia.



3 Rua do Sacramento, sem nmero. Ali estava a casinha de
pau-a-pique, duas janelas ladeando a porta, paredes caiadas de
branco. Um dos escravos de Oestereich pulou do cavalo e abriu
a porta. Catarina entrou curiosa, uma sala acanhada, dois
quartinhos, a cozinha separada por um telheiro, mais ao fundo a latrina
de tbuas velhas, telhado de madeira, queimada pelo tempo. O pomar
destrudo, a horta tomada por erva-ruim. Cheiro de mofo pelos
cantos, janelas e portas com belas e luminosas teias de aranha.
Juanito comeou a destrancar as janelas, os escravos iniciando a
descarga das carroas. Os cavalos foram levados pelos escravos para


126


um terreno baldio, ao lado. Ceji olhando a Sujeira e comeando
a limpar a mesa tosca, os mochos. O colcho da cama, imprestvel.
Dois escravos o retiraram aos pedaos. Catarina foi at a porta e
dali correu o olhar pelos arredores. Era a ltima casa da rua
alagada, grandes valetas por onde a gua escorria, um matagal fechado
para o norte, trs ou quatro quarteires dali um largo descampado,
seria talvez a praa. O dia descambava e a limpeza teve que ser
apressada. Em lugar do colcho, cobertores. Ceji e Juanito, com
vassouras improvisadas de guanxuma, deixaram o cho de terra-
batida limpinho, lustroso em alguns lugares. O ltimo a descer da
carroa, quando a noite j havia chegado, escura e fria, foi Daniel
AbrahO, gestos de um fugitivo, encostado depois contra a parede,
acuado. O fogo de tijolos j com chamas, panelas com gua,
esquentando, um lampio na sala, a parca luz.
      - A casa  pequena - disse Catarina para o marido.
      - Fomos logrados por aquele vagabundo.
      -No. Ele nunca nos falou que daria um palcio. Para tudo
h remdio. A partir de amanh mesmo trataremos de aumentar as
peas, construir um abrigo para os negros, um galpo para as
carroas.
      -Mas para isso precisamos de dinheiro disse ele cofiando
a barba suja.
Catarina olhou para o marido com certo desprezo.
        - Deixa isso comigo.
Schneider passou a noite em claro. No devamos ter sado de
l.        Estava tudo arranjado. Sim, tinha a minha toca debaixo da
terra. Mas era tudo mais seguro. No, l no passava ningum por
perto, era muito raro passar algum vivente. Catarina mandou que
ele calasse a boca, se ele no podia dormir, pelo menos deixasse os
outros dormirem. Faltava para ele o teto ao alcance das mos, as
paredes coladas ao corpo, no sabia mais dormir sobre a terra, o
ar frio entrando pelas frestas como duendes ameaadores, o inimigo
sempre  espreita, os soldados prontos a ca-lo. A faca que corta
o pescoo, a espada que entra no peito, a corda a balanar sinistra
de um galho qualquer.
        Ao acordar, madrugada ainda, Catarina viu o marido acocorado
a um canto, espingarda entre as mos, olhos muito abertos, posio
de co em guarda.
      -No vejo a razo de tudo isso, Daniel Abraho. Terias
ganho mais aproveitando a noite para dormir. Teremos de trabalhar
da manh  noite, no podemos nos dar ao luxo de ficar uma noite
inteira de tocaia. E tocaia contra quem, pelo amor de Deus?


127


        Os escravos legados por Oestereich foram a um tambo prximo
buscar leite e de um emprio trouxeram gros de caf, modos logo
depois num pilo de mesa. Tambm bolachas, duras, quadradas,
precisavam molhar no caf-com-leite.
        Mais duas semanas e havia uma nova pea ligada  casa. Para
o galpo dos escravos e das carroas comeavam a chegar grandes
toras de madeira, contratando Catarina um carpinteiro
especializado em construes.
        Num pedao de cho do telheiro, Daniel Abraho cavou um
grande buraco, fez sobre ele uma cobertura de madeira e bem ao
centro engendrou uma porta de alapo. Catarina nem perguntou
para que serviria aquele buraco. Sabia muito bem. Pronta a nova
toca, o marido cobrira o fundo com palha seca, ajeitou uma cama
com varas finas de eucalipto, forrou o tramado com um grosso
cobertor, encheu uma fronha com feno, escondeu l embaixo suas
varas-calendrio, suas pedras trazidas de Jerebatuba, seu
lampiozinho de leo de peixe.
        Acabado o dia, l se enfurnava ele, tomando o cuidado de
prender a porta do alapo por dentro.
        Um dia, Catarina achou que era chegado o momento de
procurar o Dr. Hillebrand. O consultrio estava cheio, ela esperou
como se fosse paciente  procura de cuidados.
        - O que h com a senhora? Est com bom aspecto - iniciou
o mdico assim que ela entrou.
      -No estou doente, doutor. Sou Catarina Klumpp Schneider,
mulher de Daniel Abraho.
        - Ah, sim, da famlia que veio para a casa de Oestereich. Um
bom sujeito aquele Valentim Oestereich. Fizeram boa viagem? Seu
marido est bem?
      - Apesar de tudo por que passou, doutor, at que est bem,
descontando-se algumas manias do pobre.
      -Manias?
      - Bem, ele passou muito tempo dentro de um poo, numa toca
cavada por ele prprio, pois queriam enforc-lo.
        - Sim, Oestereich me contou essa histria. Mas agora aqui
trabalhando duro, ele esquece esses tempos ruins.
        - Pode ser, doutor, mas no tenho muitas esperanas. Voltou
outro homem, s vezes chego a desconhecer meu marido.
        - Pois um dia quero v-lo, ficar bom. A senhora est
precisando de alguma coisa? Estou s ordens.
        - Obrigada. Queria apenas saber se podemos afinal iniciar aqui
em So Leopoldo a nossa vida, o nosso trabalho. S isso, doutor.


128


        - Mas claro,  evidente que podem. No h mais nada contra
seu marido, ele pode trabalhar,  um seleiro dos melhores, pode
ganhar o seu dinheiro honestamente. Ningum ir incomodar vocs,
iSSO eu posso assegurar.
        Voltou mais confiante, o horizonte aberto das bandas do Chu
no lhe faria falta, sabia exatamente o que fazer e como fazer.
Havia dinheiro de sobra para comear, era arregaar as mangas,
baixar a cabea e tocar o barco. Chegou em casa quase alegre, fez
carinhos inesperados nos filhos e sentiu o olhar espantado de Daniel
AbrahO.
        No dia seguinte foi procurar o novo inspetor de colonizao.
Queria saber onde encontrar seus velhos amigos, seus companheiros
de viagem. Jos Werland e sua mulher Cristina. Pedro Heit, Maria
Luiza e seus filhos Jorge Carlos, Maria Luiza e Cristvo Carlos.
Felipe Dexheimer e sua mulher Ana Margarida, os dois de
HessenDarmstadt, Joo Selzen, Henrique Jacob Dieterich. Onde andavam
eles? O inspetor percorreu com ateno as listas, os livros e
registros; estavam todos espalhados por picadas e linhas, alguns ainda
em Estncia Velha, Bom Jardim, So Miguel, Linha 48, Picada do
Caf.
        Enquanto os escravos terminavam os galpes, comprou couros e
correias, tachas, cordis de selaria, ferramentas especiais,
importadas, entregando tudo ao marido.
        - A partir de agora vais exercer a tua profisso. Precisamos
ganhar dinheiro.
        Dias depois encontrou no povoado o seu conhecido Isaias Noll,
modesto fabricante de carroas. Ofereceu a ele sociedade, meio a
meio. Os Schneider entrariam com o material e com os galpes.
Ele, Noll, com a experincia. Daniel Abraho entendia do riscado.
Negcio fechado, Noll levava quatro meses para entregar uma s
carroa, assim produziria mais. De manh  noite Daniel Abraho
trabalhava com entusiasmo, entalhava peas, enxo em punho,
recolhendo-se ao esconderijo no fim do dia, msculos doloridos,
desabituados ao trabalho pesado. E assim a primeira carroa foi
construda, montada pea por pea, o aro de ferro colocado por um
ferreiro amigo, Frederico Jacobus, que logo depois pediu para
trabalharem em conjunto.
        Nem bem aprontavam uma carroa e j o comprador estava
na porta com o dinheiro na mo, ansioso para lev-la. Os melhores
e mais cmodos serigotes comearam tambm a sair dali, agora
Uma enorme oficina com mais dois galpes emendados, muito mais


129


gente trabalhando, os negros no servio de limpeza, na entrega de
mercadorias.
        Carregando Juanito consigo, Catarina iniciou os primeiros
Contatos com seus amigos nas colnias, ao p da serra. Queria comprar
sua produo para vend-la em Porto Alegre e Rio Grande. A
mulher de Felipe Damian, Eva Margarida, disse a ela:
        - Aqui, tudo o que se tira da terra  vendido para os emprios
de um tal de Grndling. Paga bem.
      - Pois eu pago mais. Grndling est enriquecendo s Custas
de vocs todos.
        A mulher fez uma cara de espanto. Gritou para dentro:
      - Felipe, ouve o que Catarina est dizendo.
        O        homem veio sestroso, reconheceu a mulher de Schneider, mas
ento por onde andaram por todo esse tempo, as crianas, so duas.
se no me engano.
        - Trs - corrigiu Catarina. - Philipp, que eu j trouxe da
Alemanha, Carlota e Mateus.
        Fez uma pausa, elogiou o cuidado do lote, a casa bem tratada.
        - Ento, querem fazer negcio comigo?
        - Bem - disse o homem - mesmo que a senhora pagasse a
mesma coisa, a gente ia dar preferncia para os amigos. Est
fechado o negcio.
        Virou-se para a mulher que ficara satisfeita com a deciso:
        - Quando os compradores dele aparecerem por aqui diz que
no temos nada para vender.
        Dessas viagens, Catarina regressava quase sempre noite fechada,
muitas vezes tendo que descobrir os caminhos, perdendo-se nos
atalhos, mas chegando em casa com novas perspectivas de negcios,
novas esperanas. Mandou construir outro galpo, desta vez mais
acabado: queria instalar nele o novo emprio da praa de So
Leopoldo.



130



IX


1 Se for menino vai receber o nome de Jorge Antnio em
homenagem ao nosso grande amigo Schaeffer disse
Grndling.
-        Mas se vier menina - disse Sofia - quero homenagear
minha me, a pobrezinha. Vai se chamar Cristina.
        Na madrugada de domingo para segunda-feira, dia 19 de
outubro, Jorge Antnio chorou pela primeira vez, cabea para baixo,
os pezinhos seguros pelos dedos experientes de Frau Hortnsia
Linck, velha parteira das famlias endinheiradas. Mariana e as
negras correndo da cozinha para o quarto, o grande fogo de chapa
rubra de tanto fogo, grandes panelas e bacias cheias dgua, o pai
torcendo as mos, a perguntar se tudo corria bem, se o menino no
tinha nenhum defeito, se a me sofria muito. Dona Hortnsia
chamou o pai e exibiu, enrolada em alvos panos, uma coisinha leitosa,
cara enrugad.
      - Se tem algum defeito? - disse ela, rindo - claro, os
defeitos do pai, na certa, mas isso s se v mais tarde, quando for
homem.
        Grndling ficou olhando para o miolo daqueles panos todos.
Seriam mesmo assim as crianas, todas as crianas, quando nasciam?
Parecido com quem? No dava para ver.
      - Pode entrar e cumprimentar a menina - disse a parteira.
-        A me tem uma bacia capaz de parir um filho de nove em nove
meses.
        Grndling ajoelhou-se ao lado da cama, pegou entre as suas
as mos macias e plidas de Sofia.
-        Ests contente? Querias homem - disse ela.


131


      -Muito, muito mesmo. Vai ser um Spannenberger Grndling
de deixar nome na histria. Macho como poucos, disso no tenho
a menor dvida.
      - Pelo que vejo ests te deixando influenciar demais pelos
gachos. Pois olha, eu quero que seja msico, ou poeta, ou um alto
senhor de negcios - disse Sofia com os olhos midos.
        - Ser o que voc quiser, meu bem.
        - A gente nasce com o destino escrito. V o meu caso. Quando
poderia sonhar que um dia iria te encontrar - sorriu Sofia.
        Naquela semana mesmo Grndling recebe uma carta de
Schaeffer "no sei se ao chegar esta carta s suas mos j no ter
nascido o filho de vocs. Ou a filha. As cartas demoram muito para
atravessar o mar e chegar a. Nossos emprios de Hamburgo
receberam as cargas de milho e de batata-inglesa, sendo que parte desta
em pssimas condies. O fumo em folhas, embora em pequena
quantidade, agradou muito aos compradores. Os couros esto sendo
colocados com dificuldade, tendo em vista os defeitos produzidos
pelos bernes e ainda pela m qualidade da curtio. Pretendo
mandar para a um tcnico em curtumes, um tal de Carlos Adam que
inclusive levara mudas de accia negra. Pelo prximo navio segue
um selim usado na Europa para modelo a ser produzido a. Isto
poder nos render muito dinheiro".
        Grndling leu partes da longa carta para Sofia. Omitiu alguns
trechos: "estou remetendo quatro caixas de rum e duas de
champanha para as tuas noitadas. Pretendo ainda este ano ir ao Brasil.
Prepara a bruaca da Izabela, que rena as melhores mulheres que
puder, s para ns dois. Esta Europa no vale mais nada. Estou
cansado dela. E, para esquecer, encerro as minhas atividades antes
das seis horas da tarde e comeo a abrir garrafas".
        Mariana entrou com o embrulho de panos e rendas. Colocou a
criana, com cuidado, ao lado da me. Sofia afastou as bordas do
pano e ficou extasiada, olhando a carinha do filho.
        - Ser que ele no quer mamar? - disse Grndling.
        - No disse Sofia, sorrindo - a parteira disse que ele deve
mamar s amanh. E Leite no vai faltar.
        Tirou o seio para fora da bata, pegou o bico com o polegar e o
indicador, espremendo-o. O lquido escorreu pelos dedos.


132


2 Isaias Noll, ao cair da noite, ouvia Daniel Abraho ler a Bblia.
Pedia sempre para repetir os trechos do Apocalipse. Sabia que
era assim mesmo que o mundo acabaria.
-        Leia aquele pedao, Herr Schneider, da quarta trombeta.
-        Ah, a quarta trombeta. Vejamos - lambia a ponta do
polegar e folheava as pginas do livro seboso - est aqui: "o quarto
anjo tocou a trombeta. Foi ferida a tera parte do sol, a tera parte
da lua e a tera parte das estrelas, para que a tera parte deles se
escurecesse e faltasse a tera parte da luz do dia e do mesmo modo
da noite".
      - Por que ser que s a tera parte, Herr Schneider?
      - Castigo divino dizia Daniel Abraho. - Deus no quer
acabar o mundo todo de uma s vez. Sobrando a tera parte ao
homem ele sofrer muito mais, pagando todos os seus pecados contra
os sagrados mandamentos.
        Noll contou que tinha sonhos deslumbrantes uma vez por
semana. Via uma luz muito brilhante no cu e da luz vinha uma voz
como o trovo. Seria a voz de Deus. Ameaava o homem com
ferro e fogo. Afinal, todos pecam dia e noite, Herr Schneider. Veja
s a cobia entre irmos, o exagerado amor pelo dinheiro, o vizinho
desejando a mulher do vizinho, ningum mais quer saber da igreja
e das palavras de Jesus Cristo. Haver alguma coisa na Bblia sobre
esses sonhos? Quem sabe j no ser uma viso do prprio
Apocalipse?
        Daniel Abraho fechava a Bblia sobre uma das mos e com a
outra batia nela com vigor:
      - Tudo o que acontece sobre a face da terra, debaixo dela
ce
nos cus, tudo est aqui neste livro.
        Depois de comer, metia-se na sua nova toca, trancando a porta
do alapo com uma tramela. Numa sexta-feira ficou l dentro
mais tempo. Catarina bateu com a sola do p, chamando por ele.
      - O dia clareou h muito, Daniel Abraho!
        Ele saiu extremunhado, esfregando os olhos vermelhos, meio
tOnto. Enfrentou a mulher que estava na sua clssica e decidIda
atitude de mos nas cadeiras.
      - Esta noite Harwerther falou comigo. Pobre Frederico. Foi
degolado pelos castelhanos falando em mim. Eu nem queria olhar
para a ferida que tinha no pescoo. Quando o pobre falava, saa
sangue pela boca e pelo talho. Ele ainda me contou que estava ao
lado de Mayer quando o infeliz foi fuzilado na batalha do Passo do
Rosrio.


133


        Catarina ouviu calada. Estaria ficando louco o seu marido? Foi
at a porta:
        - No deves comer tanto antes de dormir. Anda depressa que
os outros j esto no trabalho. H uma carroa para ser entregue
ainda hoje e nem os eixos foram colocados.
        Ela trouxe, momentos depois, uma caneca de caf preto, um
pedao de lingia frita e algumas batatas cozidas. Sob a desculpa
de ver como as coisas iam, espreitava o marido, mais soturno do
que nunca. Ao lado do formo, da plaina ou da enx, sempre a
Bblia. Falaria com o Pastor Frederico Cristiano Klinglhefer. No
estava gostando nada das atitudes do marido, aquelas suas manias
esquisitas, agora esta de conversar com gente morta, primeiro
Harwerther, amanh ou depois com outro, com seus avs e pais. No
demorou uma semana, novamente Daniel Abraho se atrasando, a
mulher desconfiada com mais uma noite de pesadelos.
        - Quem  que esteve com voc esta noite?
        - Ah, j sabias? Com Mayer, o coitado. Cinco balas
encravadas no corpo, um buraco no peito que dava para enxergar o outro
lado. No podia falar, o infeliz s fazia gestos e eu compreendi
tudo. Ele nunca nos denunciou para ningum, sempre disse que o
contrabando de armas foi obra de Grndling. Ora, Mayer nos
traindo, era s o que faltava. Mas ele saiu tranqilo, tirei um peso
da conscincia dele, acho que essas coisas no podem deixar nunca
um homem em paz consigo mesmo.
        Catarina escutou e no disse nada. Pensou nos filhos. Uma hora
depois partia com Juanito conduzindo duas carroas com toldos, das
grandes, era dia de arrecadar mercadoria.
        O emprio crescendo, cheio de homens, movimento contnuo
da manh  noite, mascates em lombo de burro comprando as coisas
que vinham de Porto Alegre, linhas, fitas, botes, agulhas, pavios
de candeeiro, palitos de fsforos, fazendinhas ralas, xaropes,
musselinas, pimenta, sal, garrafas de schnaps, toalhas - tudo lotando os
dois sacos de couro, pendentes do lombo dos burros. Caixeiros-
viajantes com seus largos chapus de feltro, palas de franjas e botas
retinindo longas esporas. Metiam-se picadas adentro, embrenhavam-se
pelas linhas, vendiam de casa em casa as suas bugigangas teis,
to ansiosamente esperadas e, quando voltavam, traziam
encomendas e recados para Catarina, que fosse buscar lingia fresca,
toucinho, torresmo, trigo, batata-inglesa.
        Frederico Jacobus trouxe para trabalhar na oficina o filho
Emanuel, rapaz de 20 anos, dois braos musculosos, a divertir OS
companheiros, nas horas de folga, levantando toras de sessenta


134


quilos ou mais. Jacobus tomava conta dos negcios durante as
ausncias seguidas de Catarina; sabia comprar o melhor material e o
mais barato, fazia a caixa do dia, pagava os empregados e ainda
encontrava tempo para desviar da concorrncia os melhores
fregueses.
        Um dia recebeu um chamado para conversar com Catarina.
Entrou curioso e desajeitado na saleta da frente, torso nu escorrendo
suor, ps descalos com as bordas coscoradas. Sentou-se, obedecendo
a um gesto dela, as grandes mos apoiadas sobre os joelhos.
        - Precisamos conversar um pouco, Herr Jacohus. Sei que o
trabalho  muito, mas sempre  bom, de vez em quando, parar um
pouco e conversar sobre essas Coisas.
        - s ordens, Frau Catarina. a senhora manda.
        Ela parecia no saber por onde comear. Serviu uma dose de
aguardente, sentou-se num banco de parede, apoiando os cotovelos
na tbua crua da mesa.
        - Sabe, eu conto muito com o senhor. Daniel Abraho, deve
ter notado, no anda muito bom da cabea, desde aqueles tempos
na fronteira.
      -Mas eu acho que Herr Schneider est muito bem.
      - Bem ele est, mas anda esquisito, diferente. Tem tido
pesadelos horrveis, nestas ltimas semanas. Eu mal sei ler, fao as
minhas contas como posso. No fosse o senhor, no sei o que seria
de mim.
      -No diga isso - disse Jacobus, corando.
        -  a verdade e a verdade sempre deve ser dita. Tenho um
plano agora e queria saber se poderia contar com o senhor.
        - Plano?
        - Sim, estou querendo abrir uma nova casa pelas alturas do
Porto, a gente pode aproveitar algumas picadas melhores para
aqueles lados, chegar mais longe, novas fontes de mercadoria. E
sabe,  meio caminho para trazer coisas de Estncia Velha,
principalmente charque e couro, alm de toda aquela beirada de serra
onde as plantaes aumentam e se cria muito porco.
        - Mas e o trabalho aqui, Frau Catarina?
        - Justamente sobre isso  que precisava contar com o senhor.
Sei que tem um bom amigo da mesma profisso na Linha 48.
        - Meu cunhado. Carlos Sonenberg, casado com minha irm
Dorotia. Ele entende, inclusive, de selaria.
      - Pois me lembrei dele. Converse com sua mulher, Emanuel
continuaria aqui como o meu brao-direito, l o lugar  bom,
saudvel, tem mato e campo. Ficaria l como meu gerente e scio.
      -Me d dois dias, Frau Catarina.


135


        Ela se levantou, dando o assunto por encerrado. Apertou a mo
de Jacobus, encaminhando-se ambos para as oficinas.
        - O senhor tem mais do que dois dias. Vou amanh a Porto
Alegre e na volta me diz se quer ir ou se prefere ficar. Aquilo que
achar melhor, o que for de sua convenincia. Estamos entendidos?
        Daniel Abraho falquejava um Langwitt, absorto, concentrado,
indiferente ao que ia em redor, como um artista executando a sua
obra. Sempre ao alcance da mo, sobre uma tora, a velha Bblia.
Fmanuel encaixando os raios numa roda, enquanto o pai
recomendava qualquer coisa. Catarina, querendo saber onde andava Mateus.
viu Carlota perseguindo na rua uns filhotes de cachorro e Philipp,
trepado numa banqueta, atrs do balco, ajudando os caixeiros.
Pensou, estava na hora de botar o menino na escola, estava com
quase dez anos, falaria com o Dr. Hillebrand sobre o assunto, ele
saberia indicar uma boa escola.
        A noite deserta, escura, sem estrelas e nem lua, Catarina viu
Isaias Noll agachado junto  porta do alapo que permanecia
aberta, fugindo de l uma rstea de luz e a voz rouca de Daniel
Abraho:
        - Vi no cu outro sinal, grande e maravilhoso, sete anjos com
as sete pragas, as ltimas pragas.



3 Grndling, na sua poltrona, lia a ltima carta de Schaeffer.
        Sofia bordava, balanando, de vez em quando, o bercinho de
        Jorge Antnio, agora com quase dois meses. Junto  porta,
sentada numa banqueta, a negra Mariana.
        A uma pergunta da mulher, Grndling disse, s vezes Schaeffer
me parece louco. Manda me contar as coisas mais banais da
Europa, intrigas de duques e de condes, princesas e baronesas e depois
de tudo trs linhas para dizer que vem ao Brasil porque chegou aos
seus ouvidos que o imperador vai suspender a imigrao, veja s,
simplesmente o seu negcio mais rendoso. Chega ao Rio dentro de
um ms e quer que eu esteja l nessa ocasio. Tudo muito fcil para
o nosso caro Major Schaeffer, ele atravessar o oceano e eu largar
todos os negcios e me tocar para a Corte. Uma carta de cinco
pginas, nessa sua letrinha de boticrio, como se estivesse no melhor
dos mundos. Claro, Schaeffer sempre viveu no melhor dos mundos,
a verdade deve ser dita. Outra coisa  chegar no Rio e conseguir,
de repente, que o imperador mude de pensamento. Sofia largou


136


por um instante a agulha, ele sabe como agir, assim como conquistou
as graas da falecida imperatriz, talvez consiga o mesmo com o
prprio imperador. Grndling balanou a cabea, muita lgica na
sua cabecinha, mas o imperador no passa de um joguete, reina mas
no governa, vai agradecer a Schaeffer os belos cavalos enviados da
Europa, por ele abandonaria os aposentos reais e passaria a dormir
nas estrebarias,  outro que no enxerga o perigo, amando acima
de tudo os seus cavalos, Schaeffer amando todas as mulheres da
Europa.
        Ficou olhando para o bero do filho, s me apavora o mundo
em que o pobrezinho ter de viver, no gosto nem de pensar, no
consigo pensar. Schaeffer l metido naquela briga de trazer gente
e ns aqui com o exemplo da colnia, onde deveria haver unio, que
diabo, no bastam os bugres, os tigres, as cobras, as doenas, os
prprios imigrantes se odiando, agora mesmo estou sabendo por
Schiling e por Tobz que So Leopoldo vive momentos difceis, a
populao se dividindo entre um pastor maluco e um mdico que
pouco conhece da profisso, como se isso adiantasse alguma coisa,
se j no bastasse a guerra que mal acabou, pelo menos inimigo era
inimigo, falava lngua estranha, podia-se matar sem remorso.
Falamos lngua diferente, tambm? Uma coisa nada tem a ver com
outra. Estamos do mesmo lado, um termina absorvendo a lngua
do outro. Schaeffer, alis, me diz isto nesta carta. "Mandarei tantos
alemes para o Brasil que dentro de vinte anos, ou menos, ningum
falar outra lngua, pelo menos no Sul." No sei como podes bordar
com a luz to fraca assim, deixa eu levantar o pavio. Alis, acho
que est na hora da menina dormir com seu beb.
        Levantou-se, ajeitou a roupa, tirou fiapos invisveis do casaco
e disse, repetindo as noites anteriores, preciso sair mas no me
demoro, as coisas andam muito confusas e preciso andar por dentro
dos acontecimentos, h muito dinheiro em jogo e no pretendo
perder agora o que ganhei em pocas mais difceis. No te preocupa,
voltarei mais cedo hoje. Curvou-se para beij-la, passou os dedos,
de leve na cabecinha do filho e disse em portugus para a negra,
Mariana, cuida deles enquanto saio. Sofia ficou calada, mas sabia
o rumo que ele tomaria e a dificuldade que teria ao tentar meter
a chave no buraco da fechadura.


137


4 Grndling ouviu o piano de Jacob muito antes de enxergar o
casaro velho da Ladeira de So Jorge. Estava uma noite
silenciosa, poucas rs coaxando, os cachorros quietos. O cego tocava
valsas ligeiras para dana. Ao entrar viu logo que a casa no estava
nos seus melhores dias. Izabela correu pressurosa, acompanhou
Grndling at o piano. Jacob sem parar disse boa-noite Herr
Grndling, ele bateu amigvel nas costas do cego e saiu em direo do
reservado. No sabia bem o que queria. Para comear uma cerveja,
se no for incmodo, disse enquanto tirava o casaco, a casa estava
abafada, havia um cheiro de urina vindo de fora. Os teus fregueses
ainda no aprenderam a mijar seno a na parede de fora, nunca
viram uma latrina na vida deles, os porcos? Ela disse que Vicena
tinha um perfume que agradaria muito, marca estrangeira trazida
de Rio Grande, ele nem sentiria mais a porcaria dos outros, todo
o mundo havia voltado da guerra como uns animais, Grndling
disse,  claro, Dreshach me contou que no entrevero da Batalha do
Passo do Rosrio muitos soldados fizeram as necessidades nas calas,
no dava tempo para procurar uma rvore, qualquer macega, um
sargento que fizera isso sara todo chamuscado, os gringos haviam
tocado fogo no campo. Izabela riu muito, coitados dos soldados,
Herr Grndling. Mais cerveja. Vicena boa-noite, senta aqui, muito
quietinha, hoje no estou bom. Um soldado abriu a cortina do
reservado, tinha o dlm aberto sobre a pele, ento lhe tiravam a
mulher sem mais aquela, pensava que fosse para o rei da Inglaterra
e o que via ali sentado seno um comedor de chucrute, um alemo
miservel. Grndling disse para Izabela, leva esse rapaz embora,
no quero encrencas, quero beber cerveja e ouvir o piano do Jacob.
O soldado gritou, pra esse piano, cego de merda, pois alemo
nenhum vai ouvir msica aqui dentro desta casa. Jacob ficou sem
saber se parava ou se prosseguia, Grndling no comandava nada,
era s o soldado a gritar, as coisas no estavam indo bem. Izabela
querendo afastar o soldado, no conseguindo. Por fim Grndling
arredou o banco da mesa, levantou-se tranqilo - naquele momento
pensou em Schlaberndorf, no cairia noutra igual - afastou
Izabela do meio do caminho, enfrentou o soldado que se punha em
guarda: rapaz, volta para a tua mesa, vai beber a tua cerveja, no
quero encrenca. Depois tudo correra to rpido que Izabela jamais
saberia contar o que houvera, realmente. Grndling fora agarrado
pela camisa, dera um soco na boca do estmago do soldado, este se
curvara bastante para receber em pleno rosto o joelho de Grndling,
caindo para trs, a distncia, no meio do salo. Foi at l, levantou
o        corpo. arrastou-o at a porta que Izabela j abrira, jogando o


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rapaz na rua. Quando voltou a sentar-se e a beber a sua cerveja,
parecia que nada havia acontecido, nem mesmo Jacob havia parado
de tocar piano. Quero mais cerveja. Uma bacia com gua e uma
toalha seca. Esfolara as costas da mo direita, estava vermelho e
suando. Viu quando Izabela levava at a porta os companheiros do
soldado, mandando-os embora.
-        Eu pago a despesa deles - disse Grndling.
        Vicena e Izabela ficaram sentadas do outro lado da mesa,
enquanto ele bebia sem entusiasmo. Est se sentindo bem? Ele no
respondeu, tinha o pensamento longe. Esta semana embarco para
o Rio de Janeiro. Vocs sabem para que lado fica o Rio de Janeiro?
Vou ficar mais de um ms longe daqui, mais de um ms. Antes de
ir preciso fazer um filho na minha mulher. No adianta falar, vocs
no entendem disso. Izabela disse, ento vamos beber  sade do
filho que ainda vai ser feito. Ele bateu forte com a mo na mesa,
diz para aquele cego miservel que s quero ouvir msica triste,
pode ser at mesmo as tuas msicas paraguaias. No tem
importncia. Ouviram socos e pontaps na porta de entrada, Izabela
correu para l, gritou do lado de dentro: vo embora seno chamo
a guarda. Eles ainda bateram mais, cansaram e foram embora. Foi
aquele soldadinho que voltou? perguntou Grndling calmamente.
Na certa, ele e os seus companheiros. Os valentes brasileiros,
mestios filhos de uma cadela. Izabela disse, no precisava mandar
tocar os meus purahje, assim fico eu com vontade de chorar. Chora
minha filha, eu decidi embarcar no primeiro navio decente que
aparecer por aqui. Vou  Corte me encontrar com Schaeffer, seremos
recebidos pelo imperador, mas antes disso farei mais um filho. Um
Cronhardt Grndling, no  fcil. No farei um trabalho de
tropeiro ou de soldado, farei um filho com as artes que no se aprendem
em livro, nascem com a gente. Olhou vago para Vicena, menina
pode ir embora, toma aqui todo o dinheiro que tenho nos bolsos. Via
duas Izabelas  sua frente. No tinha jeito mesmo, minha querida
Izabela, eu hoje quero voltar puro para casa. Tenho este direito.
Ou no tenho? Mais cerveja. Direi ao meu caro major, mudei
muito, sou outro homem, pai de famlia, quero ter dez filhos
homens, mas preste ateno para uma coisa: filho meu jamais ir
para a guerra, todos eles sero honrados comerciantes, respeitados
por homens e mulheres, o prprio imperador...
        Novamente tentavam arrombar a porta, Jacob deixara de tocar,
no havia mais nenhum fregus, Izabela correndo para gritar que
fossem embora, que deixassem de incomodar, um moleque j fora
avisar a guarda. Novos pontaps e silncio. Ela ainda ficou de


139


ouvido colado numa fresta, depois voltou e disse, esses rapazes
bebem e ficam impossveis, mas so bons rapazes. Grndling: eu j
nem me lembro o que estava dizendo, esses porcos bem que podiam
estar dormindo nos seus chiqueiros, que diabo, no se tem mais
descanso nem no cabar, onde mais se pode beber sem
aporrinhaes? Diga, Izabela, onde mais? No achava a boca, entornando a
cerveja no peito da camisa. Pediu o casaco. Vou embora, quero
dormir, esta semana embarco para o Rio, vou ser recebido pelo
imperador, a viagem  longa, fico enjoado no mar. Se me d
licena, boa-noite. Gritou para o cego, quando Izabela destrancava
a porta, amanh te dou dinheiro em dobro, tu mereces.
        Aspirou forte o ar da noite, as estrelas giravam no cu, a
cabea doendo como se tivesse um anel de ferro em torno dela.
Imagine s, viajar para o Rio, uma terra onde s se vem negros pelas
ruas e depois, abandonar os negcios por tanto tempo, falaria muito
com Schiling e Tobz, olho vivo nos emprios, no podiam
descuidar-se, a concorrncia no dorme, precisamos fazer a mesma
coisa. S para atender ao chamado do melhor amigo, iria encontr-lo
na frica, no deserto, no Plo Norte.
        Voltava inseguro, como se j estivesse no tombadilho da casca
de noz que o levaria mar afora, o inevitvel enjo de bordo, o
estmago revolto, tudo rodopiando. Agora eram martelos a bater na
cabea, apoiou a mo numa casa de esquina e vomitou o que pde.
Mais um pouco e chegaria em casa, acordaria Mariana, queria um
ch bem forte, o sono largado junto ao corpo de Sofia. Quando
girou para reiniciar a caminhada, precisava andar, respirar fundo,
viu-se frente a frente com o soldado em quem batera. Atrs dele,
armados de bastes, mais quatro amigos. Os porcos ainda no
haviam se recolhido aos chiqueiros. Fez o gesto de quem vai puxar
uma faca da cava do colete, sentiu o impacto dos primeiros socos
e pontaps. Lutou como sabia, como podia, como um animal ferido,
espumando de dio. Por que no vinham como homens, um de cada
vez? Derrubado, sentiu o rosto raspar no cho de terra. Os animais
investiam. Pisoteado, chutado, batido, sentiu que tudo escurecia, a
prpria noite sumira.
        Quando deu conta de si estava sendo carregado por estranhos,
entre eles um negro, onde pensam vocs que eu quero ir? Quem
permitira que tocassem com as suas mos imundas o seu corpo. a
sua roupa? Parou mais uma vez para vomitar, os homens esperando
com pacincia. um deles carregando no brao um balaio cheio de
peixes que fediam de ningum suportar. A caminhada recomeou,
ele trpego, dolorido, sem conseguir abrir os olhos de todo. Os ho-


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mens bateram na sua porta, era a sua porta, bateram muitas vezes,
at que abriram uma das folhas e surgiu a cara espantada de
Mariana. Cus, o que havia acontecido com o seu amo, correu para
ajudar, os homens imundos entraram tambm, Grndling foi
largado num sof, enquanto os homens saam e Sofia chegava, de
camisola ainda, sentindo as pernas fraquejarem ao ver o estado do
marido, a roupa rasgada, o rosto uma chaga s, o sangue
envelhecido, os olhos negros fechados.
        Mariana j estava de volta carregando uma grande bacia com
gua e toalhas. Grndling sem dizer nada, Sofia comeando a
limpar com delicadeza as feridas, Mariana retornando para buscar
ungento medicinal. Terminados os curativos, olhou para a negra
assustada e comeou a chorar baixinho.
        Grndling ficou quatro dias em casa, mandando dizer a todos
que o procuravam que estava indisposto, no receberia ningum.
Sofia sem perguntar nada, cuidando das feridas, trocando ataduras,
quem sabe chamariam um mdico? No quero mdico nenhum,
repetia Grndling. Passava horas olhando para o teto, repelindo todas
as tentativas de Sofia para conversarem. Um dia, depois do jantar,
ele disse:
      - Se pensas que foi um s, ests muito enganada. Foram cinco.
Mas eles no perdem por esperar.



5 A gente ia e vinha pelas ruas de So Leopoldo, os carroes
levantando ondas de p, mascates em lombo de burro se
encontrando e mantendo longas conversas ao sol, beatas que
entravam e saam das igrejas, livrinhos de orao nas mos, meninos
brincando debaixo das rvores - a vida de todos os dias. Mas nas
casas e nos emprios, nas pequenas bodegas s margens do rio, as
noticias mais desencontradas, passadas de boca em boca.
Conspirao, revolta, conjura - que mais se sabia? Seriam os alemes,
descontentes com o atraso dos pagamentos prometidos pelo governo,
amanh, depois, sempre adiando, ningum dizia coisa com coisa, o
inspetor de colonizao desconversando. Enquanto isso, os vizinhos
brigando por questes de limites mal definidos, se matando, Joaquim
Hinrichsen assassinara seu lindeiro Fried Helms, Franz Elvers entre
a vida e a morte, levara um tiro de espingarda quando abrira a
porta atendendo a batidas de um desconhecido, em plena noite. Um
mal-estar geral e agora os boatos de uma revolta dos militares. O
major-comandante do 28.o Batalho, interpelado pelas autoridades,


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negava qualquer veracidade a tais boatos. Volta e meia um alemo
influente era denunciado e preso. Diziam que era por subverso.
Vrios colonos arrastados de suas casas e levados para longe. Quando
voltavam, traziam no corpo as marcas da chibata e das torturas.
No diziam nada, emudeciam.
        Emanuel ouvia as conversas e contava a Catarina tudo o que
se dizia. Daniel Abraho, de cabea baixa no trabalho, como se
vivesse num outro mundo, mas murmurando, ao descer para o seu
esconderijo, que o Apocalipse estava chegando. Um dia um soldado
apeou na frente do emprio, entrou, pediu um copo de cachaa,
comeou a falar alto. Os que andavam por ali foram chegando,
encostando-se pelos balces, o soldado contava histrias fantsticas.
Catarina perguntou:
      - De onde voc vem?
      - Venho de longe. Meu batalho andava atrs do Coronel
Quebra. J ouviram falar nesse homem?
      - De Caapava, se no estou enganado - disse algum.
      - Pois de l mesmo. O homem parece maluco, proclamou a
repblica, saiu para os lados de Cachoeira comandando escravos,
aos gritos de liberdade, de independncia e de separao do Rio
Grande de So Pedro do resto do Brasil.
        Um velho que fazia compras falou sem deixar de ensacar o que
comprara:
      -No  a primeira vez que esse tal de Quebra faz isso, pelo
que sei.
     - , disse o soldado bebendo mais - j andou fazendo
outras. E toda a gente se assusta quando falam no nome dele. O
homem  contra o imprio mesmo e ningum tira isso da cabea dele.
Dizem que tem ataques quando ouve o nome do imperador. E
agora quer a redeno dos escravos, vejam s. O homem  doido
mesmo.
        O        soldado terminou de beber, pagou com uma pequena moeda
que no dava para a despesa, desculpem mas andei trabalhando
para vocs, enfrentando esses negros assassinos, merecia cachaa de
graa, fui dos Lanceiros na Cisplatina. Catarina ia dizer que ele
levasse a moeda de volta, mas o homem montou e desapareceu.
Gustavo Heuse, fabricante de tipitis para engenhos de mandioca,
coou o queixo e disse:
      - Em certas coisas esse tal de Quebra anda certo. Por
exemplo, que faz o imperador por nossa gente?
      - Estou com voc - disse um outro. - At agora nem de-


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marcaram as nossas terras, no deram os animais prometidos, do
subsdio s embromao aqui do imperador.
        Heuse carregou nos braos o que havia comprado:
      - Pois sei de uma coisa mais sria ainda. Fiquei sabendo por
um cunhado meu que serve no Batalho.
Houve um silncio geral, o homem se sentiu alvo de todos os
olhares, teve noo da sua importncia, pelo menos. Pois se
queriam saber, que soubessem:
      - Cinco oficiais, no sei o nome deles, estiveram h dois dias
na casa do Major Joo Manuel, denunciando ao comandante os
nomes dos outros oficiais que esto conspirando. Sim senhores,
conspirando.
      - E que oficiais so esses? - perguntou Catarina.
      - O nome de todos no sei, mas de pelo menos dois guardei
os nomes: Capito Samuel Godfroy Kerst e Capito Eduardo
Stepanousky, do 6.o Regimento de Cavalaria e do Corpo de
Engenheiros.
      - Foram presos?
      -No. O Major Joo Manuel disse que tudo no passava de
inveno.
Catarina pensou: o major deve estar do lado dos conspiradores.
Outro nome lhe veio  cabea. Mas qual, no podia ser.


143



X


1 Comprara o melhor cubculo do Carolina. Alis, o nico. Alm
dele o quartinho pobre e acanhado do Comandante Benjamin
Blecker. Antes, mandara improvisar uma cama decente,
cortinas na janelinha redonda, um tapete para no pisar no cho sujo
e engordurado. Uma caixa de rum, meia dzia de garrafas de
champanha e o seu inseparvel travesseiro de penas, cheirando a
camomila, igual ao da mulher. Quando deitava a cabea nele, tinha a
impresso de que ali estavam os cabelos soltos de Sofia, a nuca
perfumada, ela prpria, quente e viva.
      - Alguma coisa sria, Herr Grndling? - perguntou o
capito do barco, vendo a atadura atravessada na sua testa.
      - Um pequeno acidente - disse Grndling, cortando o
assunto.
        O        homem quis saber se tudo estava em ordem, pediu licena
e foi dar as ordens de partida. Depois voltou, sentando-se ao lado
do passageiro.
        - Estou levando nos pores muita coisa sua para o Rio. Uma
boa partida de couro, por sinal. O senhor vai se demorar ou volta
logo?
      - Assim que puder.
        At Rio Grande Grndling sara do quartinho apenas duas
vezes para comer qualquer coisa com o capito. O resto do tempo
permanecera deitado, sem dormir, pensando no encontro com
Schaeffer, em Sofia que ficara com lgrimas a escorrer pelo rosto,
e no filho. Ela deve ter ficado prenhe de outro filho, estava na
melhor poca para isso. O mundo no fora feito para mulher. Estou
certo de que ser homem. O nome? Pois se chamar Albino, nome
do meu pai. Ele merece. Sou capaz de jurar que ser homem, jogaria


144


nisso quatro malas com dinheiro.  mo, sobre uma caixa vazia, um
copo de rum. Dera uma garrafa de presente ao comandante que, ao
examinar o rtulo, disse "no h melhor em todo o mundo". Levava
para o Rio um carregamento de vinte tonis de cachaa de Torres,
preferida pelos botequins da Lapa e do Catete. "Mas anote: muitos
bares da Rua do Ouvidor servem dessa cachaa para a sua clientela
de bomios de fraque e cartola. Mas nada como esse rum dos
deuses."
        Mar grosso, saindo da barra de Rio Grande, Grndlng
percebeu que se daria mal na travessia, o naviozinho afundando entre
marolaS, subindo reto para as cristas mais elevadas, uma gangorra
de revirar as tripas. As paredes da cela, rodopiando. Quando
navegavam  noite pensava que a prpria cama emborcaria de todo. Mas
agentou firme. Bebendo muito e comendo pouco, pensava, o mar
nada teria a pedir de volta. Um dia antes da chegada, Blecker notou
que o passageiro estava mais habituado com o balano, caminhava
pelo tombadilho feito bbado, pernas abertas e duras, braos como
asas, a equilibrar-se. Blecker acercou-se dele:
      - O jeito  amolecer os joelhos e manter o corpo sempre na
vertical. Assim - e fez uma pequena demonstrao.
      - Jamais eu seria um bom marinheiro - disse Grndling a
rir. - Prefiro a terra firme. Quando eu entender de balanar e
vomitar, bebo um litro de rum e duas taas de champanha.  tiro
e queda.
        Sentaram-se os dois sobre barris enfileirados, vendo a
bombordo, azulada pela distncia, a terra recortada das costas.
      - O senhor vai encontrar um Rio tumultuado. A poltica
ferve, portugueses e brasileiros em guerra aberta. O prprio imperador
sem saber o que fazer, escndalos na Corte, tudo muito ruim para
os negcios - comeou o capito.
      -Na provncia a gente fica sabendo das notcias com muito
atraso. Mas quem so esses, afinal, que hostilizam o imperador?
      - Pelo que sei, a coisa comea na prpria Assemblia
Nacional. O que se sabe  que D. Pedro detesta aquela gente.
O        capito caminhou at a amurada, seguido por Grndling,
viam  esquerda o macio da Gvea, mais alm o Corcovado
recoberto de vegetao azul-escura, distante ainda o Po de Acar.
O comandante foi assumir seu posto. Grndling, mais uma vez,
maravilhado com a paisagem que se abria diante dos olhos. Ao passar
o Carolina pela fortaleza de Santa Cruz, ouviram as salvas de praxe
anunciando a chegada de mais um barco; logo a seguir enxergaram
as praias de So Domingos e o porto de Niteri. A capital do Im-


145


prio  vista, as torres das igrejas, os conventos e seus
campanrios. A baa recortada de canoas e pequenos barcos a remo,
tripulados por negros e mestios seminus. O barco se dirige lentamente
para o porto dos navios mercantes, fronteiro ao largo do Pao,
vendo-se dali a ilha das Cobras, com seus coqueiros imveis.



2 Grndling pisou terra firme desconfiado. Ningum a esper-lo.
Schaeffer fora avisado do nome do barco, do dia de chegada
e ningum ali, nem mesmo um escravo. Foi quando o Capito
Blecker comeou a desembarcar a sua carga no confessada, cerca
de trinta escravos para serem vendidos na praa do Rio, onde os
preos eram mais altos. Os negros desciam acorrentados, cegos pela
luz do dia, a maioria de uma magreza impressionante, mal se
sustentando nas pernas. Grandes carroes gradeados j os
aguardavam, desaparecendo, a seguir, pelas ruas tortuosas. Blecker,
chupando seu cachimbo, aproximou-se de Grndling, notando seu
desapontamento.
      -Ningum  sua espera, Herr Grndling? Isso acontece. J
mandei descer a sua bagagem. Se no conseguir contato logo com
seus amigos, j sabe, pode continuar no seu camarote.
      - Obrigado, capito, mas serei procurado.
        Ficou andando de um lado para outro, observando o casario
das vielas, em geral de dois andares, assimtricos, a casa de negcio
no trreo, a moradia no primeiro andar, beirais desalinhados.
Abrindo para as vielas, janelas e portas protegidas por gelsias pintadas.
Sentiu saudades de sua casa da Rua da Igreja, portas lavradas,
janelas altas com bandeiras de vitrais franceses, piso de mrmore nas
escadas de entrada, rua tranqila, os poucos sobrados rosa-plidos
com umbrais pintados de branco. Entre as suas paredes Sofia
gestando.
        Uma carruagem modesta, com uma parelha de cavalos
pequenos, negros, surgiu numa das vielas, parando a uns vinte metrOS
dela desceram dois homens desconhecidos para ele. Quem sabe
seriam os emissrios do major? Os estranhos falaram com o capito
e este levantou o brao apontando para seu lado. Encontraram-se
a meio caminho, mos estendidas.
      - Herr Grndling? - perguntou o primeiro deles.
      - Sim, s suas ordens.
        - Pois muito prazer, meu nome  Augusto Rasch e este aqui
 Alois Moog, amigos do Major Schaeffer. Ele manda pedir muitas


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desCulpas, mas afazeres de ltima hora impediram que ele tivesse
a honra e o prazer de lhe dar as boas-vindas pessoalmente. Mas
estamos aqui para servi-lo.
        Moog, de grande estatura, cabelos loiros, olhos transparentes
de to azuis, fez uma espcie de mesura:
        - O senhor ficar hospedado na mesma casa onde est o
major, na Armao.
        O        capito, quase correndo, veio apresentar as suas despedidas.
eu sabia que o senhor seria esperado, eu lhe dizia, veja, eu tinha
razo, que o senhor seja muito feliz nos negcios e que se divirta
o quanto puder. Os dois emissrios se encarregaram de colocar a
bagagem na carruagem, convidando Grndling a subir primeiro e
cada um entrando por um lado, deixando-o no meio. Quando
partiram, sentiu-se desconfortvel, sem ter onde apoiar-se, caindo ora
sobre um, ora sobre outro. No havia assunto, iam quase calados.
Moog disse que felizmente no havia mais guerra, que agora todos
viviam em paz, isso iria ser de grande valia para a provncia. O
homem calou. Grndling reconheceu o Convento de So Bento, o da
Ajuda, os edifcios da Alfndega e do Arsenal de Guerra. Na
metade do caminho, quando o silncio era mais constrangedor, Rasch
perguntou:
      - A viagem transcorreu sem incidentes, Herr Grndling?
      - Correu tudo muito bem, obrigado. Tudo bem - respondeu
ele disposto a no conversar.
        Poderia acontecer ali o que no havia acontecido a bordo,
dormitar. Das ruas apinhadas de negros e carregadores vinha um bafio,
um bodum quase insuportvel. No gostava, decididamente, do
casario deselegante construdo pelos portugueses, um mau gosto
contnuo s quebrado, vez por outra, com a presena de um prdio mais
imponente, o Teatro Nacional ou a residncia do Conde do Rio
Seco.
        O        cocheiro sofreoou os animais defronte a um casaro caindo
aos pedaos, pintura desfeita, reboco descascado, o madeirame das
gelosias apodrecido. Rasch desceu e esperou que Grndling fizesse
o mesmo. Moog adiantou-se para abrir uma das largas folhas da
porta desbotada pelo tempo. Passaram por corredores escuros
rescendendo a mofo, at chegarem numa ampla sala, pobremente
mobiliada e quase sem luz, janeles fechados, entrando luz do dia
pelas bandeiras de vidros opacos. Estirado num sof, cabea apoiada
numa almofada, Grndling reconheceu Schaeffer, uma sombra do
amigo Schaeffer de tempos atrs. O cho atopetado de garrafas
vazias, copos esparramados, roupas deixadas nos espaldares de quase


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todas as cadeiras. Grndling aproximou-se com a impresso de que
Schaeffer dormia, mas viu que estava bbado, com a camisa de
punhos de renda vomitada. Esperou que qualquer um dos homens
dissesse alguma coisa, cruzou os braos e ali ficou sem saber o que
fazer.
        - O        major tem abusado um pouco da bebida, disse Rasch,
mas o senhor saber desculpar essas coisas.
        - Sei como so essas coisas.
        Percorreu a sala, devagar. Examinava as roupas atiradas sobre
os mveis, revirou com o p as que estavam no cho, pegou nos
copos e garrafas.
        - Pelo que vejo foi uma festa de monges. Nem sinal de
mulher nesta farra. Ou o major j no  o mesmo?
        - O major, ultimamente, tem preferido assim, esclareceu
Moog. Diz ele que a vida  curta e se deve escolher entre uma
coisa ou outra. Ou melhor, entre um prazer e outro.
        Grndling sentou numa cadeira Luiz XV, de espaldar
descascado. Olhou para o boneco de engono fantasiado de Schaeffer e
sentiu um enorme arrependimento por ter feito a viagem. Pensara
durante todo o tempo que iria encontr-lo numa bela manso e se
via agora ali numa tapera roda pelo cupim e pelo abandono.
Perguntou aos dois que permaneciam de p, juntos:
      - Vocs so agentes da imigrao feita por ele?
        - ramos disse Moog. O governo acaba de suspender
toda e qualquer verba para esse fim. O negcio, ao que tudo indica,
terminou.
        - Mas isso  impossvel. Na ltima carta Schaeffer mandou
dizer que agora era que a coisa estava comeando, que tinha mais
de duas mil cabeas  espera de transporte.
        - Quando escreveu, estava falando a verdade. Mas essa gente
toda vai ficar por l mesmo.
        Schaeffer remexeu-se no sof, grunhiu qualquer coisa e logo
Rasch e Moog correram para junto dele.
      -Major, chegou do Sul seu amigo Herr Grndling. Major,
Herr Grndling acaba de chegar.
        - Ahn, Herr quem? - babou Schaeffer.
      - Grndling, seu amigo Grndling.
        Schaeffer tentou levantar-se e no conseguiu. Foi preciso o
auxlio dos outros. Ficou sentado, apoiando-se no encosto, olhos
perdidos. Passou a mo na cara murcha, forando o olhar. DistingUiu
um vulto  sua frente, Grndling de p, braos cruzados, calado.
      - Sou eu mesmo, Schaeffer. Como est? - conseguiu dizer.


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        Moog abriu um tampo de janela, deixando entrar um pouco
mais de luz na sala. Schaeffer fez um novo esforo para enxergar
melhor. Viu Grndling se aproximando. Sim, era Grndling. Abriu
os braos, cabea pendendo:
      - Ser Grndling mesmo? Nem posso acreditar! Senta aqui do
meu lado. Pelos quintos do diabo, por que no me avisou da sua
chegada? - procurou alguma coisa em redor - Rasch! Moog!
Onde merda se meteram vocs?
     -  melhor voc dormir um pouco mais - aconselhou
Grndling colocando a mo em seu ombro. - Sei que a farra foi grande
e isso quebra a cabea da gente no dia seguinte.
      - Dormir? Ora essa, dormir por qu? Quero beber um trago
 sade da chegada do meu melhor amigo, pai do futuro General
Jorge Antnio no sei de qu Grndling!
      - Spannenberger - corrigiu o amigo.
      - Isso, General Spannenberger Grndling, afilhado predileto
do falecido Major Jorge Antnio Schaeffer, agente especial da
Imperatriz Leopoldina, arquiduquesa da casa dos Habsburgo, voc sabe
disso, arquiduquesa. - Gritou rouco: Moog imbecil, mais um
trago aqui!
        Grndling ordenou com um sinal que no e com outro mandou
que eles sassem da sala.
      - Acabou a bebida, Schaeffer. Um caf forte agora seria uma
santa soluo.
      - Caf onde nessa casa de negros? Uma taa de champanha
 mais fcil e agora vinha a calhar. Escuta, e a tua mulher
Cristina como vai?
      - Sofia.
      - Isso, Sofia, isso, onde merda estou com a cabea. Acho que
me deram arsnico para beber esta noite. Mas meu velho, conta
como esto as coisas l por baixo. A mesma bosta de sempre, no
 mesmo?
     -  verdade. Muitas dificuldades, mas o pessoal vai se
arranjando como pode. O diabo foi esse corte de verba, assim inesperado.
      - Ah, voc j sabia, ento. Pois cortaram o dinheiro, quero
que este pas v para os quintos do inferno!
      - Voc no chegou a falar com o imperador?
      - Eu, falar com o imperador? - disse entre um riso histrico
e raivoso. - Pois virei criminoso depois de tudo o que fiz, meu
caro. Criminoso. Andam agora me caando como quem caa
animal do mato. Ento no sabia?
      - Voc deve estar enganado, no pode ser assim.


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        - Ah, no pode ser assim. Diz o Senhor Cronhardt Grndling
que no pode ser assim.
        Procurou entre as garrafas alguma que ainda tivesse um resto
de bebida, achou uma delas, sacudiu e bebeu pelo gargalo.
-        Onde se meteram Rasch e Moog?
        Saram um pouco, foram ver a minha bagagem - e
mudando de tom: E nosso emprio em Hamburgo, como est?
      - Que sei eu, Grndling. Deixei l dois, trs ladres. A
parte que sobra deles vem para ns. Se fosse contar com isso, morria
de fome. As barras de ouro do General Brant sim, valia a pena,
graas  falecida imperatriz. Mas hoje...
        Grndling deixara de ouvir as arengas do amigo. Sentiu a
cabea vazia, os pensamentos confusos. O famoso e temido Major
Schaeffer naquela degradao, murcho e velho nos seus quarenta
e poucos anos, duas papadas sob os olhos, a cara inchada. Assim,
no o deixariam entrar no porto externo da Quinta da Boa Vista.
        Descobriu uma garrafa ainda cheia sobre um guarda-loua de
vidros partidos, abrindo-a com cuidado.
      - Eis aqui o que voc procurava, vamos brindar o nosso
reencontro depois de tanto tempo. Temos que estudar uma sada -
disse Grndling.
        Bebeu dois goles, enquanto Schaeffer matava realmente a sede,
uma enorme sede que lhe doa nas entranhas. Riu para Grndling
como um dbil mental. Meu velho e pobre Grndling, s vezes
tenho pena de voc l entre aqueles mestios, metido entre
castelhanos, uma escria de caudilhos, tenho pena de voc, da sua mulher,
ah, de todas as suas mulheres de l, pobrezinhas. Seu corpo comeou
a escorregar, o amigo amparando, pendeu a cabea, olhos parados,
terminou dormindo, corpo estendido ao comprido do sof.
        Grndling deixou a sala na penumbra. Na escada da rua
encontrou Moog e Rasch conversando em voz baixa. Levantaram-se
limpando as calas.
        - Vou sair, dar umas voltas - disse Grndling.
      - A conduo ficou  sua disposio - disse Moog.
      - Obrigado, prefiro caminhar um pouco.
      - Em absoluto, mas so ordens do Major Schaeffer.
        Ordens do Major Schaeffer, dava vontade de rir. Em que
momento do dia ou da noite teria ele dado tais ordens? E por que
secretos motivos ficavam aqueles dois patetas ali, bajulando uma
sombra? Deu de ombros, como a dizer tanto faz. Subiram na velha
carruagem e reparou, com asco, que a cetineta das almofadas estava
poda e suja, cinqenta anos de vmitos noturnos.


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3 -        o major est passando uma fase difcil - disse Moog,
depois de muito tempo - o senhor deve ter reparado. O major
no  homem de ser humilhado, no suporta menosprezo. Ele
sempre sonha reagir.
        - Reagir? - Grndling s ouvira a ltima palavra. Reagir
contra qu?
-        Estou falando dessa fase difcil do Major. O senhor notou,
claro que notou.
      - Sim, notei. Na verdade quase desconheci Schaeffer. Nem sei
como pode agentar tanta bebida.
      - Com a morte de Dona Leopoldina as coisas mudaram muito
para o major - explicou Moog com ar abatido. - Esta outra
imperatriz, apesar de ser da casa dos Leuchtemberg,  mesquinha.
Ficou sabendo da amizade que ligava o major  falecida imperatriz
e tanto bastou para no querer ouvir o nome dele. Cimes, sabe.
      - Compreendo - disse Grndling com seus prprios
pensamentos.
      - E alm disso esses liberais atacando a Corte noite e dia, no
respeitam nem domingo, nem dia santo ou feriado. Como ces de
fila. O senhor chegou a ler algum nmero do Aurora Fluminense?
        Ele assentia com a cabea, sem dizer nada. Um homem de
provncia, de uma provncia to distante e to perdida no mapa, ou
no sabia de nada ou ficava sabendo sempre tarde demais. Moog
voltou ao assunto:
      - O senhor soube do assassinato de Libero Badar, em So
Paulo?
      -No.
      - Pois acredite, isso est me cheirando mal.
        Estavam nas imediaes da Rua do Ouvidor, ele fez um gesto
pedindo a Moog que mandasse parar a carruagem, queria ficar ali
mesmo. Moog foi o primeiro a descer, ajudando Grndling a fazer
o mesmo, solcito, quase humilde.
      -No tenha pressa, senhor, ficaremos aqui esperando.
      - Em absoluto. Voltarei noutra conduo, est escurecendo.
      - Desculpe, so ordens do major.
      -Mas acho que vou demorar...
      -No importa. Ficaremos aqui.
        Grndling agradeceu contrariado, despediu-se e comeou a
caminhar pela rua atravancada de gente - negros e brancos,
vendedores ambulantes, aglomeraes ruidosas em torno de mgicos e
acrobatas envergando roupas de circo, enquanto meninos recolhiam
moedas em pratinhos de folha; tocadores de bandolim, elegantes


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cavalheiros de fraque e cartola, negros sacudindo grandes
chocalhos chamando a ateno para "mercadorias importadas, a preo de
mel coado". Parou sob a luz mortia de um lampio, olhando sem
interesse para uma extensa procisso alumiada por lanternas e
tochas, com filas de membros de diversas confrarias e irmandade.
O cortejo arrastado, o murmrio das ladainhas, rezas recitadas em
canto gregoriano pelos sacerdotes e toda a multido contrita,
respondendo o aranzel.
        Comprou um exemplar do Aurora Fluminense, acercou-se de
um grupo de mestios com archotes fincados no meio da rua.
demorou-se lendo os ttulos, algumas notcias, parte do artigo de
Evaristo da Veiga. Sacudiu a cabea desiludido. Fim de mundo, onde o
respeito pela autoridade da Coroa, onde o respeito pelas leis, ento
cada um se julgando com o direito de dizer o que lhe viesse 
cabea, o caos se instalando, o cupim a roer os alicerces. Meu caro
Major Jorge Antnio Schaeffer, aceite um conselho desinteressado
de amigo, compre logo uma passagem de volta, Paris, Roma,
qualquer outra grande cidade, Berlim, ar puro, nenhum negro nas ruas,
nem aquele cheiro nauseabundo das frituras em azeite de dend, de
nem aquele cheiro nauseabundo das frituras em azeite de dend, de
pamonhas e de cuscuz. Pois agora comeo a entender e a dar razo
ao meu caro amigo. Como as coisas estavam marchando, s dentro
das garrafas se poderia encontrar a viagem maravilhosa. Dentro
delas, a sada. Encostou o jornal que trazia nas mos ao fogo de um
archote e largou-o em chamas no meio da rua.
        Preocupou-se com Moog na carruagem. O homem l estaria
no mesmo lugar, feito lacaio, esperando o amigo do amo, o
beberro Schaeffer. Pois o homem no arredara p. Quando viu
Grndling acordou o cocheiro, ajeitou a prpria roupa e fez a mesura
de praxe:
      - Tenha a bondade, Herr Grndling. Fao votos que tenha se
distrado um pouco.
      - Obrigado, realmente aproveitei muito o passeio. O Rio cada
vez mais encantador.



4 Nove horas. Grndling desceu uns degraus e, sem camisa, foi
lavar-se numa caraa de leo despejando gua pela boca.
Voltou, terminando de vestir-se, caminhou para a sala principal e
l encontrou Rasch dando ordens incompreendidas para uma preta
velha que limpava o cho e reunia as garrafas da vspera.


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        -  Bom-dia, senhor, no esperava que madrugasse -
disse sorrindo Rasch.
      - Costumo levantar cedo. O major ainda dorme?
      - At meio-dia ou mais, como de habito.
      - Pois vou dar umas voltas pelos arredores, para esticar as
pernaS, antes dessa hora estarei aqui.
        Do alto da escada avistou um pedao do mar, as ruelas
tortuosas e imundas, negros carregando grandes balaios na cabea. Que
estaria fazendo Sofia a essa hora? Jorge Antnio no bero de
madeira lavrada, presente de Schaeffer. O outro Spannenberger
enrodilhado na barriga da me, uma semente informe. Que mais
poderia conversar com o amigo bbado, meio doido, um fantasma do
outro Schaeffer que conhecera e respeitara? Agora um trapo, no
mais que isso. Por uma garrafa de rum Schaeffer se ajoelharia a
seus ps, implorando, prometendo lamber a sola das suas botinas.
Lembrou-se, de repente, de Daniel Abraho Lauer Schneider,
onde andaria aquele infeliz? - ao qual prometera, como um prmio,
a visita do Major Schaeffer, unha e carne da imperatriz, comensal
da corte do Czar Alexandre I. Sentiu vontade de rir. Imaginou
Schaeffer bbado, de rastos, pedindo ao seu posteiro do Uruguai,
um copo de cachaa. Pois muita honra em conhec-lo, excelncia.
        Fora tudo para os quintos do inferno com a Cisplatina. Os malditos
castelhanos estragando o grande negcio de armas, desmanchando
a patadas o trabalho dos outros. Merda para o posto da fronteira.
        Voltando, encontrou o major no alto da escada. Para
admirao sua mantinha-se de p.
        - Meu velho, chegou bem na hora de inaugurar uma garrafa
que voc teve a gentileza de trazer - saudou o Major Schaeffer.
        - Meio cedo        desculpou-se Grndling.
        - Cedo? Precisamos primeiro forrar o estmago para a comida
que vem a.
        Apertaram-se as mos, Schaeffer batendo amigvel nas costas
de Grndling. Entraram, deixando Rasch e Moog de lado, isolando-se
em duas cadeiras ao lado de um janelo aberto. Grndling quis
aproveitar a sobriedade passageira do amigo.
        - Estou curioso, Schaeffer, para saber quais so seus planos.
        - Hoje, quando acordei, tive uma idia: voltar  Rssia. H
por l um campo muito bom para negcios, mas preciso contar
com voc. Os armnios andam precisados de armas. Coisa fcil
e rendosa. Se aceitar a proposta, partiremos logo.


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        - Sair do Brasil agora? Ah, meu caro, no posso. Ainda
mais com mulher e filho.
        - Vejam s o meu velho Grndling sentimental feito um
menino de vinte anos. Olha, tua mulher  moa e bonita.
        Entre cada frase um gole de rum. J bebera mais de meia
garrafa. Bateu no joelho de Grndling.
      - H muito dinheiro nos esperando na Rssia. Sofia se
arranja, se for preciso se manda dinheiro de l para ela.
        Grndling bebendo pouco, interessado em ficar lcido, vendo
Schaeffer afogar-se no rum, soltando a lngua numa espcie de
delrio.
        - Posso voltar para a ilha da Sitcha, o Rei Kameama  meu
amigo, sabe esquecer certas coisas, vamos ns dois para l, no te
dou dois meses e estamos de donos da ilha.
      - Lamento no poder te acompanhar. Na verdade, Schaeffer,
comecei a criar razes.
        - Meu caro, estou meio bbado mas sei o que digo. Tuas
idias so de mestio, pensamento de gente inferior. Vou te dar
uma semana para pensar.
        - J pensei, no vou.
        Schaeffer comeou a rir, batendo com a mo na testa,
meneando a cabea. Ento o bravo Senhor Grndling havia criado razes
na barriga de uma alemzinha qualquer, esquecendo-se do resto do
mundo e de todas as suas infinitas atraes. Trocava tudo, aventura,
dinheiro, opulncia, poder, por uma fatia de ar viciado numa terra
de vaqueiros e de caudilhos ladres.
      - Pois vou sozinho. Fique voc cavalgando a femeazinha que
lhe promete um filho por ano.
        - Voc sabe o que est fazendo.
      - Grndling, seu vegetal.
        Deixou cair a cabea, enterrando o queixo no peito.
Resmungava e no conseguia dizer mais nada.
      - Grndling, Grndling - balbuciava de olhos fechados, a
baba escorrendo pelos cantos da boca.
        Grndling no estava mais ali, sara ao encontro de Moog e
de Rasch que ainda permaneciam junto  porta.
      - Agora sim, gostaria que me deixassem no centro.
        - Cinco minutos, Herr Grndling,  s atrelar os cavalos -
disse Moog, saindo apressado.
        Grndling pediu licena, precisava tirar da mala alguns
documentos. Passou pelo major que j havia sido colocado por Rasch
no sof de sempre. Dava a impresso de um homem morto. No


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quarto, tirou de um fundo falso da mala todo o dinheiro que
trouxera, espalhando-O, sem cuidado, pelos bolsos. Quando desceu a
escadaria da frente a carruagem j o esperava, com o eterno Moog
fazendo mesuras. Andaram todo o tempo sem trocar uma palavra
sequer. Nas imediaes da Rua do Ouvidor, desceu quase no mesmo
lugar. Hoje sim, Moog, voc no precisa esperar. Desculpe, mas
esperarei. Peo que no espere. So ordens do Major Schaeffer.
Pois exijo que volte e no me espere. Lamento no atend-lo,
demore o tempo que demorar, esperarei. Grndling teve vontade de
esmurr-lo. Pois muito bem, j que deseja assim, espere. Da
primeira esquina voltou-se e viu Moog ao lado dos cavalos, o largo
casaco azul se destacando do borborinho sem pressa. Comeou a
caminhar na direo do porto; passou pela frente do palcio do
imperador - quem sabe quela hora sua majestade estaria
completamente nu na sua grande cama imperial, fornicando com sua
augusta e fiel esposa, olhos fechados, imaginando ter debaixo de si
a Marquesa de Santos - depois um renque de sobrados menos
desajeitados, o casario da Rua Direita, sobre arcadas. A linha do
mar com as baixas muralhas de atracao de canoas e catraias.
        Avistou o Carolina no mesmo lugar, carregadores em fila
subindo para bordo com sacos s costas. Caminhou para o barco
como um passageiro. Subiu a escada e encontrou o Capito Blecker
se preparando para almoar.
      - Herr Grndling, que satisfao, chegou mesmo na hora do
almoo. Sabe, a bordo se come tarde.
      - Pois vou aceitar.
        O        capito falou quase todo o tempo contando as suas aventuras.
Notando o companheiro soturno, perguntou:
      - Ento, fechou novos e bons negcios com seu amigo da
Alemanha?
      -No. Meu amigo morreu durante a travessia.
      -Mas que coisa desagradvel. E que pretende fazer agora?
      - Voltar, se possvel, no Carolina.
      - Levanto ferros amanh, antes do meio-dia. Seu camarote
continua a mesmo e a honra ser toda minha em poder contar com
to ilustre companhia.
      - O mesmo digo eu. Agora, meu caro comandante, se no
fosse pedir muito, gostaria de dormir um pouco.
        Grndling foi acompanhado pelo capito at o camarote. Deu
um "at-j" e entrou. Sacudiu o lenol da cama, bateu com um
pano sobre caixas e paredes, fechou a cortina, escurecendo a pea.
Dormiu pesado at a noite. acordando com leves batidas na porta.


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      - Quem ?
        O        comandante abriu a porta e apareceu em trajes domingueiros,
cabelo emplastado de gordura, um largo pente em punho.
        - Pelo que vejo o amigo est se preparando para sair.
        - Pois  verdade, Herr Grndling. Se o senhor estiver disposto
e no contar com nenhum programa melhor, bem que podia me
fazer companhia. Sei de um lugar que  diferente de tudo o que
h sobre a terra.
        - Convite aceito.
        Lembrou-se de Moog plantado junto  carruagem. Que ficasse
l pelos sculos afora.



5 De fato, o lugar para onde fora carregado pelo Comandante
Blecker era diferente de tudo que ele j vira. Um grande
casaro sem paredes internas, prximo ao cais: marinheiros em
profuso, brancos e negros, mulatos, rosados europeus dos grandes
navios atracados, uma fumaceira cerrada, cheiro de peixe frito e
sebo derretido, mesas apinhadas, cachaa e cerveja, grandes mulatas
de ancas largas e peitos balouando sob vestidos frouxos. S
bebendo muito, pensou Grndling olhando ao redor. Blecker levou-o
para um comprido balco, bateu forte no tampo de madeira
encardida, pediu cerveja e perguntou ao empregado se havia mulheres
disponveis. Tocaram os copos  sade, ao regresso feliz,  vida.
Sofia, quelas horas, estaria bordando sob o bico de luz e balanando
o bero do filho com a ponta do p. No seu tero, a sementinha
encorpando. A quieta Rua da Igreja, o rio l embaixo, guas
espraiadas e calmas, a larga e macia cama, tapetes, o corpo de Sofia
colado ao seu, o perfume que s dela emanava. O senhor quer ficar
com esta aqui?  uma das melhores fmeas do mundo. Chama-se
Sofia Spannenberger, a rainha das putas. Grndling saltou:
      - Que disse o senhor? Como se atreve...
        O        homem ficou assustado. Herr Grndling estaria ficando
louco ou j estaria bbado com um copo de cerveja?
      - Estou lhe apresentando a melhor e mais tarimbada mulata
do Rio. Veja, chama-se Marina no sei de qu. Mulher da vida nO
tem sobrenome.
        Grndling estava se sentindo indisposto. Pois capito, sigo o
seu conselho, o senhor  um velho lobo do mar e sabe o que diz
em matria de mulher. Se acha que esta  a melhor mulher do
mundo, pois desde j lhe agradeo e ela passa a ser minha exclusiva


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propriedade. Naturalmente o senhor saber aonde levar uma mulher
dessas aqui no Rio. Mas meu caro senhor, no se preocupe com
detalhes. Conheo dois camarotes, paredes-e-meia, encravados num
barco chamado Carolina.
        Saram os dois sem muita demora, Grndling seguido pela
mulata e uma cafuza que enroscara os braos no pescoo de Blecker.
        Grndling acordou madrugada alta. Custou a localizar-se,
sentiu que uma mulher dormia a seu lado. Apalpou o seu corpo,
os dois seios, sentiu a gaforinha spera exalando fedor de
brilhantina. Notou a janelinha redonda, qualquer coisa como o marulho
de gua batendo no casco de um navio. A fala de um homem
dizendo palavres. Era Blecker, lembrou-se. Blecker com a cafuza.
Passou a mo espalmada sobre o ventre da mulata que se mexeu.
Marina, isto mesmo, chamava-se Marina. Comeou a dizer coisas
que ela no entendia. Por sua vez ela balbuciava uma espcie de
pato dos africanos, mos geis apalpando, boca de grossos lbios
molhados descendo ventre abaixo, um resfolegar animal e excitante.
A cafuza, ao lado, gritanto; Blecker rugindo. Por um momento
ficou atento, por um momento apenas, que Marina conhecia
mgicas do demnio.
        Depois, ela havia tirado de seus bolsos o dinheiro que quisera
e desaparecera como a noite quando chega o sol. Grndling sentiu-se
imundo, emporcalhado; seu corpo estaria marcado. Como
explicar a Sofia, na volta, a origem daquelas placas negras grudadas em
suas carnes? Ouviu uma voz forte do outro lado da parede:
      - Tudo bem, Herr Grndling? A negra era o que eu dizia
ou no?
        Estava a bordo do Carolina mesmo, no botaria mais o p em
terras do Rio de Janeiro. Deixaria a sua bagagem no velho casaro
onde se refugiava agora o falecido, o bom, o generoso, o excelente
Major Schaeffer, amigo ntimo de reis, czares e imperadores.


157



XI


1 Daniel Abraho terminava um novo serigote, encomenda do pelo
        Major Oto Heise. O desbaste da madeira, uma pea inteiria
        de louro, fora obra de ajudantes, rapazotes que trabalhavam
a troco de comida. Depois entrava a mo do artista, os rebordos
trabalhados, a pelica de nonato cobrindo a madeira crua,
acabamento com tachas de cobre, material importado. Philipp absorto
vendo o pai trabalhar, alcanando a ferramenta adequada, ajudando
a firmar a pea no cavalete, enchendo o mate nos breves intervalos
quando o pai, cuia na mo, tomava distncia para melhor apreciar
a obra. Corria  cozinha quando a gua acabava trazendo de volta
a chaleira cheia, fumegando. Jacobus, auxiliado por mais dois,
montava uma nova carroa. Sozinho, o filho Emanuel levantava o eixo,
enquanto outros encaixavam as rodas, os anis incandescentes
colocados a golpes de malho e resfriados a seguir com latas dgua.
        Catarina chega com Juanito, carroo abarrotado de
mercadorias, cabelos esvoaantes, o coque desfeito.
-        Correu tudo bem? - perguntou Jacobus.
-        Tudo bem - disse ela. E por aqui?
        - Como Deus quer, Frau Catarina.
        Ela chamou os filhos, beijou Philipp e Carlota, pegou Mateus
ao colo.
-        Que sujeira!
        Deu ordens aos ajudantes do emprio para comearem a
descarregar as tralhas, que tomassem cuidado, havia coisas de quebrar.
Ainda com Mateus nos braos foi ao encontro do marido,
indiferente ao que se passava em redor, nem sequer notando a chegada
da mulher. Catarina bateu no seu ombro, disse: eu cheguei, fiz
boa viagem.


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      -Mais um serigote - disse ele  guisa de cumprimento,
depois de cinco dias de ausncia. Parou de trabalhar, olhou bem para
a mulher, sorriu. - Mais um. Conseguiu as ferramentas que eu
pedi?
      -Mas no encontrei as alems. Consegui de marca inglesa.
      - Perdem o fio logo.
      -No havia outras, pacincia.
        Catarina voltou  carroa com Carlota agarrada  sua saia.
Descobriu o que procurava num caixote, pegou o embrulho e
mandou Philipp entregar ao pai. O guri deu meia volta e saiu correndo.
Ento ela ficou parada na frente de Jacobus, com a cara franzida e
olhos apertados. O homem limpou as mos num grosso avental,
cabea baixa:
        - A senhora j sabia que a minha resposta era sim.
        - No sabia, estou sabendo agora.
        - Quando a senhora quiser, vamos para o Porto. Est tudo
pronto para a viagem.
        - Assim que houver condies.
        Quando entrou na casa viu Juanito ao lado de Ceji. a
indiazinha deitada na sua enxerga de palha, abatida, olhos cados.
Juanito nervoso, voltado agora para Catarina, como a pedir socorro.
        Emanuel falou da porta, pedindo licena para entrar:
        - Frau Catarina, a ndia desde ontem que no come nada, faz
sinal que doem as cadeiras, vomitou muito. Depois ela tentou se
levantar, mas estava sem foras.
        Catarina passou a mo no rosto de Ceji, na sua testa, viu que
ela estava muito fraca. Fez sinal para que ficasse deitada, depois
iria falar com o mdico. Juanito desapareceu e voltou muito tempo
depois com molhos de ervas receitadas por um curandeiro. Catarina
viu quando ele fervia as plantas numa panela, pensou que se bem
no fizesse, mal no faria. Era coisa de bugre, l tinham eles seus
remdios. Juanito no arredou p, acocorado ao lado da enxerga,
braos abarcando as pernas, como de costume, queixo apoiado nos
joelhos unidos.
         noite Daniel Abraho encontrou a mulher com a mo na
testa da ndia, Ceji ardia em febre. Preparou compressas de gua
fria e mostrou a Juanito como deveria fazer. Ele obedeceu, olhinhos
apavorados, Ceji poderia morrer. Lembrou-se do Grande Esprito
que d os animais do cu e os animais da terra para alimento,
Njandejara. Um daqueles alimentos, estava certo, salvaria Ceji.
Continuou mudando as compressas, sempre atento, acocorado.
Durante o jantar ningum falou. De vez em quando ouviam gemidos


159


da indiazinha. Catarina achou melhor falar de negcios, era a sua
maneira de aliviar a tenso:
        Voltei com um pedido de duzentas sacas de milho para os
Weit, do Caminho Novo, e vendi mais cinco serigotes.
        Daniel Abraho, de boca cheia, fez um assentimento com a
cabea. Catarina botou as crianas na cama e recolheu os pratos
da mesa. Daniel Abraho entrara e sara da toca, trazendo nas
mos a Bblia. Levou um lampio e se postou ao lado da doente.
Por algum tempo folheou o livro, achou o que queria: "Tendo
entrado Jesus na casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama
e com febre. E tocando-lhe a mo, a febre a deixou. Ela se levantou
e o servia". Dizendo isso, botou a prpria mo sobre a testa da
doente, dizendo coisas que ningum entendia. Catarina arrumava a
cozinha e sacudia a cabea, o marido nunca mais ficaria bom, era
a cruz que deveria carregar. Ele ainda leu: "Ele mesmo tomou as
nossas enfermidades e carregou com as nossas doenas". Ela disse
sem olhar:
        - Daniel Abraho, acho melhor dormir, amanh  outro dia.
        Colocou ao lado de Juanito um prato de comida. Ele no olhou
e no moveu um msculo do rosto; parecia de pedra. Ceji dava a
impresso de dormir, de vez em quando inquieta, gemendo,
respirao ofecante.



2  Jacobus chegou com a notcia que corria de casa em casa:
qualquer coisa de estranho estava acontecendo no 28.o Batalho.
Trs oficiais haviam sido presos de madrugada e levados para
Porto Alegre. Falaram em conspirao.
      - Volta o assunto de novo - disse Catarina acendendo o fogo.
     -  s no que se fala. Os oficiais foram levados para um navio
velho, a Presiganga.
      -Mas nem o nome desses oficiais essa gente sabe?
        Jacobus chamou pelo filho:
      - Emanuel, sabes os nomes dos oficiais presos?
        O        rapaz fez que sim com a cabea:
      - S pelo que ouvi dizer.
      - E quem so eles? - perguntou Catarina.
      - Stepanousky, Godfroy Kerst e Oto Heise.
      - Oto Heise?
        - Ele mesmo - disse Jacobus.


160


        Do lado de fora da porta, Hermann Krieger, antigo combatente
da Cisplatina, ligado por amizade ao Major Joo Manuel, ouviu a
conversa de Catarina e pediu licena:
      - H muito boato nisso tudo. O prprio Major Joo Manuel
j disse isso mesmo ao comandante da Polcia de Porto Alegre.
Agora, isso da priso dos trs oficiais  verdade. S no acredito
que o Major Oto Heise esteja na encrenca.
      -Mas Conspirao contra o qu, Herr Krieger? - perguntou
Catarina.
      -No se sabe se  conspirao mesmo. Ouvi dizer, inclusive,
que OS colonos precisam se armar porque os negros escravos vm
assaltar a colnia. Para mim, isto no tem p nem cabea.
      - O senhor acha isso to absurdo assim?
      - Acho, Frau Catarina. Se os negros esto pretendendo nos
atacar, por que motivo esses oficiais foram presos? H bicho
escondido na ramagem da rvore e no se consegue ver sequer o rabo.
      - E o major to seu amigo no lhe disse mais nada?
      - Bem - disse Krieger com ar misterioso - nem tudo o que
os amigos conversam com a gente se pode dizer. Militar sempre
tem segredo s da classe. No  como a gente.
        No dia seguinte Krieger voltou ao emprio, desta vez trazendo
nas mos o Constitucional Rio-grandense, de Ferreira Gomes:
      - Escutem aqui o que est escrito neste jornal. Parece
mentira mas essa gente s quer encrencar os alemes com o governo
imperial.
      - Leia, homem - disse Catarina curiosa.
      - Pois vejam s, escutem aqui: "O plano que se traava era
de acordo com os alemes da colina de So Leopoldo, os quais (segundo
se afirma) deviam surpreender a guarnio desta capital.
Uns se abalanam a sonhar com a mudana de estandartes, de
autoridades, variedade de governo para o absolutismo, outros para o
republicanismo, de mos dadas com as repblicas vizinhas. .."
      - Ah, ento essa gente acha que somos ns, os alemes, que
estamos conspirando contra as suas riquezas! - exclamou Jacobus
indignado.
      - Acontece que chegou esta madrugada aqui em So Leopoldo
um destacamento imperial comandado pelo Brigadeiro Fontoura, um
militar com peito coberto de medalhas.
        Catarina fez um muxoxo de desdm e disse para que todos
ouvissem bem:
      - Vejam s, ns estamos querendo derrubar o governo!


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        - No quero me meter na conversa - disse Emanuel pedindo
licena ao pai - mas ontem mesmo uma escolta armada prendeu
e arrastou o relojoeiro Sarrazin e toda a sua gente. At o pobre
do francs!
        Os homens ainda continuaram conversando, Catarina desligada,
no compreendia mais nada, a continuar assim vamos todos morar
numa toca debaixo da terra, como Daniel Abraho, cada um com
medo de ser dependurado pelo pescoo num galho de rvore. Reviu
a figueira de Jerebatuba, as marcas de cordas de outros
enforcamentos, o posto de vigia de Philipp, o poo, ela chegando at a
borda, falando pelas frestas, o inimigo ainda est por perto, sempre
o inimigo, sempre. Ouviu Jacobus perguntando a Krieger que fazia,
a todas essas, o senhor Inspetor Lima. Relatrios, mensageiros
enchendo o gabinete do Presidente Lopes Gama de toda essa porcaria
que nada adiantava. Levantaria um mastro ao lado do emprio, no
topo pregaria uma gvea e Philipp voltaria a cuidar dos inimigos.
Daniel Abraho alheio ao que acontecia em redor, trabalhando
decidido com a enx que soltava lascas para todos os lados, como se
escavasse o pescoo de um inimigo. Algum disse, ainda h pessoas
sensatas neste mundo. Ela no ficou sabendo quem, o barulho da
oficina era maior. O sensato, pensou, era morar, comer, dormir
numa toca, alapo tramelado, espingarda sempre  mo.
        - Fico a pensar, quem olhar por ns exclamou Catarina,
sem querer.
        Daniel Abraho ficou com a enx a meia altura e falou de
frente para a mulher:
- O        Senhor olhar por ns.
        Prosseguiu falquejando a pea de madeira, queria saber agora
o        que fazcr do serigote encomendado pelo Major Oto Heise, que
talvez nunca mais precisasse de cavalo.



3 Madrugada silenciosa, lamparina amortecida sobre a mesinha de
cabeceira, Grndling segura o ventre nu de Sofia, encosta o
ouvido na pele esticada: ouo o coraozinho dele. Presta
ateno, escuta, isso  ele, ento no conheceria as batidas do
corao do meu prprio filho? Sofia espicha o corpo na cama, braos
estendidos, palmas das mos voltadas para o lenol. Ele diz, eu
estava com saudades de ouvir o canto desse galo, de ouvir esse
silncio que  s nosso, o cheiro desta casa, sonhava com essas
paredes, quadros e tapetes, o arrastar de chinelos de Mariana, o caf


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servido no quarto, o gosto daquele po com gelia. Sofia pergunta:
quantas mulheres dormiram contigo durante as ltimas semanas?
        Nenhuma, posso jurar de ps juntos, nenhuma. Depois que te
encontrei, minha vida mudou muito, ests sempre no meu pensamento,
no consigo me concentrar noutra coisa, sei que no se deve dizer
isso a uma mulher, h perigo de se transfomarem em tiranas. Sofi,
olhos fechados, passando os dedos entre os cabelos do marido, sabes
que isso no aconteceria comigo, mas gosto de ouvir essas coisas
ditas por tua boca. Ele desencosta a orelha do ventre, ergue a
cabea: escuta o galo nosso amigo.
      - Ainda no me falaste de Schaeffer, de como est ele
disse, cobrindo-se com o lenol.
     -  verdade, nem tive tempo. Schaeffer vai muito bem.
Voltou para a Europa no mesmo dia em que embarquei de volta
para C.
      - Agradeceste os presentes, o barco, a caixa de msica?
Falaste para ele no Jorge Antnio, nome dado em sua homenagem?
      - Schaeffer ficou emocionado. Quando voltar da Europa vir
direto a Porto Alegre batizar o menino.
        Novamente o galo. Grndling dorme, esgotado. Com cuidado,
ela puxa o lenol e cobre tambm seu corpo. Desce o outro
travesseiro at a sua nuca, aos poucos vira o seu corpo, fazendo com
que a sua cabea escorregue do ventre at as penas cheirando a
camomila.
        Mariana bate de leve na porta, entra e coloca numa mesinha
redonda, ladeada por duas cadeiras, uma grande bandeja com
caf da manh. Grndling na mesma posio, travesseiro a meio
da cama, ressonando. Sofia com Jorge Antnio nos braos. Pede
a Mariana para abrir uma fresta numa das folhas da janela, com
sinais apenas de mo, como sempre fazia. Estende os braos com
o        filho, Mariana o recoloca no bero, ajeita as cobertas bordadas
e sai.
      - Est na hora de acordar.
        A voz de Sofia, o teto de largas tbuas envernizadas, as paredes
caiadas de branco, quadros e espelhos, o cheiro que era s deles.
Percebe na distncia, depois cada vez mais perto, a voz fanhosa do
vendedor de peixe de todas as manhs. Sente a pele da mulher, v
seu rosto, est na sua casa, na sua fortaleza; alm das grossas
paredes, o mundo cheirando a bodum de escravos, o amigo bbado,
as cidades com seus feios sobrados de gelosias simtricas, o
imperador vacilante e aquela laia de politiqueiros tentando derrub-lo.


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     -  hora de acordar, sim - disse ele. - Estou vendo que
h sol l fora.
        Saltou da cama e foi olhar de perto a bandeja trazida pela
escrava. No havia disso a bordo do navio do meu amigo Capito
Blecker. V com gua na boca a obra prima diria de Mariana, um
dourado po de trigo e de centeio. Barra uma fatia com gelia de
pssego. Mais outra. Se o imperador desconfiasse da existncia
desse po, mandaria nos deportar os dois e acorrentaria a negra
velha ao p do fogo real.
      - Ainda bem que ele no sabe disso. Ou Schaeffer teria
contado esse detalhe ao imperador? - disse Sofia puxando a cadeira
para junto da mesinha.
      - Oh, no, Schaeffer seria incapaz de revelar um segredo
desses ao imperador. Schaeffer  nosso amigo.
        Vai at o bero escuta o leve balbuciar do filho, puxa as
cobertas e v o rostinho de grandes olhos azuis fixos nele.
      - Estou notando que algo te preocupa - diz Sofia.
      - Eu sempre ando preocupado. No sei como andam os
negcios por aqui, quando viajei havia muita conversa de conspirao
militar. So Leopoldo cheia de falatrios. Essas coisas atrapalham
os negcios. Vou mandar chamar Schiling e Kalsing.
        Chamou Mariana, deu ordens para a calea buscar os dois.
        Abraou Sofia. No passei um dia sem pensar em ti, uma hora,
um minuto.



4 Os dois chegaram antes do meio-dia.
-        Puxa, pensvamos que no fosses voltar mais - disse
Schiling alegre.
-        Muita novidade durante a minha ausncia?
        - Algumas - disse Schiling. - E como deixou o Major
Schaeffer? Ele est bem? Deve ter levado um baque com esse
negcio do corte de verbas para a colonizao.
     - , mas Schaeffer  um homem que no se abate por
qualquer coisa. Esteve vrias vezes com o imperador, fez ver o erro
que o governo estava cometendo. Schaeffer sabe lidar com essa
gente, nasceu para isso.
        - E ser que voltam atrs?
      -No se sabe. A poltica ferve no Rio, a Corte anda muito
desprestigiada. Como Schaeffer tem srios compromissos na Europa,
resolveu viajar. E como vo os nossos negcios?


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      - A concorrncia aumentou muito, todo o mundo achando que
 melhor comerciar do que plantar. Esto ficando espertos - disse
Kalsing.
      - E o que est havendo com a nossa gente?
      - Continua fazendo o que pode. Muitos dos nossos antigos
fornecedores, de uma hora para outra, simplesmente sustaram as
vendas. Esto querendo explorar - exclamou Grndling.
      - De uns tempos para c, por exemplo, apareceu em So
Leopoldo uma mulher que est entrando no negcio sem meias medidas.
Paga um poucu mais, conta com muitos amigos nas colnias e tambm
em Porto Alegre.
Grndling riu:
        - Ento os meus valentes homens esto se deixando enrolar
por uma mulher! Parece mentira. E que mulher  essa?
      - Uma tal de Catarina. Mulher, como eles dizem por aqui,
"de faca na bota".
      - Catarina? E de onde surgiu?
      - Ela morava para os lados do Chu - disse Schiling -
trocou a estncia por uma casa velha no povoado. Trocou com
um tal Oestereich.
      -Mas que espcie de troca ele fez com essa mulher?
      -No sabemos disse Schiling. A antiga casa dele, na
Rua do Sacramento, de um casebre de pau-a-pique foi aos poucos
se transformando, ampliando e hoje tem selaria, ferraria, fbrica de
carroas, dos melhores serigotes da regio e um emprio que cada
dia cresce mais.
      - Ainda no entendi por que uma mulher.
      - O marido est meio doido, pensa que  bicho, s consegue
dormir num buraco cavado no cho, com tampa fechada.
      - Dorme num buraco?
      - Durante a Cisplatina, teve de passar dois ou trs anos
numa
toca dentro do poo.
      - Virou toupeira, o desgraado. Como se chama ele?
      - Daniel - interveio Schilling. - Daniel Abraho.
      - Claro que conheo. Daniel Abraho Lauer Schneider, meu
amigo, foi o meu homem naquele negcio que a guerra estragou.
Vocs se lembram, Harwerther, Mayer. Mas esto certos de que o
rapaz enlouqueceu?
     -  o que toda a gente diz - confirmou Kalsing - mas eu
nunca vi o homem.


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        Grndling passeava na sala, mos s costas, como sempre fazia
quando estava preocupado. Ento eles voltam, no me procuram,
resolvem entrar no meu negcio, pagam mais. Isto no est me
cheirando bem. Voltou-se para os dois:
        - Pois vou a So Leopoldo me avistar com Catarina.
      - Quero ir junto disse Schiling.
      - Pois vamos - deu um estalo com os dedos, achando
engraada a situao. Ento, Catarina me tirando a freguesia!



5 O primeiro a levantar naquela madrugada foi Daniel Abraho.
O ranger da porta do alapo foi ouvido apenas por Juanito
que passara a noite cuidando de Ceji. A indiazinha dormia,
plida. Juanito sentado no cho, costas na parede, a cabea apoiada
nos joelhos; ouvido alerta ao mais leve movimento dela. Viu quando
Daniel Abraho se aproximou em silncio, Bblia em punho, cabelos
desgrenhados; viu quando ele colocou a mo espalmada na testa da
mulher e disse qualquer coisa, acercando-se depois de uma fresta
na parede por onde entrava a primeira claridade do dia nascendo.
Folheava a Bblia, at que comeou a ler em voz baixa. Quase uma
ladainha. Juanito sem entender uma palavra. Estaria Ceji
morrendo? Mas a ndia abriu os olhos e moveu a cabea. Pediu gua.
Juanito mergulhou um porongo numa vasilha, sustentou a cabea
dela de encontro ao peito, de vez em quando olhando assustado para
o dono da casa que prosseguia lendo. Depois passou a mo no
rosto dela e sentiu o suor frio. O esprito do mal estava saindo.
Daniel Abraho descansou a Bblia sobre uma banqueta, passou para
o alpendre e, com um balde, encheu a bacia apoiada numa trempe
de ferro, obra de Jacobus, e comeou a lavar o rosto barbudo,
levando gua com as mos em concha.
        Comeara o movimento nas oficinas, Catarina preparando o
fogo, enchendo as chaleiras; os caixeiros abrindo as portas do
emprio, movimento dos primeiros carroes, comeava o movimento
de todos os dias. Catarina veio dar o remdio mandado preparar
pelo Dr. Hillebrand para a indiazinha doente, encontrou-a melhor,
sem febre; trouxe para Juanito meio po de milho aberto em dois,
dentro dele uma grossa fatia de pernil. Disse em portugus: Ceji
boa, ficando boa. Ele assentiu com a cabea e comeou a comer
devagar, sem fome.
Daniel Abraho sentou-se  mesa; cortava com um faco fatias


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finas de pernil, lambuzando-as com chimier, enquanto a mulher
descascava quatro ovos duros.
      - Catarina - disse ele -, mil anos j devem ter-se passado.
Li no Livro Sagrado que depois de mil anos Satans ser solto de
sua priso e sair a seduzir as naes que esto nos quatro cantos
da terra.
      - Sei disso - concordou Catarina.
      - Todos devem saber, est no Apocalipse de So Joo. E ai
daqueles que alegarem ignorncia. Satans deve ser solto e em breve
estar entre ns.
      - Enquanto ele no chega - disse Catarina sem fazer uma
pausa no seu trabalho de cozinha - o melhor  terminar a carroa
dos Weber. Quanto ao serigote do Major Oto Heise, vamos esperar,
um dia ele vir buscar.
        - O        nome dele est desenhado a fogo no cepilho - disse
Daniel Abraho.
        Jacobus veio saber quando pensava Catarina abrir o emprio
do Porto. Ele e a famlia apenas aguardava uma ordem sua.
Emanuel era um bom menino, fazia tudo o que ele prprio sabia,
talvez at melhor. Catarina disse que o plano continuava de p,
queria resolver primeiro outros assuntos mais urgentes. Diria a ele
com tempo, no seria apanhado de surpresa.
        Ceji tomou o primeiro caldo de galinha naquela semana. O
rostinho macerado, olhos fundos, bracinhos como dois gravetos.
Juanito mais alegre. Por duas vezes tentou beijar as mos de
Catarina. S se afastava da indiazinha para rachar lenha, apanhar
maravalhas na oficina ou varrer o cho de terra batida, obrigao que
era da mulher doente. Depois do meio-dia levou para o Dr.
Hillebrand um bilhete redigido com os garranchos de Catarina, pedindo
mais um vidro de poo para a doentinha. No demorou muito,
voltou em desabalada carreira, atravessou aos pulos o emprio,
saltando sobre sacos, caixotes e pilhas de couro, chamando por Frau
Catarina. Encontrou-a lavando com gua morna uma ferida no
joelho de Mateus, que cara na oficina. Juanito levantava as mos
bem para o alto: "Grndling. Grndling". Catarina correu para a
porta da casa, avistou ao longe dois homens caminhando na sua
direo, o que vinha na frente lhe pareceu mesmo Grndling.
Segundos depois, teve certeza. Voltou, apanhou uma velha espingarda
sempre carregada e novamente se postou na porta. Grndling
estava, agora, a menos de trinta metros. Um pouco atrs, um
desconhecido.
-        Se atravessar a rua, Herr Grndling, recebe uma bala.


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        Grndling estacou surpreso. O outro fez o mesmo, recuando
um pouco.
      -No estou entendendo, Frau Catarina. No vejo razo para
isso. Vim apenas conversar com a senhora e com Daniel Abraho.
        Catarina levantou a espingarda na altura do rosto, dedo no
gatilho.
        - Eu tenho as minhas razes e basta. Hau ab sonst Knallts!
      -Mas atirar por que, Frau Catarina? A senhora deve estar
enganada. Algum andou nos intrigando.
        Juanito enfiou a cabea na janela e uma outra espingarda foi
apontada contra Grndling. Jacobus e Emanuel surgiram no porto
da oficina, barras de ferro na mo, caras de poucos amigos. Atrs
deles, Daniel Abraho com a Bblia em punho, olhos fixos no
homem que estacara.
        - Volte, Herr Grndling, ou eu atiro - insistiu Catarina sem
baixar a arma.
      -No acredito que a senhora tenha a coragem de atirar num
amigo. Sei que a senhora no far uma coisa dessas.
        Reniciou com cautela a caminhada interrompida. Catarina
puxou o gatilho, a arma fez um terrvel estampido, soltando
fumarada pelo cano. A carga levantou placas de terra aos ps de
Grndling, que estacou. Schiling, que vinha atrs, comeou a recuar.
Juanito esgueirou-se por dentro, trocou a sua espingarda carregada
pela de Catarina que ainda fumegava.
        - No entendo, Frau Catarina. - Enxergou Daniel Abraho
entre os que estavam no porto: - Schneider, diga para a sua
mulher que ela est errada, que somos amigos.
      - Voc morrer num lago de fogo e de enxofre, maldito! Eu
dizia que Satans seria solto, eu dizia! - gritava Schneider
empunhando a Bblia como arma.
      - Depois de tudo o que fiz por vocs...
      - O que voc fez, no far mais - tornou Catarina com voz
decidida. - Nos largou no meio de dois inimigos com as suas
malditas armas de contrabando. Arruinou as nossas vidas e a cabea de
Daniel Abraho. Voc s quer dinheiro, Herr Grndling. S o
dinheiro tem valor para voc. Pois leve o que mais adora no mundo.
        Metia as mos nos bolsos do avental e de l tirava moedas que
ia jogando para os lados de Grndling.
      - Tome junte a no cho o dinheiro que voc quer. Agarre
o dinheiro e no aparea nunca mais. Nunca mais.
        Muita gente formava grupinhos, a distncia. Catarina VIU


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quando o Dr. Hillebrand se aproximou de Grndling, postando-se a
seu lado.
      - O que est se passando, Frau Catarina?
      -Nada, doutor, s peo que no fique a do lado desse
miservel, temos velhas contas a ajustar.
        O        mdico pegou do brao de Grndling, falando baixo. O
melhor  voltar, ela est disposta mesmo a atirar. Doutor, no vou
fugir feito um cachorro, como um poltro, justamente de uma
mulher. Herr Grndling, conheo Catarina, sei do que ela  capaz
de fazer quando est decidida. Venha comigo. Comeou a carregar
Grndling pelo brao, ele querendo ficar, tentando libertar-se das
mos do mdico, protestando. Num repelo, ficou livre do mdico.
voltou-se, ergueu o punho fechado para Catarina, berrando com as
veias a saltarem do pescoo:
      - A senhora no perde por esperar, nem seu marido. Pode
ficar certa disso. Bandidos, miserveis!
        Foi carregado pelo mdico e por Schiling. Catarina descansou
a arma com a culatra no cho, virou-se para as portas do emprio
e para os que se aglomeravam no porto das oficinas:
      - Vamos voltar ao trabalho. No houve nada.
        Quando passou por Juanito, esfregou a mo espalmada pelos
cabelos lisos e espetados do ndio; era o que sabia fazer quando
queria exprimir gratido.
        Daniel Abraho retornou ao trabalho e disse para a mulher:
        - Eu avisei que depois de passados mil anos Satans retornaria
para seduzir as naes.



6 No consultrio do Dr. Hillebrand, Grndling aceitou um trago
de aguardente, a cara vermelha, batendo com a mo sobre o
brao da cadeira. Queria falar e no conseguia. O mdico
pedindo que ele se acalmasse, no era caso de trocar tiros com uma
mulher, me de trs filhos, ele ficaria em muito m situao no
povoado. Afinal, depois de mais alguns tragos, conseguiu articular
as palavras:
      -No costumo ser humilhado, doutor, sem dar o troco. S
fiz o bem para essa gente e  dessa maneira que eles pagam os
favores.
        - H coisas que talvez o senhor desconhea. O marido dela
passou muito tempo no fundo de um poo, procurado pelas tropas
brasileiras e caado pelos castelhanos, na Cisplatina. Os soldados


169


de Lavalleja acharam num dos seus galpes vrias caixas de armas
endereadas para o senhor, trazidas da Banda Oriental por um tal
de Harwerther.
      -Mas eu no sou culpado disso, doutor, no fui o culpado
do negcio no ter dado certo.
        - Harwerther foi degolado pelos castelhanos e seu empregado
Mayer. antes de ser fuzilado por ordem de Barbacena, na Batalha do
Passo do Rosrio, espalhou por a que Daniel Abraho fazia
contrabando de armas para os castelhanos.
        - Mas veja, doutor, eu nem sabia disso. Isso  uma infmia.
        - Por isso  que digo, Frau Catarina tem l suas razes, o
senhor deve ter as suas. Mas acredite: se o senhor desse mais um
passo hoje, a estas horas seria um homem morto. Frau Catarina 
o homem da casa, Daniel Abraho ficou doente da cabea.
-        At aquele ndio filho de uma puta, doutor, que foi cria
minha, sempre tratado como se fosse gente, at aquele ndio
miservel apontando arma contra mim!
        - Esquea isso, Herr Grndling, o senhor tem famlia para
cuidar e muitas famlias vivem do trabalho que Catarina lhes d.
Schiling no dizia nada, apenas passava o leno na testa suada.
-         melhor voltarmos, Grndling. Deixe essa mulher de lado.
Grndlinn se reviu na rua poeirenta, calado pela espingarda
de Catarina, o povaru assistindo de longe  humilhao, ele sem
avanar, estacando quando ela ordenava, a mulher aos gritos. Se
tivesse continuado a caminhada ela no teria coragem de atirar para
matar. Ento ele chegaria onde Catarina estava, tomaria a
espingarda e a quebraria nos joelhos, como um pedao de pau. Voltaria
hoje para casa e poderia olhar Sofia e o filho cara a cara, sem nada
do que envergonhar-se.
        - Eu deveria ter prosseguido, doutor. Jamais vou me perdoar
por no ter agido como devia. Jamais.
        Voltando a Porto Alegre, num dos seus lanches, Grndling
dispensou a companhia de Schilling, queria estar sozinho. Durou a
sua viagem uma garrafa de cachaa. Do cais, foi levado em braos
para a sua calea. trs negros ajudaram o alemo barbudo a deitar
na larga cama de seu quarto luxuoso e acolhedor. Sofia chorando
discretamente, limpando os olhos azuis com seu lencinho de rendas,
presente do Major Schaeffer.
        Mais tarde, reconhecendo Sofia a seu lado, balbuciou mole,
cabea pendente do grande travesseiro:
        - Depois de tudo o que fiz por eles...


170



XII


1 Com Oto Heise, Kerst, Stepanoinsky e dois alferes, trs civis
estavam sendo levados para Porto Alegre, para a Presiganga,
um navio  deriva nas guas do Guaba. Eram trs colonos que
haviam descido do sop da serra para a compra de miudezas
caseiras: Augusto Richter, Francisco Lucks e Jacob Sperling.
        Muita gente desceu at o porto das Telhas para assistir ao
embarque dos prisioneiros; os colonos cabisbaixos - por algum crime
desconhecido eles estavam sendo levados para as masmorras de
Porto Alegre - os militares serenos, Oto Heise arrogante. O Major
Joo Manuel, cara fechada, acompanhou os oficiais at a bordo,
disse a eles qualquer coisa que ningum ouviu, alguns soldados se
postaram em guarda no pequeno tombadilho, dois oficiais
carcereiros seguiriam juntos. O povaru assistia em silncio ao
embarque,
vrias carroas estacionadas pelas imediaes, as mulheres sentadas
nas bolias, sombrinhas desbotadas abertas contra o sol forte.
        Algo de estranho estava acontecendo. Havia boatos nos balces
das vendas e dos emprios, conversas de rua, o que se dizia nas
casas, os comentrios dos vizinhos nas roas. A chegada inesperada
do Brigadeiro Manuel Carneiro da Silva e Fontoura, com seu vistoso
e brilhante fardamento de parada, peito repleto de medalhas e
condecoraes. Duas viagens, a chamado, do comandante do 28.o
Batalho de Porto Alegre. E agora, para culminar, o arresto daquela
gente, oficiais e civis alemes.
        No dia seguinte, um domingo ameaando chuva, logo aps o
culto dominical, o Pastor Frederico Cristiano Klinglhefer foi
compelido pelos fiis a responder muitas perguntas, a maioria delas
COnstrangedora que diziam respeito aos ltimos acontecimentos. O
reverendo j tirara os paramentos e tratava de fechar janelas e


171


portas, auxiliado pela mulher e os dois filhos. J na sada foi
cercado, no lhe sobrava alternativa.
      - Das coisas do Reino dos Cus, procuramos entender ns, os
humildes servos do Senhor. Sobre os assuntos do mundo, no nos
cabe julgamento. Deus, na sua infinita sabedoria, saber velar por
todos os seus filhos.
      -Mas reverendo - disse Daniel Scherer - a injustia nos
revolta. Estamos sendo vtimas de perseguies por parte dos
brasileiros, das autoridades. Ora, estamos aqui chamados pelo governo,
no somos intrusos.
      - Sobre isso precisamos meditar, no devemos tomar decises
afoitas, afinal por que tudo isso?
      - O senhor sabe o que aconteceu ontem, trs militares alemes
e mais trs agricultores, homens de bem, presos e levados para Porto
Alegre como criminosos.
        - Como se pode saber se a priso desses homens de nossa
terra se reveste de injustia, se no houve julgamento? - ponderou
o pastor.
      - Seu irmo mesmo, Germano, est sendo apontado por
alguns como fazendo parte da conspirao. Eles querem o que ns
queremos, reverendo.
        - E que , precisamente, o que ns queremos, Herr Scherer?
- disse j um pouco irritado o pastor.
        Queremos que nos paguem os subsdios atrasados. H mais
de um ano que no vemos a cor do dinheiro que nos foi prometido
na Alemanha. Queremos a demarcao das terras, at hoje adiada
para a prxima semana, que nunca chega. Queremos os animais
domsticos que constam dos nossos contratos. Olhe, reverendo, por
mim declaro alto e bom som: se esses homens esto sendo levados
para a priso por isso, estou disposto a segUir junto, pois quero o
mesmo.
        - Eles deviam primeiro cumprir com o que prometeram
disse Paulo Nabinger, prtico de gabarras. Sou da mesma opinio
de Scherer. Este governo est nos enganando a todos.
        - Um momento - atalhou Klinglhefer - acabamos de nos
dirigir a Deus Nosso Senhor e  com tristeza que vejo homens de f
falando como simples ateus, investindo contra as autoridades
constitudas. Falei dois domingos atrs sobre o Evangelho segundo
So Mateus. Devem estar lembrados: "Quando, porm, vos
perseguirem numa cidade, fugi para outra".
        - Mas no queremos viver fugindo, reverendo.


172


      -No quero que entendam as palavras sagradas assim ao p
da letra. Devemos dar tempo a Deus para que ele alumie o
pensamento daqueles que se encontram em erro.
        Pediu que todos voltassem para suas casas e que orassem a Deus
pedindo entendimento na terra entre os homens de boa vontade.
        O        ltimo a falar, antes de sair, tangido pelo pastor que
desejava fechar a igreja, foi Paulo Nabinger:
      -Ns, os homens de boa vontade, estamos nos entendendo
bem, reverendo.
        Klinglhefer fechou a ltima porta, meteu a grande chave no
bolso e preferiu dar primeiro uma passada na casa do irmo,
Germano, "apontado como fazendo parte dessa tal de conspirao". Mas
 impossvel, Germano cuida do seu trabalho, no  l muito
assduo aos cultos, mas  temente a Deus, um homem de bem. Ha
sempre os eternos interessados em levantar suspeitas contra este ou
aquele, resultando disso tudo em inocentes atirados s enxovias do
governo. O pastor pediu a sua mulher Maria Isabel que levasse os
filhos, Madalena e Henoch, para casa, precisava passar na casa do
irmo para uma palavrinha. O cu cada vez mais carregado, a
mulher lhe dissera cuidado com a chuva, ela no demora. Um cheiro
de terra molhada denunciando a gua que j caa pelos arredores,
Klinglhefer caminhando sem pressa pelo meio da rua, o
chapeuzinho escuro de feltro, toda a roupa preta, os grandes borzeguins
empoeirados, de longe se destacando apenas o brilhante colarinho
clerical, como uma coleira. Precisava escolher as palavras para
falar com o irmo, poderia ser mal interpretado, Germano tinha a
cabea dura como pedra, diferente dele, Frederico; a me
costumava dizer "gua e azeite". Quando uma vez o pai dissera que os
dois eram como o preto e o branco, a me saltou indignada e
proibiu a comparao: preto para ela representava o diabo. E ambos
eram batizados, bons, obedientes.
        Germano o recebe na porta, de braos abertos:
      - Ento o reverendo meu irmo vem me puxar as orelhas por
no ter ido ao culto. Veja, estou com visitas.
        Apresenta ao pastor seus amigos Joo Jacob Agner e Antnio
Luiz Schreder, luteranos s de nome, que no iam  igreja a no
ser em casamentos, batizados ou encomendaes.
      - Passei aqui apenas para saber como vo todos e no posso
me demorar por causa da chuva que vem a. E por sinal, grossa.
      -Muita gente, hoje, na escola dominical?
      - Como sempre, poucos. Como a capela no  muito grande,
no abrigaria mesmo todos os bons cristos da terra, de uma s vez.


173


        Despediu-se dos dois amigos de Germano, apertando a mo de
cada um, e saiu acompanhado do irmo at a rua.
        - Germano, me diz uma coisa, ouvi dizer hoje que seu nome
est sendo apontado como conspirador, no sei que conspirao 
essa, h muito falatrio, o caso da priso daqueles oficiais e dos
outros que foram levados para Porto Alegre. Fico preocupado por
voc, afinal...
        - Fica tranqilo, Frederico, isso de conspirao  conversa
fiada de quem no tem o que fazer. Sabe, So Leopoldo est cheia
deles, gostam de bater com a lngua nos dentes.
        - Dizem uns que  por causa do desmazelo do governo para
com a nossa gente. Mas precisamos ter pacincia, com dio no se
constri nada. Acima de tudo, pacincia.
        - Ah, reverendo, at esse ponto no vou. Ningum aqui quer
conspirar, derrubar governo, mesmo porque nos falta fora para
tanto. Mas que precisamos fazer alguma coisa para dizer a essa gente
que no somos animais e nem trastes, ah, isso precisamos.
        - Voc est alteando demais a voz, Germano - disse o
pastor olhando em redor.
        - Desculpa. Frederico. Quando falo nas injustias que esto
sendo praticadas contra ns, perco a calma.
        Frederico olhou para a porta da casa, l estavam os dois
amigos, calados, olhando.
        - E de que tratam vocs trs, seno dessas coisas?
        Germano ri:
        - Estamos conversando sobre sementes de trigo, qualidades de
hortalias, sobre a melhor maneira de fazer lingia sem porco.
Sabe, o governo ainda no nos forneceu os animais de cria.
        Frederico se afasta, sem pressa, quando grossos pingos de gua
comeam a cair. Germano volta para junto dos amigos. Schreder
diz, preocupado:
        - Teu irmo parece desconfiar de alguma coisa.
        - Estamos de conscincia tranqila, diz Germano sorrindo,
diante da preocupao dos amigos.
        - Vamos embora, antes que a chuva aperte mais - diz Agner
se despedindo.
        Quando partiam, tangidos pelo aguaceiro, ouviram a voz de
Germano:
        - Quando falarem com Salisch digam a ele o que penso a
respeito da atuao do Major Joo Manuel.


174


2 O Coronel Jos Joaquim Alves de Morais, comandante da
Policia de Porto Alegre, ajeita o grande corpo na cadeira de
espaldar torneado, encimado por uma guia de asas abertas. Ao
lado, uma bandeira imperial empoeirada, pendente de um mastro
envolto por espirais azuis e brancas. Uma galeria de gravuras na
parede, um grande salo aberto para um ptio interno, de pedras.
Ele apia os cotovelos na escrivaninha, encurvado, dando a
impresso de que afivelara o talabarte curto demais.  sua frente, em
posio de sentido, o Tenente Joaquim Arajo Silveira relata o que
ouvira da inquirio do Major Oto Heise, a bordo da Presiganga.
Fala sem gesticular, as mos coladas no culote fofo, as perneiras
derreadas sobre as botinas reinas. Ereto, cabea imvel, s os lbios
em movimento, o oficial recita o que sabe, sem tomar flego:
      - Ouvi o protesto do major pela boca do intrprete
juramentado Hans Ludwig - o major se diz inocente com palavras at certo
ponto duras de homem que se considera ofendido pelo fato de estar
trancafiado naquilo...
        O        coronel se recostara na cadeira, enfastiado, o tenente falava
monocrdio, no fazia pontos e nem vrgulas, era um mistrio como
conseguia respirar. O coronel pensava:  agora que ele aspira um
pouco de ar. Nada. Ento Heise dizia que o navio-priso fora feito
para criminosos e ladres vulgares, indivduos sem f e sem lei.
O major servira em diversas naes, isso desde a idade prematura
de dezoito anos. Em 1819 conquistara o posto de tenente-coronel.
        Alves de Morais olhou para as janelas, estavam abertas, ele
sentindo um calor enorme, o tenente ajudando naquela sensao de
mal-estar com a sua voz cansada e inaltervel. Sim, tenente, sei que
o Major Oto Heise veio para o Brasil como mercenrio e que servIu
sob as ordens do Brigadeiro Rosado, no quarto batalho de
caadores e nos Lanceiros Imperiais. Agora ter de explicar sua atuao
em So Leopoldo.
        O        oficial, sempre imvel, olhos fixos na parede, prosseguia
sua arenga, sem um gesto para afugentar as moscas. O major da
como testemunha de sua lisura o prprio Major Joo Manuel. faz
questo de preservar um nome limpo de cidado da nova ptria e
de guerreiro, o que pode atestar com farta documentao, citaes
e ordens-de-servio.
      - E muitas outras coisas que eu pergunto se tenho licena
para prosseguir no querendo tomar o precioso tempo de meu digno
comandante.
        Algum falava na sala e o coronel percebia isso muito
vagamente. Limpava as unhas com um pequeno cortador de papel e


175


pensava no que haveria de dizer ao presidente sobre o problema que
estava sendo criado com a desmobilizao dos soldados, a polcia
sem recursos, ele em absoluto tinha culpa pelo que vinha aconte-
cendo, dessem os recursos pedidos e ento sim, responderia 
altura. Houve um silncio repentino, o tenente havia calado.
Perguntou se as demais testemunhas arroladas estavam sendo ouvidas.
O tenente recomeou tudo, o juiz da Ouvidoria Geral e Correio
da comarca marcara dezenas de depoimentos para os prximos dias,
isso se fazia necessrio dado o perigo por que passavam as
instituies em face do que vinha acontecendo na Colnia, onde
estrangeiros cuspiam no prato que lhes botavam na mesa. Ademais, senhor
comandante, muito pouco foi at agora apurado, inclusive com
relao ao Major Oto Heise, o qual entende o meretssimo juiz
merea ser tirado da Presiganga em face das nuvens de moscas durante
o dia e das ondas de mosquitos  noite.
      - O senhor est dispensado.
        Ento o tenente revelou ao coronel que o prisioneiro ameaava
chegar aos ouvidos do imperador, atravs de amigos influentes, tudo
o que se passava com ele, denunciando as arbitrariedades. O
coronel atirou sobre a mesa o cortador de papel e disse, determino que
o preso seja posto na sua prpria casa, em custdia, enquanto anda
o processo. O tenente bateu com os calcanhares, transmitiria ao
meretssimo juiz a determinao recebida, a qual alm de sbia fazia
justia ao passado do prisioneiro, realmente um homem de grande
valor.
      -No pedi a sua opinio. V e transmita as minhas ordens.
      - Com sua licena, agradeo a escolha de minha humilde
pessoa para to importante misso.
      - Est dispensado! - berrou o comandante dando um murro
na mesa, fazendo saltarem tinteiros e papis.
        O        tenente fez continncia sem qupi, meia volta,
desequilibrado,
partindo em passo marcial direto  porta. O comandante ficou
pensando para que diabo de lugar deveria transferir o tenente. Sim,
para Rio Pardo, para o regimento do Coronel Emerenciano. Perfeito,
para Rio Pardo, como no tivera a idia antes? Emerenciano lhe
pedira, tempos atrs, um tenente moo, amigo do trabalho,
dedicado, fiel e burro.
        Para Rio Pardo. Meteu a mo na gaveta e de l tirou um
guardanapo com dois deliciosos papos-de-anjo alaranjados.


176


3 Germano Klinglhefer foi chamado s pressas por seu amigo
Carlos Echer. Alguma coisa de grave acontecera a Joo Agner.
Correram OS dois para a Rua do Passo, havia um aglomerado
de curiosos, abriram caminho aos empurres, Agner estava estirado
na terra, a camisa tinta de sangue, Schreder ajoelhado, amparando
a sua cabea. Que aconteceu, pelo amor de Deus? Dois
desconhecidos haviam assaltado Agner, desaparecendo em plena luz do dia.
ladres no eram, ningum sabia dizer nada, precisamos levar o
Joo at a casa do Dr. Hillebrand, ele no est nada bem.
        Pediram ajuda para uns conhecidos, outro ofereceu a sua
carroa. o ferido foi levado com dificuldade, corpo mole, lvido, sem
abrir os olhos. A carroa devagar, ordenou Germano. algum deve
ir na frente prevenir o doutor. Formou-se um cortejo pela rua
ensolarada, mulheres e crianas chegavam s janelas, o mdico
apareceu e algum ordenou alto. Ele debruou-se sobre o ferido,
auscultou o peito, rasgou a camisa, examinando o ferimento. Virou-se
para Germano: duas facadas mortais, no h nada mais a fazer,
o rapaz acaba de morrer, lamento muito.
        Schreder disse, h cobra mandada nisso tudo, algum pagar
por isso. O mdico perguntou, alguem? Sim, alguem mandou matar
Agner, algum que no costuma fazer as coisas pelas prprias mos.
Hillebrand recomendou calma, deveriam avisar ao delegado de
polcia, essas coisas devem ser entregues s autoridades. Algum disse,
o delegado est em Porto Alegre, s volta depois de amanh. Ficou
o escrivo, chamem o escrivo. Dali saram para encomendar um
caixo a Fettermann, precisavam encomendar o defunto,
chamassem o irmo de Germano, avisassem a famlia.
        No emprio da Rua do Sacramento Catarina ouve calada a
narrativa de Germano, sentados frente a frente. Ela diz, vou para junto
da mulher dele, nem sei como vai receber a noticia. Ningum viU
nada, pois no? Estamos numa terra de cegos, de mudos e de
surdos. O delegado viajando. Os quatro praas comendo de graa nos
lotes dizendo que andam protegendo os colonos dos ataques dos
bugres. Quem sabe o inqurito terminar por descobrir que foram
os bugres os assassinos de Agner? Emanuel chegou  porta, Frau
Catarina posso formar um grupo para caar os criminosos. Ela fez
que no com a cabea, no pensa nisso, rapaz. Disse com voz dura:
foram os bugres. Ele arregalou muito os olhos, no pode ser, Frau
Catarina, como poderiam ser os bugres? Volta para o trabalho, deixa
essa coisa de lado, Herr Germano se encarregar disso.
        Dois dias depois, o novo inspetor da colnia, Coronel
Salustiano Severino dos Reis, comunicava ao governo que o ex-inspetor


177


Tomaz de Lima tinha toda a razo quando afirmava, em seus
relatrios, que a colnia estava em paz, seus moradores voltados para
o trabalho da lavoura, para a criao de aves e de bichos de
pequeno porte.
        Uma noite, tendo cinco amigos reunidos em sua mesa,
Catarina disse sem alterar a voz:
      - Pois se eles querem violncia, tero violncia.



4 Jorge Antnio Spannenberger Grndling ganha uma cama nova
e cede a sua, toda lavrada, para o irmo Albino, um menino
pesando quatro quilos e meio. Nascera quando o pai regressava
de So Leopoldo, pensando durante toda a viagem que chegaria
tarde. Ao abrir a porta, ouvira o nome de Albino dito pela negra
Mariana. Subiu a escada de um pulo, atravessou a sala quase
correndo, alegre por haver chegado mais um homem. Sofia parecia
desmaiada entre os lenis e rendas, o rosto salpicado de vermelho,
como se estivesse doente de catapora ou de sarampo. Examinou bem
de perto a pele pontilhada, virou-se interrogativo e temeroso para a
escrava, ela riu e disse que no era nada, no precisava ficar
assustado. Aquilo se devia ao esforo que Sofia fizera para expelir o
menino. Grndling foi olhar o filho e achou que apesar de
escurinho e enrugado, terminaria loiro e lisinho como Jorge Antonio.
Estava ficando experiente em matria de filho. Beijou de leve a
testa da mulher, ela abriu os olhos sonolentos, esboando um
sorriso.
        - Dorme e descansa, j vi o presente que ganhamos. 
homem, com o eu queria. No me demoro, estou imundo de terra e
de porcarias da rua. Mas de passagem, beberei uma taa de
champanha pela felicidade dele.
        Saiu para tomar banho e trocar de roupa. Jantaria no quarto,
ao lado de Sofia e do filho. Enquanto comia contava que logo mais
receberia a visita dos amigos e mais a de um forte comerciante de
Rio Grande, um tal de Felipe Diefenthler. Tratariam de negcios,
havia a possibilidade de um acerto com ele para exportao. Sofia
dormiu, enquanto ele falava. Saiu sem fazer o menor rudo, chamou
Mariana e mandou que tirasse um quadro da parede. Foi at o
poro da casa e de l trouxe uma caixa, com cuidado, como quem
carregasse cristais. Mandou a negra para dentro, abriu o pacote e
de dentro dele tirou um relgio de pndulo, de parede, todo
escUlpido em pinho de Riga, enfeites dourados, incrustaes de porcc-


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celana colorida, um capitel representando dois anjinhos abraados,
ramalhetes de flores vermelhas e amarelas, descendo com fartura do
alto, terminando em delicadas pontas esverdeadas. Subiu numa
cadeira, colocando-o no lugar do quadro. Tirou o relgio do bolso e
acertou os ponteiros brilhantes. Deu corda e um piparote no
pndulo. Ouviu o leve tique-taque e afastou-se para melhor admirar a
obra de arte, o belo disco de cobre polido de um lado para outro,
lentamente. Faltavam dois minutos para as sete. Postou-se no
umbral da porta do quarto onde Sofia dormia. Quando a primeira
hora bateu, num som grave e musical, ela abriu os olhos, intrigada.
cada nova batida enchia a casa de sons, viu o marido na porta.
      - Que  isto?
      - Um presente de Albino para a me, para marcar todas as
horas de sua vida. Vai durar cem anos, este relgio.
      -Mas eu queria ver.
      -No. Pelas batidas j podes adivinhar o quanto ele  bonitu.
        Ela disse que morreria de curiosidade. Grndling concordou,
mas enquanto isso dorme descansada. Sentou-se ao lado da cama,
falava baixo, no podes sequer imaginar a minha agonia durante
toda a viagem, o lancho no chegava nunca, ainda por cima vento
sul, tive vontade de chorar. Agora dorme, precisas dormir, vou
diminuir a luz.
        Bateram na porta e ouviram Mariana arrastando os chinelos.
Beijou a testa da mulher. So eles que esto chegando, vou fechar
a porta do quarto para que no sejas incomodada pelas conversas.
Cuida bem do guri.
        J encontrou na sala Zimmermann e Schiling. Os amigos
admiravam o relgio que dominava a pea. Grndling disse, um presente
que eu trouxe para Sofia pelo nascimento de Albino. Fomos
informados, disseram eles, e desejamos muita felicidade para o menino e
seus pais. Ah,  uma pena que vocs agora no possam v-lo,  um
menino pesando mais de quatro quilos. J disse  me, ele ser
militar, estudar na Europa e aqui comandar tropas como general.
Sinto que h um grande futuro para os Spannenberger Grndling,
no sei explicar por qu, mas sinto, qualquer coisa me diz aqui por
dentro.
        Novas batidas na porta, Mariana torcendo a chave, entraram
Tobz e Diefenthler, um alemo magro e ossudo, velho casaco
quadriculado com grandes botes de osso e botinas de pelo de boi hosco,
biqueiras gastas. O dono da casa adiantou-se, mo estendida:


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      - Prazer em conhec-lo, Herr Diefenthler. Espero que se sinta
aqui como em sua prpria casa.
        O        comerciante respondeu acanhado, humilde na sala luxuosa.
Sentaram-se, Grndling na sua cadeira preferida, de braos. Schiling
disse, nunca vi relgio mais bonito na minha vida,  uma
verdadeira jia. Por alguns instantes ficaram todos como que
hipnotizados pelo balano do pndulo, Grndling explicou que havia sido
uma encomenda feita h muito tempo. pertencia a uma famlia
nobre da Alscia, por dinheiro nenhum do mundo se desfariam
daquela preciosidade, mentiu ainda que graas s amizades de seu
amigo Schaeffer terminara por ficar com o relgio. Ele prepara as
pessoas para ouvir as horas, toca antes uma espcie de msica
muito bonita. Uma das negras entrou trazendo copos e garrafas, uma
outra trouxe pratos de porcelana com pedaos de queijo branco e
de pernil, cestinhas com pequenos pastis de nata. Grndling
perguntou ao comerciante se havia feito boa viagem. No chegou a
escutar a resposta, preocupando-se em servir a bebida, em dar
ordens s negras. Zimmermann ergueu o copo, levantou-se e ficou
em posio de sentido:
        -         sade do menino Albino e  felicidade dos pais!
        Todos de p, repetiram a saudao e esvaziaram os copos.
      - Pois h muito que ando pensando em abrir um emprio em
Rio Grande - comeou Grndling, dirigindo-se ao visitante. -
Afinal, ali  o caminho do mar, a sada natural para a Europa.
        Diefenthler concordou, ele estava pensando certo, podia
contar com ele, conhecia a vila, tinha boas relaes. Grndling
interrompeu o que o outro dizia, na verdade ele havia pensado assim
h algum tempo, mas mudara de idia. Veja por que abrir um
emprio em Rio Grande? Que necessidade havia disso? Diefenthler se
mostrou confuso, bem,  como o senhor dizia, Rio Grande  uma
sada para o mar. Claro, disse o dono da casa depois de esvaziar um
clice, Rio Grande  a sada, mas mudei de idia e agora preferia
fazer um acordo com o senhor, por que abrir outra casa, novo
emprio? A soluo seria uma sociedade com ele, Diefenthler,
reuniriam esforos, somariam experincia, duas cabeas pensam mais do
que uma. O homem disse que Zimmermann havia falado nessa sua
idia, pois estaria disposto a estudar um acordo, ficaria muito
honrado com a distino. Veja, prosseguiu o dono da casa,
levantando-se: tenho essa colnia nas mos, posso carrear para Rio Grande
as mercadorias de maior procura, o que h de melhor para a
exportao. Tenho grandes amizades em Hamburgo, alm de um emprio
em sociedade com o Major Schaeffer. Alis, a verdade  que Schaen-


180


fer anda desinteressado do negcio, vou terminar comprando a sua
parte.
        Diefentheler pouco falava. Grndling caminhava de um lado
para outro, mostrava que poderiam ganhar rios de dinheiro se
usassem a cabea, se trabalhassem juntos, meio a meio nos resultados
das exportaes e a mesma proposta para tudo aquilo que viesse
da Europa para c. Zimmermann, Schiling e Tobz, calados.
Grundling s interrompeu o discurso quando o relgio comeou a
anunciar as horas. Fez um sinal pedindo silncio, todos encantados com
as batidas musicais. No  uma beleza?



5 Estavam ficando bbados, Tobz havia quebrado um copo no
brao da cadeira, Zimmermann cantarolava qualquer coisa.
Grndling achou que Sofia estaria sendo incomodada, falou em
voz baixa:
      - Proponho uma coisa. Vamos para um bom lugar que
conheo e l terminaremos de comemorar duas coisas importantes: o
nascimento de meu filho e a sociedade com o amigo Diefentheler.
Vamos nos entender muito bem.
        O        outro disse que gostaria muito de comemorar, mas preferia
deixar para outra ocasio, tinha muita coisa ainda que fazer em
Porto Alegre. Em absoluto, o senhor  que no pode ficar de fora,
fao questo, ou ento ja comearemos brigando. Coisa de uma
hora, no mais, depois cada um poderia ir para a direo que
achasse melhor.
        Levantaram-se ao mesmo tempo, a negra Mariana alcanando
o        chapu de cada um, abriu a porta e ouviu do patro a mentira
de sempre, "se Sofia perguntar por mim, diga que no me demoro".
        Tobz seguia  frente, com Diefenthler, os outros mais atrs.
Zimmermann disse, mataram Joo Agner em So Leopoldo.
Grndling continuou impassvel, pobre rapaz. Descobriram quem foi?
Ningum viu nada, o delegado estava aqui. Eu sabia que mais dia,
menos dia, esse rapaz terminaria assim. Era muito conversador,
gostava de se meter na vida alheia, e pelo que sei andava ultimamente
em ms companhias. Enfiou o brao no de Schiling, j avistando a
casa de Izabela, quem morreu, morreu,  a lei do mundo.
        Ocuparam o reservado, sentaram todos em bancos ao redor da
mesa, como se fossem colegiais. Grndling perguntou se queriam
beber cerveja, deu ordens a Izabela que saiu apressada. Que tal,
Herr Diefenthler, essa paraguaia? No  o que se pode chamar de


181


uma bela mulher, mas j virou a cabea de generais e de nobres.
O outro sorriu, no se incomodasse por ele. Incmodo nenhum,
fazemos questo que o senhor fique com a melhor mulher desta
casa. Quando ela retornou, trazendo as bebidas, Grndling disse,
Izabela minha cara, encarregue-se de nosso convidado, Herr
Diefenthler, de Rio Grande, ele merece o que h de melhor aqui.
Ela quis protestar, mas notou que estava recebendo uma ordem,
passou o brao em torno do pescoo do homem que estava
vermelho e suava, sentando-se no seu colo. Depois sumiu, carregando
o estranho pela mo.
        Madrugada fria, dia mal se anunciando, Grndling ainda
tentava juntar as notas de uma velha cano folclrica da terra natal,
os amigos bbados dormindo debruados sobre a mesa. Izabela
entrou, abatida, pintura desfeita, cara ainda mais murcha e velha.
Sentou-se desolada ao lado do amigo.
        - E o nosso Diefenthler, morreu?
        - Fracassei, Herr Grndling, fracassei. Seu amigo nem sabia
onde botar a mo. Saiu pela janela.



6 Germano e Schreder na pequena sala da casa de Catarina,
sentados ao redor da mesa. Emanuel encostado na porta,
Juanito pelos arredores. Ela disse, a morte de Agner no pode
ficar impune. Se as autoridades botarem uma pedra em cima 
porque esto mancomunados com essa gente. Mas precisamos de calma,
disse Germano, pois o que eles querem  que a gente perca a
cabea e termine apodrecendo numa cadeia qualquer, deixando o
caminho livre para que eles faam o que bem entenderem. Schreder
concordou,  o que eles esto esperando mesmo, se a gente no
tiver provas  como falar no deserto. Catarina achou graa, nunca
arranjaremos provas contra Grndling, ele no faz, manda fazer.
Primeiro aquele infeliz que apareceu boiando no rio, agora Agner.
duas facadas num homem em pleno dia, o sol batendo nas ruas, pois
ningum viu nada, ningum sabe de nada. Catarina atravessou o
indicador nos lbios, pedindo silncio, caminhou em direo dos
fundos, demorou-se um pouco. No  nada, Daniel Abraho que est
lendo sua Biblia. Sentou-se. Parecia no saber o que fazer e nem
o que pensar. Quem poderia ter sido? Schiling? Tobz? Aquela laia
de gente  capaz de tudo para lamber a sola do patro. Schneider
embrou, quem sabe se falava com Oto Heise, ele estava em casa,
era homem tarimbado, poderia ajudar, no era daqueles que cruzam


182


os braos diante de coisas desse tipO. Muito bem pensado, disse
Germano, o difcil  chegar l sem que algum veja e v correndo
levantar suspeitas junto ao comandante da Polcia. Vamos terminar
complicando ainda mais o rapaz, disse Catarina. Ficavam em longos
silncios. E dizer que Agner, h to pouco tempo, estava cheio de
vida, to entusiasmado com tudo, s pensava na sua famlia e nos
seus compatriotas. Parece mentira. Pois um assassinato daqueles
terminava quando jogavam terra em cima do caixo, morreu est morto,
o que se pode fazer, o escrivo irritado, o que querem que eu faa,
que faa o rapaz ressuscitar? No sou Deus, no sei fazer
milagre. Catarina disse, para mim ele reclamou que ningum devia se
meter em seara alheia, o problema era deles, que cada um tratasse
de cuidar de suas vidas. A senhora, por acaso, viu as pessoas que
assassinaram Joo Agner? Pode me trazer aqui alguma testemunha
ocular? Eu disse ao escrivo que o problema era de todos ns,
qualquer um poderia aparecer morto no meio da rua e que ningum
tomava providncias para prender os matadores. Sabem o que ele
disse? Ora, Frau Catarina, tanto homem morreu na Cisplatina e
nem por isso o mundo deixou de rodar. Mais um, menos um d
no mesmo. Ento eu disse, eu sei como so essas coisas quando a
gente remexe muito, quando pode aparecer algum figuro. Ele
ento ficou vermelho de raiva e disse, a senhora est insinuando o
nome de algum, est querendo acusar algum? Pois tome a esta
folha de papel e escreva a sua acusao. Vamos, escreva. Eu sabia
que ele estava querendo me envolver, fiz que no ouvi e tratei de
voltar para casa. Fez bem, disse Germano. No se pode confiar
nessa gente da Polcia.


183



XIII


1 - S Deus agora sabe o que poder acontecer-disse Daniel
Abraho.
Os alemes se reuniam pelas vendas e barbearias, botecos e
emprios, paravam os carroes abarrotados para uma conversa
eivada de incertezas, dvidas, ningum sabia de nada, ser que pode
haver guerra, interveno na Provncia? agora mesmo  que no
veremos mais o nosso dinheiro, D. Pedro II menino, uma criana
ainda, que iro fazer com ele, Nosso Senhor Jesus Cristo!
        Catarina se preparava para levar Philipp s aulas do Professor
Joo Tiefenbach, mestre-escola que viera de Sockenfeld-Holstcin e
chegara tambm pelo Protetor. O menino vestia uma roupa de brim
riscado, o reborbo das calas abaixo dos joelhos; precisava saber
onde tinha o nariz, aprender contas e uma caligrafia caprichada
para os cadernos de escriturao mercantil. Estava com o cabelo
rebelde colado  cabea, engraxado, s ouvia os mais velhos
falarem, empertigado e medroso. Tiefenbach, dissera a ele um
amiguinho veterano da escola, ensinava as contas e as lies com uma
grande rgua preta e com ela batia na cabea dos que no prestavam
ateno. Philipp no sabia o que significava abdicar. D. Pedro I
abdicara.
      - O imperador abandonou o trono, deixou a coroa, abdicou.
entendeu? - explicou Catarina para o filho. Dirigiu-se ao marido:
-        Contanto que no se metam no nosso trabalho, que nos deixem
em paz, esses homens que troquem de coroa quantas vezes quiserem
e entenderem.
        Jacobus limpou as mos no avental encardido, preparando um
palheiro. Estava tambm preocupado com as noticias que chegavam
da Corte.


184


      - D. Pedro II, com seis anos de idade, mais criana do que
Philipp, no deve entender nada do que est se passando. Uma
criana, o pobrezinho.
      -Na certa no vai assumir o trono, nem pode - disse
Catarina ajeitando a gola do casaco do filho que mal podia dobrar os
braos, to engomada estava a roupa.
      - Ento, quem vai tomar conta do governo? perguntou
Daniel Abraho escarafunchando um pedao de madeira com um
formo.
      -No sei, agora quando eu falar com o professor pergunto
a ele,  homem letrado e sabe de quase tudo.
        Era um dia de sol forte, cu azul sem nuvens. Ficaram todos
acompanhando com os olhos a caminhada de Catarina, passo forte
e resoluto, seguida pelo filho de passinho mido, quase a correr.
        O professor veio receb-la na porta, roupa escura trazida da
Alemanha, colarinho alto de ponta virada, culos de aro de  arame,
cabelo escovinha.
      - Quero que faa dele um homem, professor. No se pode
contar com o pai, a no ser nos trabalhos de arte e nas suas leituras
da Bblia.
      -No que obra muito bem, Frau Catarina. Deus nos livre de
um mundo ateu e perverso. Mas Philipp  um menino inteligente e
comigo ele aprender as coisas, nem que no queira. Est vendo
aquela palmatria l?
        Catarina passou o brao em torno do pescoo do filho, notando
que ele estava prestes a chorar. O colgio tinha uma sala s, porta
e duas janelas para a rua, outra porta abrindo para um telheiro no
ptio mal cuidado. Para cada aluno uma mesinha de quatro ps,
de madeira crua, e um banquinho sem encosto. Uma santa de
madeira, ou uma dama antiga - Catarina no sabia bem - em cima
de um pedestal rstico, protegida por uma campnula de vidro. A
mesa do professor sobre um estrado e, dependurada atrs de sua
cadeira, a palmatria de cinco furos, de cabo seboso pelo uso.
      - Que me diz o senhor da abdicao de D. Pedro I,
disse Catarina ansiosa para saber detalhes.
      - Quem poderia imaginar, Frau Catarina! Ningum aqui fala
noutra coisa.
      - E quem ir para o trono? O filhinho dele com seis anos.
      -No senhora, seria um absurdo uma criana assumir
tamanha responsabilidade. J tomou conta do governo uma regncia
provisria.


185


        - E essa gente vai respeitar os nossos direitos, professor, ou
fic o dito por no dito?
      - Isso veremos, Frau Catarina. Os compromissos de papel
passado, esses tero de ser respeitados. Mas vamos aqui ao seu filho.
Como  o seu nome?
        Catarina cutucou o filho com o brao.
      - Philipp, disse ele com voz apagada.
-        Philipp, muito bem. A senhora me disse que ele tem onze
anos, no  isso? Pois j devia ter comeado h muito tempo, hoje
poderia estar lendo.
        - Sabe, professor, Philipp ajuda muito no emprio.
      - E vai continuar ajudando, embora no colgio. Ele comea
amanh mesmo, s oito horas. Se chegar atrasado - apontou para
a enorme palmatria na parede - j sabe o que acontece. A
senhora conhece os meus mtodos de ensino, que so os mais
modernos, e tm dado os melhores resultados.
        Estendeu a mo para Catarina, dando por encerrada a
conversa. Pegou do queixo do menino:
        - E outra coisa: uma das minhas sobrinhas examina sempre
os alunos antes de comear a aula. Quero pescoo e orelhas bem
limpinhos, unhas cortadas e sem terra, ps lavados. Entendeu? No
gosto de menino relaxado.
        Philipp no disse nada, limitando-se a olhar para a me que
concordava com a cabea. Voltaram para casa, Catarina ralhando
com o filho, no tinha motivo nenhum para estar chorando, feito
bobo.
        Naquela noite mesmo ela ficou sabendo que o Major Oto Heise
havia voltado para casa e com ele vieram tambm Richter, Sperling
e Lucks, os colonos libertados da Presiganga. Daniel Abraho j
descera para sua toca, as crianas dormiam e ela se preparava para
deitar quando chegou Emanuel, filho de Jacobus:
      - Frau Catarina, papai manda perguntar se a senhora pode ir
at a casa de Herr Germano.
      -Na casa de Germano, a essa hora? Que est acontecendo
por l?
      -No sei, Frau Catarina. S estou dando o recado que o pai
mandou.
        Pediu que o rapaz esperasse. precisava pelo menos trocar de
roupa, estava com o vestido rasgado de todos os dias. Emanuel ficou
do lado de fora da porta, a vila banhada pela claridade forte da lua
cheia. Minutos depois seguiam para a casa de Germano. Ela
resmungando, ento essa gente pensa que ningum trabalha, que nin-


186


gum precisa levantar de madrugada, eu pelo menos levanto com as
galinhas, com estrelas no cu ainda, o homem da casa mal da cabea,
aquela Bblia sempre debaixo do brao, os negcios crescendo, a
concorrncia cada vez maior e ainda por cima reunio com gente
que nem se sabe quem . E que tenho eu a ver com isso?
      - Sabe quem est na casa de Germano? - perguntou Catarina.
        Emanuel no sabia e nem tinha idia. A nica coisa que ouvira
do pai era que o Dr. Hillebrand no devia saber de nada, no
convinha, na certa desconfiavam dele. Foram recebidos na porta pelo
prprio Germano.
      - Desculpe a incomodao, Frau Catarina, mas se trata de uma
coisa muito importante, a senhora ver.
        Entraram, Germano fez as apresentaes, Antnio Luiz
Schreder, Francisco Lucks, Jacob Sperling e Augusto Richter, os trs
ltimos recm-chegados do navio-priso. Magros, assustados,
apenas respondendo aos cumprimentos de Catarina com acenos de
cabea. Emanuel recebeu ordens de ficar do lado de fora da porta,
vigiando qualquer movimento estranho. Logo a seguir entrou
Jacobus:
      - Boa-noite, Frau Catarina, eu estava dando uma olhadela
pelos arredores. No se v ningum na rua a estas horas. Emanuel
ficou cuidando. - Dirigiu-se a Catarina: - Achei que a senhora
precisava saber de certas coisas, espero que no me leve a mal.
        Germano irritado, impaciente para falar. Pedi para que viessem
at minha casa para mostrar algo revoltante, ns no podemos
cruzar os braos, quando eu falo em ns, eu me refiro aos alemes,
estou cansado disso tudo. Apontou para os trs homens que estavam
juntos, vejam, eles foram arrancados de suas casas, do seu trabalho,
manietados como animais e jogados naquela masmorra imunda do
Guaba. Algum ali pensava que eles haviam tido o direito de
defesa? E mais, quiseram arrancar confisses  fora, confisses de
coisas que eles nem sequer sonharam. Eu j vi, mas fao questo
de que todos vejam com os seus prprios olhos o estado lastimvel
em que deixaram esses pobres homens, pessoas de bem,
trabalhadores, chefes de famlia. Virou-se para Catarina, a senhora desculpe,
eu sei,  mulher,  me de famlia, mas precisa ver o que esto
fazendo com a nossa gente. Caminhou at eles, uns bichos do mato
assustados, tirem as camisas e mostrem o que os senhores do
governo fizeram. Schreder e Jacobus ajudaram os homens a despir
OS trapos sujos que cobriam o torso, Lucks tinha a camisa grudada
nas feridas, gemiam ao movimentar os braos. Catarina levou a
mo  boca. viu cada um deles com o corpo parecendo uma chaga


187


s, os verges descendo dos ombros at a cintura, muitas das feridas
apustemadas, outras ainda com sangue vivo, recm-vertido ao
desgrudar os panos. Ela disse, passei muitos horrores na vida, Herr
Germano, pensava que depois da guerra as coisas iam melhorar.
Sei o que os senhores vo falar esta noite, mas se me do licena
levarei esses homens ao Dr. Hillebrand, eles precisam com urgncia
de um mdico. Germano fez um gesto de quem no havia falado
tudo, ela levantou a mo, agora os senhores ficam falando, eu
levarei esses homens ao mdico. Est certo, disse Germano, mas
ningum aqui vai suportar mais isso. Catarina ordenou aos colonos
que enfiassem as suas camisas, fez com que eles sassem, da porta
ainda disse, no sei ainda direito o que eu mesma possa fazer, mas
contem comigo. E no s comigo, com meus amigos tambm.
Teriam feito o mesmo com o Major Oto Heise? Ah, com o major no,
no tiveram coragem. Sabe o que isso denota? Que no esto fortes
como pensam. Heise  amigo do Major Joo Manuel, tem prestgio
na Corte. Jacobus falou, sinto vergonha, vergonha mesmo, quando
me lembro de que h alemes nossos patrcios que concordam com
tudo isso e ficam calados, os miserveis. Catarina saiu, da porta
ouviu ainda Germano, tenha cuidado com o que disser ao doutor.
no diga a ele que encontrou os homens na minha casa, o mdico
 amigo de Grndling e Grndling  o alemo que se presta a
carregar prisioneiros nos seus lanches e mantm espies em toda a
colnia. Ela parou: Grndling? Ora, a senhora sabe, primeiro o
infeliz do Schlaberndorf, depois Agner, agora esses trs, ele sempre
com as mos macias e limpas, sempre longe dos crimes, pois  dele
que devemos cuidar.
        Ela ainda ficou um certo tempo parada, olhando para Germano.
mas sem ouvi-lo mais, o pensamento distante, um tropel de
pensamentos desencontrados pela cabea. Acompanhava os homens, mais
Emanuel, um magote de fantasmas pelas ruas desertas e escuras.
Daniel Abraho pode sair do poo, os soldados j se foram.
Catarina, pelo amor de Deus, no me entregue ao inimigo, pensa nos
nossos filhos. O retinir de esporas, as suas costas nuas esmagadas
contra o cho de areia grossa, em carne viva como as costas de
Lucks, Sperling e Richter. Depois o entrechocar de esporas
diferentes, uma noite igual quela, as mesmas estrelas, ela enxergando
mais uma vez a cara barbuda do marido apontando na borda do
poo.


188


2 O mdico abriu a porta, levantando alto o lampio,
reconhecendo Catarina com aqueles homens, alguma coisa de srio
estava acontecendo, assim de noite, o vilarejo dormindo.
Catarina havia chorado, veja doutor, esses nossos patrcios acabam de
chegar da Presiganga, pouca gente tem sado com vida de l. Se o
senhor pensa que se trata de ladres, de bandidos, de assassinos, est
muito enganado.  assim que tratam as pessoas, o mesmo governo
que nos mandou buscar.
        Os homens j haviam tirado as camisas, foram vistoriados pelo
mdico que empunhava ainda o lampio, no disse uma s palavra.
Comeou a tratar as feridas, Catarina ajudando, ento isso se faz,
doutor, surrados a relho, esbofeteados, torturados e tudo isso para
que, afinal? Algum pode concordar com uma coisa dessas? Acalme-se,
Frau Catarina, primeiro, vamos tratar as feridas, a senhora me
ajude, isso pode arruinar e no pense que vou me calar diante
dessas barbaridades. amanh mesmo irei a Porto Alegre protestar,
se for preciso irei ao Rio, baterei s portas da prpria regncia.
Pelo menos um deles, o General Lima e Silva, no admitir
que isso se repita. Eu esperava isso do senhor, disse Catarina,
e seria bom que soubesse de algumas outras coisas, por exemplo, que
papel estar representando nessa farsa toda o seu amigo Herr
Grundling? Frau Catarina, no se deixe levar pelo seu dio pessoal contra
esse homem, Herr Grndling  um comerciante e nada mais.  o
que todos pensam, doutor, mas procure saber detalhes a respeito da
morte misteriosa de Schlaberndorf, antigo scio dele. me apareceu
afogado uma semana depois que revidou uma bofetada com a sua
faca. No teria sido o senhor mesmo que tratou Grndling do
ferimento? O mdico suspendeu o trabalho e ficou olhando para
Catarina. Procure saber tambm, doutor, alguma coisa a respeito
do assassinato de Joo Agner que chegou aqui numa carroa e at
agora ningum ficou sabendo de nada, a polcia cega e sabe uma
coisa, doutor? Agner era amigo de Schlaberndorf e j comeava a
desconfiar sobre quem estaria por trs de tudo, qual o figuro
interessado nas desgraas todas. No sei o que dizer, Frau Catarina,
mas pense duas vezes quando falar essas coisas, assim sem prova,
apenas por desconfiar, isso pode resultar em dores de cabea para a
senhora. O mdico voltava ao trabalho e ela continuava falando,
pois conseguiria as provas, um dia todos saberiam a verdade. Ah,
ento o mdico achava que ela queria apenas alimentar um dio
gratuito, pois deveria ter morado numa estncia chamada Jerebatuba,
iria sentir-se muito bem na furna cavada dentro de um poo,
entre animais fardados que iam e vinham, isso  o que chamava de


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dio gratuito. Pois o doutor ficasse sabendo que era desse dio que
ela pretendia viver, mesmo que morresse de velha. Hillebrand
passava uma pomada amarela nos verges, lembrando Catarina que
essas coisas podiam levar a nada ou a muita coisa, veja se tivesse
acertado aquele tiro em Grndling, toda a gente da rua de
testemunha, Catarina protestou, no havia errado tiro nenhum, fizera
pontaria contra o cho, da distncia em que se encontrava
acertaria numa mosca. O mdico disse, acredito, acredito, s que a
senhora esqueceu que tem um marido doente para cuidar, trs filhos
para criar, muita gente depende da senhora. Pediu licena, foi at
o interior da casa e voltou com tiras de pano. Precisava enfaixar
os homens, pois as camisas imundas poderiam arruinar as feridas.
        - Obrigada, doutor. Mande a conta para mim.
        - Esta conta  minha, Frau Catarina. Estou to revoltado
contra isso quanto a senhora. V com Deus.
Catarina levou os homens para a sua casa, Emanuel ajudou a
arranjar camas no cho para que eles dormissem nos fundos da
oficina aquela noite, ela confusa de dio, cansada, o meio da noite
chegando. Quando entrou, Juanito estava acocorado num canto da
pea, espingarda entre as mos, atento. Fez um gesto para que ele
fosse dormir. Despiu-se no escuro, puxou as cobertas e deitou a
cabea no duro travesseiro. Se Daniel Abraho estivesse acordado,
pediria a ele que lesse alguma coisa da Bblia, talvez recobrasse a
calma, espantasse a insnia que se avizinhava. Grndling
Caminhando na sua direo, o peito dele enchendo a massa de mira, era
s puxar o gatilho. Hau ab sonst Knallt's! A voz dele saindo do
travesseIro: no estou entendendo, no vejo razo para isso. vim
apenas conversar. Daniel Abraho agora, vi no cu outro sinal
grande e maravilhoso, sete anjos com as sete pragas. A guerra
terminou, Daniel Abraho. j no h mais soldados, agora  gente
como ns que volta para a casa. Ouviu um galo cantar, era um
aviso. Philipp do alto da rvore apontando para os pequenos pontos
negros que se moviam no horizonte. O marido descendo para a
furna, os escravos se escondendo, Philipp a gritar, Grndling
chegando, era ele que vinha, Juanito a seu lado, espingarda na mo e
uma grande faca atravessada na boca. Grndling ajudando a jogar
achas de lenha no poo, a voz de Daniel Abraho, que  isso,
mulher, voc ficou doida, voc quer me enterrar vivo? O poo a
esbarrondar, entulhado, ela soluando to alto e desesperada que
acordou Carlota.


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        3 Sofia bordava, o grande bastidor com o pano esticado, a agulha
tramando filigranas coloridas. Ouvia-se da sala o cantarolar
engrolado de Mariana fazendo o pequeno Albino dormir.
Grndling estava debruado sobre a mesa, revisando Os grossos livros de
capa preta dos negcios.
-        Ser que o Schaeffer j sabe da notcia?
      - Deve ter sabido - disse ele fechando um dos livros e
empurrando os outros para o centro da mesa - tinha tempo de sobra
para saber. Imagina, abandonar o pas deixando aqui um filho de
seis anos para o trono.
        Sofia abandonara o bastidor sobre os joelhos. esticando o corpo
de encontro ao espaldar da cadeira.
      - Se no te importas, vou beber um conhaque disse ele.
        Voltou com um clice entre os dedos, ergueu-o em forma de
brinde,  felicidade de Schaeffer, aos nossos filhos, ao futuro deles.
sim, ao futuro deles, que  o que mais interessa. V s, este
conhaque ainda foi um presente de Schaeffer, lembra-te? Veio no Olhem,
com a ltima leva de imigrantes conseguida por ele. Na carta que
veio junto - no sei mais onde botei essa carta - mandava dizer
que eu devia fazer com que tu bebesses doses reforadas deste
conhaque, que mulher bbada na cama  um anjo.
        Grndling sentou novamente. Tenho pensado muito em
Schaeffer, no sei por qu, tenho pensado nele. Nos sales europeus, reis
e prncipes, grandes damas, naquele tempo em que o General Brant
pagava os seus servios com barras de ouro. A Imperatriz
Leopoldina declarando em cartas pessoais que ele "era o seu nico amigo".
Sabe, o imperador queria porque queria o cavalo branco de Steiner,
em Lubek, outros dois cavalos, sim, era qualquer coisa nos
arredores de Brandenburgo, talvez Illefeld. Schaetfer, agente secreto do
imperador. Homem escolhido a dedo. Algum faria melhor
trabalho nos ducados de Meckelenburgo? Nas cidades hanseticas ou
mesmo na baixa Saxnia? Tenho as minhas dvidas. Em Sitch
como ele teria chegado l no sei, naquelas ilhas Sandwich,
Schafer era ento delegado de Baranoff, fora colher material cientfico
na zona do Pacfico. Quem mais conquistaria as simpatias do
misterioso e onipotente Rei Kameama? Claro, um homem assim
provocaria inveja, os anes da Corte jamais o engoliriam. E como acabar
com Schaeffer? Muito simples, devem ter pensado os miserveis: 
s cortar as verbas para a imigrao. Com isso arruinariam um
srio concorrente. Esqueceram-se, porm, de que o alvo se
chamava, nada mais nada menos, Jorge Antnio Schaeffer. Sofia, tome
nota: um dia ainda ele ter esttua em praa pblica, falo de praas


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com jardins, rvores e lagos, no falo destas praas daqui onde bois
e cavalos pisoteiam, onde negros cozinham a sua comida. Esttua
em cima de pedestal de mrmore negro. Me diz, me diz uma coisa,
Sofia: estarei errado? No sei por que estou pensando nisso tudo.
Ah, sim, o imperador abandonou a sua coroa, assim como quem
atira num canto um lampio rachado, o filho de seis anos que
assuma o que o pai no teve a coragem de enfrentar. Trs
circunspectos cidados assumem a regncia e depois disso o que poder
fazer um vivente seno beber at esquecer de tudo, cuspir na cara
de cada um deles, mijar nos seus travesseiros de linho, esganar cada
patife. Onde iro eles encontrar outro Schaeffer, onde? s vezes
penso se no seria melhor voltar para a Alemanha, render
homenagens ao imperador da ustria, lamber a sola das suas botas, beijar
as mos daqueles emproados da Dieta de Frankfurt. Quem sabe
no seria prefervel isso a viver neste fim de mundo, no meio de
negros e mestios, de gachos e de caudilhos, castelhanos e
portugueses. Bem, j te ouo dizer: mas nossos filhos so brasileiros.
Para tudo h remdio, registro os dois nos livros da primeira igreja
que encontrar nos arredores do cais de Hamburgo. E pego o mapa
do Brasil e prendo fogo nele e com o calor aqueo as mos na
minha prpria terra. Claro, estou dizendo bobagens, leio nos teus
olhos, no precisas nem falar, Sofia, leio nos teus olhos. Que diabo,
s vezes a gente tem o direito de enjoar tudo, enjoar tudo menos a
ti, jamais te enjoarei, sabes disso, falo de todas as outras coisas, da
casa, desse povo que nos cerca, do lixo nas ruas, at mesmo da nossa
gente que veio cavar terra e se iludir de que em algum dia sero
ricos e donos de seu nariz. Como os negros no sabiam lidar com a
terra, encomendaram a Schaeffer que trouxesse escravos brancos.
Isso alegrou o corao generoso da Imperatriz Leopoldina e de seu
augusto e frgil esposo. Estou falando demais. Me deu vontade de
falar. Ser que pelo menos um dia na vida a gente no tenha o
direito de falar o que quiser, de dizer tudo o que nos venha 
cabea? Bebi apenas um clice de conhaque. No estou bbado.
Precisaria de pelo menos dez iguais a este para tropear numa nica
palavra. Sabes disso. Claro. Escuta que som maravilhoso do
relgio. Parecem taas de champanha tocando uma na outra, um
relgio que tem a sua histria, nove, dez. Ests caindo de sono, meu
bem. J  muito tarde.
Sofia colocou o bastidor em cima da mesa.
      -Ns dois estamos com sono - ela disse. - Gosto quando
tu falas assim, quando desabafas, a solido das pessoas fica menor.
      -No me importo com nada que se passa alm destas paredes,


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com nada mesmo - disse Grndling segurando as mos da mulher,
beijando cada dedo.
        - Sinto-me to branca, to sem cor. Um pouco de sol...
      -No. Tua pele no foi feita para o sol - disse Grndling
passando uma das mos de Sofia no rosto. - Seria um crime. Gosto
de ti assim como s. Junta as mos assim, detesto essas peles
escuras, pardas, speras, o que acontece com tudo que anda ao sol.
Vs as minhas mos? Repara a diferena. Basta j o que existe
alm da nossa porta: lixo, gua estagnada nas valas, negros e
mestios, ciganos, cheiro de graxa, fedor de peixe velho.
Levantou-se, testa franzida, olhos semicerrados.
      -Mas espera a, eu no havia pensado numa coisa. Claro, no
fundo sou um tremendo egosta.  lgico que quando falas em
sares  porque queres ver gente, pessoas, outras senhoras. Como
no pensei nisso?
      -No  bem assim.
      - Claro que . Sbado daremos uma festa aqui em casa, meus
amigos viro com as suas mulheres.
      -Mas festa por qu?
      - Ora essa, no preciso dar satisfaes a eles por que estou
dando uma festa. Amanh mesmo, de manh, darei instrues 
negra Mariana. Muita comida, bebida  vontade, quero ver essas
megeras se engasgando. Vou trazer msica, mais exatamente, vou
trazer um piano e junto com ele um mestre consumado do teclado.
      - Um piano? Mas onde vais encontrar um piano em Porto
Alegre?
      - Deixa isso comigo, tenho um aqui no bolso do colete. Vamos
fazer agora mesmo a lista das pessoas a serem convidadas -
sentou-se  mesa, pegou da caneta e do tinteiro, uma folha de papel
pautado - vamos ver a relao: Tobz e excelentssima esposa;
Schiling e sua cara-metade; Zimmermann e sua horrorosa mulher;
ah, tambm o subinspetor Jos de Almeida Braga e sua mulher.
No abro mo da presena de nenhum deles, que no venham alegar
enxaquecas que vou pessoalmente arrancar os doentes de casa, a
fora.
      -No podes fazer isso.
      - Pois no sbado ficaro te conhecendo. Cada homem com
sua mulher. E agora - disse abraando-a - este teu vestido
decotado acaba de me dar uma idia genial. No agento mais!


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4 Catarina acabava de voltar do Porto, onde deixara Jacobus e
a famlia no novo emprio, uma casa velha, de madeira, coberta
de telha-v. Um depsito de adobe, p-direito de metro e meio.
Cinamomos e pltanos, a picada de terra batida se perdendo entre
o        mato ralo, morretes com cocurutos de grandes pedras cobertas de
musgo.
      - Tua gente ficou bem instalada - disse Catarina para
Emanuel que viera receb-la na grande cancela de entrada. - A casa
 boa, o que falta se faz com o tempo. E depois,  perto daqui.
        - Eu sei que vai dar certo, Frau Catarina.
      - Vai dar. Todo o mundo sabe disso.
        Quando ia comear a tirar as suas coisas da carroa, Emanuel
se meteu no caminho, impediu a sua passagem e disse no, sacudindo
a cabea.
      - Eu descarrego. A senhora j no deve fazer muito esforo.
      -No posso?
      - Deixe comigo, Frau Catarina, por favor.
        Ela ficou parada. Emanuel j teria notado a barriga de trs
meses? Aquela noite na toca, Daniel Abraho dizendo "Catarina,
desce at aqui, preciso de ti na minha morada. Aqui tambm  a
morada do Senhor. Desce que a noite vai alta", O pequeno lampio
alumiando a toca, desenhando fantasmas nas paredes, o marido
fechando a porta do alapo, falando baixo. "Muitas noites passei
aqui reconstruindo s para mim a figura de Cristo, enquanto todos
dormiam, outros pecavam. Catarina, eu nunca estou s. E nem
abandonado." Desentocou de um armrio pequeno, embutido na
terra, um embrulho de panos sujos e rotos. "Apenas tu conhecers
a imagem dele e mais ningum. O olhar dos profanos destri a
Graa." Tirou os panos, surgiu um crucifixo de madeira entalhada, a
figura de Cristo em lavor de artista, as chagas, os cravos, a cabea
inclinada, cada msculo das pernas. os tendes dos braos, at a
expresso de dor do rosto crispado, parecendo mover-se pela luz
irregular projetada do pavio mergulhado no leo. Catarina passou
os dedos por toda a imagem, Daniel Abraho produzira um
milagre, um bicho entocado capaz de lavrar pea to bela. A razo
que voltava. Deus assim o queria. Sentira vontade de chorar, mas
estava to cansada, os olhos to pesados, o marido no entenderia.
Ele passou as mos nos seus cabelos, ela sentiu a grossa barba
roando o seu rosto. Sentiu as mos dele puxando a sua cabea,
deitou no peito ofegante, o crucifixo posto de lado. Era o tempo que
retrocedera. Estavam agora ambos olhando o mar da amurada do
barco que rasgava caminho, a navalha da quilha cortando o oceano,


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como a navegar num mundo de paz e de amor. Daniel Abraho
feliz, Philipp carregado pelo pai, de um lado para outro, ela ainda
tmida e medrosa da aventura. E tudo fora como nas noites de
bordo, o mar tentando estraalhar o madeirame do casco, os casais
se amando, o frenesi se alastrando no seio da escurido, os dois
novamente na cama em comum, as paredes de terra ondulando, ela
entregue, ele como um tigre, senhor de seu corpo e de sua vida,
resfolegando dentro de si, ela enxergando a tramela do alapo
como uma cruz a separ-los do mundo.
      - A senhora est sentindo alguma coisa? perguntou
Emanuel preocupado.
      -No - disse Catarina sem olhar - estou  mesmo
cansada. Muito cansada.



5      - Est a querendo falar com a senhora um homem de nome
Fried Reindorff disse Philipp puxando a saia da me e
apontando para a rua.
      - Reindorff?
        - Ele est a cavalo e disse que vem de parte de Oestereich,
do Chu.
        Catarina correu at a porta da rua. O homem acabara de
desmontar, trazia sobre o serigote um grosso pelego vermelho,
Bombachas e botas, cara avermelhada, uma pala castelhana que lhe caa
dos ombros at quase os joelhos.
        - De parte de Oestereich? - disse Catarina.
        - De parte dele mesmo, pois no. Eu e mais dois
companheiros estamos em Porto Alegre com as carroas e eu vim at aqui
entregar esta carta - puxou de dentro do bolso um pacote chato
embrulhado em papel pardo pedindo resposta.
        Voltou at o cavalo, abriu uma maleta de couro parecida com
as dos mascates e dela tirou um saco de bom tamanho, pesado,
bojudo, entregando-o a Catarina:
        - Este dinheiro ele manda dizer que faz parte do trato feito
com a senhora.
        Catarina convidou Reindorff a entrar, pediu que sentasse e
gritou para dentro chamando o marido. Daniel Abraho surgiu na
porta, desconfiado, enx em punho.
      - Herr Reindorff est chegando de Jerebatuba, traz notcias
e carta de Oestereich.
        Reindorff cumprimentou e disse:


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        - E parte do dinheiro da combinao feita, Herr Schneider.
        Dito isso levantou resoluto do banco, chapelo de abas largas
nas mos, cabelos colados na testa, precisava dar umas voltas no
povoado, s pedia licena para deixar o cavalo ali, se fosse
possvel e no causasse maior trabalho, gostaria que algum desse ao
animal um pouco de gua e rao, enquanto isso trataria de
cumprir outra misso de Oestereich. No era empregado de Oestereich,
no, apenas amigos, chegaram juntos no Brasil, mesmo navio, e
agora bons vizinhos, se amparando nas horas difceis, matando as
saudades da terra distante quando se reuniam em torno de um
braseiro nos fins de semana, quando se pode e o trabalho permite.
Sei por ele que o senhor sofreu muito durante a Cisplatina, mas
que isso ficou para o passado e estima que tudo agora corra bem
por estes lados. Catarina disse que ele desse as suas voltas, que no
se preocupasse e que poderia dormir aquela noite na oficina, que
tirasse da cabea qualquer preocupao tambm com o cavalo, seria
tratado como se gente fosse, s pedindo que lhe desse tempo para ler
a carta mandada por Oestereich.
        Juanito se encarregou do cavalo, Daniel Abraho revisou os
arreios, consertou o que precisava, depois foi ler, com Catarina, a
carta difcil, letra dura de quem costuma pegar no trabalho pesado
e que ao escrever, de to leve, no sente entre os dedos a caneta.
Catarina com mais dificuldade, Daniel Abraho decifrando melhor.
        - Ele diz que a horta hoje ocupa um espao cinco vezes maior,
que tem trazido mudas da Banda Oriental, o trigo est dando muito
bem e que comeou com uma pequena indstria de charque, todo
ele mandado para Rio Grande, pois tem qualidade para exportao.
Melhorou a casa, fez mais dois ranchos, est com muitas vacas de
cria e do leite est fazendo um queijo que os castelhanos no
deixam que fique curado, de tanto que gostam e compram. Nasceram
mais quatro negrinhos dos escravos e Deus mandou para ele outro
filho. O amigo Reindorff, de Oberstein, ocupou, a pedido seu, a
Estncia Medanos-Chico do falecido Jos Mariano, reconstruiu a
casa, refez o pomar e a criao, vai indo como Deus quer. Ele
devera nos entregar algum dinheiro, parte realizado em Porto
Alegre, com os produtos que mandou  venda; acredita que se fique
satisfeito,  o que pode fazer, de momento. Dias melhores viro.
        - Bom homem, esse Oestereich - disse Catarina.
        - Pede que se mande notcias por Reindorff, se possvel carta,
est sem saber de nada do que tem acontecido por aqui -
prosseguiu Daniel Abraho - e uma receita de doutor para umas feridas
que esto se alastrando pelas pernas da mulher, so muito dolo-


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rosas, vertem gua, criam uma casca dura que quando cai deixa por
baixo s carne viva, pior do que antes. Chegou a fazer compressas
de esterco com vinagre, mas de nada adiantou.  uma mulher nova,
lhe corta o corao ver a pobre assim perebenta.
         noite, enquanto comiam, Reindorff contou tudo o mais que
sabia, elogiando sempre os nacos de lingia assada no forno com
piro de farinha de mandioca. Estava se preparando para partir
dentro de dois dias.
        - Isso dar tempo para escreverem uma boa carta para
Oestereich, ele ficar muito contente - disse o visitante.
        Juanito, mais tarde, levou o homem para um bom lugar onde
dormir, nos fundos da oficina, enquanto marido e mulher se
preparavam para iniciar o que seria uma longa e minuciosa carta.
Caneta em punho, tinteiro aberto, papel  frente, Daniel Abraho s
escrevia depois da mulher dizer exatamente o que desejava dizer,
com pontos e vrgulas. Meu caro Valentim. No, prezado Herr
Oestereich. Diz dos negcios. Fala a no emprio e ainda no outro do
Porto, com Jacobus tomando conta. Estamos pretendendo abrir um
maior no Caminho Novo em Porto Alegre. Fala na ferraria, na
fbrica de carroas e na de serigotes. Diz que as crianas esto bem
de sade. Daniel Abraho acrescentou: com a graa de Nosso Senhor
Jesus Cristo. Conta que Grndling esteve aqui e que foi recebido a
tiro, isso alegrar o corao do amigo Oestereich. Diz agora que est
havendo um grande descontentamento na colnia. No,  melhor
no contar isso que o pobre vai comear se preocupando com coisa
que no lhe toca de perto. Ah, diz que a pobrezinha da ndia Ceji
est com a tsica e que no foi mandada embora, mas est num
quartinho construdo s para ela, isolada para no pegar nas
crianas, que Juanito no arreda p do quartinho e que o mdico acha
que ela no dura muito. No sabemos o que ser do pobre ndio,
ele quase no diz nada, antes tivesse ficado por l, o ar  mais puro
e a sade mais fcil. Bem, acho que deves mandar dizer a ele que
estamos esperando outro filho.
        Daniel Abraho parou de rascar com a pena no papel,
levantou os olhos arregalados para a mulher.
        - Eu no sabia disso.
        - Pensei que soubesse. Mas vamos, escreve isso a, Oestereich
ficar contente em saber dessas coisas.
        - Estou muito cansado de tanto escrever - disse ele largando
a caneta e esticando os braos -, vamos continuar amanh.
        Levantou-se, caminhou pela sala e depois ficou postado diante
da mulher.


197


        - Quando chega o nosso filho?
-        Daqui a sete meses, talvez seis. Ainda no fiz bem as contas.
        Daniel Abraho no disse mais nada, bebeu um pouco de gua
numa caneca, abriu o alapo e por ele desapareceu. Catarina ainda
ouviu a sua voz lendo trechos escolhidos da Bblia, as oraes de
costume, depois o assopro forte apagando o lampio. No outro dia,
Reindorff partiu levando na garupa um dos melhores e mais ricos
serigotes jamais feitos por Daniel Abraho, e a mais longa carta
que ele j escrevera em toda a sua vida.



198



XIV


        1 Ceji amanheceu morta, havia vomitado muito sangue, ningum
deveria tocar nas suas coisas, podiam pegar tsica. Emanuel,
ajudado por Catarina, colocou O Corpo mirrado no centro de
um lenol, enrolando com cuidado. Ela bateu no ombro de Juanito
que permanecia acocorado no mesmo lugar,  porta do quartinho,
apontando para o alto, como a dizer, era a vontade de Deus, o
grande esprito. Sem uma lgrima, o ndio olhava para todos com
indiferena. Daniel Abraho meteu mos  obra, construa um
caixo com tbuas rsticas de pinho. Pouca madeira para o
corpinho murcho, pregou na tampa uma pequena cruz.
-        Quero enterro de cristo para ela - disse Catarina.
O  Pastor Klinglhefer quis saber se ela era batizada. No
importa, disse Catarina, mesmo no batizada ela ser enterrada como
crist. Sofrera muito, era de muito bom sentimento, quem dera que
muito cristo fosse como a indiazinha. Naquela manh a oficina ficou
parada. Fregueses e fornecedores do emprio iam chegando e
formando uma roda em torno do caixo sobre cavaletes. Uma ndia
com enterro de gente. Catarina quer assim, O pastor perguntou se
a encomendao seria em casa ou se preferiam a capela. Aqui
mesmo, onde sempre viveu como se fosse minha filha, dissera Catarina.
Apareceram algumas mulheres trazendo flores do campo. Olhando
o caixo, Daniel Abraho pensava que se houvesse tido mais tempo
o caixo seria bem outro, aplainaria melhor as tbuas, passaria
verniz. Bem que poderia ter comeado a trabalhar no caixo com mais
vagar, a indiazinha morria cada dia que passava, duas semanas
antes j se sabia. Aquela tosse seca varando a noite, as crianas
proibidas de passar por perto do quartinho, uma pea to pequena
como uma latrina, com a diferena que havia uma janela com pos-


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tigos. Klinglhefer fez sinal para que a gente presente se acercasse
do caixo. Ouviu-se Catarina dizer irritada; hoje no se vende um
metro de renda, um quilo de charque, portas fechadas em respeito ao
corpo. Emanuel cuida disso. Amados no Senhor, visto haver
agradado ao onipotente Deus chamar da presente vida esta nossa irm,
antes de entregarmos seu corpo  sepultura, nos convm ouvir, para
nosso conforto, a admoestao e a consolao da santa palavra de
Deus. Emanuel pensou, a carroa quase pronta seria entregue com
o atraso de um dia, o comprador haveria de compreender os
motivos de fora maior. Juanito estava certo, na vspera ouvira o
grito do Urutau e portanto Ceji morreria antes do sol apontar.
Assim diz o Senhor: tu s p e ao p retornars. Assim como por um
s homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim
tambm a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.
Emanuel se postou ao lado do ndio e colocou a mo sobre seu
ombro; com os dedos fez presso, como a dizer que sentia tambm
aquela mesma tristeza. Assim como em Ado todos morrem, assim
tambm todos sero vivificados em Cristo. Catarina estava
preocupada, era preciso depois botar fogo na casinha, queimar o resto
de doena que ali ficara, afastar dos filhos o perigo do mal. Faria
o trabalho antes do amanhecer, Os bugres no queimavam os seus
cadveres? Eu sou a ressurreio e a vida. Quem cr em mim, ainda
que morra, viver, e todo o que vive e cr em mim, no morrer,
eternamente. O lenol que cobria o corpo estava manchado de
sangue e era preciso espantar as moscas, suas patas levariam a
doena pelo mundo afora. No nos entristeamos como os demais,
que no tm esperana, mas ergamos as nossas frontes, sabendo que
nosso Redentor vive e que as almas dos justos esto nas mos de
Deus, onde nenhum mal as tocar. A carta para Oestereich seguira
antes, ele no saberia to cedo da morte da indiazinha, era esquisito
pensar nisso naquela hora, nem ele se lembraria mais de Ceji. Uma
ndia a mais ou a menos, essas coisas nem so notadas. A tsica
no faz diferena entre brancos e bugres. Klinglhefer dava a
impresso de cansado. Bem-aventurados os mortos que desde agora
morrem no Senhor. Sim, diz o Esprito, para que descansem das
suas fadigas, pois as suas obras os acompanham. O reverendo no
conseguiu, naquele instante, imaginar quais as obras que um gentio
poderia levar para a eternidade; as obras da indiazinha eram to
fracas para serem notadas pelo Senhor. Salmo 90. Volta-te Senhor.
At quando? Tem compaixo dos teus servos. Salmo 23. O Senhor
 o meu Pastor, nada me faltar. Leva-me para junto das guas de
descanso. Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a


200


vida; ningum vem ao Pai seno por mim. Cantemos. O Se-nhor
te aben-oe e te guar-de. O Se-nhor fa-a resplandecer o seu rosto
so-bre ti, e tenha misericrdia de ti. O Se-nhor sobre ti levante o
seu ros-to e te d a paz. Amm.
        S havia quatro alas de couro cru; pesava muito pouco, quase
nada, o corpinho. Colocaram o caixo numa carroa, com laos de
pano preto nos fueiros, Juanito no meio dos bois, puxando-os pelos
canzis, a gente toda seguindo atrs, no primeiro grupo Catarina e
Daniel Abraho. O mestre alfaiate Ritter, da sua janela, pensando
que isso no devia ser feito com uma bugrinha que nem crist era,
mesma raa dos que roubavam crianas e matavam colonos ao p
da serra. Mas fechou os postigos da alfaiataria, em sinal de respeito.
        Que mulher, essa Catarina. O marido doido com a Bblia debaixo
do brao, Philipp seguindo o enterro agarrado  saia da me, bon
enterrado at as orelhas. S Emanuel ficara, que tivessem
pacincia, o emprio s abriria as suas portas depois do meio-dia, eram
assim        ordens de Frau Catarina.
        A noite encontrou Juanito dormindo enrodilhado, como um
cachorro, sono agitado, tremores pelo corpo. Quando acordou de
manh viu Catarina botando fogo no casebre, afugentando os maus
espritos, a doena, virando em cinzas tudo o que sobrara l dentro.
        Daniel Abraho como se nada houvera, desbastando as toras de
sempre, limpando os liames de embira-branca.



2 Zimmermann apresentou aos Grndling sua mulher Joana
Luiza, vestido de morim estampado, gola alta de renda,
borzeguins de cadaro, cabelos repuxados para trs, terminando
num grande coque espanhol preso por uma travessa de osso. Sem
largar o brao do marido, no levantava os olhos do cho. Depois
Schiling, apresentando Ana Margarida, um tpico exemplar de
Wrttenberg, cara quadrada, queixo saliente, grandes mos calosas,
agora        os ps comprimidos em sapatos de presilhas. A mulherzinha de
Tobz, cabelo cor-de-fogo, vestido preto enrodilhado no pescoo
como uma coleira. Por ltimo o subinspetor Jos de Almeida
Braga, apresentando com mesuras Dona Almerinda, pele de
pergaminho, cara lavada, nariz adunco. Sofia estendendo a mo sem
pronunciar uma palavra, cumprimentando com movimentos de
cabea. Grndling pensando, como poderia o subinspetor dormir na
mesma cama com aquela megera, um espantalho, santo Deus!
Carregou com os dois para a sala, os outros se acomodavam calados,


201


levantou a mo direita pedindo ateno, apresento aos amigos o
subinspetor Almeida Braga e sua esposa, lamento que no falem
alemo, mas eu posso traduzir sempre que for preciso. Os homens
ficaram de p, fazendo curvaturas, as mulheres se limitaram a
acenos de cabea. O dono da casa conduzia o casal para a marquesa
de palhinha, ficando o homenzinho com os ps longe do cho,
balanando.
        A mesa de centro com o candelabro todo aceso, os castiais
com as velas ainda apagadas, velas novas com anis em alto relevo,
as bebidas amontoadas numa mesinha auxiliar, as duas pretas
moas se movimentando como sombras, silenciosas, os aventais
estalando de to engomados. Junto  janela lateral alguma coisa
volumosa escondida sob uma coberta de algodo. Os homens formaram
um grupo, falando a meia voz, as mulheres com as mos cruzadas
sobre as pernas, mudas, olhinhos vivos percorrendo os mnimos
detalhes da sala, deslumbradas com o luxo e com a beleza de Sofia.
        Falavam sempre na menina, mas estava ali uma mulher feita,
fornida de carnes, um vestido europeu de cintura fina, o busto opulento
comprimido num corpete de largo decote. Gestos de uma grande
dama, para quem fora encontrada em mos de bandidos de estrada,
de caudilhos e bandoleiros. A pele de seda, quase irreal, leitosa.
        Houve um repentino silncio quando Mariana entrou na sala
carregando pelo brao um homem cego, tateando, inseguro. Grndling
foi a seu encontro, senhores, este aqui  Jacob, um grande mestre
do teclado, corrigiu para um mestre pianista, ele veio especialmente
para a nossa reunio. Depois traduziu o que dissera para o casal
brasileiro. E tambm quero apresentar aos senhores o meu ltimo
presente a Sofia, um piano alemo. Tirou a cobertura com
solenidade, apareceu o Playel de armrio que parecia fabricado de vidro,
faiscando  luz dos candeeiros. Pela mo do amigo, o cego
encontrou a banqueta, sentou-se, abriu a tampa e correu os dedos de leve
sobre o teclado. Juntou as mos, apertando uma de encontro 
outra, cabea levantada como se aguardasse ordens. O professor,
agora, vai nos oferecer alguma coisa de sua escolha para que todos
possam admirar a sua arte. O cego passou mais uma vez as mos
sobre o teclado e iniciou um Lied de Bruckner, a sala mergulhada
no silncio, era a primeira vez que Sofia e as demais mulheres
ouviam um piano. Tobz sussurrou ao ouvido de Zimmermann, Izabela
coitada perdeu o seu piano, esse Grndling tem artes do demnio.
        Quando Jacob terminou, s o dono da casa bateu palmas, bravo,
Jacob, ningum faria isso melhor. E agora, queremos ouvir uma
cano paraguaia, saibam todos que  uma especialidade sua. O
cego esperou um momento, como querendo inspirar-se, e comeou


202


a tocar um dolente purahje, lembrando-se de Izabela, quando s
vezes chorava debruada sobre o piano, com uma das mos apoiada
no seu ombro. Tocava como se fosse madrugada alta, dia clareando,
o cansao de uma noite inteira, quando s ela escutava, ele passando
os dedos no seu rosto, limpando as lgrimas. Era quase sempre
assim, o silncio pesado na casa, um mundo vazio em redor, uma
puta sentimental chorando por qualquer coisa de seu passado, s
Deus saberia o qu.
        Ao sumir a ltima nota ouviu o vozeiro de Grndling
gritando bravos e as palmas timidas das outras pessoas. No sei por
que, disse ele, fico comovido ouvindo a msica dessa gente brbara,
um lamento de quem  muito pobre e desgraado. Jacob, pode
descansar um pouco, vou mandar servir bebida. Virou-se para o
subinspetor, em portugus, espero que esteja gostando da reunio e da
msica. Ah, nunca ouvimos coisa mais bonita, disse ele com voz
sumida. As garrafas comearam a ser abertas, as negras descobriram
os pratos cheios de salgadinhos, grandes azeitonas portuguesas,
quadradinhos de pernil e de queijo, biscoitos e pepinos em conserva.
Para as mulheres, Sofia ofereceu licor, as trs alems agrupadas
conversando entre elas, O relgio bateu nove horas, todos
emudeceram, Grndling falou que havia sido um presente pelo nascimento
de Albino e que marcaria, para sempre, as horas dos Spannenberger
Grndling.
        Sofia continuava discreta na sua grande cadeira de espaldar
alto. Observava as trs alems tagarelas, comendo e cochichando,
suas roupas grosseiras e desajeitadas, seus feios sapatos. Os homens
continuavam falando em negcios, as negras abastecendo os copos
de bebidas, o casal de brasileiros olhando sem nada entender, ele
bebendo com parcimnia, ela sem tocar em nada, os grandes ps
metidos debaixo da marquesa. Grndling repetia a histria do
relgio, falava sobre o piano, uma obra de arte, contava que agora
estava associado a uma grande firma exportadora de Rio Grande,
Diefenthler era ou no era um homem em quem se qodia confiar?
Tobz, vocs todos a sabem disso, Diefenthler entende do negcio,
agora as coisas comearo a melhorar realmente. Ah, no contei
muita coisa do meu ltimo encontro com Schaeffer, no Rio. Pois
continuava o mesmo, um homem que merecia respeito. Sofia fez
um sinal para o marido, meu amor no estar abusando da bebida?
Zimmermann disse, acho que est na hora de sairmos, a dona da
casa tem filhos pequenos para cuidar, amanh  outro dia,
Grndling pediu, Jacob eu quero ouvir algumas valsas, daquelas que s
voc sabe tocar.


203


        Quando todos haviam sado, Mariana passando a tranca na
porta, Sofia perguntou se no convinha dispensar o pianista.
Grndling disse que no, falou para o cego, continue tocando valsas,
quero ouvir valsas. Enlaou Sofia pela cintura, rodopiando pela
sala, beijando-lhe os cabelos, o pescoo, ela a dizer, querido, aqui,
na presena desse homem, ele riu, um cego, querida, esquea Jacob.
Fez um sinal para que ela ficasse calada, comeou a desabotoar as
costas do corpete. Sofia resistindo, assustada com a presena daquele
estranho na sala, Jacob s vezes olhava para o lado deles,
Grndling decidido a despi-la, ela cedendo, por amor de Deus, no quarto,
no poderia fazer nada aqui. Afinal arrastou o marido, da porta
ele ainda gritou: continua tocando, Jacob, no pra. Havia tanto
que desejava isso, chegava a ouvir a algazarra do salo de Izabela.
estavam no reservado, garrafas e copos espalhados pelo cho. Os
soldados bbados batendo com as botas na porta. Sofia amando,
olhos postos na porta aberta, a sua intimidade devassada pela
presena daquele homem estranho.
        Meia-noite passada Jacob foi levado pelo prprio Grndling at
a porta e l entregue ao cocheiro da calea. Retornou cambaleando,
de passagem ainda bebeu um copo de rum.



3 o Tenente-Coronel Salustiano Severino dos Reis, mos s
costas, caminha de um lado para outro em sua pequena sala
de inspetoria, O Major Oto Heise ouve tranqilo, sentado numa
cadeira de pinho com encosto de palhinha. O inspetor se apruma,
marcial, estava na frente de um militar alemo, prussiano, estufa
o peito. bate forte com a sola das botas no assoalho.
        Falava empertigado, sei que o governo deve pagar os subsdios
atrasados para os colonos, outro no foi o pensamento de meu
antecessor Tomaz de Lima. Respeito seus pontos de vista e reconheo
que os colonos no poderiam ter escolhido procurador mais
capacitado. Estaria o major entendendo o que ele dizia? Diga-me,
senhor major, sua pretenso  dirigir-se ao presidente, diretamente?
Oto Heise falava com dificuldade, irei diretamente  Cmara dos
Representantes da nao. O assunto se arrasta, h muita agitao
entre os meus compatriotas, a colnia est dividida, tenho feito o
possvel para acalmar os nimos. Severino estaca, carrancudo. Por
acaso isso significa ameaa aos poderes constitudos? Ameaa a que.
Aos poderes constitudos. Repito, senhor inspetor, que levarei o


204


assunto ao conhecimento das autoridades, para isso tenho
procurao. Se for preciso, procurarei o prprio General Lima e Silva.
Desculpe, major, mas sua atitude est me parecendo algo petulante,
no permito que passem por cima de minha autoridade. Como
militar, no tolero indisciplina. Oto Heise disse, estou aqui como
procurador e no como militar, O prprio imperador determinou que
os colonos nomeassem oficialmente seus procuradores. O
imperador no  mais imperador, replicou o inspetor. E se quer saber, sou
a maior autoridade aqui para tais assuntos. Ento o major explicou
que os colonos estavam se matando nos lotes por causa da falta de
demarcaes, muitos passavam fome e havia quatro anos que nada
recebiam do que lhes era devido, O tenente-coronel ficou vermelho,
deu um soco na mesa e gritou: nossa entrevista terminou, retire-se.
 noite Oto Heise relata aos seus amigos Salisch, Krieger e
Germano Klinglhefer o seu encontro com o inspetor geral das
colnias. Saibam, Tomaz de Lima era outro homem, inclusive mais
educado. Esse coronel  intratvel, arrogante e muito senhor da sua
suprema autoridade. Salisch disse, voc estava prevenido contra esse
inspetor.  homem de caserna, bitolado. Germano no escondia o
seu diu, que eles no pensassem que as coisas iam ficar assim
eternamente. Ento Heise conta que recebera um recado da Picada
Caf, mandado por Jacob Sperling, um dos colonos torturados na
Presiganga. Sperling informa que a revolta para aqueles lados est
ficando incontrolvel, os colonos se combinam para realizar uma
passeata pelas ruas de So Leopoldo. E no haver o perigo de
serem atacados pelos soldados do batalho? pergunta Krieger
olhando para o major. Ah, no acredito, Joo Manuel no  de tomar
tais medidas. No fundo, est do nosso lado. Germano Klinglhefer
no esconde a sua irritao, caminha at a janela, v as ruas vazias,
ao longe uma carreta se arrastando, volta-se para os amigos, todos
pensativos, calados. Pois c estamos ns, os soldados do imprio
nos seus quartis, recebendo o soldo com regularidade, os oficiais
esperando que o tempo passe para serem promovidos e a nossa
gente, nas picadas e linhas, a nossa gente como animais, comendo
o que conseguem arrancar da terra, vestindo trapos, vendo os filhos
morrerem de doena ou roubados pelos bugres. Ontem fiquei
sabendo, trs colonos foram mortos em Dois Irmos e uma criana
desapareceu nas mos dos bugres. Na Picada Hortnsio houve uma
verdadeira chacina, onze alemes mortos pelos selvagens e dois deles,
gravemente feridos, morreram dias depois. E eu pergunto: que
fizeram at agora as autoridades? Pois eu respondo, destacaram
meia dzia de praas bbados que vivem dormindo nos seus biva-


205


ques, comendo e bebendo s custas da nossa gente. Pergunta a
Krieger se ele havia falado com Godfroy Kerst e com Stepanousky.
O outro disse que sim, esto ambos em Porto Alegre. podemos
contar com eles. Heise pergunta pelo Reverendo Frederico Cristiano,
irmo de Germano. Ele anda desconfiado. Fiquem tranqilos,
responde Germano,  meu irmo,  pastor evanglico,  homem de bem.



4 Catarina resistiu at o ltimo dia. Concordara em no viajar
de carroa por aqueles caminhos difceis das picadas, os
solavancos eram grandes demais. Mas concordara depois do stimo
ms. Ajudava a cuidar da cozinha, tomava as lies de Philipp, ela
prpria dava comida para Carlota e Mateus, geria os negcios do
emprio, expedia portadores com bilhetes para as colnias: para
Jacohus, no Porto, para os atacadistas do Caminho Novo, em
Porto Alegre. Recebia as encomendas para a ferraria, tratava de
colocar as carroas e os serigotes entre os interessados, cuidava das
manias de Daniel Abraho e vivia preocupada com o alheamento
de Juanito por tudo o que acontecia em redor. Ah, Deus do cu,
uma barrigada dessas no justo momento em que os negcios
cresciam, as encomendas se multiplicavam, quando os colonos
comeavam a brigar entre si por causa de cercas mal colocadas, quando
as prises se tornavam rotina, foras do exrcito catando vtimas,
uma conjura misteriosa ganhando as primeiras pginas dos jornais
de Porto Alegre.
        Por fim, numa noite chuvosa, relmpagos clareando as ruas
mortas - Daniel Abraho enfurnado lendo em voz alta, trechos de
sua velha e sebosa Bblia - as dores do parto comeando, primeiro
espaadas, depois amiudando, aquela espcie de clica repuxando
os intestinos. Carlota sem dormir choramingando com medo dos
troves, raios e relmpagos. Caminhou com dificuldade at a
oficina iluminada por quatro lampies dependurados nas travas do
teto, chamou por Emanuel que fazia sero, debruado no trabalho,
tentando encaixar as duas cambotas no meio de uma roda de
carreta. Quando avistou a patroa apoiada numa estaca, sob o telheirO
da porta, correu para ela:
        - Alguma coisa, Frau Catarina? A senhora no est bem, a
gente v.
      - Estou bem, quero que voc v chamar Frau Apolinria,
ela
ter trabalho hoje  noite.


206


        Pediu que ela fosse deitar-se, estaria de volta sem demora
trazendo a parteira. Saiu correndo. Frau Apolinria Metz morava na
Rua do Fogo, duas quadras dali. Catarina retornou para dentro de
casa, botou gravetos no fogo, atiou as chamas e sobre a chapa de
ferro colocou uma grande chaleira tisnada. Falou para a filha que
no ficasse assustada, era a chuva l fora, Pai do Cu estava brabo
mas no era com ela. Enxergou claridade saindo da toca do marido,
tirou lenis velhos de uma arca rstica, deitou-se dobrada em
dores. Agora sim, as pontadas agudas, repuxadas, uma em cima da
outra; a voz distante e abafada de Daniel Abraho na sua ladainha
de sempre, o cheiro acre da fumaa negra do lampio.
        Quando a parteira entrou na pea, o filho estava nascendo,
Catarina mordendo um pedao de pano. A mulher comeando a
ajudar, falando sempre, Emanuel que fosse buscar uma bacia com
gua quente, no muito quente, que abrisse a sua bolsa de fole, faa
um pouco mais de fora, respire fundo, quem sou eu para ensinar
padre a rezar missa, assim, vejam s, um menino, um belo, at que
a coisa foi mais fcil do que se poderia esperar, o pai devia estar
presente, afinal  nessas ocasies que a gente mais precisa dos
homens. o apoio moral. Na primeira palmada o menino chorou e Daniel
Abraho suspendeu a leitura da Bblia. Aguou o ouvido, esperava
por aquele vagido, uma espcie de chamamento divino. Onipotente,
eterno Deus e Pai, criador de todas as coisas, que por tua graa
transformas a angstia do nascimento humano em cruz edificante
e santa, pedimos-te,  Pai misericordioso, que preserves a obra das
tuas mos. Algum batia na porta fechada do alapo. A voz surda
de Emanuel:
      - Herr Schneider, nasceu o seu filho.
        Muitas horas depois, Catarina exausta, dormindo. Daniel
Abraho e Juanito encostados na porta, Emanuel fazendo um ch de
cidr, enquanto Frau Apolinria guardava as suas coisas na maleta.
J haviam pesado o menino na balana do emprio, no se
preocupem, havia dito a parteira,  forte como um touro. A chuva
havia passado, disse que no queria a companhia de ninguem,
Emanuel que ficasse por ali, iria embora sozinha, isso fazia parte da SUa
profisso, estava acostumada. O dia comeava a clarear. era um
sbado pesado, as nuvens ainda ameaadoras.
        Catarina abriu os olhos, viu o marido de p, Bblia nas mos,
tudo parecia muito distante e vago.
      - Um menino, Daniel Abraho.
      - Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!


207


      - Sabes, j escolhi o nome dele. Vai se chamar Joo Jorge.
Sonhei agora mesmo que ele ser o nosso amparo na velhice.
        O        marido disse, que Deus escreva esta profecia, Catarina. O
Dr. Hillebrand chegou mais tarde, j encontrando o pequeno quarto
cheio de gente, os outros filhos sentados na cama, o marido tomando
caf. Auscultou a me, examinou o menino, uma beleza de criana,
meus parabns, est tudo como se quer. Daniel Abraho corrigiu,
como Deus quer. O mdico disse que aceitava um caf. E uma coisa,
Frau Catarina, nada de emprio por uma semana, pelo menos.
Quanto ao leite, no se preocupe, poderia amamentar trs crianas
iguais a esta. Bebia o caf em grandes goles, saboreando fatias de
po caseiro cobertas de schimier. Disse que h muito no comia
po igual. Isso se devia ao... como  mesmo o nome que daro
ao menino? Joo Jorge. Belo nome. Ao sair, passou pelas oficinas.
Ficou admirando o trabalho de dois rapazes montando uma roda,
tentando encaixar as duas cambotas sob as rodas de Emanuel.
Perguntou, esto agora fazendo carretas? A primeira delas, doutor. A
primeira sempre  mais difcil, O mdico disse, para as nossas
estradas carreta  melhor, resiste mais, isso na minha opinio, que
no entendo dessas coisas. Ento Emanuel mostrou a Hillebrand a
canga lavrada por Daniel Abraho. uma obra prima, disse o mdico.
 trabalho de escultor. E esta pea aqui, de forquilha? Emanuel
explicou que aquela pea se chamava, em lngua nativa, de
muchacho e que servia para descansar a junta de bois, Ento ele no
entendeu quando o mdico, de sada, disse: precisam inventar uma
coisa dessas para descanso dos mdicos. J era tempo.
        Pegando de sua enx Daniel Abraho disse para si mesmo: seu
nome  Joo Jorge. Deus saber cuidar dele.



5 Grndling esperava que a negra Mariana limpasse as suas
botinas, escarrapachado na poltrona, pernas estendidas, s de meias
listradas. Estava preocupado com os ltimos acontecimentos da
Colnia, j se falava em insurreio dos alemes, uma calamidade
para os negcios, onde essa gente tinha a cabea, sabendo que
diariamente chegavam novos presos que abarrotavam as cadeias. O velho
navio do Guaba quase fazendo gua de to cheio, os polticos locais
confabulando, notcias alarmantes chegando da Corte. A negra
Mariana repetiu a mesma pergunta duas vezes, to distrado andava o
amo: no iria levar Frau Sofia para ver a nova iluminao da Rua
da Praia? Ele disse, uma porcaria de iluminao, por amor de Deus,


208


meia dzia de lampies de leo de baleia, aquelas horrendas
armaes de ferro-batido, fique sabendo que temos mais luzes dentro
desta casa do que toda a maldita Rua da Praia de ponta a ponta.
No, Frau Sofia no precisava ver nenhum vapor chegando, isso
no era mais novidade e se quisesse ver bastaria chegar numa das
janelas dos fundos. Com uma vantagem: no sentiria o fedor do
cais, pior do que o fedor das charqueadas. Pois no acho que ela
precise de sol, gosto dela assim como ela . Vamos, limpa de uma
vez a droga dessas botas. Ser que nem para isso vocs servem?
Sofia entra na sala carregando Albino nos braos, enrolado numa
trama de panos e de rendas, s a carinha rosada de fora. Grndling
estende os braos e pede. deixa eu ficar um pouco com ele no colo.
No pesa nada, esse menino. Caminha com o nen pela sala, s de
meias, cantarolando alguma coisa inventada na hora. Sofia lhe
toma o filho, to desajeitado que pode derrubar o menino. Ele cala
as botinas, ao meio-dia estarei de volta, vou me avistar com o
comandante da Polcia. Nada de maior, boatos sobre os alemes de
So Leopoldo, aqui eles sabem que podem contar comigo.
        - Tenha a bondade, Herr Grndling, o Coronel Alves de
Morais est  sua espera - diz um tenente que o acompanha.
        Ao entrar na sala notou que a entrevista no seria exclusiva,
havia outros cidados circunspectos. O comandante se adiantou,
mo estendida, era um prazer receber to ilustre comerciante.
Passou a apresentar os homens, Antnio Jos Ramos, cirurgio-mor de
So Leopoldo, o Coronel Vicente Freire e seu filho Diogo Freire.
Pediu que ele sentasse. Houve um silncio constrangedor, todos se
entreolharam, o comandante calado tambm como a querer criar
um clima de expectativa. Pegou de cima da mesa um cortador de
papel e com ele ficou batendo na palma da mo.
-        O senhor talvez no saiba o motivo desta reunio.
        Passou a dizer que as autoridades estavam acompanhando de
perto os acontecimentos da Colnia, seus informantes mais ilustres
e de confiana mandavam notcias a respeito de vrios focos
rebeldes no interior, disse que tinha em mos relatrios minuciosos e
neles apareciam amide nomes de oficiais de alta patente como
suspeitos. Grndling poderia ficar tranqilo, as autoridades saberiam
como lidar com os brasileiros, ele havia sido chamado ali por causa
da gente alem, havia a dificuldade natural da lngua e isso poderia
causar alguns mal-entendidos desagradveis. Disse a ele que todos
ali reconheciam o seu prestgio na colnia, sua fidelidade s
autoridades do Imprio e seu respeito s leis brasileiras. Naturalmente
ele teria muita coisa a revelar, estava sabendo do que acontecia.


209


      - Bem, sabendo alguma coisa, propriamente, no. Ouo
rumores, apenas. A questo da falta de pagamento dos subsdios, a
alta taxao sobre artigos exportveis, a falta de demarcao das
terras. Claro, h gente descontente.
      - Ah, ento o senhor confirma que existe descontentamento
entre os alemes.
        - Apenas sobre esses assuntos que falei. O senhor acha que
h outros motivos?
        - No haveria ligao entre eles e elementos brasileiros e
portugueses, Herr Grndling?
        Ele disse que francamente no sabia. Ento o coronel
levantou-se, ficou frente a frente com seu interlocutor, o senhor estaria
disposto a nos ajudar a fazer algumas sindicncias entre a sua
gente? Isso era muito importante para o governo, saberiam
recompensar a colaborao. Grndling olhou para os restantes que
permaneciam calados, disse que teria o mximo prazer em colaborar,
mas que duvidava muito que se descobrisse alguma coisa, era tudo
gente pobre que trabalhava da manh  noite, quase todos
analfabetos ou mal sabendo assinar o nome. Ento o cirurgio-mor
perguntou:
        - O senhor no  amigo pessoal do Major Oto Heise?
      -No senhor. Conheo o major, apenas.
      -Mas ele sempre foi o brao-direito do Major Schaeffer na
Europa.
        Grndling sorriu, conhecia muito bem o Major Schaeffer, esse
realmente era seu amigo. Agora, essa histria de grande amizade
de Heise com Schaeffer no passava de exagero. Fez uma pausa, viu
os homens com ar de descrdito, perguntou se Oto Heise tinha
alguma coisa a ver com essa trama. O comandante voltou a sentar-se:
      -Ns achamos que sim, mas nos faltam provas. O senhor
seria a pessoa mais indicada para nos conseguir tal coisa. Por
exemplo: queremos saber se ele tem mantido contato com o Coronel
Bento Gonalves. E ainda com Germano Klinglhefer, Godfroy
Kerst, Stepanousky e outros.
        Durante o almoo, em casa, Sofia perguntou:
      - Algum problema maior no encontro de hoje? Noto que
ests
preocupado.
        - No. O comandante quer apenas a minha colaborao. Um
bom e generoso homem, esse militar. Pediu que eu fosse a So
Leopoldo espionar alguns alemes suspeitos de conspirao contra o
governo de sua majestade.
        Sofia no disse nada, baixou a cabea e continuou beliscando
a comida posta no prato. Ele disse, sem apetite como sempre, Sofia,


210


no quero engordar, apenas isso. Depois permaneceram calados.
Mariana comeou a retirar os pratos e logo depois trouxe duas
compoteiras com doces caseiros. Ele apontou para uma delas, fazendo
sinal com a mo que queria pouco. Sofia serviu s para ele,
descansou as mos sobre a toalha, olhando pensativa para o marido
que devorava a sobremesa em grandes colheradas. Ouviram o
trepidar de uma carruagem na rua, a voz de Jorge Antnio l dentro.
      - E qual foi a tua resposta ao pedido deles? - perguntou
Sofia.
      -Meti a mo no bolso, fiz uma trana com os dedos, e
concordei em colaborar com suas excelncias. , largarei os meus
negcios e de agora em diante viverei exclusivamente denunciando
alemes para o comandante da Polcia.
        Ela se levantou, fez a volta na mesa, postando-se atrs da
cadeira do marido. Curvou-se, beijando seus cabelos.



211



xv


1 O Dr. Hillebrand fechou a maleta e comeou a lavar as mos
na bacia sustentada por Mariana. Disse que no era coisa para
alarde, Sofia estava apenas muito fraca, quem sabe efeitos do
ltimo parto, as mulheres nessas ocasies cuidam dos filhos e
esquecem delas prprias. Um pouco de febre, quem sabe alguma
pequena inflamao - passou a enxugar as mos enquanto olhava
para a larga cama, Sofia inerme, olhos fechados - era uma
mulher moa, essas coisas s vezes no duram dois dias, que
mandassem buscar os fortificantes receitados. Saiu do quarto acompanhado
por Grndling, recomendou que a deixassem descansar, era at bom
que dormisse.
      - Fale claro, doutor, no quero ser enganado.
      -No estou escondendo nada, Herr Grndling, sua mulher
est um pouco fraca, anmica, precisa de um tratamento para
fortalecer o sangue. Outra coisa: comer em horas certas, deitar cedo,
caminhar um pouco, tomar um pouco mais de sol.
      - Tomar um pouco mais de sol - repetiu Grndling.
      - Claro, isso mesmo, as pessoas precisam tomar sol, sair de
casa, andar. O ar puro faz bem a qualquer um.
        Mandou o mdico de volta na sua calea, um dos lanches faria
uma viagem extra s para lev-lo. Quando fechou a porta sentiu
medo, Sofia muitas vezes alegava dores de cabea, mal-estar,
indisposies, ficava um pedao da manh na cama, dizendo que era
preguia. Mas isso tudo passava, ela voltava a ser a mesma pessoa,
os dias inteiros s voltas com os filhos, cuidando da casa, inventando
o que fosse de melhor para a mesa. E para a cama, pensou ele.
Mas ultimamente mudara. repelia docemente os seus carinhos, no
se sentia muito disposta, amanh, meu bem, sinto dores nas pernas


212


e nos braos.  coisa de nada, passageira. Sentia tonturas ao
abaixar-se, dores no peito, uma sensao de que algo se deslocara
dentro de si. Mas nunca era nada, ele que no se preocupasse, amanh
seria outro dia. A negra Mariana tivera razo em repetir sempre
que a ama precisava caminhar um pouco, tomar sol, to branca,
a pobrezinha. Ele sempre a recusar, no queria a sua mulher com
a pele queimada como a das brasileiras, como a pele das indias ou
das paraguaias de Izabela. Era aquela cor-de-leite que ele adorava,
a fragilidade de quem tinha o ventre quase transparente, o alabastro
das coxas, os seios como nunca vira iguais. O sol macularia a pele
delicada do rosto, sem aquela pele no seria mais Sofia. Olhou
para as suas mos pintadas de sarda, aquilo era servio do sol. O
mdico no estava certo, que buscasse nos seus conhecimentos
outras razes para a doena dela. No bordaria mais, aquele servio
aplicado de tardes e noites, agulha subindo e descendo, linha
tramando, bastidor sempre esticado, da as dores no corpo.
        Voltou ao quarto, puxou uma cadeira para o lado da cama, a
mulher dormindo, plida e serena, as finas veias azuis tramando
desenhos na pele sedosa do colo. No bordaria mais, as negras
terminariam o que fora comeado. Notou as mos largadas sobre as
cobertas, dedos finos. Sofia emagrecera e ele nem se tinha dado
conta; aquela vida agitada, os negcios tumultuados, Diefenthler no
confirmara a sociedade, mandando dizer que o momento no era
oportuno. Schaeffer sumira de sua vida como por encanto, na certa
ficara agastado com o seu regresso inopinado do Rio. Pobre
Schaeffer. Teria voltado para a Europa? Ele tornaria a escrever, no era
homem de se impressionar com os pequenos reveses da vida, coisas
piores haviam acontecido e terminava superando a tudo e a todos.
Estava para nascer um homem igual a ele.
        Sofia abriu os olhos, viu o marido a seu lado, pegou de sua
mo, perguntou que horas eram. No ouvira as batidas musicais
do relgio da sala, estava tudo escuro ou seriam os postigos
fechados? Ele sentiu a mo fria e abandonada. Era cedo ainda, havia sol.
O mdico recomendara que ela ficasse assim, precisava descansar,
no se preocupasse com as crianas, estavam cuidadas. Sabe, resolvi
no te deixar mais bordar, no tens necessidade disso, ficas numa
posio muito incmoda, o doutor me disse que isso no te faz bem.
Uns dias a mais na cama, depois uns passeios, era bom caminhar,
andar bastante, tomar sol. Ela sorriu, falas como se eu estivesse
muito mal, no te preocupes, isso  uma coisa passageira, amanh
ou depois estarei boa novamente. Ele disse, estou certo disso. Estive
pensando, quero agora que descanses bem, depois inventarei muitas


213


coisas, por exemplo, esta semana mesmo vou mandar preparar a
cabine de r do melhor lancho, mandarei atapetar toda ela, botar
cortinas, cama de casal com colches de pena e sempre que puder
te levarei a So Leopoldo, a viagem  divertida, poders tomar sol
no convs, te amarei naquele balano gostoso das ondas, em dia
de vento. Iremos ao Rio, vais conhecer a Corte. Ora, as crianas
ficaro em casa, Mariana sabe como cuidar delas. Claro que ficaro
bem cuidadas. L encontraremos o Major Schaeffer, ele tem uma
chave para cada salo. Aquelas mulheres morrero de inveja,
palavra que morrero. Sers anunciada como a Senhora Spannenbergcr
Grndling e aquelas pobres mulheres portuguesas de pernas
tortas e pescoos de touro se sentiro humilhadas. Eu te mostrarei a
pedra da Gvea, o Corcovado, o Po de Acar, ningum pode
imaginar o que seja aquilo. Mas agora descansa, fecha os olhos,
precisas dormir. Se no dormires, nunca mais falarei contigo,
brigaremos.
        Ela virou de lado, exausta, ele puxou as cobertas, deslizando
a mo pelo seu corpo todo, como se faz com as crianas. Havia na
pea um cheiro adocicado de xarope, um cheiro de doena. Sentiu
que Sofia dormia. Pensou no pior. Os olhos midos terminaram
por no enxergar mais o quarto, tudo em redor embaciado,
impreciso, turvo.



2 Jacobus havia chegado do Porto, o primeiro a abra-lo foi o
filho. As mos grossas do rapaz, seus msculos rijos fizeram
        com que o pai sentisse que estava um homem, aquele menino
de ontem. Catarina perguntando pelos negcios. Ele disse que tudo
ia bem, o ponto fora escolhido com sabedoria, cada dia novos
fregueses, agora mesmo chegava em busca de carroas para transportar
mercadoria que comeara a chegar. E na ida, uma delas poderia
seguir carregada de fumo, rapadura, coisas de armarinho, lampies,
enxadas e ancinhos, faces de mato e serigotes, pelo menos quatro.
Disse para Daniel Abraho, prepare uma carroa sem toldo, tenho
uma encomenda para uma, urgente. Depois entrou na casa, levado
por Catarina, viu o menino num bercinho improvisado, os
olhinhos azuis emergindo das cobertas.
        -        s vezes nem eu mesmo entendo, Frau Catarina. Com tanta
coisa para fazer, ainda sobra tempo para ter filhos.
      - A Bblia diz, Herr Jacobus, que h um tempo para cada
coisa.


214


      - Isso diria seu marido.
        - Pois um dia ele leu para mim alguma coisa parecida com
isso. Guardei na cabea, no sei por qu. Pois h muita verdade
nisso, h sempre um tempo para cada coisa.
        Jacobus pediu para o filho encher uma bacia com gua fresca,
lavou as mos encardidas, a cara coberta de p e depois passou as
mos molhadas no spero cabelo. Disse, Frau Catarina, preciso de
pelo menos um tonel de leo de peixe,  o que mais procuram por
l. Agulha e linha, pano tambm. Saiba, j constru um novo
depsito com paredes de taipa, s para guardar carga que a chuva
possa estragar. Fizemos uma horta, estou comendo verduras e
tirando sementes. E outra coisa importante: penso numa fbrica de
lingia de primeira qualidade, produto para ser vendido em Porto
Alegre. No sei, no, mas termino fazendo l um emprio mais
importante do que este aqui, no me leve a mal a petulncia.
Catarina disse, pois eu ficaria muito contente com isso, sinal de que
a minha escolha foi perfeita.
        Depois ele foi at a oficina, viu Daniel Abraho debruado no
seu trabalho, parecia um profeta. Viu os rapazes montando peas
numa pesada carreta.
        - Esto fazendo carretas tambm? - perguntou admirado,
examinando de perto a obra.
        - Esta  a primeira - disse o filho. - Agora todo o mundo
s quer carreta.
        Catarina chegou, ouviu parte da conversa, pois saiba que foi
seu filho que tirou o modelo. Daniel Abraho deu as medidas. Tudo
indica que vai ser uma bela e slida carreta. Quando chegou a noite,
Catarina fez com que Jacobus e o filho ficassem para comer com
eles. Daniel Abraho estava comunicativo, gostava do amigo, falou
durante todo o jantar. Meu caro Jacobus, Deus abenoa o trabalho.
Ganhars o po de cada dia com o suor do prprio rosto. Est
certo. As coisas devem ser bem feitas. Voc j ouviu falar, em
cabealho curto, s bois pequenos. O carro canta quando a
chamacheda solta. Vocs esto me entendendo, ningum muda as leis do
mundo, a no ser aquele que est l em cima e que  o pai de todos.
V, Jacobus, Deus nos mandou Joo Jorge e algo me diz que mais
uma vez ele escreve direito por linhas tortas. O menino nasceu sob
o signo da cruz, como os apstolos. Voc um dia saber o que
significa nascer sob o signo da cruz, o que  o signo da cruz na vida de
um homem. Olha a Juanito, um ser sem f. Ele pensa que a
mulher desapareceu levada pelos espritos maus. Indio  como animal,
no tem f nem Deus. Catarina disse, come um pouco, homem, a


215


comida est esfriando. Falar nisso, disse virando-se para Jacobus,
recebemos uma caixa com vinte e quatro bblias. Veio a pedido e
por recomendao do Pastor Klinglhefer. Bem que poderia levar
uma meia dzia para o Porto. S trs, para experimentar, sabe,
Frau Catarina, a gente de l no  muito de gastar dinheiro com
Bblia. E desconfio que cada uma delas deva custar, pelo menos,
meio porco. Daniel Abraho largou a colher no prato, pelo amor
de Deus, no me fales assim sobre a Bblia. A semente  a palavra
de Deus. Catarina fez que no ouviu, ento leve s trs, Herr
Jacobus, nem vi o preo ainda. O pastor quer ficar com cinco. O
marido disse: a Bblia no tem preo. A mulher, ningum estava
falando na palavra de Deus, mas em negcios. Bblia tambm custa
dinheiro e no caso ela  mercadoria igual a qualquer uma outra,
como uma manta de charque, um pedao de torresmo, um saco de
farinha. Daniel Abraho empurrou o prato, indignado, jogou o
talher sobre a mesa e saiu batendo com os ps. Ouviram o estampido
da porta de alapo da furna e o choro imediato da criana que
estava dormindo.
        Catarina sacudiu um pouco o menino, voltou e prosseguiu na
conversa como se nada houvesse acontecido. Tenho um fumo em
rama que recebi hoje, gostaria que o senhor experimentasse. Muitos
j me disseram que  um dos melhores que andam por a. Pois se
for assim, respondeu Jacobus, levarei uns rolos para l,  coisa
sempre procurada. Tirou a faca da cintura, alisou com ela um pedao
de palha de milho, picou o fumo de encontro ao dedo polegar da
mo esquerda, enrolou-o na palma das mos e fez um cigarro.
Acendeu o palheiro no fogo e quando voltou tirando baforadas, disse
para Catarina:
      - Pois saiba que fumo bom est aqui. Levo o que a senhora
tiver.
      - Vou providenciar amanh, junto com as outras coisas.
        Houve um silncio entre os dois, Jacobus fumando com prazer,
vendo a fumaa azulada subir, ela calada, mos cruzadas sobre a
mesa, ar de cansao. A senhora deve estar com sono. Ela
respondeu, na verdade estou, levanto muito cedo, mas ainda gostaria de
falar a respeito de um assunto que nos interessa muito. Trata-se
de Emanuel. Sabe, o rapaz j est um homem, precisa casar, est
na idade. No, at onde sei ele no est interessado em moa
nenhuma. Nem tempo tem para isso.  o primeiro a chegar e sempre
o ltimo a sair. Nunca ouvi ele dizer no. Com mais dois iguais a
ele aqui, encomenda jamais atrasaria.  prestativo, o senhor sabe
disso, mas eu venho observando que ele anda precisando de mu-


216


lher. Amanh ou depois se junta com soldados e vai andar por a
atrs de china, pegando doena, entortando a vida dele como o
pobre do filho de Guilherme Lahm, que hoje dizem ser embarcadio
para os lados do Rio e que est com um olho cego por causa de
doena pegada de mulher. Pensei nisso e pensei c comigo, quando
Herr Jacobus aparecer por aqui vamos conversar sobre Emanuel,
ele est sob a minha responsabilidade, podia ser meu filho. no ,
eu sei, no tenho idade para isso, mas pensar no futuro dele no
 nenhum crime. O senhor vai dizer: mas casar com quem?
Acontece que h a filha de Beckmann, oficial do mesmo ofcio seu, moa
caseira, quieta, prendada, cuida da casa e dos irmos menores, tem
calo nas mos, prepara como ningum conservas de todo o ano,
coisa que eu vendo no emprio, e sempre que aparece aqui a
menina espicha o pescoo para dentro da oficina, estou certa de que
anda de olho no Emanuel. Ela se chama Juliana, tem sade, bom
porte, dar uma mulher e tanto para seu filho. Acho bom ir
pensando nisso,  claro que no vai decidir na hora, mas eu tenho para
mim que tudo daria certo, a menina traz alguma coisa de si para
ajudar, e mais valem dois braos ativos que meia dzia de moedas
dentro de um cofre. Pense com calma, consulte sua mulher e me
informe depois. Deixe comigo o resto, sei fazer essas coisas. Agora,
v dormir, amanh ser outro dia.



3 Grndling concordou em que a reunio fosse em sua casa, era
maior, tinha mais espao, mas com a condio de falarem baixo.
        Sofia estava doente, o mdico recomendara que no a
incomodassem. Tobz achou que ele sim, parecia doente, estava plido e
abatido. Afinal, de que mal padecia ela? O doutor disse que estava
de sangue fraco, muitas vezes tinha hemorragia, desaparecera a
antiga Sofia, estava uma sombra do que fora. No era mal de
contgio, tanto assim que o mdico permitia que ela visse as crianas
de manh e de tarde, s que estava ficando sem foras, at a voz
comeava a sumir. Escrevi para Schaeffer descrevendo a doena em
pormenores, o prprio doutor ajudara a ditar certos detalhes, mas
at agora nenhuma resposta. Mandamos a carta para o emprio de
Hamburgo, j estava em tempo de responderem. Quem sabe algum
mdico alemo de alto saber, uma sumidade na profisso, poderia
receitar algo que salvasse a sua mulher. Tobz disse, voc est
pessimista, isso no deve ser nada, muitas vezes uma doena de mulher,


217


ela  moa e forte, mais uma ou duas semanas comea a reagir,
voc vai ver.
        Schiling relatou o que vira, muito boato na rua, os soldados de
prontido nos quartis, as autoridades reunidas, militares de alta
patente chegando do Rio, a Corte alerta. Grndling mandou que
cada um se servisse, quando numa casa falta a mulher, falta tudo.
schiling preferiu conhaque, estava um pouco alarmado, aquecia a
bebida na palma das mos. O dono da casa falou baixo, ningum
est mais seguro nesta terra, quem nos diz o que poder acontecer
amanh, a malta arrombando as nossas portas e saqueando o que
encontrar pela frente. Se no matarem a ns e a nossos filhos.
Zimmermann recusou o clice de conhaque oferecido por Schiling,
preferia cerveja, "conhaque me d azia", perguntou a Grndling qual
a sua opinio a respeito da tal Sociedade Militar que estavam
querendo fundar em Porto Alegre, idias vindas do Rio, gente
querendo a volta do imperador, outros ameaando botar fogo nas cidades
se ele voltasse. O dono da casa pedia que eles falassem baixo,
olhando sempre para a porta do quarto, mas esta sociedade  s de
militares? Parece que no, disse Zimmermann. Esse nome deve ter sido
posto para dar mais fora ao movimento. Esto sendo chamados de
caramurus. No Rio prenderam muita gente, inclusive alemes, entre
eles o Baro de Bllow. Permaneceram calados, pensativos, Grndling
perguntou:
        - Quando pensam eles fundar a Sociedade Militar?
        Schiling disse que estava marcada a fundao para aquela noite,
mas grossos distrbios tentariam impedir, isso a polcia descobrira.
Imaginem, prosseguiu ele, que at a funo de Ricciolini, que
levaria  cena o dueto do Meirinho e a Pobre e ainda a ria do
Galego, foi suspensa com medo das agitaes previstas.
        Bateram  porta, era Krebs, um empregado de Grndling, cara
assustada, roupas de trabalho. Mas como, fechou o emprio? O
rapaz disse, Herr Bayer resolveu fechar as portas, sim senhor, com
medo das tropelias. Ele manda perguntar se no  melhor dormirem
todos l, h perigo de quebra-quebra. Tobz repetiu, eu dizia, eu
dizia. Ouviram tiros ao longe, na frente da casa passava uma
patrulha, o tropel dos cavalos devia estar perturbando o sossego de
Sofia. Grndling determinou: Zimmermann voltaria com o rapaz
e comandaria a defesa do emprio. Schiling trataria de afastar do
cais os lanches, se possvel fazendo com que regressassem a So
Leopoldo. Ficou s com Tobz. Mariana veio acender os lampies,
a noite havia cado. O dono da casa disse que Tobz ficaria para
jantar, ele que no se preocupasse, havia muito conhaque para mui-


218


tas noites. Pediu licena e entrou no quarto. Sofia parecia dormir,
a pea iluminada apenas por uma lamparina. Os bracinhos magros
sobre as cobertas, os louros e grandes cabelos esparramados no
travesseiro branco. Como sempre fazia, sentou-se na cadeira ao lado
da cabeceira, ficou olhando sem dizer nada, as lgrimas escorrendo
pelo rosto, com medo de que ela acordasse e o visse chorando.
        Mariana servia a mesa sem fazer o menor rudo, os dois
comiam calados. Quando ouviram tiros, barulho de gente, tudo muito
distante - Grndling disse, Mariana, passa a tranca na porta,
verifica as janelas da frente, fecha os fundos. Desapareceu num dos
quartos, voltando com duas espingardas. Fica com esta, ordenou a
Tobz, temos munio para dois anos de guerra. Perguntou  negra
se o cocheiro havia recolhido a calea, que fechasse tudo e desse a
ele outra espingarda. Era para atirar no primeiro desordeiro que
tentasse arrombar o porto. Enquanto isso, Tobz, serve mais bebida
para ns. Deita a no sof, eu vou ficar ao lado de Sofia. Sentia-se
esgotado. Largou a arma em cima de uma arca, deitando-se vestido
ao lado da mulher que acordou. Ela disse, alguma coisa est
acontecendo, ouo o barulho.  alguma festa popular, falou Grndling,
gente da rua soltando fogos. Ests te sentindo melhor?  coisa de
mais alguns dias, me disse o mdico. Ela disse, cada dia que passa
me sinto mais fraca, no sei o que , s vezes no sinto os ps e
nem as mos, ando muito esquecida, no sei mais dos dias da
semana, nem do ms. Com as janelas fechadas, no sei quando  dia
ou quando  noite. Agora  noite, ele disse, no vou sair, quero
ficar aqui a teu lado, estou tambm muito cansado, fecha os olhos
e dorme. Ficou ainda um pouco de ouvido atento, imaginando o
que poderia estar acontecendo no centro, tiros e correrias, o
comandante da Polcia falando na assemblia de fundao da
Sociedade Militar, dizendo, meus senhores, mais do que nunca o Brasil
necessita da volta do imperador, sem ele ser o caos. Sofia mexeu-se,
gemendo, agitada, ele aproximou de seu rosto esqulido a luz
fraca da lamparina, seus lbios estavam inchados, arroxeados,
partiam-se em alguns lugares. Rilhava os dentes de dio contra tudo
aquilo, a doena da mulher, o povaru nas ruas, os negcios
parados - era de empunhar a espingarda, encher os bolsos de munio
e sair dando tiros a torto e a direito, na cara dos negros, nos
soldados, nos alemes, ir despejando a arma nos mercadores
ambulantes, nos cavalos, entrar na Sociedade Militar e fuzilar o comandante
da polcia na hora em que falava, ele cairia de olhos abertos na
frente de toda aquela gente, haveria espanto e correrias, a guarda
inteira atiraria contra ele, via o claro saindo das escpetas, ele
morrendo, querendo morrer.


219


4 Alguns homens estavam reunidos, haviam tido a preocupao
de chegar um de cada vez, num casebre de tijolos sem reboco,
meia-gua, ao lado de um terreno pantanoso. Estavam prximos
da velha Ponte do Riacho, entre o Beco do Cemitrio e a Rua das
Belas. Oto Heise, Frederico Krieger, Germano Klinglhefer,
Hermann Salisch, Joo Jacob Decker e Frederico Engerer.
      - Teriam desconfiado de alguma coisa? - perguntou
Germano ainda no escuro.
      -No, disse Oto Heise que chegara vestindo uma roupa de
colono, calas riscadas tapando o cano das botas militares. - Eles
esto muito preocupados com a sua prpria gente. H vrios oficiais
da guarnio de Porto Alegre que se negaram a aceitar a
organizao da sociedade. Na polcia tambm h casos idnticos.
        Decker vestia uma espcie de pala e o chapu de abas largas
escondia, em parte, os cabelos loiros e finos. Ele perguntou se
continuava de p o plano traado em So Leopoldo. Heise disse,
positivo. Todos deveriam agir mais com o corpo e com as pernas do
que Propriamente com a boca. A maioria deles no falava
portugus e os que falavam seriam trados pelo sotaque carregado.
Deveriam evitar ao mximo qualquer identificao, seria perigoso.
Usou uma frase que era a sua preferida nas reunies prvias:
viemos aqui para ajudar a botar lenha na fogueira. Informou que em
So Leopoldo Godfroy Kerst e Stepanousky, alm de Felipe
Feldmann, agrupariam os colonos para uma passeata contra a formao
da Sociedade Militar em terras da Provncia. Krieger disse, em Rio
Pardo acontecer a mesma coisa. Oto Heise afirmou, ou os
caramurus recuam dos seus intentos ou acabaremos a coisa  bala. Para
os lados da reunio  que deveria ser levado o povo, os oradores
brasileiros deveriam ser muito aplaudidos. Lembrou que os escravos
estavam contra o governo, mas eram de natural medrosos. Chegava
a hora de sarem. Cada um para o seu posto, no era preciso repetir
nada, se a coisa comear a esfriar, nada como uns tiros de garrucha
para o ar. Heise perguntou, tudo pronto? Comearam a sair, cada
um para um lado.
        Na Rua da Praia estava a baderna. Os soldados formavam um
quadrado de guerra nas proximidades do Largo da Alfndega,
populares gritando e atirando pedras. Abaixo os caramurus, abaixo a
Regncia, morras a D. Pedro I, fora com a Sociedade dos Militares.
Nos terrenos baldios e esquinas os escravos batendo tambores e acen-


220


dendo velas, magotes de cachorros assustados, quebrados os
primeiros lampies de leo de baleia, suas ferragens retorcidas. O pior
acontecia com os piquetes de cavalaria. Fustigados pela gente das
ruas, investiam os soldados distribuindo golpes de espada,
derrubando civis a patadas de cavalo. Oradores espalhados atraam
agrupamentos maiores, muitos empunhando archotes. Oto Heise vira os
quadrados de soldados atirarem duas vezes seguidas, no sabendo
se contra o povo ou para cima.
        Meia-noite passada os alemes vindos de So Leopoldo
comearam a voltar para o casebre da velha Ponte do Riacho. Salisch
com um ferimento de pedra no rosto e Krieger baleado na altura
do peito, sangrando muito, trazido por Germano e Decker.
Formaram uma roda em torno do companheiro, Salisch dizendo que o
ferimento no fora profundo, precisava urgente de assistncia
mdica. Patrulhas andavam prendendo os que ainda se aventuravam
pelas ruas, o toque de recolher havia sido dado. Decker e Germano
se encarregariam de levar Krieger a um mdico conhecido, morador
na Rua da Olaria, enquanto Oto Heise, que no poderia ser visto
em Porto Alegre, tentaria chegar at um dos lanches
transportadores de Grndling, de manh bem cedo. Passaria aquele resto de
noite ali mesmo. Krieger saiu carregado, Oto ainda disse em voz
baixa:
        - Os caramurus adiaram a fundao da Sociedade. Esta
vencemos.
        Engerer ficou fazendo companhia ao major. Disse, fiquei com
pena dos pobres negros, eram os mais visados. Vi um deles morrer
quase do meu lado, um soldado atirou  queima roupa. Outros dois
homens morreram no Beco dos Ferreiros. Deve ter morrido muita
gente, isso s saberemos com o tempo. O principal, disse Oto Heise,
 que eles no conseguiram o seu intento esta noite. Isso foi uma
derrota para essa gente. Talvez sirva de lio.
        Antes do amanhecer bateram de leve na porta, Heise e Engerer
empunharam as suas armas, mudos. Ouviram a voz de Decker, sou
eu, Joo Jacob. Entrou sem conter as lgrimas, Krieger havia
morrido antes de chegar  casa do mdico. Estava l, agora, deveriam
pensar o que fazer de manh. Heise disse, malditos, ainda pagaro
caro por isso. Logo depois chegava Germano, abraou-se aos
companheiros, que desgraa acontecer isso para Krieger. Disse a Oto
Heise, voc deve voltar de qualquer maneira de lancho, eu e Decker
ficaremos em Porto Alegre para cuidar do corpo dele, vou pedir
uma das carroas do emprio de Frau Catarina.
        Engerer e o major tomaram a embarcao  ltima hora, a
cidade no havia ainda voltado  sua vida normal, piquetes de cava-


221


laria dos imperiais percorriam as ruas desertas, negros de mos
amarradas s costas, cabresteados pelo pescoo, eram tangidos por
milicianos e as guas do Guaba anunciavam um dia de calor.



5 O cego Jacob tocava uma viola de gamba, de seis cordas,
comprada por Grndling de um capito de sumaca que lhe dissera
que nunca encostara seus dedos naquilo. A princpio Jacob
estranhara, era difcil produzir o som, passou uns dias no seu
quartinho tentando acertar suas msicas, tirando as notas com cuidado,
antes da noite, Izabela acompanhando com carinho o seu
aprendizado, cantarolando suas melodias dolentes, dizendo que a cada hora
que passava ele dominava mais o instrumento. Agora j enfrentava
a freguesia de Izabela, as mulheres fazendo roda para ver a
habilidade do cego, ele de ouvido colado nas cordas, dedos geis. Naquela
noite a boataria esvaziara a casa, s um recente coronel da Guarda
Nacional com mais dois companheiros, festejando a nomeao para
to alto cargo. As meninas espiando a cidade l embaixo, havia
muita confuso, soldados por todos os cantos. Izabela a pensar, se
ainda Herr Grndling aparecesse a casa ganharia mais confiana,
mas o homem sumira h semanas, com a doena da mulher no
sara mais de casa. O coronel estava duro no seu vistoso fardamento
cheio de dourados, grandes dragonas com franjas, os amigos
orgulhosos, era preciso comemorar. Escolheram a melhor menina da
casa, carregaram os dois para o quarto, aos gritos de felicidades,
coronel, mostre a fora da Guarda Nacional. Jacob no seu canto,
tentando vencer o novo instrumento. Um dos homens gritou: por
que este cego no aprende primeiro para depois ganhar dinheiro?
Os outros riram, batendo na mesa, toca outra vez, toca outra vez.
Ele agora vai tocar at aprender. O coronel voltou do quarto, s
de culotes, chamou Izabela, isso assim no vai dar, no consigo
nada com o raio do cego arranhando essas cordas a, prefiro que
no toque nada. Com piano era uma facilidade, a gente se
acostuma com as coisas. Izabela disse, Jacob, descansa um pouco, todo
o mundo est muito irritado esta noite, ouves tiros l embaixo? No
sabemos o que acontece, querem fundar uma sociedade aqui, outros
no querem deixar que fundem. V uma vivente entender essas
coisas de poltica. Descansa um pouco, toma uns goles de cerveja.
Ele disse, prefiro ir embora, no estou me sentindo bem, acho que
no toque nada. Com piano era uma facilidade, a gente se
acoscordou, pois que fosse dormir. Levou o cego  porta, foi com ele


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at a esquina. Chega logo em casa, h muito soldado pela rua
fazendo estrepolia. Um negro passou correndo pelos dois, seguido de
perto por quatro soldados montados, brandindo espadas no ar. Ele
quis entrar no salo mas foi alcanado antes, cercado, recebendo
planchaos de todos os lados, at cair, pisoteado pelos cavalos. Os
soldados voltaram a galope, no viram Izabela e o cego que haviam
entrado num terreno baldio. Ela disse, Jacob, acho melhor voltares,
 perigoso andar na rua hoje. Ele agradeceu, morava perto, em
poucos instantes estaria no seu quarto. Izabela voltou correndo, passou
pelo negro cado numa poa de sangue, bateu forte na porta,
abriram e ela entrou sem flego, meu Deus, o que est acontecendo
neste mundo? O coronel e seus amigos foram ver o negro, voltaram
indiferentes, no havia mais nada a fazer, o negro estava morto.
Boa coisa no andara ele fazendo, na certa fora apanhado
roubando.
        Aquela noite ficaria para sempre na memria de Izabela. O
salo ficara triste sem msica, aquele negro morto do lado de fora,
as meninas assustadas, muitas delas chorando. O coronel, agora
novamente fardado, reclamando de tudo, que diabo de casa era
aquela onde as mulheres em vez de trabalharem ficavam como
imbecis, chorando pelos cantos, afinal estava ali para comemorar a
sua nomeao para to alto posto da Guarda Nacional, queria muita
alegria, que viessem todas para a sua mesa, esquecessem o negro
na rua, essa gente fazia das suas e merecia castigo. Izabela
perguntou a ele, o senhor no est ouvindo o barulho dos tiros l
embaixo, algo de grave est acontecendo, h piquetes de cavalaria por
todos os lados, perseguindo e matando gente. O coronel pensou um
pouco, no sabia de nada dessas coisas, a no ser a instalao da
Sociedade Militar, mas isso era coisa pacfica, sua mulher estava
crente de que ele estivesse l, mas a sua nomeao merecia coisa
diferente. Duas meninas fecharam com estrondo uma das janelas,
gritaram que a casa estava cercada por soldados de cavalaria,
ouviram tiros disparados junto s paredes de madeira, o coronel aos
gritos de que aquilo era uma afronta, reclamaria pessoalmente do
comandante de Polcia. Foi quando notaram fogo na parte dos
fundos, a madeira seca ardia com rapidez, as mulheres aos gritos
histricos de fogo, todas tentando sair pela mesma porta. Quando
Izabela chegou na rua, o salo expelindo labaredas altas e crepitantes,
viu ainda os piquetes em debandada, o coronel e seus amigos
fugindo ladeira abaixo, as meninas se agrupando em volta dela, o que
fazer, minhas roupas l dentro, as minhas coisas. Izabela sem atinar
com nada, o fogo devorava as nicas coisas que possua na vida.
Ainda se Grndling estivesse ali!


223


        Mandou as meninas embora, cada uma que procurasse um
lugar onde ficar. Ela se lembrou da casa de Jacob, do seu quartinho
no rs-do-cho, l se abrigaria, l procuraria entender o que estava
se passando. Caminhou como autmata, no saberia em que pensar,
vinha sempre  cabea alguns trechos de um purahjef muito
distante, ela menina, uma tasca cheia de bbados, seu pai atrs de
um pequeno balco de madeira. Quando chegou, viu uma
aglomerao na frente da casa, homens em mangas de camisa, mulheres
com andrajos de dormir, gente muito pobre, algumas crianas
choramingando. Que se passava? Uma mulher agarrou no seu brao,
Dona Izabela, que desgraa, um homem to bom, no fazia mal a
ningum. parecia sempre to feliz. Que homem? O cego Jacob,
Dona Izabela. Onde est Jacob, que aconteceu com ele? Um
portugus gordo bateu nas suas costas, no foi nada, Dona Izabela, o
ceguinho se matou.



224



XVI


1 Voltavam da igreja, Catarina mesma dirigindo a carroa,
Daniel Abraho a seu lado, Emanuel e Juliana mais atrs, num
banco improvisado, de couro cru. Ele disse, Frau Catarina, no
sabemos como agradecer tudo o que tem feito por ns. Ela
respondeu fustigando os cavalos, basta que voc continue como at aqui,
meu filho. Daniel Abraho virou-se para o casal, vocs tm agora
a seu lado o Deus de Abraho, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob;
o reverendo sabia o que estava dizendo quando leu: o Senhor te
abenoe desde Sio.
        Era uma tarde de sbado, sem sol, a gente toda se dirigia para
a casa da Rua do Sacramento, a maioria a p, outros de carroa
levantando poeira. As oficinas haviam se transformado como num
passe de mgica, desapareceram as pilhas de madeira, as toras, os
balces de trabalho. Estava tudo varrido, cordis com bandeirolas
de papel colorido atravessando as traves do teto, mesas rsticas com
ps de cavaletes, as cadeiras enfileiradas formando uma grande roda,
o emprio fechado, Juanito correndo de um lado para outro.
        Catarina levou os noivos at um grande banco, deveriam ficar
ali durante a festa. Trouxe as crianas para perto dos noivos e fez
com que Daniel Abraho sentasse ao lado do velho Beckmann com
sua grossa camisa de algodo, sem gola. Foi tratar da comida, da
cerveja, dos leites assados. Ao passar pelo telheiro baixo sentiu a
mo de algum puxando seu brao, era Germano. Frau Catarina,
uma desgraa, mataram ontem  noite o pobre do Krieger, em Porto
Alegre. Ela seguiu, dizendo, vamos conversar aqui dentro. Krieger?
Ele ento passou a contar. Catarina ouvia calada, de vez em
quando pedia detalhes. entrava em alheamento, imaginando como teria
sido tudo, o esconderijo deles, Oto Heise arriscando o posto, quem
sabe o desterro; a disposio de Engerer, a desgraa de Krieger, at


225


ento um homem aptico, indiferente, de uma hora para a outra
tomando partido,querendo ser dos primeiros, fazendo pouco do
que pudesse acontecer. Mas eles no fundaram a sociedade, disse
Germano. Ela voltou-se, a sociedade? Ele repetiu, a Sociedade
Militar quer de volta o imperador. No conseguiram. E os
outros? Salisch, Engerer, Decker? Todos bem, j de volta, ningum
notara a ausncia deles. E a famlia de Frederico Krieger, avisaram?
Dois amigos se encarregaram disso, informou Germano, falando
mais baixo com a chegada de gente na pea. Germano disse, vou
tomar uma cerveja com o reverendo meu irmo.  Faz muito bem,
Herr Germano, hoje  dia de festa, tem leito a uma semana.
        Viu quando ele se juntou ao irmo, o abrao trocado; estava
confusa, nervosa, tudo se precipitava. Lembrou-se de Oestereich,
esquecera de mandar dizer muita coisa naquela carta. Ele no sabia
de nada do que estava acontecendo por ali. Philipp no alto da
figueira, um outro tempo aquele. Afinal trocara todo o imenso
naco de cu e de cho por aquela casa da Rua do Sacramento, sem
nmero. Algum perguntou, o Dr. Hillebrand no veio? , no
aparecera mesmo, o Dr. Hiflebrand. Outra pessoa disse, ele est em Porto
Alegre, h um doente grave l. Ela ento recordou o dia em que
chegara de volta, dizendo ao mdico, sou Catarina Klumpp
Schneider. Os olhinhos mopes do doutor; no h mais nada contra seu
marido, ele pode trabalhar,  um seleiro dos melhores, pode
honestamente ganhar o seu dinheiro. A noite em que Germano mandara
cham-la para ver os trs alemes espancados no navio-priso, o
mdico tratando dos feridos, acalme-se, primeiro vamos cuidar
desses homens, isso pode arruinar e no pense que vou me calar diante
dessas barbaridades. Perguntara ao mdico: que papel estar
representando em tudo isso o seu amigo Herr Grndling? Frau Catarina,
no se deixe levar pelo seu dio pessoal contra esse homem. Ele 
comerciante e nada mais. E Schlaberndorf? E Joo Agner?
Carreguem esses leites para a mesa, sirvam logo o reverendo que
deve estar esfomeado depois de todo o trabalho. Olhou para a
oficina e viu Salisch chegando, logo depois Decker. Os dois e mais
Germano caminharam em sua direo; Frau Catarina, queremos a
sua ajuda, Decker precisa de uma carroa para buscar o corpo de
Krieger. Ela disse, vou mandar Juanito preparar uma delas, mas
eu acho que o corpo no resiste  viagem. Vamos tentar, onde est
 que no pode ficar, falou Germano. Um gaiteiro comeou a tocar
uma alegre msica da Alscia, os convidados comearam a falar ao
mesmo tempo, Germano disse que seguiria com Decker para o caso
de uma deciso em contrrio. Saram, ajudaram o ndio a atrelar
        os cavalos numa carroa que estava no largo fronteiro, e desapare-


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ceram na rua poeirenta. Quando Catarina acercou-se do Pastor
Klinglhefer disse, seu irmo saiu, foi tratar de salvar uma alma.
Mas isso  misso minha, Frau Catarina. Nem sempre, reverendo.
        Os convidados s viram o piquete quando os soldados apearam
dos cavalos suados no porto da casa. Um sargento entregou as
rdeaS de sua montaria a uma ordenana e caminhou resoluto para o
meio de todos. Fez-se silncio. O homem disse em voz alta, Herr
Salisch, o senhor est preso por ordem superior. O pastor caminhou
at o militar, mas eu no entendo o que se passa, acho que
merecemos uma explicao, afinal tambm somos alemes como o
senhor. O sargento afastou o pastor, caminhou em direo de Salisch,
o senhor quer nos seguir ou prefere ser levado  fora? Ele disse,
no sei de que crime sou acusado, mas irei de bom grado. Siga na
frente, ouviu do sargento. Saram os dois, Salisch caminhava pelo
meio da rua, os soldados atrs, montados, obrigando-o a correr, de
vez em quando. Catarina estava ao lado do reverendo, veja com
seus prprios olhos o que esto fazendo; afinal, para eles, no
passamos de animais. Virou-se para os convidados, a festa ainda nem
comeou. Por favor, todos para a mesa, onde est a msica que
no se ouve mais? O reverendo, por favor, me diga o que est
acontecendo. Se eu soubesse, no estaria aqui. Mas a gente termina
sabendo. A msica recomeou, a princpio o gaiteiro desencontrado,
sem entusiasmo, depois com mais calor, alguns casais danando,
grupos de homens erguendo as canecas de cerveja  sade dos noivos,
Emanuel acompanhando com os olhos as idas e vindas de Catarina,
alguma coisa de anormal deveria estar acontecendo, ele ali naquele
banco, ela sem poder sair de casa, Salisch preso assim na frente de
todos, tangido depois pelas ruas, como um boi.
Quando os ltimos convidados saram, Juanito recolhendo os
lampies, Daniel Abraho encontrou a mulher estirada na cama,
vestida, mos cruzadas atrs da cabea, olhos fixos no teto.
Sentou-se na beirada do colcho, botou a mo espalmada na sua testa,
estou achando que ests doente. No, deves estar cansada. As
crianas j foram deitar, Philipp foi o primeiro a dormir. Boa-noite.
Desceu para a sua furna, fechou o alapo, acendeu o lampio,
abrindo a Bblia.
        Catarina contava as tbuas do forro, as teias enegrecidas pela
fumaa dos lampies, imaginava o cu estrelado acima de tudo -
como nas longas e calmas noites do Chu. Ou como nas noites
tenehrosas de guerra, as patas dos cavalos dos castelhanos pisoteando
as hortalias. Ela com seis meses de barriga - era Carlota. -
Grndling falando sem parar em Schaeffer, sim o Major Schaeffer.


227


o        homem forte na Corte, o todo-poderoso. Ele dizia, no meio destas
casinholas de escravos, isso no  vida, voc precisa deixar esse
chiqueiro, isto aqui  para negro e no para gente branca. Veja s,
olhe para a barriga de sua mulher, um outro Schneider que vem a.
Que pensa fazer quando ela parir? Uma grande oportunidade, terra
que no acabava mais, um negcio muito rendoso. Que Deus me
perdoe se tudo isso que digo no for a pura verdade. S no v
quem  cego. Schlaberndorf, Agner, agora Krieger; era s o que
faltava chorar no dia de hoje, Emanuel iniciando uma vida nova,
os negcios como Deus quer, as crianas e o marido com sade,
mas no me envergonho disso,  choro de dio, no de tristeza.
Grndling pagar por tudo isso. Vou bater na sua porta,  aqui que
mora Herr Cronhardt Grndling? Diga que  de parte de uma amiga
sua. Vim tomar satisfaes, quero saber toda a verdade, chega de
semear tanta infelicidade; se no quiser falar, se mentir, morre como
um co na soleira da porta da sua prpria casa. Est vendo esta
arma? Pois ela falar por mim.
        Carlota estava com o sono agitado. Ainda se via a rstea de
luz escapando pelas frinchas do alapo, Daniel Abraho falava
com Deus. catarina dormiu vestida.



2 Vale a pena, escuta, este  o Dilogo Preliminar. Diz aqui, um
teatro ambulante, ainda em incio, a figura do empresrio, o
poeta - homem idoso o Gracioso da Companhia. Ento
comea a fala do Empresrio: Amigos! (que ambos vs j bastas vezes
nas aflies e apertos me salvastes) vingar na Alemanha a nossa
empresa? Quero agradar ao pblico, e preciso, que o pblico  real,
e eu vivo dele. Ests escutando, Sofia? Ela s moveu os olhos,
sussurrou qualquer coisa com a boca em ferida, Grndling chegou o
ouvido quase junto ao rosto dela, escutou, a luz forte me faz mal.
Ele disse, fechando o livro, nem me lembrei disso, e depois eu
mesmo custo a entender o que diz o nosso poeta. Baixou a chama do
lampio ao mnimo, perguntou se ela queria umas compressas sobre
os lbios, a gua fresca minorava as dores. Di muito, querida?
Molhava um leno num pires, colocava-o sobre a boca gretada, o
rosto lvido, sumido, lembrou-se do anel de ouro, as duas
mozinhas cruzadas, entre elas, escamoteado, o vazio para o veneno.
Naquela longa agonia, quantas vezes teria ela pensado no anel? Sofia
sentada como uma rainha no camarote do Teatrinho Particular,
minhas senhoras e meus senhores, respeitvel pblico, era o anncio


228


de paz, fim da Cisplatina, as duas moas entrando em cena,
desfraldando a bandeira imperial, ptalas de rosas jogadas sobre o pblico
atnito, os soldados dando hurras, o pardieiro tremendo, os atores
mudos, paz  bom para quem no tem negcios. Trocou a
compressa, pegou de sua mo, estava to fria, a veiazinha to fraca.
Ele entrara por aquela mesma porta, ela decidiu, sou escravo de
sua deciso, sabia que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria,
estava escrito. Revia a menina nua, mais branca ainda do que
sempre fora, o guarda-roupa de espelho mostrando Sofia de costas, que
selvagens ns somos, meu Deus. Ouvia-se dali o palratrio das
crianas na cozinha, com as negras, estava na hora de irem para
cama, diria isso para Mariana, ficariam s os dois, quantos dias
ainda, juntos? Ficara naquele mesmo quarto uma semana, duas,
quanto tempo nem se lembrava mais, uma pequena eternidade, ela
viva, quente, vibrando como um pontao de faca na madeira. Seus
cadernos com garatujas infantis, onde andariam os seus cadernos?
Dona Felipina ensinando a aluna, o dia em que pediu para ela ler
um trecho de livro, o medo dela, o gesto de esconder o rostinho entre
as mos. Muito bem, no pensei que estivesse to adiantada. Ela
dormia, a respirao quase imperceptvel, agora. Saa sem fazer o
menor rudo, deixe que ela descanse, que durma, passaro as dores,
no sentir as feridas ao redor da boca, nem as escaras nas
costinhas magras, mande algum saber se Schaeffer escreveu enviando
a receita de algum mdico famoso, a medicina andava to adiantada
na Europa, faa alguma coisa por ela. Colocou as costas da mo na
sua testa, dormia ou morria? Respirava, to cansadinha de respirar,
se tudo acabasse voltava para a companhia do amigo. aqui estou.
vamos para a Rssia, nada mais me prende quela terra. Ah, sim.
as crianas vieram comigo. Elas so um pouco de Sofia. Ouviu
baterem  porta, algum que batia forte com os ns dos dedos na
madeira. Levantou-se com cuidado, caminhou p ante p. Mariana
passava para atender, ele fez sinal pedindo silncio, foi ver quem era.
        - Capito Benjamin Blecker, em pessoa. Schaeffer, foi seu
primeiro pensamento, Schaeffer mandando a receita do remdio
milagroso. Sofia salva, Deus olhava para eles. Falou baixo, espalmando
a mo esquerda, enquanto cumprimentava o velho marinheiro.
        - O senhor caiu do cu, no tenho pensado noutra coisa, por
favor fale baixo, minha mulher no est passando bem. Diga,
quando chegou? Traz notcias de Schaeffer?
        - Sim, trago. E o senhor, como vai?
        Grndling levou-o para a sala, sentou-se, pedindo que ele
fizesse o mesmo, viu nervoso quando o comandante meteu a mo no
bolso, tirando l de dentro, amarfanhado, um envelope. Reconheceu


229


a letra do amigo. Sim,  a carta que estou esperando. desculpe
Capito Blecker, preciso ler esta carta agora, sei que  uma
desateno, o senhor compreender, aqui talvez venha a salvao de minha
mulher. Quando rompia o envelope, sentiu a mo pesada do
comandante sobre as suas.
-        Espere um pouco, antes preciso lhe dar uma notcia.
      - Peo amor de Deus, comandante, temos a noite inteira hoje
para o senhor me dar quantas notcias quiser, vou mandar abrir
uma garrafa do melhor rum do mundo, lembra-se? aquele rum que
tomamos a bordo do velho Carolina. Quero dois minutos, s,
preciso saber o que manda dizer o Major Schaeffer.
-        Herr Grndling, nem sei como comear. Bem, esta carta
me foi entregue no Rio por um senhor chamado Moog, isso h
quase trs meses. Acontece que fui at a Bahia e por isso demorei a
chegar aqui.
        Grndling sentiu um estranho pressentimento. deixou a carta
esmagada sob as mos, enxergava a figura ossuda do capito meio
a distncia, como se estivessem a bordo, flexes dos joelhos, assim,
o corpo teso, acompanha o balano do mar. Lamento muito, mas
preciso lhe dizer que o Major Schaeffer morreu, isso me foi dito
por Moog quando entregou esta carta. O major, se no me engano,
estava vivendo entre os ndios, buscava ouro, diamantes, pedras
preciosas.  claro que deixaremos para beber numa outra ocasio, sua
esposa doente, esta notcia desagradvel, compreendo como o
senhor se sente, me coloco no seu lugar.
        Blecker levantou-se, disse que ficaria em Porto Alegre cerca de
uma semana, antes de regressar passaria por ali. Espero as melhoras
de sua esposa, recomendaes a ela. Leia a carta com calma, talvez
tenha sido a ltima que o major escreveu. Fique  vontade, boa-
noite. Mariana acompanhou a visita, fechou a porta e voltou
silencciosa para dentro, precisava cuidar das crianas.



3 "Daria uma barra de ouro para que estivesse aqui comigo.
Estou entre os botocudos, numa misso religiosa. Tudo  novo
para mim, os mosquitos, as cobras, da grossura de um brao,
e os ndios. Tenho dito para os meus botes, Grndling precisava
estar aqui. Sei da existncia de minas fabulosas, no morro antes
de encontrar meia dzia delas. J estou com uma coleo de pedras:
esmeraldas e rubis, poucos, topzios e maravilhosos cristais de rocha.
Os missionrios no se interessam muito por essas coisas, mas sem-


230


pre vo levando o que encontram. Aposto mil contra um em como
esta regio tem muito ouro. De repente vou tropear em diamantes.
Estou entre os boruns, alm deles h os aimors e os guerns.
Fedem um pouco, mas so de boa paz. S no consigo me acostumar
com a tradio que tm de furar os beios para neles enfiarem
rodelas de madeira e no contentes com isso, dependuram outras nas
orelhas. As ndias at que no so das mais feias, mas voc sabe
quando elas esto perto, pelo cheiro. A lngua deles  macro-j.
Jamais nos entenderemos. Para quem queria viver na Corte russa,
confesso que isto por aqui  meio opressivo. Mas assim que puder
carregar quatro ou cinco mulas com pedras e ouro, desapareo sem
deixar notcias." Grndling suspendeu a leitura da carta, tivera a
impresso de ouvir qualquer rudo no quarto. Sofia teria acordado?
Fora s impresso. "Vivi no sei quantas luas me embebedando com
uma aguardente feita de ervas ou de milho, no sei bem, durante
a chamada estao das chuvas. No se pode fazer nada nessa poca,
 o prprio dilvio. Na falta de coisa melhor, essa beberagem que
a princpio nos sufoca, mas depois passa a ser um santo remdio
contra a solido. Alis, o nico."
        Suspendeu a difcil leitura, foi at o quarto. Acercou-se com
cuidado da cama, Sofia estava de o1hos abertos, ele comeou a
preparar uma nova compressa. Estava na hora de tomar o remdio.
Encheu uma colher, levantou delicadamente a sua cabea, foi
derramando aos poucos, ela mal conseguia abrir a boca, estava ficando
uma chaga s. Devolveu a cabea ao travesseiro, ajeitou os longos
cabelos, sentou-se no lugar de sempre. Querida, recebi carta de
Schaeffer. O homem  um aventureiro incorrigvel. Sabe onde est
agora? Vivendo entre os ndios. Est  procura de ouro e de pedras
preciosas.  uma longa carta, amanh de manh, quando estiveres
melhor, lerei alguns trechos para ti. Fala nuns bugres esquisitos,
eles vivem com rodelas de madeira enfiadas nos beios e nas orelhas.
Ela no escutara as suas ltimas palavras, havia dormido.
Pobrezinha, estava cada dia mais fraca, o mdico evitando falar muito,
reservado, quero saber a verdade, doutor; ele dizendo, tenho feito
tudo o que  possvel, confio em que Deus faa a sua parte.
Esperanas? Prefiro no dizer nada, de uma hora para a outra, quando
menos se espera, a natureza reage. Tenha f, Herr Grndling.
Schaeffer, tenha f, um dia acharemos os doIs, debaixo das rvores,
entre as pedras, no leito dos rios, files de ouro para carregar no
cinco ou seis, mas milhares de mulas. Ou quem sabe, elefantes.
Ele no falava em elefantes na carta, mas haveria elefantes em
terras de ndios, sempre existiram . Como as noites ficam longas


231


quando a gente est s! Sei que ela est escutando, no abre os
olhos porque est muito fraquinha, pois fica assim como est, vou
levantar um nada o pavio do lampio, assim poderei continuar a
leitura da carta de Schaeffer. Seus garranchos pioraram muito, na
certa estava cheio daquela cachaa de milho dos botocudos. Schaeffer,
o incorrigvel Schaeffer. O pobre deitado naquele sof caindo
aos pedaos, na Armao, as garrafas e copos esparramados, Moog
e Rasch revoltando as suas tripas com aquele servilismo srdido.
Qual seria a inteno daqueles dois? As barras de ouro do major,
claro como gua, o major no deveria ter tido tempo de gastar
toda aquela fortuna vinda das mos do General Brant; em algum
lugar ele teria escondido a fortuna. Como no pensara nisso tudo?
Ests me ouvindo, Sofia? Ela dorme, a pobre, cansada da cama, do
quarto sempre escuro, de noite ou de dia, a luz ferindo os seus olhos;
quanto mais escuro melhor, as pessoas ficam assim quando esto
com o sangue fraco. Que blefe pregara Schaeffer naqueles dois,
dava vontade de rir, rir de chorar. Schaeffer derretera as suas
barras de ouro, suas noitadas de orgia comiam fatias, nacos das barras.
Moog e Rasch pajeando o bbado, olho cravado nos seus tesouros.
Pois deveriam ter ido para o meio dos botocudos, l estava o ouro
do Major. que fossem os dois para o diabo. Ah, minha querida, no
sabes da missa a metade. Estou pensando no falecido Major
Schaeffer, sim, morreu bebendo, entre os ndios, morreu como queria,
garrafa na frente. ele precisava afogar todas as lembranas. Batia,
levemente, nas costas da mulher, como fazia s vezes com os
filhos, nas frias noites de inverno. Sofia, no devo esconder a verdade
de ti. sei que tens coragem bastante para saber de tudo, no posso
esconder nada, preciso desabafar com algum e esse algum s
poderia ser tu. Procura ser forte, sei que s forte, deves ficar sabendo
de uma coisa muito triste. Ouve: Schaeffer morreu. Recebi a sua
ltima carta, veio em mos do Comandante Blecker que me disse
que o major morreu numa tribo de ndios. Coragem, minha
querida, no quero que chores, a vida no vale uma das tuas lgrimas.
Morreu, descansou; j no sofre injustias, as maldades deste mundo
no o entristecem mais. Assim  que devemos encarar a morte das
pessoas. Olha para mim, estou me sentindo forte, estou sabendo
que com ele morre um mundo, desaparece parte de alguma coisa
que fazia parte de mim. E de ti tambm. Ests me ouvindo?
Querida, olha quem chegou, o nosso amigo Dr. Hillebrand. Entre,
doutor. Estou dizendo a ela a verdade, doutor. Fiz mal? Ela
precisa ficar sabendo que o Major Schaeffer no mais existe, morreu
entre os ndios, descansa em paz. Ele me dizia no Rio, falando do


232


meu Jorge Antnio: General Spannenberger Grndling, afilhado do
falecido Major Jorge Antnio Schaeffer. Parecia que adivinhava,
doutor, ele tinha um sexto sentido, isso, um sexto sentido. Distrado,
tambm. Uma vez se referiu a Sofia como sendo Cristina,
justamente ele, imagine, doutor. Depois sofria ataques de pessimismo:
eu? falar com o imperador? virei criminoso depois de tudo o que
fiz? No sei sua opinio, doutor, mas eu no poderia esconder de
Sofia todas essas verdades.
        Hillebrand examinou a doente, tomou o pulso, puxou a ponta
do lenol e pegou Grndling pelo brao:
      - Herr Grndling, lamento muito, sua esposa morreu h quase
meia hora.



4 Frederico Weber encontrou Jacob Schmidt construindo uma
cerca de taquaras na frente da sua casa da Rua do Passo,
perguntou pelas novidades, pediu notcias da mulher e dos filhos,
como ia o seu negcio de tanoaria. Jacob aproveitou para
descansar um pouco, limpou o suor da testa e do pescoo, tudo andava
como Deus queria. E ele, Weber, o que tinha a contar de novo?
      - So tantas as coisas, a gente nem sabe como comear.
        Falou na conspirao, ele sabia o nome de todos, o Major Joo
Manuel, por exemplo, no v porque no quer. Ou est no meio
deles, o traidor. Meu caro Jacob, o pior cego  aquele que no
quer ver, isso dizia o meu velho pai quando fabricava cerveja na
Prssia. Pois digo o nome de um por um, se quer saber, Frau
Catarina est entre eles, o cabea  Germano Klinglhefer. Quem
diria! O irmo do reverendo. Jacob continuou debruado num
mouro, olhos arregalados, no era de acreditar. Os dois olharam
e viram um homem a cavalo vindo para o lado deles. Ficaram na
expectativa. Weber exclamou:
     -  Germano. Outro dia conversaremos.
        Despediu-se apressado, saindo quase a correr. O cavaleiro
obrigou o animal a galopar, passou por Jacob levantando poeira, alcanou
Weber.
      - Onde vai com tanta pressa, Weber?
        O        homem parou, Germano apeou, foi at ele, ento agora tem
uma nova profisso, denunciando as pessoas sem provas, de porta
em porta, enchendo os ouvidos de quem trabalha, j pensou bem no
que est fazendo? Weber lanou um olhar angustiado para Jacob
que l estava, debruado no mesmo lugar, Germano no seria capaz
de agredi-lo com testemunha.


233


        - No tenho medo de conspirador, acho melhor ir andando -
conseguiu dizer Weber.
        Recebeu dois tiros de garrucha, sem tempo de correr e nem
de gritar. Germano ainda olhou para o homem que ficara na cerca,
montou rpido e desapareceu.
        O subdelegado veio olhar o cadver de borco no cho de terra,
Jacob contava para ele o que vira, sim, tinha certeza, fora Germano
Klinglhefer, irmo do pastor. Fugira para os lados do rio, a essa
altura, devia estar longe.
         noite, Catarina ouviu toda a histria de Emanuel, disse que
Weber tivera a morte que andava querendo, ento era coisa de
homem andar espalhando mentiras aos quatro ventos? Jacobus chegou
logo depois, abraou o filho, cumprimentou Catarina. O senhor
por aqui sem mais nem menos, como se estivesse vendo fantasma?
Uma coisa horrvel, Frau Catarina, o Joo Thomaz Stottenberg
matou Joo Stenzel. Ela no disse nada. Emanuel foi quem falou:
        - Pai, eu estava contando para Frau Catarina uma outra
desgraa, Herr Germano matou hoje de tarde o Frederico Weber. Deu
dois tiros de garrucha no peito dele.
-        Germano?
        Ela ento disse, Herr Jacobus, as coisas esto se atropelando.
Para mim, nisso tudo h dedo de Grndling, uma coisa aqui dentro
me diz isso, no posso estar enganada, nunca estive, a vida me
ensinou certas coisas que no vm nos livros. Em Jerebatuba, eu
adivinhava a chegada de soldado uma lgua antes deles aparecerem
no horizonte. Com isso salvei a vida de Daniel Abraho. Eu
enxergava sem ver e me admirava que Philipp, l do alto, ainda no
tivesse dado sinal. Esta madrugada sigo para Porto Alegre, tenho
algo muito importante a fazer.
        Frau Catarina, por amor de Deus, pense nos seus filhos, no
faa nenhuma loucura.
        Ela disse, fique descansado, Herr Jacobus, o senhor me conhece,
sabe que no sou mulher de fazer loucuras, mas preciso tirar a
limpo uma coisa que trago atravessada na garganta, ou essa colnia
vira cemitrio. E no fale nos meus filhos,  neles que estou
pensando. Entraram para tomar um caf, Emanuel reavivou o fogo
e trocou a gua da chaleira, sentaram os trs na salinha de frente,
calados. Ela disse, Daniel Abraho no  mais deste mundo, no
sabe nada do que acontece sobre a terra, mas tem razo quando
diz que  chegada a hora do Apocalipse. Oto Heise? Desaparecera,
tambm. Estaria a essas horas se encontrando com um coronel de
nome Bento Gonalves.  gente nossa. Est levantando soldados


234


por toda a fronteira, ele sabe de coisas que ns nem sonhamos. Os
caramurus tinham os seus dias contados.
        Beberam um caf com po de milho, pai e filho se despediram.
Frau Catarina no teria idia para onde fugira Germano? Ela disse
no, com um leve movimento de cabea. Ficou algum tempo
sentada, depois foi preparar as suas coisas, embrulhou algumas mudas
de roupa, meteu o farnel num cesto, limpou com carinho, pensativa,
a sua velha espingarda de dois canos, colocando em cada um deles
um cartucho de espoleta. No precisaria de mais. Beijou os filhos
que ainda dormiam, mal apontava o dia, Juanito j atrelara os
cavalos numa carroa, despediu-se do ndio com um aceno e iniciou
a viagem a Porto Alegre.
        Viu muita gente na Rua Sapucaia, boa coisa no seria,
aproximou-se, deu com os olhos em Joo Vayss, engarrafador de
aguardente: que estava acontecendo? Ele disse, Frau Catarina, que
horror,
mataram o Coronel Vicente Freire e seu filho Diogo. E que faziam
eles a essa hora na rua? Estavam indo para Porto Alegre, a chamado
do comandante de Polcia. Lamento, mas no posso fazer nada,
disse ela tocando os cavalos.
        Foi uma viagem longa, s vezes sentia vontade de chorar, estava
com um pressentimento de que no veria mais os filhos. Philipp,
bastante crescido, saberia como cuidar da casa. Daniel Abraho talvez
nem tomasse conhecimento de seu sumio.



5 Quando chegou na altura do emprio do Caminho Novo o sol
queimava a pino; o barraco lhe pareceu estranho, passou de
largo, descansaria um pouco na Praa do Porto. O dia
parecia no ter fim. Como o seu dio, pensou. Chegando l, escolheu
uma rvore de boa sombra, desatrelou os cavalos, pondo-os  soga,
precisavam pastar. Deitou-se ao lado da cesta, comeu alguma coisa,
pensou que seria capaz de dormir por pouco tempo. Perto dali uma
tropa de mulas, um grupo de homens sentados ao redor de um
pequeno fogo, os grandes chapeles pretos em comum. A silhueta de
Grndling naquela noite de tempestade, Daniel Abraho com o filho
nos braos, metendo-se numa das carroas. a silhueta dizendo que
caminhassem como os tigres, to leves que no quebram com as
patas uma folha seca. E no entanto caa gua como nunca vira
em sua vida. Alies in Ordnung? Grndling desaparecendo na cortina
de gua. Philipp conversando com os passarinhos no alto da
figueira, a voz do marido: menino, deixa de falar e cuida do trabalho.


235


Estou cuidando, pai. Harwerther,  preciso cuidar deste ferimento
no pescoo. Mayer, com sua voz arrastada, contando a vida da
colnia, tudo como Deus quer. Demarcao para amanh,
pacincia que no se podem fazer as coisas de um dia para outro. Separao
dos lotes feita com taquara, estacas de guarana, valos abertos no
cho, com enxada. Pois temos as linhas divisrias. Jerebatuba to
mudada, graas ao seu trabalho, Herr Oestereich, quando samos
daqui a horta era este pequeno canteiro. Mas ns estamos no
caminho natural da briga. Mayer, limpando as unhas com a ponta de
uma grande faca, pode ser que sim, pode ser que no. Ests me
ouvindo, Daniel Abraho? Os soldados j se foram, no h mais
perigo. Depois aquele cu estrelado, aberto, uma imensido, a
terrvel lua carcomida. O retinir de esporas em cima dela, o cheiro de
suor de cavalo, o mesmo bafo azedo que teria Grndling. Era ele,
seria capaz de jurar, Daniel Abraho, pelo amor de Deus, vais
terminar paraltico a embaixo. Prefiro ficar entrevado a me deixar
enforcar naquele galho da figueira. Estamos nos tempos do
Apocalipse. Catarina,  chegado o sexto selo. A guerra terminou, Daniel
Abraho, sobe, Oestereich  amigo. Voc est me entregando. Rua
do Sacramento, sem nmero. Philipp, Carlota e Mateus. A voz
de Isaas Noll: leia aquele pedao, Herr Schneider, da quarta
trombeta. Que horas seriam?
        Trouxe os cavalos, meteu-os nas trelas, ajeitou as coisas que
trouxera na carroa, subiu para a bolia, verificou se a espingarda
estava sob a almofada do assento e recomeou a sua marcha para
a Rua da Igreja. Parecia estar vendo a figura de Grndling
caminhando em sua direo. Se atravessar a rua, recebe uma bala. Vim
apenas conversar com a senhora, no vejo razo para essa sua
atitude. Ela dissera, eu tenho as minhas razes e basta. Daniel
Abraho a gritar feito um possesso, voc morrer num lago de fogo e
de enxofre, maldito! L estava a casa dele, bateria na porta com
a coronha da espingarda, ele abriria uma fresta; pelo amor de Deus,
Frau Catarina, que loucura  essa? Vamos ter uma conversa, Herr
Grndling, quero saber sobre o assassinato de Agner, sobre o seu
scio que apareceu boiando no rio, vai pagar pela morte de Krieger,
vai responder por toda a desgraa que est caindo sobre a cabea
da nossa gente na colnia. No pea misericrdia, isso no  digno
de um homem.
        Ouviu o seu nome chamado por algum. O Dr. Hillebrand,
com sua maleta de fole, no meio da rua, segurando o peitoral de
um dos cavalos.
      - Frau Catarina, aonde vai?


236


      - Doutor, desculpe, no  de sua conta. Vou ajustar uma
velha dvida com algum que o senhor conhece. Largue os cavalos.
Teve vontade de chicotear as mos do mdico. A senhora vai
cometer uma asneira, Frau Catarina, no posso permitir isso. Preciso,
pelo menos, de uma explicao. Darei todas as explicaes que
quiser, na volta. E agora, me deixe passar.
      - Frau Catarina, no prossiga, vai cometer um erro.
      - Gosto de errar sozinha, doutor. Esse homem no mandar
matar mais ningum. J causou muita desgraa, saia da frente,
estou pedindo pela ltima vez.
        O        mdico soltou a correia do peitoral, caminhou para junto
dela, a senhora est enganada. Grndling no sai de casa h quase
dois meses, esteve todo esse tempo ao lado da mulher que morria.
Ela disse: o senhor est mentindo. Ele disse, calmo, ento veja com
seus prprios olhos. As portas da casa cor-de-rosa foram abertas,
algumas pessoas saram. Grndling  frente, carregavam um caixo.
Frau Catarina, preciso ir. Grndling agora est quase s, andaram
dizendo por a que a pobrezinha morreu de peste, o que no 
verdade. Ajeitou o chapu, reiniciando a caminhada. A carroa ficou
onde estava, o pequeno cortejo se aproximando, Catarina no
conseguiu pensar em nada. Ao passar por ela, Grndling parou, os
homens que o ajudavam olharam curiosos para ela. Ento ele disse:
      -No esperava que a senhora viesse, no sei como agradecer.
Estava magro, olhos vermelhos e inchados, encurvado.
Catarina desceu, empurrou para debaixo da almofada do assento o
pedao de cano da espingarda que se deixava entrever. Caminhou at
Grndling; ele sem Sofia, ela sem o seu velho dio. Os dois em
solido. Catarina seguiu ao lado dele sem uma palavra, olhando
duro para a frente, com medo de chorar.



237



ndice


1        7

II        19

III       41

IV        55

V         71

VI        83

VII       96

VIII      115

IX        131

X       144

XI        158

XII       171

XIII      184

XIV       199

XV        212

XVI       225

239
